Isabelle Huppert: Une vie pour jouer

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Certas coisas não mudam por aqui, é impressionante que mesmo depois de quatro anos com o blog no ar, eu ainda escreva sobre os mesmos temas. Ontem tive a felicidade de assistir o documentário Une vie pour jouer, sobre a carreira de Isabelle Huppert. Eu morria de vontade de assistí-lo e passei longos anos procurando por ele. O filme mostra os bastidores da vida da atriz, sua agenda corrida, sua preparação para entrar no palco, conta com alguns depoimentos e vídeos caseiros. Serge Toubiana, o diretor, acompanhou os passos de Isabelle durante um ano (época em que ela gravava A teia de chocolate de Claude Chabrol, A Professora de Piano de Michael Haneke e encenava a peça Medea Miracle). Confesso que esperava um pouco mais desse documentário, mas gostei muito das entrevistas em que ela fala sobre sua juventude e experiências. Ainda que conhecida como uma atriz “fria”, Isabelle me surpreende por sua intensidade e autoridade ao atuar.Para quem também gosta do trabalho dela, este post fica como sugestão… o documentário possui momentos bem interessantes sobre os bastidores dos filmes que ela fazia na época e umas lindas imagens da infância da atriz.

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Uma relação delicada

Assisti mais um filme da Isabelle Huppert e fiquei, mais uma vez, encantada com a competência dessa atriz. Digo competência porque ela me parece muito segura e entendida do que quer fazer e do que é preciso ser feito. Admiro muito o artista que abre mão da beleza e do glamour para representar um personagem. Como a Bette Davis, por exemplo, que quando jovem e no auge da carreira, raspou os cabelos para interpretar a Rainha Elizabeth I. Huppert faz isso neste filme, lança-se corajosamente a interpretar uma cineasta que sofreu um AVC e ficou com sequelas na fala, no caminhar…

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Numa mistura de autobiografia e metalinguagem, o filme conta a história de Maude, uma cineasta que sofre uma hemorragia cerebral e fica com severas limitações físicas. Em busca de restabelecer a carreira e a vida pessoal, Maude mergulha em um projeto televisivo e acaba se relacionando com um dos atores, mas sofre pelo relacionamento extremamente abusivo, que a deixa em situação de ruína financeira.

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Li inúmeras críticas do filme e concordo com as que dizem que apesar da presença da Huppert e de sua interpretação intensa, o filme passa despercebido por apresentar personagens antagonistas pouco desenvolvidos e por ter uma abordagem superficial de certos acontecimentos. Como um pequeno quebra-cabeça, Catherine Breillat (a diretora) vai nos indicando certos fatos, sem trabalhá-los muito, apenas com poucas pinceladas. E logo, estamos em outra cena, em uma situação bem diferente.[É isso…talvez esse espaçamento seja um problema. Eu não sei, conheço muito pouco do trabalho da Breillat, mas acredito que esse tipo de narrativa possa ser uma de suas marcas.]

No filme, Viko, o personagem com que Maude se relaciona é odioso do começo ao fim e é realmente difícil e incômoda a maneira com que ela vai liberando seu dinheiro, ainda que ele a trate super mal. Há uma dor no personagem que não é dita explicitamente, só se percebe nos pequenos detalhes, na baixa auto-estima, no medo de não conseguir voltar a ser quem era.  Ao mesmo tempo, é uma mulher que busca forças para continuar vivendo, sobrevivendo e existindo.

Bom… eu gostei do filme, mas esperava mais. Você já assistiu? Me conta aí o que achou!

O vale do amor

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Tô em falta com a Isabelle Huppert, foram lançados muitos filmes novos com ela e eu não assisti. Hoje baixei “O vale do amor”, filme de 2015, dirigido por Guillaume Nicloux (também diretor em “A Religiosa” e em “Sozinho contra todos”). O filme fala sobre reencontro, arrependimento e morte… é bem levinho, ainda que tenha temas tão complexos. Boas interpretações, um lindo cenário, uma boa trama… mas nada tão marcante que faça deste filme algo inesquecível.

