A empresa (A Possessa)

Sempre que posso, gosto de reler Hilda Hilst… sabe, me identifico com o que ela escreve. Não preciso dizer muito sobre (não mais do que já disse) … quem conhece um pouco de sua obra sabe que ela tem uma lucidez e uma narrativa invejável. Dentre os diversos livros que tenho, resolvi reler “A empresa”, uma de suas peças de teatro… Aliás, a primeira que ela escreveu, em 1967.

A trama, que se passa em um colégio de freiras, conta a história de América  – uma jovem criativa, sincera e contestadora que se vê reprimida pelas autoridades do colégio (em especial pelas duas Postulantes e pelo Monsenhor). Hilst não só denuncia a repressão institucional sobre os jovens, mas também chama atenção para o fato de que até os mais criativos podem ter suas ideias massacradas pelo “sistema”.

Na nota, feita pelo professor da Unicamp, Alcir Pécora, há uma observação me pareceu importantíssima: “O teatro completo de Hilda é composto por oito peças escritas  de 1967 a 1969. O fato é significativo, pois se trata de um período no qual o teatro em geral, e em especial o universitário, adquire grande importância no país, tanto por suas significação política de resistência contra a ditadura militar como pela excepcional confiança na criação jovem e espontânea que se alastrava pelo mundo”


TEATRO DA HILDA

América: Eu perguntei como é possível existir a frase “nossa senhora foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto.

Monsenhor: Não nos cabe o julgamento dessas revelações. É preciso ter fé.

América: Mas eu penso.

Monsenhor: Mas a fé não pretende que você deixe de pensar. A fé não pretende que você abdique de sua inteligência.

América: Mas isso não é lógico. Como posso acreditar numa coisa que é absurda? Todo mundo sabe que é impossível ser virgem e dar a luz.

Monsenhor: Há verdades imutáveis

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O caderno rosa de Lori Lamby

lori“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas” (Oscar Wilde)
“E quem olha, se fode” (Lori Lamby)

O caderno rosa de Lori Lamby é, de longe, o meu livro favorito da Hilda Hilst. Em poucas páginas, Hilst consegue assustar, envergonhar, confundir e manipular o leitor de uma maneira simples e direta: utiliza uma linguagem infantil e, assim como as histórias libertinas, se apoia em uma narrativa epistolar e apresenta um personagem inocente que aos poucos vai se corrompendo.

Lori é uma garotinha de oito anos que descreve em seu diário, os encontros sexuais que tem com adultos a mando de seus pais. Ao contrário do convencional, Lori não se sente abusada, ela gosta de se envolver com os homens, sente prazer e adora os presentes que ganha depois dos encontros. Gosta tanto, que os narra no diário e com uma linguagem sensorial, constrói cartas e histórias obscenas.

Fácil entender porque se trata de um livro polêmico e pouco popular, a crítica caiu matando, encararam a história como um registro insensível sobre a pedofilia. E o próprio público também se manifestou negativamente. Hilst conseguiu colocar o leitor em um lugar extremamente desconfortável com uma narrativa erotizada, mas com um narrador 1improvável. O fato é que além do incômodo e controverso, o livro ainda consegue ser cômico.

A menina descreve as tardes em que passa esperando pelo próximo “tio” e narra, com uma inocência enlouquecedora, as taras de cada um deles. Impossível ler essa páginas e passagens tão obscuras, sem pensar no papel da autora, que de certa forma, traz a tona, uma obra moralizante.

O pai de Lori é um escritor que não consegue fazer sucesso com seus livros e passa grande parte da narrativa, se esforçando para criar uma história que atenda aos interesses da editora. Seria a própria Hilda Hilst? Que chegou a reclamar que “Poesia no Brasil não dá dinheiro” e, por isso, resolveu escrever textos obscenos? Difícil saber.

No diário de Lori, existe uma transcrição de uns escritos de um adulto. “O caderno Negro” – Corina, a moça e o jumento, conta uma história erótica, suja e bruta sobre o envolvimento de um homem do interior, com uma ninfeta viciada em sexo. O texto não está ali, atoa, ele dá certos indícios. Alguns críticos e estudiosos da obra de Hilst acreditam que a narrativa de Lori Lamby, na verdade foi escrita pelo pai, que criou o diário, como se fosse uma menina de oito anos para conseguir fazer sucesso. Genial, não?

