Divã

obj_divaLi esse livro pela primeira vez quando estava no fim do ensino fundamental. Foi na época em que eu descobri que a biblioteca pública da minha cidade (que por sinal, ficava ao lado da minha escola), servia para mais coisas do que apenas fazer pesquisa escolares. É que eu comecei a ter autonomia de sair da escola e ir sozinha para casa, o que me permitiu dar pequenas escapadas. Depois, já na faculdade, o reli duas vezes… e ainda guardo boas recordações desse livro.

Na época eu me sentia como uma confidente da Mercedes, a personagem-narradora. Era como uma voyer, escutando as histórias que ela secretamente contava para o psicanalista. Eu, uma garota de quatorze anos, me sentia quase que como uma adulta que conversava com sua amiga de quarenta anos…

Bom, do muito que lembro do livro, acho que três aspectos foram marcantes:

Primeiro: O livro é beeeem melhor do que o filme (E, sim, eu também amo a Lília Cabral. Mas o filme é meio zuado, não é muito fiel ao livro e tem umas partes bem desnecessárias). Segundo: O estilo da narrativa é uma das coisas que mais me prenderam, já que a personagem principal dialoga com o psicanalista e é através das sessões em que vamos descobrindo o que se passa em sua vida. Terceiro: É um livro bem feminino, sensível, que levanta problemáticas do universo das mulheres e que nos faz pensar muito sobre nossas escolhas, sobre nosso cotidiano. E é claro que nem por isso deixa de ser indicado aos homens.


Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instrução.”


Sinopse: Divã conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos, moderna, inteligente, pragmática, divertida, super-feminina, casada, com dois filhos, com a vida estabilizada – que procura um psicanalista. Para Mercedes, a consulta começa como uma curiosidade e acaba por tornar-se numa experiência envolvente que vai pôr a descoberto as facetas que ela mais reprime. No consultório descobre-se uma mulher ciumenta, insegura, que dramatiza por tudo e por nada. Descobrem-se, também, as memórias que guarda religiosamente: o primeiro namorado, a amiga, as mulheres dos amigos do marido ou a namorada do filho. Nesta aventura, Mercedes conta com o apoio da amiga Mônica e do marido desta, Gustavo.

Não existe vida errada

Estou prestes a me tornar oficialmente uma jornalista, formo no começo do ano que vem. Tenho que confessar, estou morrendo de medo – um medo bobo, mas que não me abandonou nesses últimos dias. Essa sensação de que “agora você está crescido e precisa começar a tomar o seu rumo” é muito assustadora. Tenho pensado em coisas que não me preocupavam antes. Eu não sei se toda pessoa chega aos vinte e dois anos com essa neura, mas há tantas coisas que me preocupam que eu poderia fazer uma lista delas. (Eu fico pensando: poxa, eu preciso viajar, preciso me mudar, quero ter filhos. Essas coisas, sabe?)

Semana passada uma vizinha – aliás, muito querida – se casou, ela (só) tem vinte e cinco anos. Quero dizer, daqui há três anos eu terei a idade dela e acho muito difícil seguir o mesmo rumo. Não que exista uma idade certa, uma regra… mas ela estava tão decidida, tão certa de tudo, que até me bateu uma dúvida: será que eu tô atrasada?

Minha mãe começou a trabalhar com apenas dezesseis anos, na minha idade ela já assumia as contas da casa. Com a mãe de uma das minhas melhores amigas também aconteceu dessa forma, ela engravidou aos 18 e aos 19 já estava casada, ministrava aulas e construía uma casa. Eu não sei se antigamente as coisas aconteciam muito rápido ou se atualmente as coisas estão lentas demais.

