A lei do desejo

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Escrever sobre um filme de Almodóvar é difícil, seus longas possuem tantas metáforas e possibilidades de interpretações que eu tenho certeza em afirmar que esse texto não faz jus à obra nem autor.  Mesmo assim eu vou escrever um pouco, é de madrugada e eu não tenho um pingo de sono. Hoje (re)assisti “A lei do desejo”, um filme intenso, cheio de cores e sentidos, que me pareceu muito diferente de quando o vi, anos atrás. É claro que no filme nada mudou. Quem mudou fui eu e isso me soa inquietante.

“A Lei do Desejo” foi lançado em 1987, foi o primeiro longa em que Almodóvar se aventurou a retratar tão abertamente a sexualidade, sendo considerado em vários países como um filme erótico. Na trama, Eusébio Poncela vive Pablo Quintero um diretor cinematográfico que sofre por ser abandonado por seu amante, Juan. Os dois mantém uma bela amizade e se comunicam por cartas. Pablo resolve convidar a sua irmã transexual Tina (interpretada por Carmen Maura) para interpretar seu novo filme. Junto a ela vive uma menininha adotava que nutre uma paixão platônica por Pablo. O filme faz um enorme sucesso e na festa de lançamento Pablo conhece Antônio (interpretado por Antônio Banderas) e se envolve sexualmente com ele – depois, amorosamente também. O que ele não esperava é que Antônio desenvolvesse por ele um amor louco, obsessivo.

Almodóvar disse em uma entrevista que as lembranças desse filme o remetem à uma época de liberdade, aos anos 80 em que a juventude era contestadora e realmente acreditava na revolução sexual. E, e fato, o filme dá essa sensação, de que nada é proibido. Nem mesmo rezar sem calça e fumando cigarro.

Das Gesetz der Begierde

O trabalho de metalinguagem é incrível. Pablo só pode ser um alter ego do próprio Almodóvar e convenhamos, um filme falando de outro filme e um diretor contando a história de outro diretor é um jogo narrativo de deixar qualquer um louco! Fora que em certo momento da trama, Pablo começa a escrever uma história e esse personagem se confunde com Tina, são praticamente a mesma pessoa, passaram pelo mesmo na vida…

O lubrificante:  Vi em algum lugar uma interpretação muito bonita sobre a primeira transa entre Pablo e Antônio. Perdoem por não citar a fonte, mas é porque não salvei. Na cena, Antônio conta para Pablo que nunca transou com nenhum homem. Diante da dificuldade, Pablo apaga a luz e pega um lubrificante. A cena gerou piadinhas, descontentamento e deixou muita gente inquieta nas salas de cinema. Muitos interpretaram como um detalhe desnecessário, viram a cena como puro erotismo. A opção por mostrar esse ato tão íntimo enfatiza o momento em que Antônio cria um elo de amor e confiança com Pablo, ele simplesmente permite que Pablo domine seu corpo e se entrega, apesar da estranheza e da dor.

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 A transexualidade de Tina: Em uma entrevista Carmen Maura disse que se preparou muito para interpretar Tina, que achava que esse era o personagem de sua vida e que fez um mergulho intenso para se contextualizar. Perceber os pequenos detalhes ajudam a entender a grandiosidade dessa atriz (e juro que não tô falando isso não só porque a amo). Por exemplo, é muito interessante todo o seu esforço em engrossar a voz (que é bem fina) ou a sua postura corporal, tocando sempre os seios – como se quisesse mostra-los como troféu de sua feminilidade. Esse é uma das características que mais me faz amar esse filme, Almodóvar trata a transexualidade com respeito e naturalidade.

No filme há um jogo de cena muito valioso. Como sabemos, Tina é interpretada por uma mulher. Ela adota a garotinha e passa a trata-la como se fosse sua mãe. Há um momento em que a mãe biológica da menina aparece no filme, e ela é interpretada por uma transexual.