LoriLamby

“Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram para eu contar do jeito que eu sei. E depois eu falo do começo da história. Agora eu quero falar do moço que veio aqui e que mami me disse agora que não é tão moço, e então eu me deitei na minha caminha que é muito bonita, toda cor de rosa. E mami só pôde comprar essa caminha depois que eu comecei a fazer isso que eu vou contar. Eu deitei com a minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abriras perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse para eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro, mas ele tirou aquela coisona dele, o piupiu, e o piupiu era um piupiu bem grande, do tamanho de uma espiga de milho, mais ou menos. Mami falou que não podia ser assim tão grande, mas ela não viu, e quem sabe o piupiu do papi seja mais pequeno, do tamanho de uma espiga mais pequena, de milho verdinho. Também não sei, porque nunca vi direito o piupiu do papi. O moço pediu pra eu dar um beijinho naquela coisa dele tão dura. Eu comecei a rir um pouquinho só, ele disse que não era para rir nem um só pouquinho, que atrapalhava ele se eu risse, que era pra eu ficar quietinha e lamber o piupiu dele como a gente lambe um sorvete de chocolate ou de creme.”

“Mami me ensinou que a minha coisinha se chama lábios. Ache engraçado porque lábio eu pensei que era a boca da gente, e mami me disse que tem até mais de um lábio lá dentro, foi isso que ela disse quando eu perguntei como era o nome da coisinha. Quem será que inventou isso da gente ser lambida e porque será que é tão gostoso? Eu quero muito que o moço volte. Tudo isso que eu estou não é pra contar pra ninguém porque se eu conto pra outra gente, todas as meninas vão querer ser lambidas e tem umas meninas mais bonitas do que eu, aí os moços vão dar dinheiro pra todas e não vai sobrar dinheiro pra mim, pra eu comprar coisas que eu vejo na televisão e na escola. Aquelas bolsinhas, blusinhas, aqueles tênis e a boneca da Xuxa.”

Um estranho no ninho

tumblr_muc868zieO1rzk6y2o1_500“Um estranho no ninho” é um daqueles filmes que está há anos na minha lista de espera e, não sei porque demorei tanto para assisti-lo. Talvez, continuaria na lista se eu não tivesse visto, outro dia, uma foto da Louise Fletcher recebendo o Oscar em 1976. Procurei um video da premiação e Fletcher agradecia seus pais, surdos-mudos, através da linguagem de sinais. É um momento lindíssimo da premiação e um dos mais emocionantes que eu vi. Finalmente assisti o filme e confesso que diversas cenas ainda estão vivas na memória – não sei se por causa da história, por causa da produção ou por causa da magnifica atuação dos atores…

Considerado um clássico contemporâneo, “One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, conta a história de Randle MacMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro que finge está louco para ser mandado para um hospício (e assim, não precisar trabalhar). Aos poucos, MacMurphy faz amizade com os internos e os estimula a desobedecer as regras impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Fletcher). No entanto, o sistema é muito mais forte do que MacMurphy imagina e ele se vê condicionado a um cotidiano maçante e a terríveis sanções.

Pelo que li, o filme, dirigido por Milos Forman, foi baseado em um livro escrito por Ken Kesey e demorou anos para ser produzido. Diversos empecilhos atrasaram as produções, a começar pelo baixo orçamento e pela dificuldade em encontrar um bom elenco. Forman tinha uma preocupação enorme em fazer com que a narrativa tivesse um aspecto realístico, por isso fez com que os atores passassem por trabalhos de campo. Aliás, as gravações foram realizadas em um hospital de verdade e com pessoas que realmente possuíam problemas mentais.

tumblr_mwtmzulOYH1s4ht91o1_500Dentre as inúmeras críticas, o filme põe em cheque o conceito de loucura e aponta o dedo para as instituições de repressão. [Quando li uma análise do filme, logo me lembrei de uma peça de teatro escrita por Hilda Hilst: “A empresa”. Na obra, Hilst conta a história de América, uma jovem que faz uma criação, mas é desestimulada pelos superiores e acaba não resistindo ao sistema. Algo bem semelhante ao que acontece a MacMurphy. Também me lembrei de Holocausto Brasileiro, escrito por Daniela Arbex]

O anti-herói e um lobo em pele de cordeiro

Jack Nicholson é a grande estrela do filme e encarna um anti-herói de uma maneira tão natural que é difícil resistir ao efeito catártico, difícil não se colocar no lugar dele ou não torcer para o sucesso de suas “aventuras”. É um personagem espirituoso, que dá vida ao hospital e aos internos. Forman sustenta a trama criando situações  sensacionais (como o passeio de barco) que nos convidam a gostar dos pacientes (por sinal, dois deles interpretados por ninguém mais, ninguém menos que Christopher Lloyd e Danny DeVito).

tumbjacklr_n6eooqo0AN1rmxg04o1_400Não é difícil entender o porque a enfermeira Ratched foi um personagem tão marcante na história do cinema e é curioso pensar que o papel foi recusado por grande atrizes como Jande Fonda, Anne Brancroft, Ellen Burstyn e Faye Dunaway. Em uma entrevista, Louise Fletcher chegou a dizer que sempre via os outros atores se divertindo nos bastidores e que estava tão cansada de tentar manter as características “pesadas” da enfermeira, que decidiu passear nua nos sets de filmagem. Ela também disse que o personagem estava tão incrustado, que sem perceber, dava ordens a equipe de gravação.Um estranho no ninho

Ratched é um personagem que chama atenção por ser fisicamente graciosa, uma mulher linda, mas detestável. Os produtores não queriam que fosse uma mulher que, de imediato, causasse repulsa. Por isso construíram um personagem que se portava bem, que falava baixo… mas que não tinha bons valores ou consideração pelos internos. Aliás, o cabelo e aqueles rolinhos (meio “Malévola) foram intencionais e mostram, também através do cuidado com o uniforme, que era uma mulher conservadora.

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A obscena senhora D

Quem acompanha o La Amora sabe que eu sou alucinada com a Hilda Hilst. Desde que entrei na faculdade e fui apresentada a autora, comecei a ler e pesquisar sobre ela como louca. Hilst (1960-2004) é única, possui uma linguagem complexa, densa e contemporânea. Famosa por ser “belíssima” na juventude (e, inclusive, ser uma das grandes paixões de Carlos Drummond de Andrade), Hilda completou a faculdade de direito, mas não seguiu a profissão: preferiu dedicar-se a escrita e assim o fez, lançou seu primeiro livro aos vinte e três anos.

Mudou-se para a Casa do Sol em 1963 e lá estabeleceu uma rotina de escrever todos os dias pela manhã (e poesia a qualquer hora). Por muito tempo a autora foi alvo de críticas e viu-se envolvida em polêmicas, em entrevista, por exemplo, afirmou que fazia contato com alienígenas e com mortos em sua residência. Hilst, que dedicou a sua vida a literatura, reclamava da falta de leitores, os críticos taxaram sua obra como “de difícil compreensão”. Hilda afirmou:“fico besta quando me entendem”.

Como todo e qualquer autor, Hilda queria ser lida. Queria superar o círculo de admiradores que já conheciam a sua obra e se chateava por não conseguir estabelecer uma relação com os seus leitores. “E então eu falei: quer saber? Não vou escrever mais nada de importante. Falam sempre aquelas coisas, que eu sou uma tábua etrusca, que eu sou hieróglifo, não sei o que”. Foi assim que começou a escrever textos obscenos (eróticos/pornográficos não! obscenos), daí cria a trilogia obscena composta por: “O caderno Rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio: textos grotescos ” e “Cartas de um sedutor” onde abordava vários assuntos pesados como homossexualidade e pedofilia.

Para a sua decepção, seus livros continuaram “não lidos”. E pior, foi devorada pela crítica, estraçalhada por uma sociedade conservadora e hipócrita, as editoras a abandonaram – se negavam a publicá-la…

ImagemMas, vamos ao livro. “A obscena senhora D” foi lançado em 1982 (antes de trilogia).  A obra conta a história de Hillé, uma senhora na casa dos sessenta anos que, após a morte do marido (Ehud) enlouqueceu completamente e passou a morar no vão da escada. A narrativa compõe-se justamente do seu fluxo de consciência, é escrito em primeira pessoa e não possui uma sequência lógica. Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece. A velha senhora passa a se questionar sobre diversas coisas, pergunta-se sobre o passado, sobre a vida, sobre o amor, a dor e a morte.

O mais interessante é que Hillé não é a única narradora, ao longo do livro, outras “vozes” aparecem e dialogam com ela. E Hilst é simplesmente brilhante no que faz, afinal, o leitor consegue diferenciar os personagens facilmente. Às vezes ela conversa com Ehud, às vezes com os vizinhos (em um momento, por exemplo, ma vizinha pede que Hillé pare de aparecer nua na janela e pare de assustar as criancinhas). Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece.

Mas, por quê senhora D? Logo no inicinho do livro ela explica o apelido que recebeu do marido: “D de derrelição, desamparo, abandono”. Assim, ela possui uma dupla personalidade, é Hillé e Senhora D ao mesmo tempo. Diversas vezes Hillé é chamada de porca pelos vizinhos e quem tenta ajudá-la recebe palavrões e xingamentos (em um momento do livro, tentam exorcizá-la!).

Assim como na maioria dos seus outros livros, em “A obscena senhora D” Hilda Hilst traz questionamentos existencialistas, analisa a relação do homem com Deus e se pergunta sobre a morte. Segundo a tese de mestrado da Cinara Leite Guimarães, esse foi um dos livros de Hilst com tradução para o francês e também é considerado um dos textos mais importantes e complexos produzidos pela autora. A autora também afirma que Hilda possuiu um grande envolvimento com o livro e com o personagem. Seu pai era escritor, não deixou uma obra marcante e acabou os seus dias em um hospício (em parte, Hilda se inspirou nele).

Referências: A obscena senhora D, de Hilda Hislt, e as relações entre Eros, Tânatos e Logos, Cinara Leite Guimarães, Universidade Federal da Paraíba, 2007.

Desvios

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Torto de coração e de alma.

Sujeito à tentação de ser.

Triste pela ausência.

Imutável pela essência.

Nasceu assim, grandes olhos [grandes e com desvios]

 

Tão gauche quanto Carlos Drummond,

passou a juventude com vontade de ir

e com medo de não conseguir voltar.

 

Envergonhou-se de sí mesmo.

Fingia não ser.

Escondia seu grande defeito.

Debaixo dos óculos escuros via a vida em preto e branco [torto e triste].

 

Tão obsceno quanto Hilda Hilst, queria uma amante.

Ganhou um copo cheio de uísque.

Bebeu, caiu e ainda torto, viu o mundo por outro ângulo.

 

Grande e inocente [tão inocente que até bobo]

Sufocou-se em palavras

Morreu só, engasgado e torto.

No bolso um bilhete:

 

“Drummond escreveu cartas de amor a Hilda.

Hilda nunca respondeu”

Por Thais dos Reis

Delicatessen

(Hilda Hilst)

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, ”tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua ”ídala”, mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: ”pé-de-porco”. Não entendi. Como? ”Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também”. Ahn… interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: ”O que aconteceu com seus gatos?” Resposta: ”Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu”. Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que ”bife” era uma coisa para as classes mais baixas, ”de um mau gosto terrível”, ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia… Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas… Perguntei: ”E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?” Resposta: ”Tive de matá-los”. ”Mas por quê?!” Resposta: ”Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos”. ”Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?” Olhou-me aparvalhado: ”Mas onde? Pra quem?” ”E como você os matou?” ”A pauladas”, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

A RAINHA CARECA

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Hilda Hilst


De cabeleira farta
de rígidas ombreiras
de elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co’a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia…
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó Senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pêlos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
UI! UI! UI! gemeu Ula
De felicidade
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidente que aos poucos
Despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.

Moral da estória:
Se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.


Os versos acima foram extraídos do livro “Bufólicas”, Editora Globo – São Paulo, 2002, pág. 15, que conta com ilustrações magníficas de Jaguar.