Um rosto de mulher

Joan CrawfordOntem dormi de madrugada, fiquei assistindo um filme com a Joan Crawford chamado “Um rosto de mulher”, dirigido por George Cukor. Sempre quis assistí-lo, mas nunca achava… até que a Jéssica me apresentou o Memo Cine, um site encantador e super indicado para quem gosta de filmes clássicos.

“Ah como a Joan era linda”, é o que eu penso toda a vez que assisto um de seus filmes. Gente, ela era linda demais! A década de 40 é a minha preferida, ela está estonteante.  Em “Um rosto de mulher”, que é de 1941, ela tirou o meu fôlego…

Na trama, Joan interpreta Anna Holm, proprietária de um restaurante que exerce chantagem sobre alguns de seus clientes. É uma mulher fria e solitária, que se esconde atrás de uma cicatriz. O fato é que, no fundo, ela possui baixa-autoestima e se defende ao incorporar uma personalidade agressiva e vingativa. Em uma de suas tentativas de chantagem, Anna acaba seJoancrawford encontrando com um cirurgião plástico que se oferece para corrigir sua deformidade, e após esse momento, ela precisa fazer uma escolha: continuar sendo uma mulher com valores desprezíveis ou começar uma vida nova. 

Joan está tão sombria, tão séria… e a trama nos apresenta uma problemática psicológica que faz com que o filme pareça mais denso. O fato é que a cicatriz possui uma ligação metafórica com sua personalidade e com seus valores, somos estimulados a descobrir se ela é tão feia “internamente” quanto “externamente”. Mas, os personagens que a rodeiam são tão desprezíveis quanto ela, desde os empregados que a ajudam em seus crimes e debocham de seu rosto, quanto os clientes… um falso milionário que não paga suas contas, uma esposa que trai o marido…

Li que Cukor se inspirou no livro do escritor Francis de Croisset, chamado “Il était une fois”. A história também pode ser encarada como uma releitura de “A Bela e a Fera” de “Frankenstein”.


Bette Davis Eyes

Bette DavisGosto de cinema desde que me entendo por gente. Me apaixono e já me apaixonei diversas vezes por atores e atrizes, por filmes e trilhas sonoras que, em cada época da minha vida, me acalentavam e tornavam meu pequeno mundo um pouco mais interessante. Me apeguei a Bette Davis e a Joan Crawford como qualquer outra garota jovem se apega a um ídolo, tinha recortes, fotografias e filmes das duas. Escrevia suas falas em meus diários, queria usar roupas como as delas – ainda que oitenta anos de distância nos separassem.

As conheci quando vi um filme em preto e branco pela primeira vez: “O que terá acontecido a Baby Jane?”. Não poderia ter feito escolha melhor. Joan me encantava por sua beleza, Bette por sua inteligência ácida. Passei meses assistindo a maratonas de filmes estrelados por elas.

Mas com Bette Davis a paixão foi diferente. Não era só uma grande admiração por seu talento. Me identificava com ela, com seus personagens, com sua história de vida, com sua personalidade. Na minha adolescência, Davis falava por mim. Ela era como eu queria ser, mas não era. Ainda hoje quando penso em “Bette Davis” direciono-me a ideia de uma mulher destemida, respeitada. Bette não tinha papas na língua, se preciso, brigava com os outros atores, com o diretor, com o presidente da produtora. Bette se impunha, era geniosa e respondia na lata.

Eu, enquanto era aquela menina que falava baixo e não respondia nunca, queria ter os “Olhos da Bette Davis”…E seus personagens contribuíram diretamente para que tivesse aquela sensação. Em  “Vaidosa”, por exemplo, Bette Davis – que nunca foi considerada uma beldade, encarna uma mulher belíssima e rica, que destrata, trai o marido e vive um casamento por interesse. Ela está incontrolável.  Pois é, pouco me importava se a personagem era uma vilã… eu só queria ser, incontrolável.

Mas o ‘espírito da Olivia de Havilland nunca saiu de mim e até hoje, acho que fala muito mais alto…São como amarras, que me prendem ao bom comportamento, que me deixa no caminho entre o querer fazer e o ter que fazer. Que me segura na hora das respostas ingratas, que forma um gosto de choro na garganta, no grito abafado, nas palavras não ditas, no rancor acumulado.

