Chá e Simpatia

É incrível como certas tramas nos conquistam pelos pequenos detalhes, por diálogos bem construídos, pela delicadeza dos personagens. “Chá e Simpatia”, produzido em 1956, é uma delas, me conquistou pela simplicidade. O filme conta a história de Tom Lee (John Kerr), um estudante universitário que não consegue se enturmar com os outros alunos e prefere passar os intervalos conversando com Laura, a orientadora. Um dia, Tom é visto costurando. A história se espalha e começam a dizer que ele é gay, passam a chamá-lo de “sister boy”

Decorah Kerr

O cotidiano de Tom na faculdade vai ficando cada vez mais difícil, ele sofre com o preconceito e com as zombarias dos colegas, ao mesmo tempo em que encara as pressões do pai que insiste para que ele se porte como homem. Porém, Tom é um jovem sensível, que gosta de escutar músicas, de teatro, literatura e não tem pré-disposição para esportes.

Laura (Deborah Kerr) entende o garoto e aos poucos se aproxima dele, contrariando as vontades do seu marido, Bill (Leif Erick-Son) – que é um dos professores da faculdade. A proximidade faz com que surja uma paixão entre os dois. Laura, no entanto, é uma mulher comprometida enquanto Tom é um jovem confuso e extremamente tímido.

As felicidades do amor duram momentos, as dores duram para sempre.

O filme foi baseado na peça homônima de Robert Anderson: “Tea and Sympathy”, encenada pela primeira vez em 1953. Nos palcos, o próprio Jonh Kerr ( que além de ator, era um advogado atuante) foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos do que Elia Kazan. Anderson é considerado um dramaturgo da altura de Tennessee Williams e de Arthur Miller, só que não é tão famoso. A história, na verdade, é quase uma autobiografia, quando Robert Anderson se juntou ao exército, ele acabou se apaixonando por uma mulher mais velha e comprometida.

18-deborah-kerr-cUma das coisas que mais me agrada nesse filme são os diálogos, Minelli nos presenteia com pequenas pérolas, falas inesquecíveis. Como por exemplo no momento em que Laura diz para Tom: “Nossas ações são como pedras jogadas na água, elas produzem círculos. Os círculos são as consequências”. Parece até que é uma tendência, filmes baseados em peças teatrais (talvez  pela estrutura) possuem um cuidado extra em relação aos diálogos.

Difícil falar sobre Deborah Kerr, minha admiração por ela aumenta a cada dia… aliás, não me canso de dizer que a acho maravilhosa! Aqui, Kerr está doce e contida, com um postura sóbria, madura.  Um dos meus filmes favoritos com a atriz.

Quando você falar sobre isso… e você vai falar. Seja bondoso.

A homossexualidade é um tema recorrente no cinema, um tema delicado e polêmico. Se hoje, filmes sobre o assunto ainda despertam estranheza, na década de 1950 o assunto era um completo tabu. O interessante nessa trama é que ela funciona quase como um registro histórico, com um documento que ilustra como as pessoas se comportavam naquela época. É evidente que a homofobia é o tema principal do filme, mas outros assuntos também complexos são retratados na trama, entre eles: o machismo.

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É notório o papel secundário que as mulheres recebem na faculdade, Laura assume uma função importante, mas seu marido determina que atue apenas como “espectadora”. Ela ainda divide suas atividades com as obrigações domésticas e depende da permissão do marido para participar do baile – incrível como tudo isso é retratado com naturalidade.

Exatamente pelo fato da personagem principal ter um marido machista, a proximidade  entre  Laura e Tom é redentora para as duas partes. Enquanto ela o ensina a não se importar com o que dizem e a confiar em sí mesmo, Tom faz Laura perceber que o seu casamento  a faz infeliz. O amor surge da dor, da fraqueza dos dois, por isso tão belo.

Minhas atrizes favoritas (e seus respectivos filmes que são os meus favoritos)

Ta aí, estou com mania de fazer listas… comecei a escrever sobre as minhas atrizes favoritas e sobre os seus filmes e deu nisso. Pra não me estender muito, escolho cinco filmes que mais gosto de cada uma.. dêem uma olhada:

ImagemDianne Wiest

1)      Edward Mãos de Tesoura
2)      A Gaiola das Loucas
3)      Sinédoque, NY
4)      Setembro
5)      O Tiro que não saiu pela Culatra
 

ImagemSusan Sarandon

1)      Thelma e Louise
2)      Fome de Viver
3)      Os últimos passos de um homem
4)      Lado a Lado
5)      O Óleo de Lorenzo
 

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Isabelle Huppert

1)      A Professora de Piano
2)      Oito Mulheres
3)      Madame Bovary
4)      Um Assunto de Mulheres
5)      Má Mere
 

