Uma, duas

(…) “Ela sente aperto no intestino, que é raiva da mãe. Aquela mãe que insiste em seguir existindo como uma realidade para ela. Mais viva ainda porque odeia e ama aquela mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar.

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Acabei de ler “Uma, duas” de Eliane Brum e ainda estou sem saber definir o que senti sobre a narrativa. Terminei a última página sentindo um pouco de repulsa.  Não… não é só uma repulsa pelos acontecimentos, mas também uma falta de empatia em relação às duas personagens principais: Maria Lúcia (a mãe) e Laura (a filha). Por outro lado, fiquei encantada com a narrativa, que me deixou bem perturbada (e viciada, tanto que eu li o livro em um dia! Eu não conseguia parar de ler e fiquei vidrada durante a madrugada).

O livro conta a história de Laura, que num dia qualquer, recebe um telefonema de uma desconhecida que afirma que Maria Lúcia está há dias trancada em seu apartamento. Com má vontade, Laura vai até a casa da mãe e se depara com uma cena grotesca. Maria Lúcia, deitada no chão, apodrecendo em vida. Depois de dias entrando e saindo do hospital, Laura se vê diante de uma situação difícil: precisa se mudar para o apartamento da mãe e cuidar dela. Há todo um suspense construído nesse ambiente angustiante, em que a filha sente nojo do cheiro da mãe e quase enlouquece quando escuta as unhas da mãe arranhando a porta.E a mãe sente medo da filha e fica aliviada quando ela sai.

(Mano! E eu li o tempo todo me perguntando sobre o motivo. O que aconteceu para que elas se odiassem tanto?)

Os segredos nos são revelados aos poucos, mas sem piedade. A gente vai lendo tudo aquilo e sente como se estivesse naquela casa, junto às duas. E é engraçado, porque dá pra entender o porque a filha odeia a mãe, e dá pra entender o porque a mãe odeia a filha. As duas narram os acontecimentos de acordo com suas perspectivas. Eu só conseguia pensar: “Puta merda! Que vida desgraçada” ou então “Quem vai matar quem?”. Mas o lance não é esse, de violência física. É uma violência psicológica, dolorosa e lenta. E a gente vai percebendo que existe um ódio entre as duas, mas também tem amor. Uma cumplicidade meio estranha…

De todos, um momento me chocou muito. A brutalidade em que Maria Lúcia descreve sua gravidez, como se sentisse que existisse um rato dentro dela. Sugando sua energia, seu corpo. Sabe, o livro me surpreendeu de muitas maneiras. Foram poucas as leituras que fiz que me provocaram tanto desconforto. Enquanto lia, pensava na minha relação com a minha mãe e nos trechos do livro, que dizem que toda a filha é quase como uma extensão do corpo da mãe. Imagine o quão forte essa ligação pode ser.

Por favor, cuide da mamãe.

ImagemTenho lido muitos livros ultimamente, especialmente porque ganhei um celular que me permite fazer isso. Reconheço que nada tira o gosto de tocar um livro, de sentir o cheirinho das páginas, mas a facilidade da internet em compartilhamentos de dados é irresistível.

Por favor, cuide da mamãe” caiu em minhas mãos exatamente no dia em que o celular chegou aqui em casa, li porque o título (e a sinopse) me encantaram e aos poucos, fui me emocionando com a narrativa. O engraçado é que até aquele momento nunca tinha ouvido falar na autora (Kyung-sook Shin) e, logo depois, virei fã dela.

A trama conta a história de Park So-nyo, uma senhora de 69 anos, mãe de cinco filhos, que desaparece em uma estação de metrô em Seul. Casada há mais há mais de cinquenta anos, Park So-nyo acostumou-se a seguir o marido a todos os lugares mas, excepcionalmente neste dia (no dia em que eles saíram da aldeia onde vivem para visitar os filhos) ela acabou se perdendo em meio à multidão em uma plataforma.

Seu marido supôs que ela o seguia, já que foi assim a vida inteira, mas quando se deu conta, ela não estava mais lá. Preocupados, os filhos de Park começam a procurá-la e, ao descobrirem alguns segredos da mãe, começam a perceber que nunca a conheceram de verdade.

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Kyung-sook Shin

Além de contar uma história emocionante, o que Kyung-sook Shin faz é sugerir que o leitor monte um quebra-cabeça através das narrativas. Narrativas, exatamente. Porque não há apenas uma voz, o livro é construído com a percepção de quatro pessoas diferentes: de dois filhos, do marido e da própria Park So-nyo. Em princípio o texto pode causar estranheza porque não há um personagem bem delimitado, às vezes a visão de todos eles se mistura, às vezes eles dialogam.

É incrível como esse tipo de estrutura textual pode não ser bem encarada pelos leitores, digo isso, porque li várias críticas do livro e praticamente todas elas tocaram nesse ponto.

Admiro a inteligência em relação a construção do título, afinal: a quem esse pedido é feito? A leitura do livro me permitiu perceber que a autora faz esse convite aos leitores, ela pede que a gente preste atenção não só nas nossas mães, mas nas pessoas que nos cercam, que nos amamos, mas que tratamos de forma banal, simplesmente porque elas sempre estiveram ali e a gente acha que elas estarão ali para sempre ( mas isso não acontece, infelizmente).