Ao mesmo tempo _ pode parecer piração, mas eu também tenho outro medo, é o de chegar lá na frente e pensar: eu fiz tudo errado! Arrependimentos fazem parte da vida, não acredito que alguém com 50 anos não tenha nenhum. Mas eu tenho um receio tão grande de perder o estímulo, de chegar em uma certa idade e pensar:

Feliz Amor a vidaOutro dia ouvi uma história que me deixou encucada. Uma mulher comentava com a outra que se tivesse casado com “aquele primeiro namorado” teria sido muito mais feliz. Ela tinha certeza disso e mais, ela ainda nutria o desejo de reencontrá-lo, mesmo dormindo ao lado de outro homem há mais de quinze anos.

Eu sei que esse texto parece um ‘blá bla blá’ interminável, mas eu juro que tenho pensado nisso demais: é incrível como a vida nos prega peças e a gente nem se dá conta disso. A vida nos obriga a fazer escolhas e hora ou outra, vamos colher os frutos.Image

Acabei de folhear um livro da Martha Medeiros e coincidentemente caí em uma crônica chamada “E se tivesse sido diferente?” onde ela diz o seguinte: “Se fizermos uma auditoria em nossas vidas, em algum momento questionaremos: ‘e se tivéssemos feito diferente?” O diferente teria sido melhor e teria sido pior. Então o jeito é curtir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajetória, alegrar-se e sofrer, acreditar e descrer, que lá adiante tudo se justificará, tudo dará certo. Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada”

Acho que a Martha Medeiros tá certa, se você ficar avaliando cada decisão certa/errada que você tomou na vida você acaba pirando. Eu não diria que é preciso ligar o botão do ‘fodas’, mas alguma coisa precisa ser feita – a vida nos exige isso, que a gente siga em frente.

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Feliz por nada (e por tudo!)

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Sempre fui uma leitora assídua de Martha Medeiros. Desde Divã, fiquei impressionada com a sensibilidade da autora que de maneira direta, diz coisas profundas e atuais. Em um passeio pelo Belas Artes, aqui em Belo Horizonte,  tive a felicidade de ganhar da minha mãe o livro  ‘Feliz por nada’, o ultimo produzido pela autora. Das crônicas que li tirei pedaços gostosos, análises e críticas que, resumindo, dizem tudo (rs!). Em um dos meus textos preferidos do livro, “Amigo de si mesmo”, ela diz o seguinte:

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“Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que os bons amigos fazem: perdoam” (…) “Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar ao outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”, “ Salve-se dos seus traumas de infância”, “Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo”.

Publiquei no facebook ontem o mesmo texto do último post, onde falo sobre o quanto essa semana tem sido importante – de como é difícil confiar em alguém e quebrar a cara. Foi um desabafo, talvez. O lado positivo é que isso refletiu em alguns amigos que rapidamente responderam a publicação (inclusive amigos muito queridos, que não vejo há anos).  Alguns me disseram que estavam passando exatamente pela mesma coisa: confiar em alguém e quebrar a cara. Outros me disseram: “Isso faz parte da vida, aprender a viver”. Minha ex-professora de historia  (de quem eu gosto demais), disse algo terminantemente correto: exigimos muito do outro e isso pode ser um reflexo, exigimos muito de nós mesmos.

O fato é que o texto de Martha Medeiros veio a calhar. Principalmente quando ela diz que precisamos parar de pensar um pouco, de ver fantasmas onde não tem. E parar de ter dó de si mesmo, de viver do passado, de continuar discussões que não fazem mais sentido. A  verdade (se é que existe alguma verdade em situações como essa), é que esperamos demais do outro, e fatalmente nos decepcionamos. Hoje estava chorando porque alguns dos meus amigos não foram como eu queria que fossem. E agora sou levada a pensar: eu sou exatamente o protótipo que eles fazem de um amigo? Provavelmente não. E não adianta ficar chorando, ficar irritado, como diria a minha avó: a vida e assim mesmo, ela dá e tira muito rápido.

Um brinde aos que por escolha, sairam minha vida. – E um brinde maior ainda, aos que por escolha, permaneceram.