É que ser Havilland não é ruim, mas ser Davis deve ser muito melhor…

O óbvio ululante

nelsonEu não sei se acredito em destino, mas desde cedo me vi predestinada a cursar Jornalismo ou qualquer outra área que estivesse ligada ao ato de escrever. Entrei na faculdade aos dezoito anos, fiz as minhas escolhas diante de um impulso e da necessidade de decidir minha carreira por causa do vestibular.

Desinformada e repleta de ilusões, segui acreditando que a universidade me tornaria uma profissional completa, pronta para o mercado de trabalho. Eu não sabia de nada, entrei na universidade sem um pingo de conhecimento ou de maldade sobre a vida acadêmica. Eu me sentia como uma caipira na cidade grande – e assim foi, por quase três anos de curso, até que eu finalmente me localizei.

Os primeiros anos foram terrivelmente difíceis. Comecei a estudar em uma universidade particular (cara, como outra qualquer) onde os professores, de repente, entraram em greve. Pagávamos a mensalidade, mas não tínhamos aula. Decidi largar aquela universidade, pular para outra. Me vi em um redemoinho de novidades, de matérias, de grades, de horários, de pessoas novas (e que já se conheciam). Me senti naqueles filmes juvenis, quando os pais do personagem principal mudam de casa e ele é obrigado a ir para uma nova escola.

Era uma caxias. Comprei vários livros que os professores apresentaram como referência (mas que, de fato, nunca usavam nas aulas). Foi aí que conheci Nelson Rodrigues. Na minha solidão de aluna nova, pouco popular e irregular (porque ainda tinha esse agravante, eu fazia matérias diferentes em várias salas), me agarrei em Rodrigues como um religioso se agarra em um santo.

Bom, eu não via Nelson Rodrigues como um santo, mas como um ideal.  Eu queria ser como Nelson Rodrigues, queria escrever como ele. Jamais me aproximei ou me aproximaria da sua genialidade, mas de qualquer forma, alimentei uma admiração que me ajudou a não só a ter coragem para seguir o meu curso (esqueci desse detalhe: na época, explodiu a notícia de que para ser jornalista não precisava de diploma) como também a amar a minha profissão.

Lembro, como se fosse hoje, dos dias em que tinha algum horário vago e ia para biblioteca para ler Nelson Rodrigues.  O primeiro livro que li foi “O óbvio ululante” e até hoje é o meu favorito.  Na verdade, eu não sei expressar o que eu sentia quando lia Nelson Rodrigues – naquela época, era como se ele estivesse conversando comigo, me convidando a entrar em seu universo, contanto suas histórias no meu ouvido. Me fazendo um convite a transgressão. Confesso que até o imaginava, sentando em sua mesa, batendo forte com os dedos em um máquina de escrever, fumando ou tomando café.

Em “O óbvio ululante” Nelson Rodrigues é genial até no título. Ululante, quer dizer grito, berro…

Através de suas crônicas Nelson me cativou, não sei eleger qual é a melhor. Fiquei marcada por diversas histórias narradas, mas uma em especial. Nelson conta que quando menino, se apaixonou por uma jovem e que sempre ia até a casa para observá-la na janela. Mas essa menina, que era gordinha, tinha namorado e mais do que isso, tinha um pai muito bravo. Um dia o namorado dessa jovem, que tinha tuberculose, afastou-se dela por causa do pai. Nelson, que estava passava pela rua, presenciou quando a jovem teve uma discussão séria com a família… dias depois ele voltou na rua e sentiu um cheiro terrível, de carne queimada e gordura. A menina, por causa da desilusão amorosa, tinha colocado fogo no próprio corpo.

Ok, eu estraguei a história… Mas ela esta disponibilizada online e faço um convite para lê-la: “Lili ardeu como uma estrela”.

Além das histórias, Nelson não se censurava em suas críticas, muitas ainda hoje sensatas: “O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: – eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco.”