Toda a discussão sobre sexualidade e gênero é muito forte quando esbarra em Tina. Não importa quem ela foi, importa o que ela é e como se sente – e a sua necessidade de se reinventar. O fato é que quando vem à tona, a história de Tina realmente surpreende (Almodóvar mais uma vez toca na ferida). Na cena em que ela entra na igreja descobrimos que foi abusada por um padre pedófilo. Depois, quando seu irmão perde a memória, ela conta da relação incestuosa que teve com o pai (que se apaixonou perdidamente por ele e que fugiu para viverem juntos).

Em suma é um filme que me parece falar não só de desejo, mas principalmente de abandono. Não só do desejo da Tina de ser entendida como mulher, ou o desejo do Pablo de ter um pouco de tranquilidade, ou da menina de ser amada. Em algum momento da vida, todos esses personagens sofreram um tipo de abandono que os marcou profundamente. Talvez por isso tão forte e recorrente o “Ne me quitte pas”, que surge de maneira recorrente na trilha sonora do filme. Pablo foi abandonado por seu amante, a garotinha por sua mãe e Tina pelo pai.

Lisboa, 1999

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Lisboa é um filme impactante, um road movie com muito suspense, sensualidade e com pitadas de violência. Bertha é um papel diferente dos que estamos acostumados a ver Carmen Maura interpretar, ela que ficou marcada por personagens loucos e cômicos. Ao seu lado, Sergio Lupi interpreta João, um homem simpático e honesto que se mete em uma enorme enrascada por oferecer uma simples carona. O fato é que Bertha esconde um segredo e para se livrar dele,  precisa chegar em Lisboa antes de ser encontrada por sua família.

Carmen está desesperadamente séria, é um personagem muito intenso… e triste. Assim como a narrativa, pesada. O fato de ser um road movie e dos personagens estarem em constante movimento aumenta a sensação de angústia, ela em especial… corre, corre e nunca consegue chegar onde quer, porque não a deixam. O filme, dirigido por Antônio Hernandez, também é estrelado por Federico Luppi… ow, que homem intenso

Bom, como sei que o filme é bem difícil de achar, escrevi esse texto (e tirei uns prints!) para quem tiver interesse em saber sobre a história de uma maneira mais… “profunda”, digamos:

O filme é angustiante, muito! Na narrativa, Bertha é uma mulher madura que encontra João em um posto de estrada e pede que ele lhe dê carona e a leve para Lisboa. Ele aceita, contanto que ela não o obrigue a mudar sua rota. Há muito tempo andando e sem comer, Bertha sofre um desmaio… é então que João, sem saber o que fazer, encontra em sua bolsa uma agenda (com o telefone da família de Bertha) – ele também vê uma arma e joias.

O que João não sabe é que ligar para a família de Bertha é atrair o inimigo, afinal é deles que ela está fugindo. O problema é que ela, em sua insegurança, não conta o motivo de sua fuga… é o que vamos descobrindo com o desenrolar do filme. Quando alcançados, a família (especificamente o pai, a filha e o filho de Bertha) insistem para que ela volte para casa. Bertha sofre uma chantagem especialmente da filha, que sabe que ela possui um amante (sócio de seu pai) e que Bertha está fugindo para encontra-lo.

Na realidade Bertha foge de seu marido, um homem violento que está envolvido em enormes falcatruas. Ela não foge para encontrar seu amante, que já está morto…assassinado pelo marido de Bertha. Sua grande decepção é descobrir que seu amante é tão crápula quanto seu marido e ele não só dormia com Bertha como também com a filha dela, tudo isso em troca de uma enorme quantia de dinheiro. A tensão do filme só aumenta, até que o marido de Bertha a encontra e despeja nela e em Jorão, toda a sua fúria!

Arroz y tartana

Depois da impactante entrevista que assisti da Carmen Maura, procurei uns filmes dela para assistir (tô com alguns aqui no computador, na fila de espera). Hoje assisti “Arroz y Tartana” um telefilme produzido pela RTVE em 2003, inspirado no livro escrito por Vicente Blasco Ibáñe em 1894.