Isabelle (interpretada por Huppert) e Gerard (interpretado por Gerard Depardieu) se reencontram depois de sete anos em um lugar chamado “O vale da morte”. O encontro foi provocado pelo filho do casal, que se suicidou. Em uma carta, ele solicita que os pais visitem alguns lugares específicos, para que ele possa voltar (mesmo que por pequenos instantes). O estranhamento entre o casal se dá logo no início, além das trocas de acusações há muita culpa e ressentimento envolvido.

O filme é fundamentalmente diálogo, é através da conversa dos dois que descobrimos como se deu o suicídio do garoto e os possíveis motivos. Era gay, foi abandonado pela mãe ainda criança e deixado em um internato pelo pai, ou seja, totalmente negligenciado. Enquanto isso, os pais continuaram a vida… o pai trabalhando, a mãe se casou novamente e teve outros filhos.

Achei muito legal o trabalho de metalinguagem, o fato dos personagens terem o mesmo nome dos atores e de serem atores, impossível não fazer uma ligação com a realidade, e também quase impossível não relembrar os filmes em Isabelle e Gerard trabalharam juntos.

A trama é envolvente, tem um certo suspense e até um humor (muito sutil), fiquei tentando desvendar alguns possíveis indícios da volta do garoto (como o cachorro correndo no deserto e as manchas na perna de Isabelle), ao mesmo tempo em que esses indícios possuem um tom espiritual, leva-se em conta de que os personagens estavam em lugar muito quente (que chegava a 60 graus) , o que provocaria possíveis alucinações.

Meu caso de amor com Oito Mulheres

8-women-toutesRever “Oito Mulheres” é relembrar os meus quinze anos, da minha antiga rotina de sair do colégio e ir direto para a locadora e ficar horas escolhendo filmes para levar para casa. Da época em que eu ficava cantando as músicas do filme na sala de aula, e fingindo falar francês… É, eu tenho uma antiga história de amor com Oito Mulheres, do Ozon. Foi ele que me apresentou ao cinema francês e às que, ainda hoje, estão as minhas atrizes favoritas: Catherine Deneuve, Isabelle Huppert e Fanny Ardant.

2002, 8 FEMMES / 8 WOMENComentei, numa publicação recente, que um antigo vício voltou com tudo. Esse vício se chama Fanny Ardant. Acho que não só por causa da visita da Jéssica, mas também por causa da exposição do François Truffaut que vimos no Museu de Imagem e Som (MIS), aqui em São Paulo. É como se eu tivesse levado um tapa, um choque…. como se a ficha tivesse caído e finalmente eu tivesse convencido que ainda falta muitos filmes da Fanny para assistir  – e que ainda me falta muito de cinema para conhecer e estudar. Talvez o meu problema seja ser tão viciada… eu sou como aquelas crianças que assistem o mesmo filme dez vezes, que nunca se cansam. Com Oito Mulheres foi assim, essa semana já assisti duas vezes.

Já escrevi sobre esse filme por aqui, o texto é uma reprodução de um trabalho acadêmico que fiz quando ainda estudava Jornalismo. O professor tinha pedido para escrever um artigo relacionando um assunto a escolha ao livro “O que é Semiótica” da Lúcia Santaella. Então escolhi Oito Mulheres…

Mas é que, rever esse filme é despertar uma antiga admiração, é lembrar de um tempo bom e de ganhar novas perspectivas. Para quem nunca viu o filme, uma breve sinopse: Oito Mulheres estão presas em uma mansão por causa de uma tempestade de neve. Nesse meio tempo acontece um assassinato e todas elas são suspeitas. Enquanto confinadas, elas são levadas à revelar seus segredos obscuros. O filme foi produzido em 2002 e é baseado em uma peça escrita por Robert Thomas.

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Quando você revê o filme, você finalmente entende todas aquelas trocas de olhares e sabe localizar tudo o que não é dito explicitamente. Aquela tensão entre elas, a disputa, o mistério, a década…. que delícia de filme. E as personagens, cada uma em sua complexidade entram em conflito pela diferença de idade, de cultura, de classe social, de orientação sexual. É impossível não ficar vidrado nessa mistura e nesse jogo de interesses.

Vi uma entrevista ontem em que o Ozon (na época com 34 anos), disse que se sentiu extremamente pressionado porque estava trabalhando com grandes nomes do cinema e que existiam algumas brigas de ego nos bastidores, por isso, ele precisou de ter muito cuidado ao selecionar cada cena, sem privilegiar ninguém.

