Não existem erros, coincidências. Todos os eventos são bênçãos dadas a nós para aprendermos através deles.

VioletaA despedida de Violeta mudou a minha relação com Deus e com a morte. Antes eu tinha certeza da existência D’Ele, hoje não sei. Antes tinha um medo enorme da morte, hoje não a enxergo com tanto terror. A vida de Violeta se foi como um sopro, de repente seu corpo imóvel e totalmente sem vida, parecia apenas uma casca, uma pousada inabitada. Seus olhos vidrados deixavam claro que ela não estava mais ali e por sorte, não estava mais sofrendo. Em suma, foi o que me consolou. Ainda que eu sinta uma raiva enorme, uma revolta – a situação me faz perceber o quão miseráveis somos diante da morte.

Sua ausência tem sido tão difícil como aqueles testes que a gente precisa fazer sem antes estudar. Você simplesmente não sabe qual é a resposta, você tenta – e falha. Às vezes, mentalmente, chamo por seu nome ou em uma inútil esperança, imagino a possibilidade de tê-la de volta. Deus não negocia Em conversas com amigos, alguns chegaram a me perguntar o porquê de ficarmos tão tristes e mobilizados, afinal: era ‘só’ um cachorro. Violeta tinha personalidade, não era só um cachorro, era um membro da família, era amada e respeitada. E assim como qualquer outra morte, ficamos de luto. A casa ficou vazia, silenciosa, escura, fria – foi difícil.10409562_890400947652422_8982864657036263419_n

No dia seguinte em que perdemos Violeta comecei a ler um livro chamado ‘A Roda da Vida’, indicado pelo meu chefe. A escritora, Elizabeth Kubler Ross é uma psiquiatra mundialmente famosa, especialista em assuntos que envolvem a morte. O livro é uma autobiografia, nele Ross conta sua incrível história de vida e relata os anos em que trabalhou com pacientes moribundos (influenciando diretamente o fim da vida deles).  De fato, o livro pode ser interessante para quem acaba de passar pela difícil prova de perder alguém querido. Os relatos de Kubler me fizeram perceber que não se está sozinho diante da morte de alguém amado – muitos passaram por uma perda tão triste (ou até mais trágica que a sua).

A RODA DA VIDAEnquanto escrevia o livro, Kubler já estava idosa e havia sofrido uma série de derrames – enfrentava a ideia da própria morte. Antes, no entanto, ela fez uma recapitulação dos momentos mais marcantes de sua vida e de sua carreira: como por exemplo, quando decidiu contar aos pais que ia estudar medicina. Ou quando começou a trabalhar no acompanhamento psiquiátrico de portadores da AIDS (isso, nos anos 80). Sua cartilha de casos e histórias é impressionante, ela é o exemplo do que se pode chamar de: uma vida bem vivida.

Mesmo sendo especialista no assunto, a escritora confessa que passou por momentos difíceis de questionamento. Um deles, muito forte: Sua mãe sofreu um derrame que a deixou quatro anos em uma cama, se comunicando apenas através dos olhos. Ela então se perguntava, porque a sua mãe, que tinha sido tão bondosa durante toda a vida e que ajudara tantas pessoas, passava agora por uma situação tão cruel. Sua conclusão foi a seguinte: Que a sua mãe tinha ajudado inúmeras pessoas, mas nunca tinha deixado ninguém ajudá-la.

Ao longo da minha leitura me posicionei um pouco cética em relação às suas experiências espirituais. Mas, acho que é um livro que pode agradar qualquer tipo de leitor, independente de sua preferências religiosas… Gosto especialmente de seus pensamentos finais, dos quais compartilho aqui:

“Preparando-me para passar deste mundo para o próximo, sei que o céu ou o inferno são determinados pela maneira como as pessoas vivem suas vidas no presente. A única finalidade da vida é crescer. A suprema lição é aprender como amar e ser amado incondicionalmente. Há milhões de pessoas no mundo que estão passando fome. Há milhões sem um teto. Há milhões que sofrem de AIDS. Há milhões de pessoas que sofreram violências. Há milhões de pessoas que padecem de invalidez. Todos os dias, mais alguém clama por compreensão e compaixão. Escutem o som de suas vozes. Escutem como se o chamado fosse música, uma linda música. Posso garantir que as maiores recompensas da vida inteira virão do fato de vocês abrirem seus corações para os que estão precisando. As maiores bênçãos vêm sempre do ajudar aos outros.”