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O filme é até legal, mas meio parado… fora que são quase duas horas e meia de duração. Na história, Carmen vive Manuela Parajes, uma mulher que herdou uma grande herança e que se casou duas vezes. Primeiro com um homem rico, com quem teve duas filhas. Depois com um homem simples, com quem teve um filho. Depois de ficar viúva ela simplesmente queimou todo o dinheiro em roupas caras, festas, joias e empregados. Com medo de se ver pobre ela incita as filhas a encontrarem um marido rico e as ensina que não se deve casar por amor e sim, por dinheiro.

O problema é que o tempo vai passando e as filhas não encontram marido. Na cabeça de Manuela ela precisa manter as aparências e permitir que as meninas frequentem os melhores lugares para assim, atrair homens ricos. Enquanto isso ela vai sacrificando o filho, fazendo uma chantagem emocional para que ele consiga mais dinheiro emprestado para ela… aliás, para Manuela não poderia ser mais decepcionante vê-lo apaixonado por uma costureira.

A personagem me pareceu uma Madame Bovay de meia idade, cheia de dívidas e iludida. O fim das duas é até meio parecido, desculpem pelo spoiler mas é meio trágico. Apesar de tudo não é lá tão simpática, me pareceu meio lunática ao se afundar cada vez mais nas dívidas ao invés de salvar a casa. Tudo bem vai… no fim ela se redime se justificando que: ‘nesse mundo, a vida das mulheres não é fácil e tudo que ela fez foi para proteger as filhas”. A série tem uma construção de ambiente impecável, vestidos maravilhosos, cenários lindos… vale a pena

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Só uma observação sobre a Carmen Maura, no momento estou com a seguinte sensação sobre ela:  Vou confessar que fiquei bem impressionada com aquela entrevista que a Carmen Maura cedeu ao Rincón del Pensar; comentei aqui há poucos dias. Eu simplesmente passei a olhá-la de um jeito diferente, tudo por causa de um comentário que vi no vídeo da entrevista, que dizia que Carmen era uma mulher obscura.

A verdade é que algumas das falas dela, juntas com outras entrevistas que assisti e li, me fizeram acreditar que, de fato, é uma mulher meio obscura. Carmen chegou numa idade que, segundo ela, não precisa esconder mais nada … então sempre que pode abre o jogo, sem medo parecer antipática.Me surpreendeu o lance dos filhos e da forma que ela falou do seu arrependimento de ser mãe, ao mesmo tempo em que me soou meio depressiva.

Carmen Maura, o estupro e a maternidade

Ontem fiquei realmente surpresa coma entrevista que vi da Carmen Maura para o programa “El rincón de pensar”, de Risto Mejide. Foi no ano passado e eu não tinha nem escutado falar do assunto. Carmen, hoje com 70 anos,  simplesmente abriu seu coração e contou detalhes delicados de sua vida. Impressionante foi o relato do estupro que sofreu quando tinha trinta anos. Conforme suas palavras, estava em casa com os filhos quando atendeu a porta e levou um soco inesperado:  “Recuperei a consciência e tinha uma pistola aqui (apontando para a têmpora). É isso, e tudo o que acarreta isso, a violação”.

Para quem não sabe, Carmen é uma grande atriz espanhola, foi musa de Pedro Almodóvar durantes muitos anos e protagonizou filmes mundialmente famosos como “Volver” e “Mulheres a beira de um ataque de nervos”. Ela também fez uns filmes bem legais do Alex de la Iglesia como “800 Balas” e “La Comunidad”.