Fanny e Deneuve juntas, meu Deus, é muito para o meu pequeno coração. Elas sãotumblr_mcrnkrev8a1rxvqfko1_1280 majestosas e é difícil escolher para quem olhar. No fundo eu acho que a Deneuve é mais bela, mas a Fanny é mais sensual. Não sei explicar… E Huppert, caramba! Como ela está engraçada nesse filme, nem parece com a “rainha do gelo” que estamos acostumados a ver em tela… e a Danielle Darrieux, AH! ❤ (preciso assistir mais filmes dela também, tem o tão famosos Cinco Dedos, que eu nunca vi!).

Tempos do Lobo

loboAssisti “Tempos do Lobo” naquela época em que eu tinha uma fissura pela Isabelle Huppert, quando fazia listas dos seus filmes e passava a madrugada lendo suas entrevistas. Este longa, produzido em 2002, é um dos frutos da parceria de Huppert com Michael Haneke (que também dirigiu Amour e A Professora de Piano). A trama conta a história de um casal que decide se refugiar na sua casa de campo após a cidade onde moram ser atingida por um desastre. Ficam sem comida, sem água, muitas pessoas morrem e então, eles não veem outra alternativa a não ser se mudar. Quando chegam, descobrem que a casa foi ocupada por estranhos.  O mais interessante é que Haneke não tem interesse algum em retratar o desastre, mas os efeitos desse desastre sobre as pessoas.

A Isabelle Huppert é bem conhecida por retratar seus personagens com frieza, alguns a chamam de “rainha do gelo”. E aqui não poderia ser diferente, ela está super centrada e pouco emotiva. Na trama ela interpreta Anne Laurent, a matriarca. Depois de um infeliz acontecimento a família se vê encurralada, numa sociedade completamente animalesca e desestruturada, a única opção que eles possuem é tentar se safar, de uma maneira violenta… ou não.

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Esse filme me incomodou muito mais do que “A professora de piano”, onde ela interpreta uma mulher masoquista, assombrada por suas fantasias sexuais. É que aqui, tudo me parece muito mais cruel. Aliás… a história me lembrou muito “Ensaio sobre a Cegueira”.  Em resumo, as duas obras tratam da tentativa de sobrevivência diante de uma situação inesperada. É o homem se tornando bicho. É a dominação de um grupo sobre o outro.

Lembro que existiu uma grande polêmica envolvendo o filme.  Em determinada cena, alguns cavalos são mortos. Acontece que os cavalos realmente foram assassinados, só para fazer a cena. E tem também a cena em que a Huppert é estuprada, bem perto dos filhos… uma cena muito TENSA! Sabe, eu gosto muito do Haneke… não sou entendedora de cinema, mas posso dizer sem pestanejar que ele é um dos meus diretores favoritos. Ele também dirigiu Amour, Violência Gratuita e Caché.

A Religiosa

Outro dia, relendo algumas páginas do livro ‘A Religiosa’, me lembrei que nunca cheguei a mencionar que assisti o mais recente filme, aquele com a Isabelle Huppert, baseado no romance de Diderot. Para quem tem interesse no livro, talvez possa gostar de uma antiga publicação que fiz: era para ser um pequeno resumo, mas como sempre, acabei me empolgando demais.

A religiosa

A Religiosa relata a história da Irmã Suzanne, uma jovem que teve que se tornar freira depois da imposição de seus pais (especialmente por parte da mãe – e há uma justificativa para isso). No primeiro convento em que passa, Suzanne é brutalmente torturada pela Madre Superiora Christine, uma mulher que acredita que a absolvição dos pecados deve ser feita através da mutilação da própria carne. Depois de sofrer inúmeras violências físicas e psicológicas, ela consegue (com ajuda de um advogado) mudar para outro convento. Dessa vez recebe um tratamento mais carinhoso e atencioso, mas logo percebe as investidas e os assédios sexuais de sua superior.

religiosa02Diderot faz uma clara crítica ao clero, baseando-se em uma história real, em que uma freira escreveu uma carta, quase em forma de súplica, solicitando a sua liberação do convento. Não se sabe exatamente qual foi o seu fim, mas há quem diga que, diferente da personagem fictícia, nunca conseguiu sair de lá. Em relação à Madre Superiora Christine, aquela que obrigava as freiras se flagelarem, o autor chegou a confessar que criou o personagem inspirado em mulheres que conheceu e que seguiram a vida religiosa, mesmo sem nenhuma vocação, essas conseguiam cargos altos nos conventos porque eram ricas e tinham dotes.