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Ostra feliz não faz pérola

Ostra FelizGosto muito do Rubem Alves, as coisas que ele escreve me tocam profundamente. Tive a felicidade de encontrar ‘Ostra feliz não faz pérola’ online e fui lendo, pelo celular mesmo, aos pouquinhos.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental (…)

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite a análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li e reproduzo o que Alves escreve:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer cascas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.

Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza.

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta, mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um home completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Confira, outros trechos:

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.

“O gol é fundamentalmente um ato sádico. Um estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no buraco do outro – dolorosamente -, embora o outro tenha feito de tudo para impedir que isso acontecesse”.

“A medicina é uma arte rigorosa, regida por princípios de assepsia e de ética. Por exemplo: quando se vai aplicar uma injeção é preciso desinfetar o lugar onde a agulha vai entrar no corpo. Pura curiosidade: os médicos que aceitam a função de carrascos nas penitenciárias desinfetam o lugar onde a agulha com líquido letal vai penetrar na veia do condenado? Acho que sim. É preciso evitar infecções. Será que os carrascos na cama, de noite, pedem perdão ou se entendem apenas como executores de um ato burocrático? Os criminosos de guerra alemães alegaram que eles apenas cumpriam ordens. O argumento não foi aceito. Foram enforcados. Não é horrendamente imoral que o Estanho tenha o direito de matar? Matam na guerra, milhões. Não são caçados como terroristas. São saudados como heróis. Como são bonitas as fardas dos generais! A diferença entre os morticínios de Estado e os morticínios dos terroristas está em que os primeiros são feitos em nome do Estado e os segundos em nome de uma crença política ou religiosa. Os morticínios são feitos por loucos. Mas a loucura do Estado é legítima”.

“Sobre o perdão: Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma LV225740_Zcriança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem a custo do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Olha as aves do céu. É um conselho de Jesus. Se ele aconselhou é porque o voo das aves no céu é uma metáfora do sagrado. As aves voam porque  são amigas do ar e dos ventos (vejam só os urubus voando nas funduras do céu sem bater as asas…). E foi o próprio Jesus que declarou que Deus é um vento que sopra sem  que saibamos donde vem nem para onde vai. Nosso destino é ser aves: flutuar ao sabor do vento. Por decisão divina, somos seres destinados ao voo. Não é por acaso que o céu estralado foi um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos céus foi um artifício técnico bolado pelos homens para compensá-los do seu aleijão: haviam perdido suas asas. Quem não pode voar tem que subir pelos degraus… Mas vocês sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluída e os homens se espalharam pelo mundo na maior confusão. De fato, para se tocar as estrelas é preciso ter asas. Se duvidam, releiam a estória do sapo que resolveu ir á festa nos céus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estória do sapo são variações do mito de Ícaro”.

(…) “O deus do taoismo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário, pois é, o Alan Watts escreveu o seguinte: Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos, as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água”.

“A velhice tem sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs; As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitárias. No crepúsculo, tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como o azul do mar, imóvel. Nos crepúsculos, as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem do tempo, nós percebemos que é preciso viver o momento intensamente. “Tempus Fugit” – o tempo foge, portanto ‘carpe diem’, sabemos que a noite está chegando. Na velhice, sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”.

 (Cássia Janeiro)

O que sobrou

O que sobreou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seu livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças,

O que sobrou foram os seus retratos

e,

Quando vi uma foto sua,

Sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua

Ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

“Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: Todos os seres humanos tem o direito de morrer sem dor.”

“Há de se viver bem. Há de se morrer bem. A ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada. A medicina é uma luta pela vida boa, da qual a morte faz parte”.

Milagre na cabana

Realizado especialmente para TV, Milagre na cabana é um filme dramático que conta a história de Wanda (Patricia Heaton) e Sarah (Meredith Baxter), duas irmãs distantes que se reencontram após o falecimento da mãe. Enquanto Wanda ficou na cidade e cuidou da mãe durante sua doença, Sarah mudou-se com o marido e a filha Gina para longe e nunca se deu ao trabalho de visitá-las.

