a dor de amor em ‘a mulher do lado’

A mulher do lado
La femme d’a cote, por Paula Bonet

provavelmente eu não saberia responder o que é sofrer por amor, o que é essa dor que tantos artistas retratam em suas obras, essa dor que leva os amantes a loucura. Truffaut me fez ver a dor de amor de uma maneira diferente, de uma forma mais bela, mais respeitosa e muito mais triste também. Satre diz que no amor, o amante quer ser “o mundo inteiro” para o amado. Agora, imagine amar sem ser correspondido. Mas não é qualquer amor… não, não! É aquele amor do qual não se consegue ficar longe, aquele amor que não sai da cabeça, aquele amor para a vida inteira. Afinal, amor é entrega, uma entrega espontânea e gratuita. Mathilde, que dor imensa! Que dor terrível…  Caída no jardim, com o rosto sobre as flores, sem conseguir se levantar, de tanto chorar, de tanta tristeza…. eu entendi, que a vida pode ser muito mais visceral que a morte. 

Loucas noites de batom / Pédale Douce

“Loucas noites de batom” (Gabriel Aghion, 1996), conta a história Adrian – um executivo homossexual que é convidado para um jantar de negócios pelo chefe, Alexander. Com o intuito de passar uma boa imagem ele pede que sua amiga, Eva (Fanny Ardant), finja ser sua esposa. A situação foge do seu controle quando Alexander se apaixona por Eva, sem saber que ela, além de solteira, é proprietária de uma boate gay. Detalhe: Alexander é casado, e extremamente machista e preconceituoso.

Pedale DouceNão é uma história com um plot diferente daquele que já vimos milhões de vezes no cinema. Acho justa a comparação com “Gaiolas das Loucas”, já que retrata (também de uma forma bem humorada), a necessidade momentânea de um gay assumido, esconder sua sexualidade.  O que me fez gostar tanto de Pédale Douce e de ter o colocado na lista dos meus favoritos, foi a dinamicidade ao abordar assuntos complexos com tanta clareza e sinceridade, sem cair no ridículo ou explorar esteriótipos. Você consegue rir e se emocionar, ao mesmo tempo em que reflete sobre tabus que assombram a sociedade.

Existe uma grande discussão sobre gênero e sexualidade levantada nesse filme, que cutuca a ferida da família tradicional e debocha da heteronormatividade. Gosto, especialmente, da forma em que o filme retrata e brinca com o preconceito e mostra que quando se trata de sexualidade, não se deve taxar nada nem ninguém. Também gosto muito da sutileza e da transparência ao  abordar a AIDS, um tema que pode ser ainda mais doloroso, se não encarado com o devido respeito.

Pedale Douce Fanny Pra falar a verdade eu tinha me preparado para escrever um texto enorme. Revi recentemente uma entrevista que nos ajuda a lembrar sobre o quanto o machismo também é prejudicial aos gays. Agora eu acho que não cabe muito entrar em detalhes, mas devo lembrar que vivemos em um sistema que condena os “homens afeminados”, porque esperam deles uma postura que corresponda à noção que construímos sobre virilidade.


A INCRÍVEL   – EVA – 

No meio do jantar, confrontada por uma senhora com visões conservadoras sobre vários aspectos sociais, e principalmente, sobre sexualidade… Eva fala: “Detesto caçar, sou a favor da cirurgia plástica, sou militante a favor do aborto, adoro Picasso, odeio fanáticos e prefiro travestis a velhas chatas”. E foi assim, em apenas dez minutos de filme, que caí de joelhos… completamente apaixonada por Eva, que “ama a liberdade e o prazer”.