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Bette Davis

1) O que terá acontecido a Baby Jane?
2) Vitória Amarga
3) Vaiosa
4) Pérfida
5) A Malvada
 

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Joan Crawford

1) O quê terá acontecido a Baby Jane?
2) Acordes do Coração
3) Os desgraçados não choram
4) Johnny Guittar
5) Almas Mortas
 

ImagemDeborah Kerr

1) Os Inocentes
2) Narciso Negro
3) Bom dia, tristeza
4) Tarde demais para esquecer
5) A noite do Iguana
 

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Shirley Maclaine
 
1) Muito Além do Jardim
2) Minha doce gueisha
3) Infâmia
4) Irma La Douce
5) Laços de Ternura
 

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Judi Dench

1) Notas Sobre um Escândalo
2) Sua majestade, Mrs Brown
3) O violonista que veio do mar
4) O exótico hotel Marigold
5) 007 Skyfall
 

Helen Mirren

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1) O Cozinheiro, o ladrão, a mulher e seu amante
2) Mães em Luta
3) Tentação Fatal
4) De porta em porta
5) Colapso
 

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Jessica Lange

1) Normal
2) Titus
3) Geração Prozac
4) Terras Perdidas
5) Mais que um crime
(+ O Destino bate à sua porta)
 

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Glenn Close

1) Albert Nobbs
2) Atração Fatal
3) Um Canto de Esperança
4) Marte Ataca
5) A Casa dos Espíritos
 

Anjelica Huston

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1) A Família Addams
2) Acerto Final
3) Tudo por um sonho
4) Para sempre Cinderela
5) Convenção das bruxas

Os inocentes

Os inocentes” é um grande filme e é uma pena que ele não receba o reconhecimento que merece.  O assisti agora a pouco, ainda sobre influência da minha repentina admiração por Deborah Kerr (que por sinal – e mais uma vez – está belíssima). O filme foi baseado em um clássico de Henry James (A outra volta do parafuso) e conta história da Senhora Giddens, uma mulher que é contratada por um aristocrata para ser a governanta em sua mansão em Bly, na Inglaterra.

Com uma grande paixão por crianças (“mais até do que a própria vida”), Giddens se muda para a Bly com o intuito de cuidar de Miles e Flora, duas crianças que perderam os pais e cujo o tio não dá a mínima. Em princípio Giddens é muito bem recebida por Flora e Miles (que chega um pouco mais tarde, depois de ser expulso do colégio) e pela Senhora Grose (uma arrumadeira idosa), mas aos poucos ela começa a ser atormentada por dois fantasmas que carregam um sombrio segredo.

ImagemLançado em 1961, dirigido por Jack Clayton e roteirizado por Truman Capote, “Os inocentes” enquadra-se no melhor estilo do terror psicológico, não peca por excessos, possui um roteiro brilhante, uma iluminação e uma trilha sonora de tirar o fôlego – não é atoa que Martin Scorsese tenha o colocado em sua lista de melhores filmes de terror de todos os tempos, nem é atoa que ele tenha sido classificado pela Time Out como um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos – o longa é realmente muito bom.

Clayton fez uma boa escolha ao optar por um filme em preto em branco; a iluminação tem um papel técnico importantíssimo na trama e o diretor a usa com destreza assombrosa. Em uma cena, por exemplo, a governanta começa a ouvir barulhos e questiona a própria sanidade. O que Clayton faz? Ilumina  apenas os olhos de Kerr que estão completamente perdidos e assustados (e isso se repete várias vezes),.

Deborah Kerr

Como a história é muito densa, um aspecto que passa despercebido (mas que não deveria) é o cuidado com a construção cenográfica, que sustenta a verossimilhança histórica de maneira impecável. Não sei exatamente se poderia classificá-lo assim, mas  o cenário possui toques impressionistas que se adequam a função psicológica das ações: as escadas, o casarão meio abandonado, as velas – e claro, o vestuário bem trabalhado (que também dão a história um tom mais sombrio).

Sobre o roteiro há algo que chama atenção, as falas são muito, muito, muito bem trabalhadas e a narrativa é um misto de fluxo de consciência e diálogos (e muitos deles não estão de acordo com a continuidade de tempo –  Giddens, por exemplo, escuta os fantasmas conversando… mas essa conversa se passa no presente? no passado?) Não há nada explícito, mas você percebe desde o inicinho que alguma coisa está errada, o roteirista vai oferecendo pequenas pistas: por exemplo, quando o pequeno Miles, durante um brincadeira, pede para que a Senhora Giddens escute um poema: no poema o “eu-lírico” pede que o espírito saia de seu túmulo e tome o seu corpo.