Miracle No funeral, Wanda – extremamente magoada – confessa que a mãe passou anos esperando que Sarah viesse vê-la. No entanto, Sarah tinha um motivo importante que a impedia de voltar para casa e talvez por vergonha (ou orgulho) preferiu não revela-lo.

Após a leitura do testamento, as irmãs descobrem que Lily (Della Reese), uma velha senhora, mora há anos na propriedade pertencente à família. Sarah, decidida a vender o local, precisa enfrentar Wanda e Gina que fizeram amizade com Lily e descobriram sua triste história de lutar e dor: na juventude, Lily casou-se com um homem explorador, foi separada do filho e obrigada a passar por sessões de eletrochoque até conseguir fugir (e com a ajuda de uma amiga), instalar-se naquele local.

Do amor, da família e a dor da distância

Milagre na Cabana não é um grande filme, não mesmo. Alguns aspectos técnicos, como a fotografia, deixam a desejar. Uma coisa que me incomodou bastante foi uma intenção descarada de sensibilizar o espectador, de induzi-lo através dos diálogos carregados e da trilha sonora densa. Apesar disso, a produção conta com uma essência que me agrada neste tipo de gênero: eles tendem a enriquecer a estrutura filmica televisiva.

O que chama atenção na trama é o cuidado em trazer protagonistas mulheres e ilustrar as dificuldades que rondam o universo feminino através dos anos. Aliás, o filme não só ilustra o universo feminino, ele representa em profundidade as dificuldades das relações humanas e familiares. Enquanto Wanda precisa perdoar Sarah como irmã, Lily precisa ficar em paz com o passado e reencontrar o filho perdido.

milagre na cabana1No filme duas vertentes conduzem o argumento: a primeira é a relação entre Wanda, Gina e Sarah. Além de ficar ressentida com a irmã, Wanda insiste que Sarah preste atenção na filha, que não possui amigos e não consegue se abrir com ninguém. A segunda, não menos importante, é a relação entre Gina e Lily, que relembra o passado traumatizante através da semelhança de Gina com a avó.

Quando nos referimos a Lily, temos que lembrar que quem a interpreta é ninguém mais, ninguém menos que Della Reese. Impossível não se emocionar com uma atuação tão forte e cativante, Resse sabe o seu lugar na trama e o conquista sem esforço.

Ficha Técnica
Título Original: Miracle in the Woods
Ano: 1997
Gênero: Drama
Diretor: Arthur Allan Seidelman
Duração: 90 minutos
 

milagre na cabana2P.S: Patrícia Heaton

Comentei outro dia aqui no La Amora sobre “The Middle”. Amei a série e asisti os episódios em menos de duas semanas. Estou apaixonada pela Patrícia Heaton, incrível como ela se sai bem em filmes e seriados cômicos. Tenho lido bastante sobre ela, sobre a carreira dela (que, basicamente, é dedicada a TV).

Heaton, aliás, participou durante anos de Everybody Loves Raymond e só a pouco me dei conta de que ‘ela, a Debra’ é ‘ela, a Frankie’… Dãã, deu pra entender? Deu né. Em Milagre na cabana, Patricia Heaton está grávida, gravidíssima aliás e é engraçado como ela tenta esconder a barriga, exatamente como também o faz em duas temporadas de Everybody Loves Raymond.

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Desculpe a intromissão. Senhor Lee?

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@greenseaweed

Enrosca-se nessa teia construída de temor e solidão. Morda a própria língua ao gritar que ama alguém de forma visceral e reconheça que sua maior fraqueza é tentar impedir  – em tempos de socorro – que sua piedade e sanidade quase profana destrua sua vida e seus sonhos. Junte seu dinheiro e aos poucos, jogue-os de um prédio, durma dura em uma cadeira de hospital. Sente-se na rua e sangre, e morra. E se envergonhe, se culpe. A culpa é sua mesmo e não dá pra sentir pena. Não existe bondade nos dias de hoje, sacrificar-se é mostrar-se tão imperfeito quanto qualquer outro. Te amo, te odeio! Rasgue sua alma, corte seu cabelo e anteceda ao som. Durma tremendo, de medo e de frio.  Aquecer-te? Só a desgraça que você mesma construiu e que implora que a abandone a cada passo que dá, atrás. Morra! Morra, mas não me leve junto, porque mesmo na abundância, mesmo no nojo, no vômito, no sono… mesmo assim, eu vou pra frente e juro, nunca mais vou te condenar por ficar.