Lembro também que me surpreendi, quando em uma de suas crônicas, Nelson conta como conheceu Joan Crawford. A atriz estava no Rio de Janeiro, veio para fazer uma campanha publicitária para a Pepsi. Nelson contava que Joan estava suando demais e que sua maquiagem derreteu e formou uma poça sua boca. Os jornalistas foram ferozes com ela, criticavam a sua velhice e diziam que ela não era bonita como antes. Não tenho o livro em casa, mas graças a internet, encontrei a crônica digitalizada:

“Ontem Roberto Marinho observava que a nossa imprensa fora uma anfitriã crudelíssima da atriz. Sim, os nossos jornais a receberam com uma impiedade total. Cada fotografia ou cada texto era uma acusação. Joan Crawford era acusada e de que, meu Deus? Despedi-me de Roberto Marinho e aquilo não me saía da cabeça. Cheguei em casa e ainda pensava em Joan Crawford. A estrela era acusada de ter envelhecido. Não ocorreu a ninguém esta concessão apiedada: — “Bonita coroa”. Nem isso. Ninguém aceita a velha nobre, a velha linda. É pena que eu não tenha, de momento, os recortes de tudo que se escreveu sobre a sua visita. Essa crueldade impressa dá o que pensar. Lembro-me de que, em 1927, vi Joan Crawford num filme da opereta  Rose  Marie. Nada se compara ao impacto tão puro e tão firme de sua aparição. Eu disse 1927 e façam as contas. Quarenta e um anos são passados. E Joan Crawford já era uma das mais lindas mulheres do mundo. Voltei cinco, seis, dez, quinze vezes ao cinema. Uma paixão se instalara em mim. Mas não fui eu o único.

A platéia de cada dia saía apaixonada. Quase meio século depois, a atriz vem ao Rio. Sua imagem não é  mais um jogo de sombra e de luz. Saiu da tela, baixou na vida real. E começa o massacre nos jornais, no rádio e na televisão. Nós a olhamos como a uma ré e não foi outra coisa senão isso mesmo. Até os velhos a detestaram. (Eis a verdade: — a começar pelo dr. Alceu, o nosso velho atual não gosta de outro velho.) Quando Joan Crawford visitou a Assembléia Legislativa, quis eu ser testemunha do acontecimento. Fazia um calor que, segundo minhas crônicas esportivas, derrete catedrais. Eu via em todos os olhares uma fria malignidade. E foi uma euforia geral quando, por efeito do calor, a maquiagem da atriz entrou em decomposição. A pintura derretida escorria em gotas cromáticas. Uma gota parou, exatamente, na ponta do nariz e aí ficou, dependurada, antes de se estilhaçar. É claro que todo mundo deseja, com o maior empenho e a maior volúpia, a velhice da mulher bonita. Outro exemplo: — o de Gina Lollobrigida. Passou pelo nosso carnaval, linda, linda. Pois não faltou quem, diante do seu frescor implacável, dissesse: — “Velha! Velha!”.

Voltando a Joan Crawford na Assembléia Legislativa. Houve um instante em que se percebeu, por cima do seu lábio superior, uma orla de suor. Um sujeito cutucou-me para cochichar: — “Transpira!”. E piscou o olho, numa satisfação crudelíssima. As mulheres bonitas. Queremos envelhecê-las e agora mais do que nunca e aqui mais do que nos outros povos. Na França ou na Alemanha a mulher bonita ilustre não envelhece. E os homens velhos e ilustres. Maurice Chevalier, aos oitenta anos, trôpego e asmático, é amado por todo um povo. No Rio de nossos dias, Mistinguett seria apedrejada como uma bruxa de disco infantil. Joan Crawford passou por aqui e nem sei como sobreviveu à nossa impiedade.”

As Mulheres, 1939

Ando afastada do La Amora, estou correndo contra o tempo porque embarquei em um projeto ambicioso (conto depois, se der certo). Acontece que na última quarta feira, assisti um filme que conhecia só pelo título, trata-se de ‘As Mulheres (dirigido por George Cukor e lançado em 1939). Estou encantada, que filme delicioso! – ainda que datado, faz jus a fama que tem.