A descrição de Carmen sobre sua violação é realmente inquietante, ela conta que os policiais duvidaram dela e questionaram se “aquela história” não era apenas para deixá-la famosa. Fiquei impressionada com a forma que ela contou o caso, rindo e se esquivando. É que eu li muitos comentários no vídeo que diziam que essa história não poderia ser verdade, exatamente porque ao contar, Carmen não expressava tristeza. Eu, pelo contrário, acho que o comportamento dela ao contar sobre seu estupro envolvia uma negação e ao mesmo tempo, uma “vergonha”… vergonha que não deveria sentir, é claro. É realmente estranho como as pessoas tendem a desacreditar e a culpar as vitimas.

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Ainda sobre o assunto, achei muito interessante a perspectiva da matéria publicada pelo EL País sobre a entrevista de Carmen: Mas seu testemunho é importante, e muito. É uma exceção na Espanha e algo muito raro no mundo. Na verdade, o caso dela é o primeiro de uma pessoa pública espanhola que conseguimos encontrar, o que não ajuda a que outras vítimas se encorajem a falar sobre sua experiência nem a superar o tabu. “Consideramos importantíssimo falar publicamente. Mesmo as testemunhas que ousam falar à imprensa o fazem com os rostos cobertos porque há um sentimento de culpa na própria mulher. Não porque elas sejam culpadas, claro, mas porque a sociedade as culpa”, explica Tina Alarcón, presidente da CAVAS, o Centro de Assistência a Vítimas de Agressões Sexuais.


 

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Fora tudo o que ela disse, grudou na minha cabeça o que ela fala sobre maternidade. Carmen Maura, que possui dois filhos, simplesmente não consegue esconder seu arrependimento de ter sido mãe. E fala, com todas as letras, que se pudesse voltar no tempo, não engravidaria de novo. (É um pouco estranho né? Não queria ser filha dela e ouvir isso…). O discurso é até feminista, ela diz que nenhuma mulher precisa ser mãe ou se casar para se sentir completa. Que você pode usar seu lado maternal com sobrinhos e amigos…

800 Balas

800 Balas é um filme que faz chorar. É um filme que te faz torcer pelo anti-herói e desperta aquele velho sentimento de que ‘ser diferente é mais interessante’. É um brinde aos que não se encaixam e, mais que isso, defende a busca pelos sonhos e por uma vida mais prazerosa. Pode parecer piegas, mas não é… Alex de la Iglesia (com o seu humor inteligente e perspicaz) já havia me conquistado desde que assisti La Comunidad e Las Brujas de Zugarramurdi, mas com 800 balas, ele assumiu outro patamar… entrou para a minha lista de diretores favoritos.

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O filme se passa em um pequeno povoado da Espanha, em que um grupo de figurantes de cinema (especialmente, os de bangue-bangue) sobrevivem através de shows que fazem aos turistas. A rotina dos atores é ameaçada por agentes imobiliários que querem fazer uma grande construção no local. O líder do grupo é Julián (Sancho Garcia), um homem bruto e teimoso, que pode influenciar diretamente nos rumos da “possível construção”, isso porque o seu neto é filho de Laura (Carmen Maura), uma das donas da agência. – Complexo, não?

Difícil não gostar do filme, que mistura pitadas deliciosas de sátira e saudosismo. 800 Balas é uma clara homenagem aos faroestes. A menção à Clint Eastwood no filme não poderia ser mais bela, terna (e muito bem bolada) O que mais me impressiona é como o Iglesia consegue fazer “bom humor”, aquele que consegue te fazer rir e te emocionar ao mesmo tempo, sem cair em armadilhas, sem parecer forçado…

800-1Sancho Garcia é a grande estrela do filme e, de certa forma, também é homenageado na trama. Garcia, que faleceu em agosto de 2012, foi um ator muito popular na Espanha, com uma extensa carreira que perpassa tanto pela televisão, quanto pelo teatro e cinemas. Um dos seus personagens mais famosos foi Carlos Zárate, em La Máscara Negra – em que vivia um homem corajoso, justiceiro e viril – tudo o que o Julián, seu personagem em 800 Balas, queria ser.