10 lições de vida

lições que todo mundo conhece, mas que nem sempre põe em prática ou que, às vezes, se esquece….

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1) Ame a si mesmo

2) Não fique comparando a sua vida com a dos outros..

3) Não seja obcecado pelo passado ou pelo futuro: aproveite o presente e viva cada dia como se fosse único.

4) Não desista logo da primeira vez, seja persistente

5) Valorize a sua família

6) Saiba perdoar

7) Saiba economizar

8) Entenda de uma vez por todas: ninguém é perfeito, não julgue pelas aparências.

9) Não se estresse por coisas pequenas

10) O aprendizado nunca termina

Viver é ir desvivendo

Com o corpo mole e os olhos pesados,  Eleonora passou o dia chorando a ausência. Chorou porque os que amavam não estavam mais lá. Chorou porque há muito tempo só sentia o vazio. Não havia felicidade nem tristeza, nem dor ou prazer. Apenas ausência. Quis morrer, desistir, sumir por uns dias ou talvez para sempre. Não o fez. Levantou porque apesar do “não sentir”, alguma coisa a impelia de continuar. Recebeu uma ligação logo pela manhã. O cara da operadora insistia em lhe vender um pacote de canais para a TV. “Não vejo TV, nem tenho uma” e voltou a chorar. O homem do outro lado da linha se desculpou e assustado, prometeu não ligar mais.

O café tinha gosto de lágrimas, o nariz entupido e os olhos caídos a fizeram parecer ainda mais exausta. “Viver é ir desvivendo”, lembrou-se da frase que encontrou em um livro, um livro qualquer. Pegou um post it cor de rosa, escreveu a frase e colocou no espelho do quarto. Saiu de casa porque precisava de ar fresco, precisava ter certeza de que, apesar de tudo, ainda estava viva. Da janela percebeu que o dia estava sem cor, que o barulho dos carros e da buzina era o único som que se permitia escutar, os carros em movimentos rápidos e bruscos pareciam lhe dizem: a vida pulsa.

Caminhou pelo passei, ficou por um momento esperando o sinal. Do outro lado, uma mulher com sorriso torto no rosto, parecia que queria esconder a felicidade que guardava dentro de sí. Abaixou a cabeça, tentou fingir que não tinha reparado naquela energia positiva que saia dela. Finalmente, no parque. Tirou os sapatos, sentiu a grama macia, deitou-se. Antes de fechar os olhos pensou: Deus, me ajude a esquecer esse dia.

ImagemUm explosão de felicidade injustificável, única e repleta atingiu o seu peito. Tentou esconder o riso, mas a boca – como se tivesse vida própria – moveu-se para o lado direito, deixando as bochechas com uma pequena covinha. De repente, a sensação que parecia sem importância foi tomando conta do seu corpo, deixando as mãos e os pés mais quentes e os olhos cheio de lágrimas (lágrimas de felicidade, que fique claro!). Então, pegou os sapatos e os jogou bem longe.

Saiu de casa sem se importar em ver ou em ser vista, estava bem e isso era suficiente. Descalço, sentiu as pedrinhas do chão do passeio, a aspereza do asfalto, a maciez da grama. Deitou-se embaixo de uma árvore onde sentia uma brisa leve e ouvia o barulho das folhas. Nunca na vida se sentiu tão em paz como agora. Poderia morrer aqui, passar os meus dias nesse lugar! Começou a refletir sobre o amor, sobre a sorte, sobre a juventude… Estou viva e amo essa ideia, mesmo que viver signifique ir desvivendo.

Eleonora levantou-se, pronta para ir pra casa e mais satisfeita do que nunca, caminhou em direção ao lar. Parou para esperar o sinal e do outro lado da rua uma mulher com um ar de desânimo, com os olhos inchados também esperava para atravessar. Teve dó dela, sentiu pena, se pudesse dividiria toda sua felicidade. Passou por ela com os olhos baixos, fingindo não percebê-la ali. Finalmente em casa, sentou-se na sala e pensou: Obrigada Deus, por esse dia.