Um personagem engraçado, com posições tão honestas e bem definidas…  Gosto muito da imagem da Fanny nesse filme, que além de divertida, encosta novamente na questão de gênero. As vezes, em algumas cenas, ela está de peruca e não é difícil confundi-la com um travesti. Você percebe que ela se porta assim de propósito, exatamente para ser confundida. Ou então, sai por aí usando terno e gravata. Ela ama e defende os gays com unhas e dentes e está deliciosamente inteligente, sarcástica, ácida…

Fammy ARdant– Em 1997, Fanny recebeu o César de melhor atriz

Crimes do autor

Crimes do Autor“Crimes do Autor” é um filme que dividiu opiniões. Enquanto alguns o acharam arrastado demais, outros o acharam genial. Li muitas críticas antes de escrever a respeito. Particularmente adorei o tema e não senti nenhum comprometimento do desenvolvimento dos mistérios construídos  – e juro que gostei muito da história, independente da presença da Fanny Ardant. Não é um filme magnífico, mas não deixa a desejar por causa das pequenas derrapadas. Me agradou, especialmente, por causa da metalinguagem e por levantar o questionamento sobre a relação de confiança que se estabelece do leitor em relação ao autor.

judithralitzer10A trama confronta o espectador com três histórias paralelas e relacionadas entre sí e levanta uma série de segredos a serem solucionados. Um serial killer fugiu da cadeia, uma jovem acaba de brigar com seu noivo e uma escritora famosa lança um novo livro… Há um homem em comum em todas essas histórias e ele não está nem um pouco feliz com a situação em que se encontra…

O filme, dirigido por Claude Lelouch, aborda um tema muito familiar para quem trabalha com jornalismo…os ghostwriters (isso mesmo, escritores fantasmas). São aquelas pessoas que escrevem livros ou textos assinados por outra pessoa. Ardant encarna uma famosa escritora, Judith Ralitzer. Aqui ela é uma viúva negra, traiçoeira e sedutora… ela está detestável! (É muito bom vê-la encarnando três momentos distintos do mesmo personagem, cada momento a seu estilo particular).

Do outro lado está Pierre Laclos, interpretado por Dominique Pinon, um homem misterioso, que aparenta ser o que não é. E tem também a linda da Audrey Dana como Huguette, uma pseudo cabeleireira que trabalha em um salão luxuoso em Paris. O negócio é tentar descobrir quem matou quem e porque…

No site “50 anos de Filmes”, há uma curiosidade bem bacana sobre o título: “Como título de filme também pode ser cultura inútil, lá vai. Roman de gare, do título original, literalmente romance de ferroviária, é o termo que designa obras de distração, superficiais. O nome vem do fato de que se costuma comprar romances baratos para se ler durante as viagens de trem.”

Roman de Gare

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El año del dilúvio

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“Sempre tive medo da eternidade porque a imagino pouco propensa a reencontros”

Fanny ArdantEu jamais assistiria El Año del Dilúvio se a Fanny Ardant não estivesse nele. Provavelmente por causa sinopse simplista, que nos engana ao dizer que a história trata de uma arrebatadora paixão entre uma freira e rico fazendeiro. Vou confessar que, até o momento, esse é o filme mais bonito que já vi da Fanny, desde o início dessa maratona não programada. Comentei outrora no Twitter que esse foi um filme que não me fez derramar uma lágrima sequer, mas que me deixou imensamente inquieta e dolorida, pela história amarga e obscura dessa freira.

A trama, que se passa o fim da década 50, é baseada em um livro escrito por Eduardo Mendonza, publicado em 1992. Fanny interpreta Sor Consuelo, a madre superiora de um hospital que sobrevive à caridade e que atende especialmente idosos e deficientes mentais. Em busca de financiamento para a criação de um asilo, Sor Consuelo procura Augusto Aixelá (Dário Grandinetti), uma fazendeiro influente e rico que simboliza esperança para seus pacientes.