Julián, no entanto, é um homem que abdicou da vida e da família para viver em um mundo de sonhos. Largou a casa e a esposa e foi fazer o que sempre gostou – e “Ai de quem” o contrariasse. Talvez por isso tenha dado tanto certo com o seu neto, que fugiu de casa especialmente para conhecê-lo e que, assim como ele, vive uma vida fantasiosa. Acontece que fatores externos o forçam a tomar uma atitude, o forçam a viver a realidade. Julián, então, cai em sí… no mundo real, sua figura é patética e ridícula… à criança é permitido viver de sonhos, aos adultos não.

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As bruxas de Zugarramurdi

Brujas_FrikarteEm 1610, a inquisição espanhola acusou quarenta mulheres por bruxaria. Cinco morreram em consequência a enfermidades, doze foram queimadas na fogueira. As outras pediram misericórdia e prometeram voltar à vida cristã.

No dia do julgamento, testemunhas relataram tantas coisas incríveis e horrorosas que os inquisidores passaram mais de 48 horas colhendo as informações. No processo, as mulheres foram acusadas de se encontrarem na Caverna de Zugarramurdi (Cueva de los Aguelarres ou Cueva de las Brujas) para praticar magia. [O local é um pequeno município espanhol, situado perto de Pamplona e, desde a época, ficou conhecido como “Cidade das Bruxas”].

Alex de la Iglesia (também diretor em La Comunidad) já havia  demonstrado interesse em filmar sobre o assunto. Até então, tinha um pré-projeto que ficou guardado durante anos até que resolveu filmá-lo. As produções, feitas em Zugarramurdi, levaram apenas sete  semanas para ficarem prontas. O filme foi bem recebido, ganhou oito prêmios Goya, sendo um para a atriz Terele Pávez e os outros de: maquiagem e cabelo, efeitos especiais, direção, montagem, direção, direção artística e figurino.Las Brujas

‘As bruxas de Zugarramurdi’ conta a história de um grupo de homens que tenta roubar uma joalheria, mas tem uma ação fracassada. Joseph, um dos assaltantes, acaba levando o filho, Sérgio, de apenas oito anos para o assalto e sem opções, foge com ele e com os companheiros.

Durante a fuga, o grupo entra em uma floresta e se deparam com um estranho restaurante, cujo os donos, são ainda mais estranhos. Os fugitivos são avisados: ‘Não continuem a viagem, porque vocês estão indo em direção a cidade das bruxas’.

Claro, eles não dão ouvidos. Logo, conhecem Graciana Barrenetxea – uma das lideres do clã das bruxas, que os pede carona. Graciana, cujo sobrenome ao contrário significa “Barre Echea” ou “Varre a Casa” – busca, há anos, uma criança que deve ser oferecida a deusa, que salvará as outras gerações de bruxas.

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Iglesia mantém o tom sarcástico e irônico. É normal que o espectador não acostumado com essa perspectiva louca e diferente, receba o filme com certa estranheza. Essa, no entanto, é uma das marcas do diretor. Alex tem essa predisposição em brincar com figuras pop, fazer piadas sujas e sacanas – e ser exagerado, até meio trash. No início do filme, por exemplo, o protagonista – vestido de Jesus Cristo, se une a um amigo vestido de Bob Esponja e juntos, bolam o assalto.

As bruxas de Zugarramurdi  é um daqueles filmes, que quando acaba, te deixa com a boca aberta. Do tipo: “Eu realmente vi isso?” No mais, não acho que seja um filme para mulheres (como muitos falam por aí), acho que é um filme sobre mulheres e que apresenta um visão até meio deturpada do sexo feminino. Afinal, somo tão histéricas e vingativas assim?

Gosto especialmente da abertura, que brinca e apresenta diversas referências histórias e artísticas. Trabalho lindo e minucioso, com uma trilha sonora fantástica. Aliás, é sempre bom ver Carmen Maura e Teréle Pávez juntas.