As mulheresA trama centra-se no cotidiano de Marie Haines (Norma Shearer), uma mulher da alta sociedade que descobre, através das amigas, que está sendo traída pelo marido. A amante, Crystal (Joan Crawford) é uma sanguessuga interesseira que não se importa com os sentimentos de ninguém, seu único e principal objetivo é ascender na vida financeira e social. Mary vive cercada de amigas, entre elas Sylvia (Rosalind Russel) uma típica fofoqueira, Peggy (Joan Fontaine) uma garota doce e inocente, Miriam (Paulette Goddard) uma mulher inteligente e decidida, Senhora Moorehead (Lucile Watson) sua mãe conversadora e a Condessa de Lave (Mary Boland) uma mulher riquíssima em busca de um novo amor.

Ao descobrir a traição do marido, Marie se vê envolvida em uma teia de mexericos e fofocas criados pelas mulheres que a cercam (que vão desde as suas amigas até a manicure). Sua principal preocupação é a pequena Mary, sua filha, que fica muito sensibilizada quando descobre a separação dos pais. Marie se vê diante de um turbilhão, precisa aprender a ser uma mulher independente e ao mesmo tempo, não dar ouvidos à especulações.

Cukor (que quase foi escalado para dirigir “E o vento Levou”) tem um humor ácido e não perde o pique em momento algum, o filme é muito dinâmico  e repleto  de personagens (cerca de 152 mulheres participam da produção – Sim! O cast é composto apenas por mulheres!). Aliás, que mulheres lindas! Difícil escolher a mais bela, Joan Crawford, Joan Fontaine, Norma Shearer, Rosalind Russel – todas no auge, jovens e elengantérrimas!

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É verdade quando dizem que o filme não é feminista e sim feminino. Aqui, as mulheres são retratas como fofoqueiras, que vivem em função dos homens (o próprio cartaz já diz: “Its all about men”). Não há nada do filme mais decepcionante do que a personagem da Norma Shearer, é como se ela nadasse, nadasse e morresse na beira da praia. Tirando isso, há um argumento bem desenvolvido, que não guarda surpresas, mas que nos faz querer acompanhá-lo até o final.

O grande problema do filme é que retratam as mulheres como incapacitadas, não são nada sem o casamento, não são nada sem os seus homens. Por isso mesmo é um filme datado, não há como ficar indiferente ao fato de que foi produzido em 1939, nele as mulheres nasceram para serrem donas de casa. A única personagem que parece não se importar com isso é uma escritora intelectual… e lésbica.

Apesar da Norma Shearer bancar o papel principal, não há como negar que o destaque vai para Russel – que entre caras e bocas, fica engrassadíssima ao the_women-17-powder-room-4encarnar uma mulher invejosa e muuuuito fofoqueira). Eu, que nunca assisti nenhum outro filme com ela e só a conhecia por nome, fiquei encantada. Em um dos momentos do filme, Russel chega a morder a perna da Paulette Goddard… ela está genial. Joan Crawford está detestável, também cumpre bem seu papel, consegue fazer com que torçamos para que tenha um final bem cruel.

O filme é uma adaptação de uma peça teatral escrita por Claire Boothe Luce. Primeiramente pensaram em escalar Claudette Colbert para o papel principal, até venderem os direitos para a MGM, Carole Lombart e Norma Shearer entraram na disputa.

Dois aspectos marcantes são o uso e o abuso de cenários, há um momento em que algumas das personagens se deslocam para uma fazenda e fica claro que aquele ambiente é completamente fictício. Outro detalhe interessante são as roupas usadas pelas atrizes, umas mais lindas que as outas. Em certo momento da trama, as mulheres se reúnem para ver um desfile de moda: o desfile dura cerca de dez minutos e a imagem é colorida.

