O Libertino

Le-Libertin-OST-coverEu simplesmente amei esse filme e, claro, tudo por causa da Fanny Ardant. Ok, vocês já devem estar cansados desse assunto porque nos últimos dias só tenho falado nela. Bom, tentem se acalmar porque eu estou só começando e podem ter certeza que virão muitas outras publicações sobre seus filmes. Estive pensando até em dedicar um mês a cada atriz, mas a verdade é que eu nunca dou sequência à esses planos, então é melhor fazer assim… sem nenhuma organização mesmo. No fim, veremos no que dá.

“O Libertino” , produzido em 2000, é uma comédia ambientada na França do século XVIII. A trama tem como personagem principal, Denis Diderot, que tenta burlar um cardeal que está visitando a sua casa enquanto constrói a Enciclopédia. Diderot critica a aristocracia e leva uma vida sexualmente liberal, cercado por mulheres. Uma delas lhe chama atenção, trata-se de Madame Therbouche (Ardant), que lhe faz uma visita com o intuito de pintar o seu retrato e deixá-lo de presente para a posteridade.

Sobre o termo “Libertino” eu realmente não sei se é utilizado no título apenas para designar o cunho sexual do personagem. Sei que na época, alguns escritores (como o Marques de Sade, por exemplo) receberam esse apelido porque foram responsáveis por046-fanny-ardant-theredlist obras que ironizavam a moral e os valores sociais e também porque defendiam o sexo livre como filosofia de vida.

Até o que filme é engraçadinho, possui umas partes em que dá pra soltar umas risadas. Já falei muito sobre a Josiane Balasko por aqui, gosto muito dela. Nesse filme ela dá um tom deliciosamente cômico à personagem e de longe, é a mais divertida. Ela é uma mulher rica e comilona, que adora fazer piadas maliciosas e, pelo que entendi, gosta de dar umas escapulidas com seus escravos. Ah! E nesse filme também vemos uma Audrey Tautou novinha, novinha!

É uma pena que o Diderot tenha sido interpretado de uma forma tão caricata. Ele é tão desajeitado que é até meio difícil se simpatizar com seu jeito. Eu não sei se foi proposital, me pareceu que o ator que o interpretou, o Vicent Perez, era assim… desajeitado. Tem um momento em que ele quer transar com o personagem da Fanny e ele é tão grosseiro e afobado que parece machucá-la- mas, de verdade! Não sei, me causou um certo incômodo.

026-fanny-ardant-theredlistPor outro lado, Madame Therbouche é um personagem incrível! Dessa vez, não é só por causa da Fanny, mas a história e o comportamento de Therbouche ao longo do filme é sensacional. Ela é uma senhora, muito elegante, que chega à casa e está cheia de mistérios. Diferente das outras, ela aparenta ser uma mulher extremamente inteligente e observadora. E é por isso que Diderot se apaixona por ela e permite que ela conheça o seu esconderijo, o local onde ele está imprimindo a Enciclopédia. É ela que levanta certos questionamentos sobre cultura, moral e prazer.

Ela sabe da a condição do seu sexo, do contexto do seu gênero, mas não se rebaixa aos homens. Ela só transa quando e como quer. E, em uma das discussões mais sensacionais, discute o aborto.  Olha só o que ela diz à Diderot: “Você culpa a mulher que faz um aborto. Você culpa a mulher que se livra de uma criança indesejada. Uma mulher que não tem tempo, nem família, nem dinheiro e que acidentalmente fez um filho. Que odeia o homem que, em devidas circunstâncias, colocou esse filho no seu corpo. Mesmo quando a barriga dela só guarda más recordações. Você é igual aos padres que critica.”

Gabrielle

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Gabrielle é um puta filme, daqueles que consegue te tirar o fôlego.  Foi através dele que conheci Pascal Gregory: paixão a primeira vista. Na época eu estava com uma paranoia em relação à Isabelle Huppert e assistia aos seus filmes sem parar. Li muitas críticas negativas sobre o longa, diziam que a  inversão da câmera para BW nos momentos subjetivos do personagem principal tornavam a narrativa muito lenta.  A meu ver, o dispositivo usado por Patrice Chéreau foi um dos diferencias da trama.