O clima de medo e insegurança, reflexo da Guerra Civil Espanhola, ronda os personagens o tempo todo. Assaltos, saques e revoltas, fazem com que as freiras fiquem confinadas no convento com medo de serem roubadas ou violentadas. Inclusive, como curiosidade, Sor Consuelo revela que nessa época as freiras já não obrigadas a rapar o cabelo porque se elas precisassem fugir, o cabelo seria um bom disfarce para que não fossem reconhecidas. Nesse “pueblo” existe um saqueador em especial, que amedronta toda a população…

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Acontece que Sor Consuelo é uma mulher extremamente forte, inteligente e rígida. Que acredita que possui controle sobre sua vida e sobre suas vontades. Ela luta contra o seu desejo, contra o amor que sente em relação ao fazendeiro e chega a pedir, encarecidamente, que seja confinada em um convento onde não possa falar com ninguém, nem sair para ver a luz do sol. Seu destino lhe impõe a necessidade de fazer uma escolha, entregar-se ou não a Augusto. O problema é que ao se entregar, ela renega seus valores, seus votos e tudo ao que até então acreditava.


 – Existem duas curiosidades muito interessantes nesse filme, uma é que a Fanny estava falando espanhol. Mas, como não era um bom espanhol, ela foi dublada por Mercedes Sampietro. Este é o segundo filme de Jaime Chavarri, e dizem as más línguas que ele ficou profundamente apaixonado pela Fanny.


O copo de água

copodaaguaEm uma entrevista, Fanny chamou atenção para um detalhe que parece pequeno, mas que carrega consigo uma enorme construção metafórica. Sempre ao chegar à fazenda, Augusto lhe oferecia água. E mesmo com um calor exaustivo, ela não aceitava. As visitas foram aumentando, ao ponto em que ela passou a sentar-se na mesa com ele e a tomar limonada.  É um indício de que a freira foi se corrompendo aos poucos. “As coisas na vida dela eram feitas a gosto de Deus, aos poucos ela foi abrindo os olhos não só para o amor, como também para a carne e para a sensualidade. Lembro que no princípio ela se nega a aceitar o copo de água. Ao longo do tempo ela se pergunta, “por que não?” Por que não beber água se estou com sede?


Existe uma sequência maravilhosa do filme, que faz a espinha gelar. É o momento em que Consuelo entende as consequências de sua escolha e percebe que mesmo tendo vivenciado uma paixão enlouquecedora, mesmo tendo traído seus votos e seus valores, seu destino é viver como freira. É conviver com o peso do hábito religioso, é renegar o seu lado sexual, é aceitar a sua condição…

Aliás, a trilha sonora desse filme é uma peça chave.

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Callas Forever

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Não sei nada da história da Maria Callas, infelizmente. Do pouco que sei, aprendi com o último filme da Fanny Ardant que assisti, dirigido por Zeffirelli. Ainda assim, assisti com um pé atrás porque sabia que se tratava de uma história fictícia criada pelo diretor, que era amigo íntimo de Callas. Bom, o filme possui muitas inspirações em fatos que realmente aconteceram, mas me pareceu uma versão muito romantizada.

920x920Callas Forever conta o fim da vida da que foi uma das maiores e mais reconhecidas cantoras de ópera do mundo. Mostra o momento em que ela estava em profunda depressão por causa da morte de Onassis, época em que sua voz já não era a mesma e em que ela se encontrava em um enorme conflito interno – não queria sair de casa, não queria ser vista e tinha decidido parar de cantar. Sua última apresentação no Japão, em 1974, foi o ápice do seu problema. Isso porque Callas exigia muito de sí mesma e como a sua voz já não tinha a qualidade que existia na juventude, sentia que tinha se humilhado publicamente.

Zeffirelli, ao tomar conhecimento da situação da amiga, sugere que ela volte aos palcos. Como ele sabe que seu maior temor é expor uma voz já desgastada, propõe a utilização de um procedimento que mescla audios gravados por Callas na juventude com a sua voz na “atualidade”. Depois de muita insistência Callas aceita a ideia e sente-se entusiasmada com a possibilidade de voltar a cantar. Mas, ao longo do trabalho, ela passa por um conflito de valores porque entende que utilizar esses procedimentos tecnologicos em sua voz não é honesto com seu público.