Minhas atrizes favoritas (e seus respectivos filmes que são os meus favoritos)

Ta aí, estou com mania de fazer listas… comecei a escrever sobre as minhas atrizes favoritas e sobre os seus filmes e deu nisso. Pra não me estender muito, escolho cinco filmes que mais gosto de cada uma.. dêem uma olhada:

ImagemDianne Wiest

1)      Edward Mãos de Tesoura
2)      A Gaiola das Loucas
3)      Sinédoque, NY
4)      Setembro
5)      O Tiro que não saiu pela Culatra
 

ImagemSusan Sarandon

1)      Thelma e Louise
2)      Fome de Viver
3)      Os últimos passos de um homem
4)      Lado a Lado
5)      O Óleo de Lorenzo
 

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Isabelle Huppert

1)      A Professora de Piano
2)      Oito Mulheres
3)      Madame Bovary
4)      Um Assunto de Mulheres
5)      Má Mere
 

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Bette Davis

1) O que terá acontecido a Baby Jane?
2) Vitória Amarga
3) Vaiosa
4) Pérfida
5) A Malvada
 

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Joan Crawford

1) O quê terá acontecido a Baby Jane?
2) Acordes do Coração
3) Os desgraçados não choram
4) Johnny Guittar
5) Almas Mortas
 

ImagemDeborah Kerr

1) Os Inocentes
2) Narciso Negro
3) Bom dia, tristeza
4) Tarde demais para esquecer
5) A noite do Iguana
 

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Shirley Maclaine
 
1) Muito Além do Jardim
2) Minha doce gueisha
3) Infâmia
4) Irma La Douce
5) Laços de Ternura
 

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Judi Dench

1) Notas Sobre um Escândalo
2) Sua majestade, Mrs Brown
3) O violonista que veio do mar
4) O exótico hotel Marigold
5) 007 Skyfall
 

Helen Mirren

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1) O Cozinheiro, o ladrão, a mulher e seu amante
2) Mães em Luta
3) Tentação Fatal
4) De porta em porta
5) Colapso
 

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Jessica Lange

1) Normal
2) Titus
3) Geração Prozac
4) Terras Perdidas
5) Mais que um crime
(+ O Destino bate à sua porta)
 

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Glenn Close

1) Albert Nobbs
2) Atração Fatal
3) Um Canto de Esperança
4) Marte Ataca
5) A Casa dos Espíritos
 

Anjelica Huston

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1) A Família Addams
2) Acerto Final
3) Tudo por um sonho
4) Para sempre Cinderela
5) Convenção das bruxas

Precipícios d’alma

Quem frequenta o La Amora sabe o quanto eu sou fã da Joan Crawford, encontrei outro dia um de seus filmes em DVD que há tempos tenho vontade de assistir e confesso que nunca a tinha visto em uma atuação tão primorosa. Precipícios d’alma (Sudden Fear) é um filme de 1952, dirigido por David Millher que traz Crawford, Jack Palance e Gloria Grahame em um ótimo suspense noir que envolve paixão, assassinato, interesse e muito dinheiro. Apesar da simplicidade, a trama apresenta um ritmo delicioso e um trabalho visual muito interessante.

Joan Crawford

O filme inicia-se em um ensaio de uma peça teatral escrita por Myra Hudson (Crawford), uma mulher sensível, bela e riquíssima. Apesar do talento, o ator Lester Blaine (Palance) não é contratado para o papel principal porque segundo Myra, ele não tem o ‘ar romântico’ necessário para o personagem. Depois de ser dispensado, Lester persegue Myra para tentar convencê-la de que tem charme suficiente para participar da peça. Durante uma viagem de trem de Nova York a São Francisco, os dois ficam cada vez mais íntimos e começam a se relacionar. Lester e Myra se casam e vivem por algum tempo um idílico romance ate que Myra decide doar toda a sua fortuna e viver apenas do trabalho que realiza no teatro. Inesperadamente, Lester reencontra uma antiga amante chamada Irene Neves (Grahame) e juntos decidem matar Myra antes que ela se livre do dinheiro.