Deborah Kerr não decepciona, a atriz consegue equilibrar o aspecto dramático (que muito se dá pelo embate psicológico do personagem) com a personalidade doce e interiorizada da Senhora Giddens. O interessante é que no livro a governanta tem apenas 20 anos (e não é atoa), mas quando Kerr atua esse aspecto se transforma em um mero detalhe. Mas Kerr não pode levar todo o mérito, Pamela Franklin e Martin Stephens (as crianças) também trazem um peso dramático à trama, principalmente quando ocorre o confronto com a governanta.

Ha muito que dizer sobre esse filme, mas eu prometo não me estender. Só mais um aspecto merece o comentário: a abertura. Jack Clayton queria fazer algo diferente das produções da Hammer (um companhia britânica especializada em filmes de terror), por isso iniciou seu filme com uma tela totalmente preta onde uma criança canta “O Willow Waly” (essa abertura só dura 45 segundos,mas apresenta a música que toca repetidas vezes ao longo do filme). Então, só depois é que ele exibe os créditos, em uma tela igualmente preta, mas dessa vez, podemos ver as mãos da Débora Kerr (que exprime muita tensão através delas) e ouvir a personagem rezar pelas crianças. – E, pelo que eu li, a voz que aparece no início não é de uma criança, e sim da Deborah Kerr “imitando” uma criança (PQP!).

O Erótico, as metáforas e os símbolos: quem é realmente Inocente?

Os inocentes O início do filme é um pouco devagar, mas sem dúvidas, depende desse desenvolvimento para não comprometer a compreensão da história, afinal, há muito hipocrisia naquela casa – e o difícil é descobrir da parte de quem. Finalmente, depois de um período angustiante, onde a personagem principal se pergunta o que se passa naquele lugar, ela deduz (ou simplesmente entende) qual a história dos dois fantasmas.

Peter Quint trabalhou cuidando dos cavalos da mansão. De acordo com a Senhora Grose ele era um homem detestável, alcoólatra e extremamente grosseiro. Apesar de tudo, Miles o adorava e ninguém conseguia separá-los. A Senhorita Jessel foi, antes da Senhora Giddens, a governanta da casa e ela era muito próxima da Flora, as duas passavam horas dançando no salão. Um dia Quint chegou bêbado, escorreu na escada e morreu. Jessel, que era apaixonada por ele, não suportou a dor de perdê-lo e se matou afogada em um lago. Grose contava que os dois eram extremamente obscenos, falavam palavrão e faziam de dia o que deveriam fazer a noite. -Na frente das crianças?, a Senhora Giddens pergunta. “Eu não tenho certeza se as crianças viram, eu vi várias vezes.”

Ao observar o comportamento estranho das crianças (as trocas de olhares, as brincadeiras maldosas, os galanteios de Miles), a Senhora Giddens deduz que as crianças estão possuídas por esses espíritos. Quint e Jessel querem entrar no corpo dos irmãos para se reencontrarem mais uma vez como amantes – Mas será que isso é verdade ou ela está apenas enlouquecendo? Quando a Senhora Giddens começa a confrontar as crianças, sugerindo e observando esse possível contato sexual entre elas, a velha empregada Grose lhe afirma: “Não faça isso, eles são tão inocentes!”.  E a Senhora Giddens responde: “Eles não são inocentes, são adultos!”.

Os inocentesComo eu disse, não é atoa que a Senhora Giddens (no livro) tem apenas 20 anos. Há (tanto no livro quanto no filme) uma dúvida sobre quem é realmente o  inocente (ou puro) nessa história.  Giddens, um poço de gentileza e candura, enfrenta pela primeira vez esse tipo de trabalho e conforme afirma: “só quer ajudar os outros”. Mas e se tudo o que se passa for apenas fruto da sua imaginação (já que as crianças e os empregados  insistem em dizer que não enxergam os fantasmas que ela vê?) e se ela estiver mentindo? -Posso lhe garantir que não há uma resposta para essa pergunta.

O beijo (ou melhor, os beijos) entre Miles e a Senhora Giddens me deixou desconcertada, confesso que voltei o DVD pra ter certeza do que estava vendo.  A cena é no mínimo polêmica e corajosa. E muito clara: HÁ UMA TENSÃO SEXUAL ACONTECENDO ALI! Miles beija a governanta e depois deita-se na cama, com um rostinho angelical enquanto a Senhora Giddens, desconcertada, lhe sorri – Close em sua boa, entreaberta. (Jack Clayton impediu que as crianças vissem o resultado do filme e escondeu delas o contexto sexual da trama).  O interessante é que o filme dá vários indícios metafóricos de que a governanta foi sexualmente reprimida (as plantas caídas, os insetos – um incrível toque freudiano).