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Callas Forever é um filme grande, daquele bem produzido, bem ensaiado. Mas falta alguma coisa nele, mesmo com a Fanny em toda a sua dramaticidade, há um “quê” de artificialidade na história. Principalmente, no momento em que Callas decide voltar aos palcos e aventura-se a sair de casa. Também no personagem que Zeffirelli, interpretado por Jeremy Irons, criou sobre sí mesmo, me pareceu que ele colocou na boca do personagem tudo aquilo que não conseguiu falar com Callas na realidade. Em uma cena, por exemplo, Callas está reclusa em sua casa e Zeffirelli entra em seu quarto, a acorda e diz: “Quero que você saiba que possui muitos amigos para te apoiar. Eu sou um deles”.


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Minha gente, o que dizer sobre a Fanny neste filme?

  1. ELA ESTÁ LINDA!
  2. A carga dramática da situação da personagem, não impediu que Fanny mostrasse seu brilho. De alguma forma você percebe que ela, como atriz, está muito satisfeita ao interpretar o papel.  Aquele enorme sorriso, e um olhar que não deixa mentir. Fanny parecia em êxtase.
  3. E ela como Carmen, encarnando a cigana esfaqueada em praça pública… JESUS!

Antes de assistir o filme, eu fiz uma pequena pesquisa na internet e encontrei um artigo muito legal de autoria da Sônia Pedroza, pela UFRJ. Eu devo ter o lido umas três vezes e achei muito legal a relação que ela estabelece entre o filme e uma discussão presente na Escola de Frankfurt, especialmente ligada à Adorno e Walter Benjamin (arte x indústria). Para ter acesso, clique aqui.


O Libertino

Le-Libertin-OST-coverEu simplesmente amei esse filme e, claro, tudo por causa da Fanny Ardant. Ok, vocês já devem estar cansados desse assunto porque nos últimos dias só tenho falado nela. Bom, tentem se acalmar porque eu estou só começando e podem ter certeza que virão muitas outras publicações sobre seus filmes. Estive pensando até em dedicar um mês a cada atriz, mas a verdade é que eu nunca dou sequência à esses planos, então é melhor fazer assim… sem nenhuma organização mesmo. No fim, veremos no que dá.

“O Libertino” , produzido em 2000, é uma comédia ambientada na França do século XVIII. A trama tem como personagem principal, Denis Diderot, que tenta burlar um cardeal que está visitando a sua casa enquanto constrói a Enciclopédia. Diderot critica a aristocracia e leva uma vida sexualmente liberal, cercado por mulheres. Uma delas lhe chama atenção, trata-se de Madame Therbouche (Ardant), que lhe faz uma visita com o intuito de pintar o seu retrato e deixá-lo de presente para a posteridade.

Sobre o termo “Libertino” eu realmente não sei se é utilizado no título apenas para designar o cunho sexual do personagem. Sei que na época, alguns escritores (como o Marques de Sade, por exemplo) receberam esse apelido porque foram responsáveis por046-fanny-ardant-theredlist obras que ironizavam a moral e os valores sociais e também porque defendiam o sexo livre como filosofia de vida.

Até o que filme é engraçadinho, possui umas partes em que dá pra soltar umas risadas. Já falei muito sobre a Josiane Balasko por aqui, gosto muito dela. Nesse filme ela dá um tom deliciosamente cômico à personagem e de longe, é a mais divertida. Ela é uma mulher rica e comilona, que adora fazer piadas maliciosas e, pelo que entendi, gosta de dar umas escapulidas com seus escravos. Ah! E nesse filme também vemos uma Audrey Tautou novinha, novinha!

É uma pena que o Diderot tenha sido interpretado de uma forma tão caricata. Ele é tão desajeitado que é até meio difícil se simpatizar com seu jeito. Eu não sei se foi proposital, me pareceu que o ator que o interpretou, o Vicent Perez, era assim… desajeitado. Tem um momento em que ele quer transar com o personagem da Fanny e ele é tão grosseiro e afobado que parece machucá-la- mas, de verdade! Não sei, me causou um certo incômodo.