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Já no começo, há um aspecto muito claro: Lester aproxima-se de Myra para se vingar por ter sido dispensado da peça. O que não fica óbvio é a forma que ele usará para se vingar dela e é o que de fato, sustenta o argumento do filme. Ao aproximar-se de Myra, Lester comprova que além de ser um ótimo ator é um homem perigoso (e porque não, cheio de mistérios?). Enquanto isso, a forte personalidade que Myra apresenta no início da trama (cercada de bajuladores e de homens que a obedecem cegamente) cai por terra quando ela se apaixona. Desde o casamento, Myra traz a tona toda a sua necessidade de receber e de dar amor. Sua face romântica transborda por quase todo o filme e quando descobre que seu marido não é realmente quem pensa, Myra surpreende mais uma vez, mostrando que possui cartas na manga, acentuadas por destreza e astúcia.

Além da tensão presente em todo o filme, outro aspecto que chama atenção é uma enorme sensualidade que envolve os três personagens principais. De fato, Jack Palance não apresenta uma beleza irresistível e ainda assim, te convence que é um arrebatador de corações.  [Aliás, essa foi a sua primeira indicação ao Oscar]. Grahame, no papel de Irene Neves mostra um atrevimento  admirável através de mulher linda e sem escrúpulos. Há uma cena entre os dois muito interessante onde Lester bate em Irene e a empurra no sofá. Ao invés de ter uma reação dramática, Irene se deita e sensualmente acende um cigarro.

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Joan Crawford está lindíssima, lindíssima mesmo (com um figurino impecável, a atriz exibe um corpo escultural e um rosto marcante que lhe é característico). Mais do que isso: o roteiro lhe favorece imensamente e permite que cresça em tela, explorando diversas feições: alegria, tristeza e medo – ela praticamente manda na câmera.  É importante lembrar que nessa época, Crawford pediu para sair da Warner e estava decidida a trabalhar em outros projetos. Em ‘Precipícios d’alma’ Joan atuou também como produtora e uniu-se a RKO para atrair investidores. Assim como Palance, recebeu uma indicação ao Oscar, mas acabou perdendo para Shirley Booth.

Outro destaque vai para a iluminação marcada por um forte contraste e para a sequência dos pesadelos de Myra onde, por exemplo, ela sonha que está caindo de um prédio. A criatividade técnica expõe uma montagem muito bem feita e acentua o clima de suspense (aliás, as cenas finais são de tirar o fôlego).

Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond

Desde o último episódio, em que vi Jessica Lange apresentando um número musical em American Horror Story, estou pensando em escrever esse post. Como sempre, a falta de tempo não deixou. Há algumas semanas, reparei que a busca por AHS no blog continua em alta. Não é por menos. A 2ª temporada está chegando ao fim (com o penúltimo episódio indo ao ar hoje) e tanto a trama, quanto os personagens, sofreram reviravoltas absurdas. De longe, Sister Jude é a minha personagem preferida.

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No começo da série, “Judy” era uma freira sádica, deslumbrada pelo poder e que adorava humilhar seus pacientes. No entanto, a freira (e antiga prostituta) passou por poucas e boas. Depois de quase ser violentada por um paciente psicótico (vestido de Papai Noel), foi aprisionada em Briarcliff, acusada de um crime que não cometeu. Enfrentou um antigo nazista e ficou cara a cara com o diabo. Após um encontro com a morte, revelou um pouco mais do seu passado sombrio e de seus antigos desejos, entre eles: o sonho de ser mãe, que não se consumou quando descobriu que tinha sífilis.

Agora como interna, sofre todos os abusos que cometia com os pacientes, quando era diretora do hospício. É obrigada a tomar calmante de cavalo, usa camisa de força, fica presa na solitária e toma eletrochoques (o último foi além da conta: deixou a pobre coitada totalmente desnorteada). Jude foi a responsável por colocar a jornalista Lana Winters em Briarcliff, mas arrepende-se do que fez e tenta ajudá-la a sair. Lana, por outro lado, internada por ser lésbica, sofre inúmeras violências na mão do Drº Therdson, um serial killer, que mata, estupra e arranca a pele de mulheres. Há inclusive, uma cena fortíssima, em que Lana é obrigada a se masturbar olhando para um homem nu, para ver se consegue despertar por ele algum sinal de desejo (isso não acontece).