E essas metáforas e símbolos estão em todo o lugar, em um momento do filme, por exemplo, a Senhora Giddens escuta sussurros e barulhos que sugerem Quint e Jessel transando. “Me ame, me ame”  Ao mesmo tempo que escuta esses barulhos ela se depara com o cortina batendo incessantemente na janela. Quando ela ela se vira, o barulho para.

Imperdível, é tudo o que me esta a dizer, esse filme é imperdível!

Tarde demais para esquecer

ImagemJá disse diversas vezes aqui no La Amora que não gosto de escrever sobre clássicos, primeiro porque não tenho cacife para falar sobre eles e segundo porque (provavelmente) há um grande acervo de releituras/críticas/resenhas sobre essas produções que dispensam qualquer comentário – é só pesquisar no Google e voilá. Acontece que ontem assisti “Tarde demais para esquecer” pela primeira vez e fiquei de queixo caído com a graciosidade do longa.

Terminei de ver o filme com um sentimento de culpa enorme; me perguntando o “porque’ de ter demorado tanto para vê-lo. Depois dessa doce surpresa, me proponho a assistir clássicos e comentar sobre eles aqui (não sou nenhuma crítica, vocês sabem, mas como cinéfila às vezes me bate uma sensação louca, quase que como um “compromisso” de melhorar meu repertório). Afinal, qual o cinéfilo que nunca assistiu “O Poderoso Chefão”, por exemplo? Pois é, eu… E o pior é que não só esse, como diversos outros filmes foram deixados de lado por essa “cinéfila relapsa”. Prometo: nunca mais!

Tarde demais para esquecer (An Affair to remember, 1957) conta a história de Nickie Ferrante (Grant) um jogador famoso e mulherengo que é um dos homens mais cobiçados do momento. A farra de Ferrante está prestes a acabar pois ele está noivo de Lois Clark (Neva Patterson), uma socialite. Em uma viagem de volta a Nova York, Ferrante conhece Terry McKay (Deborah Kerr), uma ex-cantora que também está de casamento marcado. Terry e Nickie acabam se envolvendo e se apaixonando durante a viagem, mas como possuem outros relacionamentos  decidem se encontrar depois de seis meses no alto do Empire State. Neste período eles poderão acertar suas vidas e, caso se reencontrem, se casar.

 ImagemKerr e Grant possuem uma química perfeita e os dois correspondem a elegância da direção de Leo McCarey (também diretor em A Delícia de Um Dilema) – que optou usar o CinemaScope. O filme é um remake de “Duas Vidas” (produzido em 1939, que traz Irene Dunne e Charles Boyer nos papéis principais) e ao que tudo indica (porque eu ainda não vi o “original”), a versão de 39 é muito mais densa e dramática.

Um dos motivos que me fizeram não assistir “Tarde demais para esquecer” foi o fato de achar que o filme era um daqueles romances água com açúcar, que te faz chorar e te deixa deprimida quando acaba. Que engano! O filme é, na verdade, uma história linda, emocionante e divertida, que te deixa com um humor lá em cima. Meu Deus, que figurino! Sei que muita gente pensa do mesmo jeito que eu e por isso confesso que adoraria voltar no tempo e pousar (HAHA!) na década de 1950 só para usar roupas iguais aquelas, vestidos maravilhosos, cabelos perfeitos…

O bacana é que o filme consegue equilibrar o humor com a carga dramática.  No momento em que a trama já está bem desenvolvida (e que já fomos conquistados pela história e pelos personagens), o espectador é pego de surpresa. [Spoiler] Terry, ansiosa para se encontrar com Nickie, acaba não prestando atenção ao atravessar a rua e é atropelada. O acidente não só a deixa sem andar, como também a impede de encontrar o “amado”, o que faz com que Nickie acredite que Terry desistiu do relacionamento dos dois. [Uma história que seria difícil adaptar aos dias de hoje já que o celular, a internet e diversos outros meios de comunicação vieram para facilitar a vida dos casais apaixonados].

ImagemSempre ouvi falar muito sobre Déborah Kerr e sobre o Cary Grant, mas esse é o primeiro filme que assisto com eles (ou melhor, o primeiro filme em que eu realmente presto atenção neles). Aliás, como eles são lindos! Já reparou na perfeição do nariz da Déborah Kerr ou no charme do Cary Grant? É muito interessante o fato desses atores conseguirem ser incrivelmente sexys (“sem serem vulgar”). E é igualmente incrível (uso esse adjetivo porque realmente é difícil crer) na força da moralidade do cinema americano dessa época. Não só isso, mas também na “inocência perdida”, entende?. Esse filme me trouxe uma certa nostalgia, fiquei me lembrando das histórias que a minha mãe e a minha avó me contavam; dos namoros escondidos, dos beijos roubados. “Não podia pegar na mão!” ou “Conversar, só na sala”. Sei lá, acho que o romantismo morreu.

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