Nietzsche para estressados

nietzsche-para-estressados-1Este é o primeiro livro de auto-ajuda que leio em anos. “ Nietzsche para estressados”( escrito por Allan Percy ) caiu em minhas mãos outro dia e eu não consegui resistir, principalmente por causa da capa (que é brilhante e tem um toque minimalista). O subtítulo me chamou atenção: 99 doses de filosofia para despertar a mente e combater as preocupações”. Franzi a testa, um pouco descrente, mas encarei o livro com seriedade – e não vou mentir, gostei. O livro é muito simples e relativamente pequeno. Eu, que não sou uma especialista em filosofia, afirmo com segurança que as “99 doses” contemplam apenas superficialmente o trabalho de Nietzsche, mas isso não faz do livro menos interessante. O livro é uma boa pedida de passatempo, pode ser interessante, por exemplo, pra quem espera em uma fila, em um consultório (…)

Só pra constar, o que Allan Percy faz no livro é o seguinte: ele seleciona algumas reflexões de Nietzche e depois comenta sobre elas, não há muito segredo ou coisas das quais a gente não desconfie, as lições de vida transmitidas são coisas que a gente já sabe, mas que não dá importância ou esquece ao longo do tempo. Como não podia deixar de fazer, separei algumas das 99 doses que me pareceram interessantes -e fiz pequenos comentários em algumas delas.

– A felicidade é passageira, frágil e volátil (“O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”): Não se pode ser feliz o tempo inteiro e imaginar que essa é uma obrigação só nos faz mais tristes e preocupados.

– Estamos “desnaturalizados”: (Nós nos sentimos bem em meio a natureza porque ela não nos julga). Enquanto estamos na “cidade”, muitas vezes, precisamos fingir ser alguém que não somos, a natureza nos faz lembrar da nossa essência “há tanto tempo abandonada”.

– Não reclame (atoa) da vida: Reclamar gera mais angústia, é preciso tentar resolver as insatisfações cotidianas ao invés de ficar “parado” analisando-as.

– A indiferença (ou a falta de comunicação) é pior do que qualquer grosseria: Manifeste-se! A falta de comunicação estraga relações, guardar as coisas pra sí ou, não dizer o que pensa pode deixar você mais estressado.

– Aceite a imperfeição: (“O homem que imagina ser completamente bom é um idiota). Assumir nossa condição nos ajuda a ser mais humildes: nos faz ter consciência de que precisamos melhorar. É inútil querermos ser bons o tempo todo e fazer tudo certo – o que importa é estarmos dispostos a fazer um pouco melhor hoje do que fizemos ontem.

-Precisamos escolher bem as pessoas com quem trocamos confidências: (As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas). Um dos princípios básicos da intimidade é a confiança, tome cuidado com o que fala e pra quem fala.

-Fuja das comparações: Saiba perdoar os seus erros, ame a sí mesmo, pare de analisar.

– Quem é seu amigo de verdade? (Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento – assim se faz um amigo). Desconfie do amigo que não se contenta com os seus “êxitos”. O amigo verdadeiro não é só aquele que te diz coisas boas, ele também é sincero e te alerta quando há algo errado.

–  Muitas vezes, os atos valem mais do que as palavras: Fale menos e faça mais, faça com que os seus atos falem por você. (Falar muito de sí mesmo pode ser uma forma de se ocultar).

– Não tenha medo do sofrimento, encare-o!: Tente extrair algum benefício da dor, sofrer nos ensina a viver, nos faz mais fortes – e é inevitável.

– Não viva em função do passado, nem do futuro, viva o presente: O futuro e o passado nos molda, mas não podemos viver em função deles.  Pensar só no passado nos deixa mais melancólicos e rancorosos, pensar só no futuro nos deixa mais ansiosos.

– Conviver com pessoas viciadas em reclamar é um tormento: (Toda queixa em si contém uma agressão). Evite a negatividade, reclamar demais não ajuda a resolver o problema. Por trás da negatividade há um sinal de impotência.

– Um passo de cada vez: (Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende voar, voando). Vá com calma, suba um degrau por vez.

-Bibliografia: Nietzsche para estressados/Allan Percy [tradução de Rodrigo Peixoto]; Rio de Janeiro: Sextane, 2011

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro é um livro fantástico, de importância histórica e de admirável trabalho jornalístico. Realizado por Daniela Arbex, o livro relembra a terrível história do Hospital Colônia, um hospício que funcionou durante décadas e fez mais de 60 mil vítimas (pacientes que foram violentados, torturados e privados de sua liberdade).