No filme, dirigido por Guillaume Nicloux, a violência física é muito evidente e inquietante. Pauline Etienne encara uma Suzanne etérea, séria e corajosa, dá gosto de vê-la trabalhando. Sem dúvidas, A Religiosa ganha ainda mais brilho quando aparece Isabelle Huppert, encarando um personagem diferente de tudo o que eu já a vi interpretar. Aqui ela dá vida a uma Madre Superiora, já na meia idade, que não consegue segurar a sua paixão e seus desejos por Suzanne – ou por outras noviças. Quando percebe que Suzanne não pretende retribuir seus carinhos, entra em uma profunda depressão que compromete diretamente o funcionamento do convento.

A religiosa

No livro, diferente do que é mostrado no filme, a irmã Suzanne chega a se envolver com a Madre, retribui os seus beijos e carinhos – inclusive, relata que chegou ao orgasmo através dela. No entanto, Diderot constrói um personagem tão bom e inocente, que ela faz tudo isso, sem saber que está sendo induzida ao pecado (digamos…).

O fim do filme e do livro também são diferentes (spoiler!). No filme Suzanne consegue fugir, encontra seu verdadeiro pai e herda dele uma fortuna. No livro, no entanto, ela também consegue fugir, mas começa a trabalhar como cozinheira em um lugar que a fazem praticamente de escrava, então ela resolve escrever, pedindo para que a ajudem sair da miséria.

*Existe um outro filme, gravado em 1966, baseado na história. Esse eu nunca vi, mas se você quiser saber mais um pouco acesse: 70 Anos de Cinema.

A professora de piano

Comentei aqui no La Amora sobre “O Clube do filme”, livro escrito por David Gilmour. A história foi baseada na vida do próprio autor e conta como ele deixou seu filho de quinze anos (que não gostava de estudar) abandonar o colégio. Em troca, Gilmour exigia que seu filho assistisse semanalmente clássicos do cinema. Em um certo momento da narrativa, o autor afirma que existem filmes tão especiais que não importa o quanto são revistos, eles sempre serão marcantes em qualquer período da vida.

Se existe um filme que marcou a minha vida, seu nome é ‘A Professora de Piano, do Michael Haneke. Pode parecer estranho, porque a historia é pesada e envolve uma dolorosa trama de compulsão sexual. O assisti aos 15 anos, ainda no período do colégio. Fiquei em choque. Nunca tinha assistido nada daquilo, nada tão perturbador. Outro dia me encontrei com duas amigas da escola e elas diziam que na época eu não parava de falar no filme. Foi com ele que conheci Isabelle Huppert e foi com ele que conheci Haneke, uma longa história de amor – que dura até hoje.

ImagemProduzido em 2000, o filme conta a história de Erika Kohut, uma mulher de quarenta anos, que mora com a mãe, não bebe, não fuma, não usa roupas chamativas, é conservadora e muito séria. Em grande parte de seu tempo, Erika ministra aulas de piano no Conservatório de Viena. O que há de errado com ela? Quando não está em casa ou dando aula, Erika passa seu tempo frequentando cines pornôs, peep-shows e gosta de se autoflagelar.

Um dia Erika começa a dar aulas a Walter Klemmer (Benoît Magimel), um jovem bonito e bem humorado que chama sua atenção e logo se apaixona por ela. Os dois começam a se relacionar, mas Erika perde as estribeiras e propõe jogos sexuais perversos que deixam Walter indeciso e confuso.