026-fanny-ardant-theredlistPor outro lado, Madame Therbouche é um personagem incrível! Dessa vez, não é só por causa da Fanny, mas a história e o comportamento de Therbouche ao longo do filme é sensacional. Ela é uma senhora, muito elegante, que chega à casa e está cheia de mistérios. Diferente das outras, ela aparenta ser uma mulher extremamente inteligente e observadora. E é por isso que Diderot se apaixona por ela e permite que ela conheça o seu esconderijo, o local onde ele está imprimindo a Enciclopédia. É ela que levanta certos questionamentos sobre cultura, moral e prazer.

Ela sabe da a condição do seu sexo, do contexto do seu gênero, mas não se rebaixa aos homens. Ela só transa quando e como quer. E, em uma das discussões mais sensacionais, discute o aborto.  Olha só o que ela diz à Diderot: “Você culpa a mulher que faz um aborto. Você culpa a mulher que se livra de uma criança indesejada. Uma mulher que não tem tempo, nem família, nem dinheiro e que acidentalmente fez um filho. Que odeia o homem que, em devidas circunstâncias, colocou esse filho no seu corpo. Mesmo quando a barriga dela só guarda más recordações. Você é igual aos padres que critica.”

Meu caso de amor com Oito Mulheres

8-women-toutesRever “Oito Mulheres” é relembrar os meus quinze anos, da minha antiga rotina de sair do colégio e ir direto para a locadora e ficar horas escolhendo filmes para levar para casa. Da época em que eu ficava cantando as músicas do filme na sala de aula, e fingindo falar francês… É, eu tenho uma antiga história de amor com Oito Mulheres, do Ozon. Foi ele que me apresentou ao cinema francês e às que, ainda hoje, estão as minhas atrizes favoritas: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert e Fanny Ardant.

2002, 8 FEMMES / 8 WOMENComentei, numa publicação recente, que um antigo vício voltou com tudo. Esse vício se chama Fanny Ardant. Acho que não só por causa da visita da Jéssica, mas também por causa da exposição do François Truffaut que vimos no Museu de Imagem e Som (MIS), aqui em São Paulo. É como se eu tivesse levado um tapa, um choque…. como se a ficha tivesse caído e finalmente eu tivesse convencido que ainda falta muitos filmes da Fanny para assistir  – e que ainda me falta muito de cinema para conhecer e estudar. Talvez o meu problema seja ser tão viciada… eu sou como aquelas crianças que assistem o mesmo filme dez vezes, que nunca se cansam. Com Oito Mulheres foi assim, essa semana já assisti duas vezes.

Já escrevi sobre esse filme por aqui, o texto é uma reprodução de um trabalho acadêmico que fiz quando ainda estudava Jornalismo. O professor tinha pedido para escrever um artigo relacionando um assunto a escolha ao livro “O que é Semiótica” da Lúcia Santaella. Então escolhi Oito Mulheres…

Mas é que, rever esse filme é despertar uma antiga admiração, é lembrar de um tempo bom e de ganhar novas perspectivas. Para quem nunca viu o filme, uma breve sinopse: Oito Mulheres estão presas em uma mansão por causa de uma tempestade de neve. Nesse meio tempo acontece um assassinato e todas elas são suspeitas. Enquanto confinadas, elas são levadas à revelar seus segredos obscuros. O filme foi produzido em 2002 e é baseado em uma peça escrita por Robert Thomas.

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Quando você revê o filme, você finalmente entende todas aquelas trocas de olhares e sabe localizar tudo o que não é dito explicitamente. Aquela tensão entre elas, a disputa, o mistério, a década…. que delícia de filme. E as personagens, cada uma em sua complexidade entram em conflito pela diferença de idade, de cultura, de classe social, de orientação sexual. É impossível não ficar vidrado nessa mistura e nesse jogo de interesses.