O Hospital Colônia foi fundado em 1903 em Barbacena, Minas Gerais. A instituição, que atendia diversos casos psiquiátricos em todo o estado serviu de palco para uma das mais assustadoras histórias que envolvem o serviço nacional de saúde pública. Comparado a um campo de concentração nazista, o “Colônia” existiu por mais de oitenta anos e foi mantido não só pelo estado como também pela igreja católica.

dica-leitura-caos-holocausto-brasileiro-banner-featuredOs pacientes chegavam em grandes vagões de carga conhecidos como “Trem Doido”, eram exibidos aos moradores que se reuniam para ver (e para  fazer chacota) dos doentes. Quando entravam na instituição, tinham seus cabelos raspados e eram despidos, muitos perdiam a identidade, a família e a dignidade. O processo de internação era absurdo, totalmente arbitrário. Uma mulher foi internada porque era triste demais, outra porque engravidara do patrão, um garoto foi internado porque era muito tímido…

O Colônia servia para “esconder” a escória da sociedade, as pessoas que a autora chama de “invisíveis”. E eram mesmo, não tinham nome, nem voz, eram excluídos porque não se adaptaram a sociedade. Muitos foram internados (ou presos) porque eram homossexuais e de acordo com a autora, cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnostico de doença mental.  Crianças e adultos eram enclausurados nas mesmas celas, dormiam em camas sem colchão (usavam capim, repleto de urina e fezes), bebiam água de esgoto, comiam ratos e morcegos, sofriam lobotomia e levavam eletrochoques (por funcionários inexperientes), eram dopados, impedidos de  sair do hospital (quer dizer, só saiam mortos de lá).

ImagemEm princípio, pouco tempo antes de ler o livro e conhecer a história em sua complexidade, eu achava que o título “Holocausto Brasileiro” banalizava e não fazia jus ao termo.  Depois que li e reli a obra, não restaram dúvidas de que esse título é perfeito, tanto pelas barbaridades cometidas no Colônia quanto pelo número de vítimas.

É engraçado porque é justamente com essa percepção que Daniela Arbex inicia o prefácio, talvez adivinhando a reação dos leitores: “As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas do sentido. Holocausto é uma palavra assim. Em geral soa como exagero quando aplicado a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Neste livro, porém, seu uso é preciso”  – Aliás, a comparação do hospital a um campo de concentração nazista não surgiu da escritora e sim do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que em 1979 visitou a instituição e se horrorizou com o que viu.

ImagemFiquei chocada quando terminei de ler, um pouco assustada em relação a capacidade humana de ser e fazer “mal” – mais do que isso, de se silenciar diante de uma situação como essa, afinal, onde estavam os governantes, os vizinhos e as famílias que tinha conhecimento do estado dessas ‘vítimas’ e não faziam nada?

Em 1979, quando o muro do Colônia começava a cair e o “horror” chamava a atenção da opinião pública, o diretor mineiro Helvécio Ratton entrou no hospício e documentou a situação. O documentário “Em nome da razão – Um filme sobre os porões da loucura” foi todo filmado em preto e branco, sem nenhum tipo de trilha sonora. Confira!

[Depois de ler o livro, a impressão que tive foi que a Daniela Arbex não impressiona muito como narradora, apesar da história extremamente chocante, há aspectos textuais que deixam a desejar. É evidente que seu trabalho jornalístico – como citei acima – foi bem feito e exaustivo, ela fez o que manda a cartilha: entrevistas, apuração (…) Mas também usou e abusou de um texto romantizado e deixou algumas lacunas.]

ImagemTodo mundo diz pra gente que o insucesso dói, mas ninguém nos prepara para perder.  “Perder”, dor única, incomparável e individual. Quando se vence, se vence junto.

Perde-se sozinho.

Eu já perdi muitas coisas, muitas pessoas, muitos lugares, muitos sonhos. Já me perdi de mim mesma, tentei voltar inúmeras vezes. Perder é como o silencio, é o vazio, a lágrima, a vergonha, o medo, a insônia.

Perder é abrir caminho, deixar um espaço: ou para a esperança ou para a desistência. Por que, felicidade. Por que eu te perdi mais uma vez?