Assim na terra como no céu

Imagem Maria Garcia (Carmen Maura) é uma jornalista ocupada e bem sucedida que descobre que está grávida. Contrariando o chefe e os colegas do serviço, decide assumir sozinha a gravidez e esconde a identidade do pai. Durante a gestação, Maria começa a ouvir seu filho; o feto conversa com ela e afirma que não quer nascer. Diante desse impasse, Maria revela em rede nacional que seu filho não quer vir ao mundo. A jornalista choca as autoridades e a opinião pública, mas acaba descobrindo que outras mulheres grávidas, assim como ela, estão passando pela mesma situação: seus bebês não querem nascer.

“Assim na terra como no céu” é um filme sensível e poético, a poesia, inclusive, está presente no próprio título, sabiamente escolhido. O argumento é lindíssimo, está cheio de questionamentos existenciais e nos leva a repensar o modo de vida que estamos levando. O que estamos fazendo do mundo? Qual será o nosso destino? Valeu a pena ter nascido?

Em princípio o argumento até parece pessimista, os bebês não querem nascer porque acham que não vale a penar viver num mundo como esse, repleto de doenças e violência. A concepção principal é a de que eles vivem em um local onde sabem e percebem tudo o que acontece, mas diferente de nós (que já nascemos), possuem escolha.

Outros (e importantes) questionamentos surgem ao longo do desenvolviAssim na terra como céusmento da trama. Aqui não só exploram o aborto, a depressão pós parto e mortalidade infantil, mas também a posição das mulheres que, muitas vezes, ficam a mercê das decisões médicas. No caso de Maria, ela opta por ter um parto normal e aguardar os nove meses, mas os médicos insistem para que ela faça uma indução.

O filme, produzido em 1992 e dirigido por Marion Hansel, conta com Carmen Maura, que está ímpar na pele de uma mãe amorosa que não sabe mais o que fazer em relação ao filho.

Escalade

Um grupo de jovens mal intencionados visitam Alice Nabat (a diretora do colégio onde estudam) para tentar fazer com que ela altere os resultados das provas finais. A diretora, que está fazendo aniversário, não percebe a malícia dos alunos e acaba convidando-os para o seu apartamento. Inicia-se um jogo de sexualidade e manipulação.

Alex, Lola, Gea e Hervé filmam Alice (sem que ela perceba) e a colocam em uma posição forjada e comprometedora. Alex, que apresenta características de um psicopata, agrava a situação ao não permitir que diretora saia do apartamento, mantendo-a em cativeiro. Alice, no entanto, nega-se a alterar os resultados da prova e os alunos, sem saber o quê fazer,  perdem o controle da situação.

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Escalade, 2011, é um filme de suspense com pitadas de terror psicológico. A direção de Charlotte Silvera é concisa, seca, assim como o desenvolvimento da trama. Ao assisti-lo, logo me lembrei de “Tentação Fatal”, uma produção americana de 1999, estrelada por Katie Holmes e Helen Mirren. Em Tentação Fatal, três alunos sequestram a professora de história, Mrs Tingle, para fazer com que ela mude as notas do trabalho final. Apesar das inegáveis semelhanças, Escalade é um filme muito mais denso e cruel.

Estava com saudades da Carmen Maura, foi bom revê-la em um personagem tão interessante (aqui, ela fala francês praticamente o tempo todo). Ao longo do filme, percebemos que Alice possui um comportamento ambíguo. Ao mesmo tempo em que não confia em seus alunos, envolve-se com eles – especialmente com Alex, com quem chega a ficar a sós no quarto e permite ser tocada na cintura e nos joelhos.

Carmen MauraOs quatro alunos possuem características marcantes, mas Hervé (interpretado por Thomas Sagols) se sobressai. Além de ser ridicularizado pelos colegas, o garoto alimenta uma paixão platônica por Alice. Hervé acaba tomando um porre, não consegue se controlar e não só se declara como também se masturba na frente da diretora. Sem dúvida, uma das cenas mais incômodas do filme – tirando a cena final, é claro, que também é bastante perturbadora.

A iluminação e o cenário aumentam a sensação de fobia, além disso, o aspecto teatral – diálogos marcantes, trabalho corporal dos atores – faz com que a tensão aumente. Em suma, Escalade é um bom filme, mas não excelente. Há um clima de incerteza, pouca veracidade… ao mesmo tempo em que a diretora nos dá um choque de realismo, ela nos coloca em dúvida sobre a atitude dos garotos.

*O filme foi gravado em 2004, mas por causa de dificuldades de pós produção, só foi lançado em 2011. As gravações também foram problemáticas, contavam apenas com cinco atores, não tinham um cenário próprio e (pelas palavras da própria Carmen), fazia um frio desgraçado.

P.S Existe uma cena interessante (spoiler!) onde a personagem da Carmen Maura quase consegue fugir, é incrível como aquela mulher atua, não dá pra descrever –  porque é uma cena que merece atenção

Normal

Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança
Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança

Quando achei que a Jessica Lange não podia me surpreender mais, encontro disponível na internet “Normal”, longa produzido em 2003 pela HBO. Com muita delicadeza, o filme dirigido por Jane Anderson (e que traz Tom Wilkinson e Richard Bull no elenco) explora uma discussão antiga e complexa: a transexualidade. Apesar do assunto não ser uma novidade, a troca de sexos continua sendo motivo de grandes discussões políticas e representações cinematográficas. No filme “A Lei do Desejo” (de 1987), Carmen Maura interpretava Tina, um homem que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. Também não muito distante Felicity Huffman protagonizou em 2005 “Transamérica”, longa em aparecia como um transexual que lutava para realizar a cirurgia de troca de sexo.

Mas, diferente das bizarrices de Almodóvar ou da abordagem quase visceral de Duncan Tucker, “Normal” é extremamente leve. Vemos Roy Applewood, um senhor casado e com filhos que decide assumir a transexualidade. Ele cria um embate com a conservadora cidade onde mora e passa a conviver com a hipocrisia, com o preconceito dos colegas do trabalho e com a incompreensão da família. A imagem de Tom Wilkinson, vestido de mulher me lembrou muito o cartunista brasileiro Laerte Coutinho. Para quem nunca viu, há uma entrevista maravilhosa que Coutinho cedeu a Marília Gabriela onde fala do seu trabalho e de suas experiências como transexual. Recentemente, Laerte tomou uma atitude polêmica: entrou na justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino.

{A revelação}

Logo no início do filme, o casal Roy e Irma Applewood (que comemoram 25 anos de casados) reúnem-se com o padre da igreja para conversar sobre a relação. Após uma benção, o padre questiona se está tudo bem ou se há alguma coisa interferindo na vida sexual dos dois. Inesperadamente, Roy (um senhor na casa dos cinquenta anos) não consegue segurar as lágrimas e confessa: “Sou uma mulher presa no corpo de um homem e quero fazer uma cirurgia para trocar de sexo”.

Em princípio, tanto o padre quanto a Irma não acreditam naquela conversa. Porém, quando cai na real de que tudo aquilo é verdade e de que o marido está decidido a fazer a cirurgia, Irma abandona a sala e termina a reunião. Já em casa e incrédula começa a confrontar o marido com perguntas duras e diretas: “Quando você transava comigo, era um homem ou uma mulher?” De maneira sincera e compreensível, Roy responde que em várias vezes, durante o sexo, se sentia como mulher.

- Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!-Você não pode tê-lo de volta.
– Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!
-Você não pode tê-lo de volta.

Ironicamente, a filha do casal (interpretada por Hayden Panettiere, ainda bem novinha) possui trejeitos masculinizados, não gosta de usar roupas de meninas e não tem paciência quanto à menstruação. Irma faz de tudo para que ela não saiba do que acontece com o pai, mas há situações que não podem ser evitadas. Sem delongas, Irma manda Roy para fora de casa e implora para que ele repense suas “escolhas”. Acontece que Roy chegou ao ponto de não conseguir negar-se mais, chegou ao fundo do poço, estava com algo entalado na garganta e aquele era o momento de se libertar.

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{Transformação}

Roy conversa o chefe para informá-lo que daquele dia em diante, passaria a se vestir como mulher. O chefe lentamente entende que Roy está falando a verdade e apesar de incompreender a situação, decide mantê-lo no cargo. O chefe vai até a casa de Irma para perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Após uma conversa familiar, os dois trocam olhares e surpreendentemente, se beijam. Logo se separam e brincam: “Não daria certo” – o que não é verdade já que os dois passam a ter um caso. Brilhantemente, o filme explora não só a sexualidade de Roy, mas também a sexualidade de Irma. Depois de assumir-se transexual, Roy deixa claro para a mulher que o sexo é uma necessidade natural do ser humano, portanto, ela tem o direito de transar com outros homens (já que ele vai realizar a cirurgia).

Roy passa a tomar hormônios, fica mais sensível, os seios crescem, assim como os cabelos. Nesse meio tempo Irma entra na menopausa e os dois enfrentam juntos, as mudanças corporais. Em uma cena divertida e ao mesmo tempo bela, Roy ouve som no carro e tenta cantar com voz de mulher. No dia seguinte, quando chega de brincos no serviço, um de seus colegas o obriga a tirá-los. Entre socos e pontapés, Roy impõe-se e mostra que a partir daquele momento, teria que ser tratado com respeito.

{Aceitação}

O filme, na verdade, não explora o que aconteceu com Roy antes da “revelação”. Há poucos lampejos e referências a uma infância em que ele, ainda menino, pegava as roupas da mãe para se transvestir. O enfrentamento com o pai, em uma festa de família tornou-se o ponto alto da representação de seu sofrimento. Durante os parabéns, o patriarca da família relembra o quanto Roy era diferente dos outros. Humilha-o diante dos irmãos, da filha e da mulher. Roy esquiva-se da sala. Tempos depois, Irma o encontra no celeiro, com uma espingarda apontada para o pescoço.  Diante do êxtase emocional percebe que não conseguiria perder o marido, não conseguiria vê-lo morrer.

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Após a possibilidade da perda, Irma permite a volta do marido a casa e passa a conviver pacificamente com a mudança.  Em uma cena belíssima, Irma opina sobre as escolhas de roupa do Roy. Ele, já vestido de mulher, agradece o apoio. E ela responde: “Você faria o mesmo”. Os diálogos são uma lição de amor e cumplicidade, de que o amor (o verdadeiro) vence as dificuldades do dia-dia.

Pouco tempo depois Roy e a família vão à missa. Os integrantes passam a encará-lo e ele, respeitosamente se ausenta da Igreja. Com certeza, esse é um dos pontos positivos do filme: a diretora trata com compreensão a incompreensão das pessoas diante a transexualidade. Sem julgamentos, AndersonRoy Tom Wilkinson mostra que nem todo mundo entende o que acontece com um transexual e que esse é um processo dificílimo. De alguma forma, a cena da igreja me fez lembrar uma conhecida que dizia que se estivesse com a filha na rua e visse dois homens (ou duas mulheres) se beijando, chamaria a polícia. Levei essa discussão para a aula de Política e um dos meus colegas disse uma coisa interessante: “às vezes o pré-conceito está intrínseco, a pessoa não percebe quanta maldade um ato desses representa. Em um país sério, se ela chamasse a polícia seria ela que iria presa”.

 Por último, há outra cena que me deixou emocionadíssima. A família recebe o filho mais velho. Quando ele encontra o pai (sua referencia de masculinidade) vestido de mulher, começa a julgá-lo. Os dois se esmurram pela casa até que o pai consegue convencê-lo de que o respeito mútuo é indispensável. Os dois, em lágrimas, abraçam-se na escada sala. Quando as coisas voltam ao Normal, Irma e Roy fazem sexo como homem e mulher, pela última vez.