Vi uma entrevista ontem em que o Ozon (na época com 34 anos), disse que se sentiu extremamente pressionado porque estava trabalhando com grandes nomes do cinema e que existiam algumas brigas de ego nos bastidores, por isso, ele precisou de ter muito cuidado ao selecionar cada cena, sem privilegiar ninguém.

Fanny e Deneuve juntas, meu Deus, é muito para o meu pequeno coração. Elas sãotumblr_mcrnkrev8a1rxvqfko1_1280 majestosas e é difícil escolher para quem olhar. No fundo eu acho que a Deneuve é mais bela, mas a Fanny é mais sensual. Não sei explicar… E Huppert, caramba! Como ela está engraçada nesse filme, nem parece com a “rainha do gelo” que estamos acostumados a ver em tela… e a Danielle Darrieux, AH! ❤ (preciso assistir mais filmes dela também, tem o tão famosos Cinco Dedos, que eu nunca vi!).

Os Belos dias

Passei a madrugada assistindo aos filmes da Fanny Ardant, foram quatro… assim, de uma vez! Fui dormir às 6 horas da manhã, com o dia amanhecendo e a luz invadindo o meu quarto. Meu Deus, que fissura que eu estou! Eu já havia comentado sobre dois deles por aqui, “Oito Mulheres” e “Nathalie X” – e se você quiser ler as publicações, é só clicar no link. Também assisti “De repente num domingo” e…

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Os Belos Dias: Primeiro eu gostaria de deixar claro que a Fanny é aquele tipo de mulher que quanto mais envelhece, mais bonita fica. É impressionante. Difícil acreditar que nesse filme ela ostenta seus 66 anos com tanta leveza e sensualidade. Ontem também assisti uma entrevista dela no programa brasileiro Roda Viva, ela mantém essa pose de ‘mulher fatal’ a entrevista inteira, ela tem uma voz naturalmente grave e uma postura que deixa os jornalistas intimidados.

Bom, a trama de “Os Belos Dias” foi baseada no romance “Une jeune fille aux cheveux blancs’’ (Uma jovem mulher de cabelos brancos) de Fanny Chesne – que participou do filme como roteirista. Ardant interpreta Caroline, uma mulher na casa dos 60 anos, recém aposentada, casada e com filhos. Tentando sobreviver a tristeza de ter perdido uma amiga e ao ócio da aposentadoria, ela se inscreve em um clube de idosos.  De uma maneira linda e espontânea, Caroline acaba se envolvendo com um dos professores do clube e entra em um conflito já que ela é casada e ele é quase trinta a anos mais novo.

OS BELOS DIAS

De alguma maneira, “Os Belos Dias” me lembra o filme chileno “Glória”, protagonizado pela Paulina Garcia. Os dois retratam o envelhecimento feminino com respeito e leveza. Pra falar a verdade, é até engraçado ver a Fanny em certas situações, aquela cena em que ela faz aula de computação e parece não entender o funcionamento da internet, é uma delícia. “Minhas filhas riem de mim quando peço que elas me ensinem a mexer no computador. Queria ver como elas se sairiam na nossa época, ter que usar o fax, estacionar o carro sem direção hidráulica…”

Além de clássica, ela está muito sensual… É encantadora a maneira em que ela consegue mesclar “a mãe de família” e a “mulher predadora”. Me pareceu que Caroline, na altura dos seus 60 anos, estava disposta a viver uma aventura. A se permitir a errar, depois de fazer tudo tão certo. A questão central deixa de ser a idade do amante, ainda que é uma problemática interessante, e passa a ser a releitura de uma velhice que ainda possui uma chama de juventude. É o envelhecer com dignidade. 

A diretora, Marion Vernoux, também conseguiu mostrar com tanta sensibilidade a perspectiva do marido. Difícil não se sentir tocado quando ele começa a perceber as escapadas da esposa e permite que ela se aventure. Não antes de tentar reconquistá-la….