Quando o prazer se transforma em sofrimento

La-Pianiste-7771Antes de ser um filme sobre masoquismo ou repressão sexual, “A Professora de Piano” é um retrato dramático sobre uma relação sufocante entre mãe e filha e ilustra perfeitamente a importância da figura materna (e também paterna, é claro) no desenvolvimento psíquico e social humano. Erika possui amor e ódio pela mãe e isso fica claro logo nas primeiras cenas. Em certo momento do filme, a mãe da pianista controla seu salário e determina com o quê ela pode gastá-lo. Erika começa a puxar os cabelos da mãe e só depois se dá conta do que fez, arrepende-se e em lágrimas, pede desculpa. Não é difícil relacionar o filme de Haneke a Sonata de Outono, dirigido por Bergman em 1978. No filme, Ingrid Bergman interpreta Charlote, uma pianista famosa com sérios problemas de relacionamento com as filhas: Eva (Liv Ullmann) e Helena (Lena Nyman). Especialmente com Eva, com quem alimenta um doentio jogo de disputa, de arrogância – de amor e ódio.

Uma das cenas mais chocantes em ‘A professora de piano se passa no momento em que Erika, no auge da sua loucura e sofrimento, deita-se com a mãe e tenta transar com ela. Poucos espectadores reparam nesse detalhe, mas a cena se passa logo depois que Erika imagesdescobre o falecimento do pai. Há muitas interpretações para a cena, mas a que me pareceu mais interessante é a ideia de que Erika, naquele momento, queria assumir o papel da figura paterna, transar com a mãe e voltar para o único lugar onde se sentiu segura: o útero materno.

Quando Erika conhece Walter ela se depara com algo absolutamente novo: a oportunidade de ser livre, a possibilidade de revelar seus segredos mais profundos. Desde o início da trama é possível perceber que seus desejos sexuais  a corroem, a tornam presidiária. Essa situação é muito semelhante ao que é ilustrado em ‘A Ninfomaníaca de Lars Von Trier, que conta a história de Joe, uma mulher viciada em sexo. Assim como Joe, Erika é insaciável, mas ao invés de ter prazer, ela sofre. – Leia o texto escrito por Mario e Diana Corso, uma análise do filme Ninfomaníaca que discute a diferença entre erotismo e pornografia, vale a pena!

83210925_oOutro momento fundamental da trama é quando Walter vai até a casa de Erika e lê, em voz alta, a carta que ela o enviou onde descreve em minúcias o que quer que Walter faça: “Bata no meu rosto, bata forte. E mesmo se eu gritar por ajuda, não pare”. Erika, de joelhos, mostra seus brinquedos sexuais escondidos debaixo da cama: ela se revela, não há mais nada para esconder. É uma ruptura, Erika agora esta sozinha. Ao mesmo tempo, ela passa a bomba para Walter: a partir daí ele sabe o seu segredo, é hora de decidir se irá aceitá-lo ou não. Aliás, será que Erika realmente deseja por aquilo?

A alma de Erika está em Elfriede Jelinek e em  Isabelle Huppert

O filme foi baseado no romance da escritora austríaca Elfriede Jelinek, publicado em 1983 e vencedor do premio Nobel de literatura. O livro chegou no Brasil um pouco tarde, apenas em 2011. Polêmico. Foi recebido com estranheza pelo público e pela crítica, Jelinek ficou anos sem falar sobre a sua obra. De acordo com o texto escrito por Silvia Velloso Rocha e publicado no Globo, há várias interpretações políticas sobre ‘A Pianista que perpassam o feminismo, a xenofobia e o preconceito de classes.

Elfriede Jelinek

Elfriede Jelinek

Em relação ao filme existem diversos aspectos técnicos que chamam atenção, não é atoa que ele tenha se tornado o grande vencedor no Festival de Cannes em 2001, repleto de detalhes, com uma trilha sonora sensacional e atuações brilhantes. Li, em várias críticas, que o filme é  ‘lento demais. Vamos lembrar que essa não é uma produção americana, não há pressa nem uma explosão de clímax.

Um momento genial no filme se passa quando Haneke filma o rosto de Huppert, em close, nessa cena Erika vê Walter ensinando outra garota a tocar piano: ela está possessa, morta de ciúmes, mas não deixa o sentimento se esvair, continua lá, fixa, imóvel, fria. É exatamente nesses detalhes que o filme de Haneke se torna incrível, aliás, essa é uma de suas marcas. Haneke respeita os pequenos momentos, ele não tem pressa. Huppert corresponde muito bem a expectativa, sua interpretação não é exagerada e ainda assim conseguimos sentir todo o drama do personagem, incrível o que ela faz, incrível como ela se constrói.