Gregory interpreta Jean Harvey, um homem da alta sociedade francesa casado com Gabrielle. Para ele, a esposa é a síntese da perfeição, da pureza. Através de suas descrições iniciais temos a impressão de um casamento sem problemas. Gabrielle não é só o grande amor de Jean, mas também sua propriedade (logo no início do filme ele se refere a ela como o seu objeto mais valioso). Os dois sempre comparecem a jantares elegantes e aparentam se divertir muito. A casa também é habitada por diversos empregados, que acompanham a falsa felicidade do casal quase como voyeurs. São observadores silenciosos, que ficam a espreita.

Em comemoração aos dez anos de casamento, Jean planeja um belíssimo jantar para a mulher e os amigos. Quando chega em casa, encontra uma carta deixada por Gabrielle onde ela diz que decidiu abandoná-lo.  Na carta, Gabrielle usa palavras ríspidas e inimagináveis para um homem orgulhoso como Jean. Ele, por outro lado vai à loucura, é tomado por uma fúria grandiosa (grita, quebra os copos e as taças) mas perde-se em uma confusão de dúvida e sentimentos: O que fazer? Ela vai voltar? Devo perdoá-la? (O espectador acompanha todo o desespero acentuado pela narração em off.)

Gabrielle

Depois de ataque de raiva, Jean senta-se no sofá, abandonado a própria sorte. Inesperadamente, Gabrielle retorna a casa. Com os olhos cheios de lágrimas e quase silenciosa, deixa claro que a tentativa de fugir com outro homem não deu certo. A linha precursora do filme não é sobre o abandono de Gabrielle, nem o porque ela deixou Jean e sim: o seu retorno. É o seu retorno que provoca todo o diálogo sufocante entre os protagonistas. É a sua volta que provoca todo o embate sobre um casamento sufocante.

Isabelle Huppert se transforma. Após o retorno da personagem, a atriz dá vida a uma Gabrielle rancorosa, fragilizada e martirizada por um casamento infeliz. Nesse filme ela realiza um trabalho corporal belíssimo. Prostra-se sobre a cadeira, totalmente curvada. Os olhos vermelhos condizem com a voz quase inaudível. Infelizmente, não consigo encontrar o meu DVD para reproduzir um dos diálogos. Vi esse filme em 2007, mas até hoje me lembro perfeitamente de uma fala da personagem. Jean a pergunta se um dia houve amor naquele relacionamento, Gabrielle responde que sempre teve nojo do marido e que a ideia de ter o esperma dele dentro do seu corpo a fazia vomitar.

Depois das discussões, onde Jean perde a cabeça várias vezes, não há mais nada. Acabou-se o desejo, acabou-se o respeito. Tudo se foi, inclusive o casamento.  Mas seu orgulho é tão forte, que ele faz de Gabrielle sua prisioneira. Passa a torturá-la e humilhá-la publicamente. Ainda resta no seu eu o desejo de impor-se, seja como homem, como dono da casa ou como um marido traído. Como subordinada, Gabrielle se rende, deita-se sobre a cama expondo sua dor e sua fraqueza.

Filme belísisimo!! Confira o trailer:

PRÊMIOS

– César de Melhor Figurino e Design de Produção em 2006. – Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2005.

FICHA TÉCNICA

Diretor: Patrice Chéreau
Elenco: Isabelle Huppert, Pascal Greggory, Claudia Coli, Thierry Hancisse, Chantal Neuwirth, Thierry Fortineau.
Produção: Patrice Chéreau
Roteiro: Patrice Chéreau, Anne-Louise Trividic
Fotografia: Eric Gautier
Trilha Sonora: Fabio Vacchi
Duração: 90 min.
Ano: 2005
País: Alemanha/ França/ Itália
Gênero: Drama
Cor: Colorido