Sister Jude
Sister Jude

 O 11º capítulo foi espetacular, ou melhor: inesperado. Desde o início da série, há um jogo muito interessante do diretor, que fica evidente nesse capítulo: a idéia é de que todos nós somos uma mistura de sentimentos bons e ruins e que somos levados diariamente a questionar nossos valores e conviver com nossos instintos. De maneira triunfante e com a ajuda do Kit e da Sister Jude, Lana consegue sair do hospício e se vingar do Drº Therdson, humilhando-o  publicamente e por fim, atirando em sua nuca. A jornalista escreve um livro sobre as histórias que viveu no hospício e sobre as pessoas que conheceu enquanto esteve internada, entre elas: Pepper.

Pepper, após ter um encontro com alienígenas, voltou diferente. A pequena de dentes grandes e laço no cabelo que não conseguia pronunciar direito as palavras, volta com uma inteligência que não lhe é característica. Ela enfrenta Drº Arden, o nazista que adora fazer experiências com os internos e impede que ele chegue perto de Grace, que está grávida de Kit – há toda uma história complexa entre Kit e os alienígenas que ainda não foi muito bem explicada. Ironicamente, Pepper torna-se uma grande companheira para a Sister Jude: o que é fantástico, já que só na reta final da série é as duas se aproximam.

LINK ONLINEBrilhantemente, o final do Drº Arden e da Irmã Mary Eunice deixou os espectadores de cabelo em pé. A inocente Mary Eunice, que no segundo episódio incorpora um demônio e que atormenta a vida dos personagens durante todo o tempo, não agüenta mais a situação em que se encontra (afinal: é uma pessoa boa que se encontra presa em um corpo que só faz maldades), implora ao Monsignor Timothy O’Hara que a liberte.Ele então a mata, jogando-a do vão das escadas. Drº Arden, que tem uma paixão incontrolável pela irmã, decide cremá-la. Junta-se ao seu corpo falecido da freira e os dois terminam juntos…queimados.

Pode até parecer que esse post é um grande Spoiler. Bom: é e não é.  A verdade é que na madrugada de hoje, vi o vídeo promocional do último episódio de American Horror Story e fiquei (e ainda estou) extasiada. Não se sabe ao certo o que realmente vai acontecer, mas a o vídeo promete um final emocionante. Sister Jude, que acabou esquecida naquele hospício, aparece (bem rapidamente), fragilizada, quase sem cabelos e muito magra. Se ela vai ou não recuperar a sanidade é um mistério (acho pouco provável). A imagem de Jessica Lange quase sem cabelos e revirando os olhos em um quarto escuro me chocou – e muito. É por isso que resolvi escrever esse texto. O vídeo confirmou a idéia que eu tinha sobre a atriz e sobre a relevância desse trabalho.

[ Quem se tornou fã de Lange depois que a conheceu pela série (e olha, não são poucos) deve ter sofrido quando descobriu que o Globo de Ouro de melhor atriz foi para Julianne Moore. Na verdade eu não quero entrar na discussão de quem tem ou não tem o mérito para ganhar o prêmio, sabemos que a atuação da Julianne Moore em Game Change foi impecável, mas pra mim, a Academia cometeu um erro cabeludo ]

Apesar da contextualização completamente diferente dessas três, percebo algumas ligações fortes entre Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond e a principal delas: são as atrizes. Pouco antes de ser convidada a interpretar um dos papeis mais marcantes de sua carreira, Bette Davis colocou um anuncio no jornal pedindo por emprego. A velha atriz, provando o amargor do esquecimento, dizia nos jornais que precisava trabalhar porque tinha três filhos. Como diria tempos depois, “envelhecer não é para mocinhas”. E realmente não é, principalmente em um meio tão ruidoso quando se trata de beleza e juventude.

Davis recebeu o convite de Robert Aldrich de braços abertos e topou contracenar com a sua inimiga: Joan Crawford. “O que terá acontecido a Baby Jane”, um filme B de 1962, entrou anos depois, para a lista de clássicos do cinema americano. Não é por menos, afinal, além de unir duas lendas, Aldrich trouxe a tona uma história inesquecível de duas irmãs que vivem na mesma casa e dividem um passado perturbador. O fato é que para representar Jane Hudson, Bette Davis abriu mão da vaidade e aceitou aparecer em cena como uma grande caricatura de si mesma.

