É carnaval, e eu vou chorar…

Orfeu Negro_thumb

Sou apaixonada pelo carnaval e sempre me lembro desse filme quando é chegada à época. Na minha cabeça esse filme funciona como uma construção metafórica dos períodos do carnaval: do começo da festa, da alegria das músicas e da beleza das fantasias e por fim, do silêncio, da ausência imposta pela quarta-feira de cinzas.

É isso, Orfeu Negro é uma das histórias românticas mais lindas que conheci e que pretendo guardar para sempre na memória. Trata-se de um filme brasileiro-francês, lançado em 1960 e baseado em uma peça escrita por Vinícius de Moraes (que por sua vez, se inspirou na mitologia grega). Dirigido por Marcel Camus e vencedor do Orfeu de melhor filme estrangeiro, o filme conta a história da tragédia amorosa vivida por Orfeu e Eurídice…

Eurídice é uma moça que sai do sertão nordestino para morar nas favelas do Rio de Janeiro. Ela é perseguida por um homem e não sabe o porquê. Um dia conhece e se apaixona por Orfeu, um músico da região que já está comprometido com a bela (e vingativa) Mira. No carnaval, Orfeu e Eurídice vivem uma intensa paixão, um amor inocente e diferente de todos os outros. Porém, um acidente terrível compromete a felicidade do casal, em plena quarta-feira de cinzas o amor do dois é brutalmente ceifado. Enfim, um filme triste e lindo. Também gosto muito (e indico) a versão de 1999, dirigida por Cacá Diegues… só que o primeiro me parece mais trágico, é de uma tristeza e de uma beleza sem fim.

 

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Carmen é um dos símbolos mais interessantes de beleza e feminilidade que tenho em mente. Essa percepção veio a aumentar depois que terminei de ler uma de suas biografias, escrita por Ruy Castro. Pensei por algum tempo em que tipo de publicação faria hoje. Em principio queria citar (em referência ao dia das mulheres) algumas feministas que me inspiraram a conhecer e participar do movimento. Logo depois, pensei em filmes temáticos e músicas que seguem essa perspectiva e por fim, me lembrei da Carmen.

No dia que resolvi escrever sobre ela, conheci a jornalista Júnia, que por coincidência estava com o mesmo livro nas mãos. Foi um encontro completamente casual e inesperado e que me valeu muito. Eu passeava pelo edifício Maletta, estava com sede, entrei numa lanchonete e lá a encontrei. Eu disse para a Júnia que estava com a “Carmen na cabeça” e que não conseguia parar de pensar no triste fim que ela teve. Sabiamente, Júnia me disse que a vida é feita de escolhas e que Carmen foi uma mulher feliz com as escolhas que fez.

Carmen MirandaComo Helena Solberg diria em seu documentário “Banana is my business”, Carmen Miranda tinha a inocente ideia de que conseguiria representar o Brasil no exterior. Se comprometeu tanto que essa foi sua bandeira por muitos anos. Carmen exigia cantar em português em seus filmes e sempre estava na defensiva quando o assunto era o país. Se Carmen conseguiu representar o Brasil? Claro que sim, mas em partes. Ninguém jamais representaria um país em sua totalidade tendo em vista a complexidade e vastidão cultural, ideologia, política ou qualquer outro aspecto que engloba uma nação. Ainda assim, sua imagem está extremamente ligada ao Brasil, ela se tornou um símbolo.

Também por coincidência, o professor Mozahir citou o livro do Ruy Castro como uma bibliografia que ajudaria a entender o papel do rádio no país. Infelizmente, poucas pessoas (ou praticamente nenhuma) mostrou interesse por Carmen. Depois da aula tive que escutar: “quem é Carmen?” ou, “ela ainda está viva?“ Sim, Carmen continuará viva, enquanto for lembrada. Na verdade é um pouco decepcionante pensar que estudantes de jornalismo, já no fim do curso, não fazem ideia de quem foi Carmen. Não é uma informação que está colada na grade curricular, mas que eu tenho certeza: faria um bem danado! O Mozahir dizia: “foi incrível o que essa mulher fez”, ela chegou a ser uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood na década de 1940, enfrentava maratonas diárias de shows e tinha uma repertorio invejável.