Em ‘A professora de Piano, Annie Girardot também rouba a cena quando aparece. Difícil definir a sensação que ela passa em tela, aquela figura pequena, já idosa, dócil e ao mesmo tempo, odiável. Girardot e Huppert, as duas possuem uma química invejável, atuam com naturalidade, ali são realmente mãe e filha.

Lost Crossing

 Não tinha planejado essa publicação e também não queria remendar o último post que fiz sobre The Walking Dead, mas acabo de descobrir que a Melissa Mcbride me segue no Twitter e isso me deixou bastante entusiasmada. Como disse anteriormente, estou encantada pela atriz e por seus cabelos curtos. Em 2007, Melissa participou de um média-metragem chamado “Lost Crossing” – algo como: Viagem perdida ou Travessia perdida. O filme, produzido pela BlueLantern Films tem  trinta e três minutos e possui uma trama bem interessante.

Marie (Carrie-Rose Menocal) é uma menina de quinze anos que fugiu de casa. O ônibus em que se encontra quebra e ela se vê obrigada a esperar o concerto. Nesse meio tempo, a garota conhece outra passageira: Sheila (Mcbride) que sugere que as duas dividem um quarto de hotel até conseguirem seguir viagem. Inicialmente, elas constroem uma relação amistosa, até que Sheila revela um antigo segredo e começa a demonstrar um comportamento obsessivo.

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É estranho, mas esse pequeno filme de apenas trinta minutos me remeteu a tantas coisas, a tantas músicas, livros e personagens que eu acho que poderia ficar até amanhã escrevendo sobre ele. Primeiro porque a Melissa Mcbride está fantástica, ela carrega o filme nas costas e possui uma interpretação muito densa. Segundo porque o tema, apesar de uma rápida abordagem do filme, abre caminho para discussões mais profundas.

Marie e Sheila vão a um supermercado e um homem com quem tinham se desentendido anteriormente as ameaça. Sheila bate em si mesma e ele afirma: “Você é uma vadia louca!” e Sheila responde: “Eu te disse!”.  Há algo que nós é confidenciado nesse instante. Não só pela cena, pelo diálogo, mas pela trilha sonora. Depois de jogarem boliche, Sheila diz a Marie que compreende o porquê ela fugiu de casa e diz que passou pela mesma coisa, que sofreu abusos sexuais do pai quando tinha doze anos e que a mãe foi relapsa.

Quando Marie descobre um remédio controlado na bolsa de Sheila e percebe onde se meteu, ela tenta ir embora, mas já é tarde. E é aí que Melissa Mcbride se transforma (na cena seguinte em que Sheila não encontra seus remédios) ela aparece com os olhos manchados de maquiagem, com uma feição inquieta, assustadora. [Eu não sou nenhuma estudiosa de comportamentos ou de doenças mentais, mas acho que impressionante o preconceito – e a falta de conhecimento que existe sobre o tema.] Marie encontra uma foto antiga de Sheila com a filha e a imagem é até um pouco perturbadora: Onde está essa menina? O que aconteceu com ela?

Quando Sheila senta na cama e não consegue se mover, de tanto chorar, senti a aflição daquela mulher que tenta cuidar de uma criança, quando não consegue cuidar nem de si mesma. É como se ela se perguntasse: “O quê estou fazendo comigo”? Quem sou eu? Por que eu sou assim? ’ Depois eu fiquei me questionando, será que eu estou viajando demais? Isso se deu em apenas uma cena e a personagem sequer falou alguma coisa. Acabei me lembrando de um texto que li a poucos dias do Ricardo Costa onde ele diz o seguinte:

“Na narrativa, vazios e silêncios são signos, em elipse, de sentidos harmônicos. Fazem parte da música da imagem, mesmo quando se fala de cinema mudo. Há de fato silêncios que falam, tal como os vazios criados numa sequência de imagens. Neles vibram, como numa caixa de ressonância, sonoridades e sentidos de determinadas palavras, neles reverberam sinais e formas de certas imagens. Imagens ou palavras articuladas são o fio que nos conduz. Os silêncios que elas criam são o leito que nos embala. De uma maneira ou de outra, um filme é sempre quadro de melodia, filme mudo e partitura.”