Bette Davis como Baby Jane
Bette Davis como Baby Jane

Com o rosto coberto de base branca, marcada por traços fortes de batom, Jane, entornando infantilidade e loucura, aterroriza a irmã (e porque não, os espectadores) com o sonho de voltar a fazer o mesmo sucesso que fazia quando criança. Bette Davis saiu da sua zona de conforto e topou rir de si mesma.  No filme, a atriz canta e dança como se fosse uma menina de dez anos.  Para piorar a situação, Jane quando jovem envolveu-se em um acidente de carro com a irmã. Ela estava dirigindo bêbada e bateu no portão deixando Blanche paraplégica. Desde então a sua sanidade nunca mais foi a mesma.

A inveja pelo sucesso da irmã, que também virou uma famosa atriz de cinema, escorre pelas mãos de Jane, que oferece ratos e passarinhos mortos no café da manhã, a amarra na cama e rouba seus cheques para comprar bebidas. Bette Davis, maliciosa que só, chega ao auge com seu personagem, quando Jane, em um ataque de loucura liga para o médico da irmã e imita perfeitamente sua voz. Aquela gargalhada no final da ligação é simplesmente inesquecível.

Gloria Swason como Norma Desmond
Gloria Swason como Norma Desmond

Em 1950, Gloria Sawson também andava esquecida. A atriz que encabeçou diversos sucessos da MGM e foi uma dos principais nomes do cinema mudo, aceitou a trabalhar em um projeto de Billy Wilder que ironicamente, ilustra uma rica atriz: Norma Desmond, que foi um sucesso no cinema mudo, mas que acabou sendo esquecida. “Crepúsculo dos Deuses” satiriza o próprio cinema e brinca com a carreira desastrosa de alguns atores. Norma Desmond quer fazer um filme e para isso, praticamente obriga o roteirista Joe Gillis a lhe ajudar na produção. Totalmente sem bom senso, Norma Desmond não percebe que aquele filme já está fadado ao fracasso.

Muitas atrizes receberam a proposta antes de Gloria Swason, mas nenhuma delas aceitou por acharem que a história era parecida demais com a realidade em que viviam É aí que entramos outra vez na coragem de Swason, que assim com Davis e Lange, aceitou rir de si mesma. Norma Desmond envolve-se tanto com a produção do filme que a traria de volta ao estrelato, que acabou ficando louca, esperando por um “Close up” que nunca veio. (Ou melhor, veio sim, brilhantemente arquitetado por Wilder).

Jessica Lange então, segura de si e de sua carreira, aceita interpretar uma freira maldosa e louca. Todo mundo sabe que ela também andou um pouco esquecida. Me arrisco a dizer que mesmo o Globo de Ouro em 2009 por Grey Gardens, não foi suficiente para trazê-la de volta aos olhares do público – talvez por isso, tenha aceitado trabalhar em TV, um meio, como a mesma afirmou que não está acostumada. Recebeu duras críticas, entre elas de que estava velha e plastificada demais. Lange não se entregou, não se escondeu, não se envergonhou. Pelo contrário, deu a cara a tapa a milhões de espectadores do mundo inteiro, que a aguardam ansiosamente todas as quartas-feiras.

Jessica Lange como Sister Jude
Jessica Lange como Sister Jude

Surgiu com um porrete na mão, com as unhas grandes e vermelhas, vestindo uma camisola sensual debaixo do hábito, apanhou na bunda (de quatro!), tentou exorcizar um demônio sozinha e não se cansou de tocar Dominique para os pacientes. Brilhante mesmo, foi a sua performance em “The Name Game”, onde apareceu com um cabelo estilo anos 60 e rebolou até o chão. Claro que esse é um trabalho em conjunto e que por traz de tudo isso, há cabeças pensantes, entre elas Ryan Murphy, o qual agradeço muito por ter nos presenteado com essa personagem incrível, que é a Sister Jude.

Confiram a cena da Jessica Lange cantando em American Horror Story:

The Name Game