Sempre bem humorada e com consciência plena de sua beleza, Carmen ficou famosa ainda muito jovem. Comandava sua carreira com determinação e sabedoria. Pouco tempo depois de fazer sucesso cantando, comprou uma casa nova para os pais e aprendeu a dirigir. Tinha também muita habilidade com costura, por isso: customizava facilmente suas roupas. Aqueles sapatados gigantescos (e pesados) que usava nos shows foram inventados por ela e exigiam um equilíbrio fora do comum. Além disso, Carmen ditava moda. Chegavam a dizer que ela era careca porque nunca mostrava os cabelos. Os turbantes, na verdade, só se fixavam na cabeça justamente por causa dos cabelos. No fundo, ela achava toda aquela conversa de “ser careca” muito engraçada. Há também um fato interessante: antes de Hollywood, viajou muito pela América Latina. Chegaram a perguntar a Carmen se era verdade que o Brasil era uma “matagal” onde se encontrava macacos e cobras. Carmen brincava e dizia: “Sim, há muitas cobras”

Carmen Miranda

Apesar de todo esforço em representar o país, Carmen não foi bem acolhida pelos críticos brasileiros. Morando nos Estados Unidos, recebia em sua casa jornais ou informações de amigos da hostilidade dos críticos. Diziam que ela gesticulava demais, que tinha uma voz péssima, que estava gorda ou que tinha esquecido a língua portuguesa. Com tanta hostilidade, Carmen ficou temerosa de voltar ao Brasil. Quando veio pra cá, já em 1955, estava completamente confusa e fraca, resultado direto dos calmantes, dos estimulantes e da bebida.

Helena Solberg e Ruy Castro afirmaram inúmeras vezes sobre o quanto Carmen Miranda foi injustiçada. A obra deles, acima de tudo (e acima da própria Carmen) possui uma semelhança maravilhosa: todas as duas (tanto o livro, quanto o documentário) são de uma doçura incontestável, que fazem com que a gente se incline a gostar dela também. Um dos sonhos de Carmen era voltar ao Brasil e pular carnaval do meio da multidão. Dizia que queria se misturar no meio do povo, dançar até não poder mais e depois voltar para casa. Como Ruy Castro acrescentaria: esse era um devaneio, Carmen jamais conseguiria pular carnaval sem ser identificada.

Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.
Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.

De origem católica, sacrificou as próprias vontades em nome de um casamento em que a figura masculina dominava. Castro dizia no livro que em momentos de confusão (mental), Carmen chegou a afirmar que apanhava do marido (não se sabe se isso realmente aconteceu). David Sebastian conheceu Carmen nas filmagens do filme Copacabana. Ela aceitou as investidas e casou-se com o americano. * Antes, porém, Carmen teve inúmeras desilusões amorosas: hora por homens que não aceitavam sua fama e seu dinheiro, hora por homens que simplesmente não a levavam a sério. Ironicamente, o grande desejo de Carmen era se casar e ter filhos.

Como não acreditava em divórcio, perdeu parte da felicidade por um casamento desastroso. Ela, que vivia cercada de brasileiros em sua casa, teve que deixar de recebê -los. David também passou a empresariá-la, assegurando-se de sempre vê-la na ativa, não importasse o quanto estivesse exausta. Usou parte do dinheiro (que não era pouco) em investimentos sem futuro e em presentes caríssimos. Além disso, estimulou o uso das bebidas alcoólicas que no final da vida, tornaram-se um hábito, ou melhor: uma necessidade de Carmen.

Mas como Ruy Castro evidencia, David não foi o culpado pelo fim trágico de Carmen. Ele só veio a piorar as coisas. Com os limites da medicina na época, acreditava-se que tanto os calmantes quanto os estimulantes eram benéficos. Como uma bola de neve, Carmen foi aumentando as pílulas, até chegar nas medicações injetáveis. Para tentar diminuir o vício, os médicos cortavam as doses dos remédios, o que na verdade, deveria ser feito gradativamente. Assim, Carmen passava dias sem dormir, tinha alucinações, até o que o organismo cedia. Mas o ciclo vicioso dos remédios sempre voltava: e Carmen caiu em uma profunda depressão.

Carmen Miranda

Um dos tratamentos indicados e que Ruy Castro descreve era o choque elétrico. Ao que parece, Carmen recebeu cinco sessões de choques elétricos que comprometeram sua memória. Subia ao palco e submetia-se a apresentações em que muitas vezes esquecia as letras das musicas. Também já não tinha a mesma coordenação motora e constantemente perdia o ar ou ficava zonza.

“Em 1953, a aplicação dos eletrochoques ainda era feita em moldes primitivos. O paciente não era anestesiado. Não lhe davam um relaxante muscular e ele não recebia oxigenação artificial, como se passaria a fazer muito depois. Nem se sonhava com monitores cardíacos, cerebrais e de pressão arterial. E, pior ainda, não se fazia uma desintoxicação prévia, com a eliminação gradual dos medicamentos, que afinal, tinham levado àquela condição. Na época, a máquina de eletrochoque, fabricada pelos Laboratórios Lester, de Nova York, fornecia uma carga de 110 volts, muito mais do que, no futuro, se consideraria “aconselhável”. Eram precisos três enfermeiros para manobrá-la: um, para girar o botão e aplicar o choque, os outros dois, para conter o paciente e impedi-lo de se machucar e de, literalmente, levantar vôo.”

Os médicos alegaram que Carmen estava com problema nos nervos. A depressão estava tão profunda que ela não se levantava da cama, não comia nem falava. Veio ao Brasil pouco tempo antes de morrer. Tanto os médicos quanto os amigos próximos, acreditavam que essa era uma maneira de ajudá-la a melhorar. Carmen ficou hospedada no Copacabana Palace por mais de cem dias. Continuava tomando os remédios que um dia a matariam justamente para se manter nos palcos. Chegou a se apresentar no Brasil, foi recebida por milhares de pessoas que cantavam “Taí” em sua homenagem. Visivelmente fragilizada, confundia os companheiros da juventude que a visitavam no hotel e chorava sem parar. Castro dizia que ela cogitou a hipótese de não ir para Hollywood, mas o marido era insistente e praticamente a obrigara a voltar a ativa.

Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.
Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.

Em uma apresentação no programa de Jimmy Durante, Carmen cai de joelhos e diz que está sem fôlego (há, inclusive, diversos vídeos no Youtube, reproduzindo o show). Ruy Castro conta que nesse momento, ela revira os olhos e dá pra perceber que a morte já estava por perto. Naquela mesma noite, em 5 de Agosto de 1955, Carmen cantou seus sucessos para um grupo de amigos. Subiu ao quarto, fumou um cigarro, tirou a maquiagem e foi para o quarto. Faleceu após um colapso cardíaco. Foi encontrada deitada no chão segurando um espelho de rosto.

Seu corpo chegou ao Brasil em 12 de Agosto, cerca de quinhentas mil pessoas acompanharam o velório cantando “Taí” em despedida. As vendas dos seus discos aumentaram consideravelmente, semanas depois, já não tinham mais estoque. Carmen foi enterrada no Cemitério São João Batista.

*Carmen, no programa de Jimmy Durante: em uma apresentação que aconteceu hora antes de seu falecimento. Carmen, aos 24:07min cai e diz que está sem ar:

Bloco do Eu Sozinha

Nova Lima - Estrada

Sempre gostei muito de carnaval. Trabalhar nesse feriado só reforçou a idéia do quanto eu gosto de ouvir a banda e ver os blocos de rua. Ficar presa numa redação foi a pior das torturas. Eu entrava na sala, ligava a TV para assistir o compacto das escolas de samba e enquanto isso recebia vídeos das TVs do interior que traziam as atualizações das festas na cidade. Nesse meio tempo, acompanhei os inúmeros acidentes que aconteceram pelas estradas mineiras e li algumas coisas sobre a renúncia do Papa Bento XVI.

Ainda bem que meu carnaval não passou em branco. No domingo pude aproveitar o melhor do Bloco dos Sujos e os desfiles das tradicionais escolas da minha cidade, Nova Lima. Segui a banda o quanto pude. Na verdade fiquei incomodada com uma coisa: as pessoas que acompanhavam (principalmente os mais jovens, é claro), não sabiam cantar as marchinhas. Era palavrão pra cá, ‘canoa virar pra lá” e só. Uma pena, afinal as letras são tão bonitas e o legal é cantar junto. Além das figurinhas repetidas e dos moços de cabelo pintado de amarelo, senti uma nostalgia incrível quando vi uma menina vestida de mulher gato. Era uma fantasia que eu usei inúmeras vezes (e eu amava!). E a minha mãe, sem duvidas, foi a minha melhor companheira nessas festas.

No centro eu vi famílias inteiras fantasiadas. Aliás, tive uma discussão acalorada com as colegas do serviço outro dia. Elas diziam que o carnaval só serve pra se fazer filho e “pegar doença”. Em contrapartida, eu batia o pé e dizia: o carnaval é um fenômeno fantástico. As pessoas saem à rua, dançam, se abraçam, se beijam. Elas se fantasiam e por poucos dias tem a liberdade de agir de uma maneira que não podem durante o resto do ano. No carnaval você vê pais de família, homens sérios, vestidos de bailarina. Você canta as músicas que seus pais e seus avos cantavam, saudando o país, o amor e a liberdade. É uma das festas mais bem humoradas que existem (e politicamente incorretas também).

sujos

Jony’s Mary!
Jony’s Mary!

E porque não, uma festa de lembranças também. No salão que eu costumo freqüentar, as meninas comentavam que o carnaval só ia até a meia noite de terça feira. Diziam que quem ficasse na rua depois disso, iria ver a Mula sem cabeça. E elas ficavam com medo, corriam para casa o quanto antes. Na quarta, falava-se baixo, não se varria a casa. Tudo em sinal de respeito. A quarta-feira de cinzas era um dia silencioso, carregado. Era um dia de penitências. Minha avó dizia que adorava ver o desfile das escolas de samba, mas a mãe dela sempre a impedia de ver a ala das mulheres, que eram ‘prostitutas (?). Se não tinha serpentina, jogavam papel higiênico mesmo.

E então, com a impossibilidade de pular o carnaval do jeito que eu gosto. Na terça-feira, último dia de festa, fui tirando fotos pelo caminho. Mudei o trajeto. Passei por ruas em que brinquei quando era pequena. Revi a minha antiga escola. Enquanto caminhava, percebi que em diversas casas ouviam-se marchinhas de carnaval. O clima de festa também estava dentro das casas. Passei pelo beco. Uma rua estreitinha, cheia de arames (que não sei por que, me remeteu a Auschwitz).

Nova Lima

Beco Nova Lima

Nova Lima

Passei pelo centro, vi o Bloco dos Sujos descer de relance. Deu vontade de acompanhar, mas segui o meu caminho. Vi (e fotografei) Jony’s Mary (um senhor que incrivelmente, só encontro no carnaval – Ele se tornou uma figura conhecida em Nova Lima porque além de fazer as próprias fantasias, sempre se destaca dançando pelas ruas). Do ônibus, tirei fotos da paisagem que vejo TODOS os dias antes de chegar a Belo Horizonte. A mata, o céu, tudo tão bonito.

Então, nessa terça feira de carnaval, andando pelas ruas, acabei criando, sem querer o meu bloco: o bloco do eu sozinha.

BH NOVA LIMA

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Estrada Nova Lima