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Sheila começa a se aproximar da garota e há algo até “sexual” entre elas, como se Sheila estivesse atraída pela menina. Marie promete não abandonar Sheila, mas assim que ela adormece a garota vai embora. Sheila se vê sozinha novamente e enquanto está sentada em uma estação, repara em uma pequena menininha. Sheila nunca vai parar. Ela se vê naquelas garotas, é como se fosse um reflexo do que ela foi quando pequena. Ao mesmo tempo ela tem um instinto, como se precisasse protegê-las, como se não pudesse ficar sozinha e provavelmente lembra da filha – que deve ter morrido ou algo do tipo.

A personagem de Melissa me lembrou muito, muito mesmo “Atração Fatal” e logo  me remeteu a Alex Forrest. No filme (de 1987) Glenn interpreta uma executiva emocionalmente desequilibrada que começa a ter um caso com um homem casado (interpretado por Michael Douglas) e que faz de tudo para participar da vida dele: custe o que custar. O que era para ser um caso extraconjugal qualquer acaba se tornando um pesadelo, Alex persegue a mulher do cara, sequestra a filha dele e provoca situações que se tornaram antológicas no cinema americano– Esse é um filme muito bacana e eu espero poder escrever sobre ele no LA AMORA  um dia.

Glenn Close

Sou apaixonada com esse filme e me lembro de ter assistido em um dos extras do DVD uma entrevista em que a Glenn Close dizia que não se sentiu a vontade com o final da personagem. Em principio, Alex cometeria suicídio, mas parece que a ideia não agradou ao público e ela acaba sendo assassinada. Na entrevista Glenn passa bastante tempo discutindo a possibilidade de  que Alex tenha sofrido abusos sexuais quando criança.

Glenn é praticamente uma militante e há muito anos luta contra os estigmas sobre as doenças mentais – ela possui uma fundação chamada “Bring Change 2 Mind”, participa de inúmeras palestras, projetos de incentivo à informação e tem como exemplo a própria família que durante gerações apresentaram doenças mentais como bipolaridade e esquizofrenia. (Leia mais sobre o trabalho dela nesse link: Nucleo Tavola)

Como disse, o filme me remeteu a outros personagens e esses três são especiais – ficam como dica para quem se interessou no assunto e gosta do tema:

* Louca Obsessão é outro clássico do cinema americano. Produzido em 1990, o filme – baseado em um livro de Stephen King – conta a história de Paul Sheldon, um escritor que sofre um acidente de carro e é socorrido pela enfermeira Annie (Kathy Bates) que diz ser sua fã numero um. Annie cuida de Paul e em agradecimento, ele permite que ela leia seu último livro (que se não me engano, ainda não tinha sido lançado) onde a personagem principal – e favorita de Annie – morre. A enfermeira vai a loucura, fica revoltada e tenta se vingar do escritor.

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* A professora de piano é um filme de 2000, dirigido por Michael Haneke – só pra constar, sou alucinada nele! A trama conta a historia de Erika Kohut (Isabelle Huppert) uma professora que trabalha no Conservatório de Viena. Ela possui um comportamento ortodoxo e aos quarenta anos, ainda vive com a mãe (Annie Girardot). Quando não está dando aulas, Érika gosta de frequentar cinemas pornôs e peep-shows. Ela conhece Walter Klemmer (Benoit Magimel) e acaba se relacionando com ele, mas o envolvimento dos dois sai do controle quando Erika começa a sugerir jogos sádicos e perversos.

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* Uma Rua Chamada Pecado: Clássico, clássico, clássico de 1951 – baseado na obra de  Tenesse Williams. O filme conta a história de Blanche Dubois  (Vivien Leigh), uma mulher neurótica que vai visitar a sua irmã grávida Stela (Kim Hunter) em Nova Orleans e acaba não se entendendo com o cunhado Stanley Kowalski (Marlon Brando), um homem com comportamento questionável e abusivo que lhe causa repulsa.  – Ok, esse resumo está pessimo, o filme é muito, MUITO mais do que isso!

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Bom, eu sei que eu me alonguei muito nessa publicação, mas não consegui resistir. O curta é muito interessante e por sorte, ele está disponível na internet. Deixo o link do vídeo de “Lost Crossing” abaixo: