México – Parte 1

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Você descobre o que é boa literatura, quando lê um livro parecido com México, do Érico Veríssimo.  Desde o surgimento do La Amora, demonstro uma admiração e carinho por esse país, mesmo sem nunca tê-lo visitado (e ainda um pouco longe de fazê-lo). Com a narrativa de Veríssimo e com sua delicadeza e atenção aos pequenos detalhes, fiz uma viagem sem ter, de fato, saído de casa.

Foram dois deliciosos meses de leitura, agregados com a vontade de não terminá-lo. Com um texto claro, dinâmico (dividido em diversos subtítulos) e sensível, Veríssimo construiu um retrato do México dos anos 50 difícil de não se apaixonar (o livro foi escrito em 56/57). O retrato, no entanto, contém um misto de realidade e fantasia que acentuam a percepção de que “Sim, o México é um país mágico”.

A cada descrição (das ruas, do povo, das igrejas, dos museus, da cultura, da religião, dos mitos, da língua…) me senti como se estivesse andando de mãos dadas a Veríssimo, observando junto com ele, todos aqueles monumentos. A viagem se inicia por Juarez e logo é marcada por um acidente. Veríssimo e a esposa decidiram viajar para o México de trem (na época, os dois viviam nos EUA), mas o trem descarrila, ferindo diversos passageiros e deixando os viajantes parados no meio do deserto. Depois de muito esperar, conseguem continuar a viagem e passam por Chihuahua, que segundo Veríssimo, com sua seca e miséria, lembra o nordeste brasileiro.

México

E aqui nos vamos por entre as relíquias, já com essa pressa cretina do turista profissional que não visita os lugares porque deseja realmente vê-los, mas sim porque quer ter o direito de mais tarde dizer aos outros e a si mesmo que os viu”.

Mas Veríssimo não é esse turista profissional, de maneira alguma. Tanto não é que escolhe viajar e conhecer os estados mais distantes da capital, as cidades do interior (Puebla, Cholula, Oxaca, Taxco) porque acredita que é ali que está a verdadeira essência de um povo. E ele não tem pressa, demora, observa os detalhes e os estuda, sem a ânsia de acabar.

Em um grande e encantador capítulo, Veríssimo conta a história do México, defendendo a ideia de que foi nessa época (sangrenta e obscura) em que nasceram duas grandes características propícias do mexicano: o drama e a desconfiança. Em sua concepção, a Conquista foi tão violenta que é possível construir uma metáfora, a atitude dos espanhóis para os mexicanos, através da principal figura: Hernán Cortes é parecida com a de uma pessoa estuprada diante do estuprador, “aquele abusa de maneira violenta e traumatiza da terra virgem”.   

  “Pobre México! Tão lonDiego-Rivera-The-Flower-Carrierge de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

Através de sete colóquios, em que reconstrói  conversas que teve com José Vasconcelos, Veríssimo dá uma pincelada sobre a história mexicana, perpassando pelos momentos mais importantes, como por exemplo, a revolução de 1910. Mas o texto não é só descritivo, é também analítico, crítico. Veríssimo delimita e mapeia o perfil de grandes personalidades (políticos, artistas) e se posiciona sobre cada um. Madero, Zapata, Pancho Villa, Victoriano Huerta, Carranza e artistas como  Orozco, Diego Rivera, David Alfaro Siquieros – Todos tem seu lugar na obra.

Mas é o povo que encanta Veríssimo, é o índio, o mestiço, as mulheres, os meninos, as cores, as igrejas, a fé. O autor analisa e descreve aspectos que para ele são os de identificação do mexicano, seja o patriotismo, a relação com a morte, língua, as gírias, a Virgem de Guadalupe. Ele sente e percebe o mexicano pulsante, aquele que está longe do idealismo.

Na segunda parte, reproduzirei algumas citações interessantes. E aqui, no vídeo abaixo, coloco uma das músicas que Veríssimo escutou logo que chegou no México, uma música que, por sinal o deixou inquieto. Conta a história de um homem (o preso número 9) que descobriu a traição da mulher com o melhor amigo e acabou os matando. O preso número  9 está prestes a ser executado. Ele, no entanto, não demonstra raiva ou medo, pelo contrário: está satisfeito. Porque conseguirá perseguir os amantes por toda a eternidade.

Diana Bracho, a diva!

Sem querer, eu acabei criando um ciclo de publicações onde falo sobre as minhas atrizes mexicanas favoritas. Por que mexicanas? Não sei, ando mergulhada nessa fase. Não poderia deixar de falar da Diana Bracho, não mesmo. Diana está em outro patamar, é como se fosse uma “Meryl Streep Mexicana”, uma Fernanda Montenegro, entende? Bracho possui uma carreira fincada no cinema, mas é plural e tem trabalhos televisivos, teatrais e literários incríveis.

diana brachoDiana vem de uma família artística, seu pai Julio Bracho era apresentador e diretor. Ele, filho de um músico e de uma miss e sobrinho de ninguém mais ninguém menos que Andrea Palma.  Ah, e Diana também é parente distante de Dolores del Río e Ramon Novarro. Seu irmão, Julio, também é ator. Pode? Em entrevistas ela conta que durante a infância foi um pouco “sufocada” pelo pai, era uma menina rica que tinha um motorista e empregados disponíveis para ela o tempo inteiro e começou a atuar, muito novinha.

maxresdefault“Yo le agradezco a la vida haber estado fuera de los márgenes de la convención porque esto me ha dado una libertad de movimiento por todo el mundo, con una gran apertura a lo que me vaya tocando, me siento igual de a gusto comer unos tacos en una esquina que comer en un restaurante de París, porque sé quién soy y estoy a gusto conmigo misma”.”

Antes de estrelar “El Castillo de la Pureza” (filme reconhecido internacionalmente e dirigido por Arturo Ripstein), cursou Letras em New Rochelle (NY) e até hoje, se dedica a literatura. Sim, Diana possui várias faces.  Entre 2002 e 2006 foi presidente da Academia Mexicana de Artes y Ciências Cinematográficas. Recentemente deu uma entrevista ao El País, onde dizia “Amo as minhas rugas” e, diferente de muitas atrizes em sua idade, defende uma estética mais natural. Só pra constar, ela vai completar 70 anos em dezembro.

Diana“Entiendo que el tiempo pasa, la edad no es fácil de aceptar o enfrentar, sobre todo en las mujeres porque de pronto te juzgan y dicen si una ya dio el ‘viejazo’. No quiero hacer juicios sobre las operaciones estéticas, pero he visto que incluso se las hacen personas muy jóvenes que pienso que no las necesitan. Yo soy como soy y no me voy a pelear con la persona que soy, porque me he construido a través de la vida tratando de ser una persona íntegra que ama su trabajo y yo amo la cara que tengo, con sus arrugas y con la edad.”

Eu realmente não me lembro da primeira novela que vi com ela. É com se Diana Bracho sempre estivesse ali. Sei que ela ficou muito conhecida no Brasil depois que o SBT transmitiu a novela Ambição (Cuna de Lobos) e que na primeira fase de “O Privilégio de Amar”, ela interpretou a versão jovem da Dona Ana Joaquina, posteriormente interpretada por Marga Lopez. Mas ela teve trabalhos muito marcantes como “El Derecho de Nacer”, “Pasion y poder” e “Capricho”.

Como disse, acompanho a Diana há muito tempo e acho que perdi a conta de quantos filmes e novelas assisti com ela. (Já comentei sobre muitos aqui no La Amora). Da Diana, três novelas me marcaram em especial.

1) Bajo la Misma Piel: Essa é a primeira e única novela em que me lembro da Diana interpretando uma “mocinha”. A trama se concentra na história de quatro mulheres da mesma família e de gerações diferentes. Diana interpreta Sarah, uma mulher frágil e sensível, casada com Bruno, um homem arrogante. No passado, Sarah se apaixonou por Joaquim, mas com o tempo, cada um tomou um rumo diferente. Sarah vive sofrendo com os abusos do marido e se irrita com os assédios por parte de Rodrigo, um antigo amigo da família.

8m331424ep2Nessa novela, Diana está diferente de tudo o que eu já vi, um personagem denso e muito importante para a carreira dela, que tem um posicionamento de defesa pelos direitos da mulher. Na trama, Sarah é estuprada pelo próprio marido e agredida fisicamente. Existe uma cena fortíssima, que me marcou mundo. O marido da Sarah acaba de descobrir que é estéril e que os dois filhos que criou com ela, não são seus. A cena, aliás é inesquecível, nunca vi nada igual em novela nenhuma. Sarah leva socos e pontapés de Bruno no meio da rua e fica com a cara ensanguentada, é chocante (é a primeira cena do vídeo, é só dar play):

 2) Heridas de Amor: Bertha de Aragón era um verdadeiro furacão. No início da novela era uma mulher que alimentava um amor secreto pelo marido da irmã e que, no passado, tinha entregado a filha para adoção.  Usava roupas e tinha um comportamento de beata e infernizava a vida da sobrinha. Um dia Bertha faz uma viagem e volta completamente diferente, com roupas sensuais e com um comportamento agressivo. Me lembra um pouco a história de “Now Voyager”, com Bette Davis. 

1529578_640pxQuando volta, Bertha se apaixona por César e tem um caso de amor bandido, onde juntos planejam um golpe. O personagem interpretado por Diana ficou muito famoso e conquistou o público. Na época, Diana precisou fazer umas viagens e se afastar da novela e quando ela saiu de cena, a audiência despencou. A novela foi transmitida no SBT e ficou bem famosa por aqui.

Bertha era um personagem incrível, quase uma Nazaré Tedesco. Era muito engraçado a sua mania de chupar pirulito quando ficava nervosa ou coçar a testa. Ela tinha um cachorro que era a sua paixão e sempre o usava para assustar os outros. O fim da Bertha foi uma das coisas mais malucas e estranhas que eu já vi. Ela tinha um empregado (que por sinal, tinha um aspecto grotesco, uma mão defeituosa e se chamava “El guapo”, em tradução meio fula e literal seria “O Bonito”) que a amava. Um dia ele a sequestra e corta seus dedos no intuito de fazê-la ter “medo”.

Como aquele filme, “O Perfume”, o cara queria roubar a essência, o cheiro de medo dela. Difícil explicar. O fim da vilã não poderia ficar mais tenebroso se o cara não a tivesse levado para um “ilha” cheio de bonecas velhas e horrorosas, a prendido e a amordaçado e por fim, suicidado. Bertha termina presa, longe de tudo e de todos, sem os dedos e ao lado de um cadáver.

3) Fuego en la sangre: Mais uma vez Diana interpreta um vilã, Gabriela Santibañez. Mas o tom dela é diferente dos outros, ela é a mãe das três personagens principais e além de controladora e ortodoxa, é extremamente cruel com o marido (idoso e deficiente). Gabriela foi um personagem mais erótico e teve uma relação extraconjugal com Fernando e fisicamente mais violenta do que os outros, sempre saía distribuindo tapas nos outros.

111612_profUma das coisas que me faz adorar a novela é que María Sorté e Diana Bracho atuam juntas, praticamente o tempo inteiro. Adoro quando as minhas atrizes contracenam, como por exemplo em Cadenas de Armargura, em que ela e a Helena Rojo interpretam irmãs inimigas (ou em La Tempestad, em que Daniela Romo e María Sorté atuam juntas ou em Amor Sin Maquilaje em que Daniela e Helena Rojo contracenam…). Como não poderia ser diferente, o fim da Gabriela é uma coisa absurdamente assustadora. Por um engano, ela acaba sendo enterrada viva! 

Cuba Libre?

Diana Bracho_12Como disse, Diana participou de muitos filmes, alguns grandiosos e reconhecidos internacionalmente. “Cuba Libre” ou Dreaming of Julia é um deles, onde ela, ao lado de Gael García Bernal e Harney Keitel estrelam uma deliciosa e nostálgica história que tem como pano de fundo a Revolução Cubana.  O caso é que muito tempo depois do lançamento do filme, Diana chegou a confidenciar que foi muito mal tratada por Keitel e que jamais trabalharia com ele novamente. Ela contou que, nos bastidores, ele sempre fazia um discurso contra atores latinos e mal mal queria encostar nela para fazer as cenas – e, os dois eram um casal!

Atualmente, Diana revive a peça “Master Class Maria Callas”. Quando foi encenada pela primeira vez, a obra foi  um grande êxito e marco em sua carreira. Ela, que nunca gostou de repetir personagens, se une novamente a Diego del Río  e Morris Gilbert (depois de quinze anos!) para representar Callas.

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Perras

Tenho um lugar separado, onde guardo os meus filmes preferidos.  “Perras”, produzido em 2011 e dirigido por Guillermo Ríos é um deles.  O assisti muito antes de me interessar pelo cinema mexicano e não sei por que, demorei tanto para citá-lo aqui.  É um filme magnífico e me incomoda o fato de tão poucos conhecê-lo. Rios, cheio de recursos primorosos, conta a história de um grupo de garotas problemáticas que estudam no mesmo colégio e que foram trancadas na sala de aula pela diretora, depois que um crime horrível foi cometido. Todas são suspeitas. critica_perrasDiferente e ácido, “Perras” é o típico filme que emociona, surpreende e que consegue retratar a história de cada personagem (e olha, são muitos) com cuidado e densidade. Aos poucos, vamos conhecendo a trajetória de cada menina e recebendo ‘dicas’ sobre o crime. Difícil não se identificar com a história de cada uma delas e não se simpatizar com seus dramas. As alunas possuem classes sociais diferentes e a maioria dos confrontos (e dos jogos de interesse) se dão por causa desse aspecto.

María del Mar (Claudia Zepeta) é a personagem principal, que narra os acontecimentos e contextualiza os espectadores sobre o que se passa. É uma garota tímida e introspectiva, que a primeiro momento nos faz acreditar que não deveria estar ali, junto com as outras meninas – ‘problemáticas’. Aos poucos descobrimos que ela se envolveu com um homem mais velho e casado e que sua relação causou grandes problemas em sua roda familiar. 

perras“Se supone que tus padres son los que más a fondo te conocen. Pero no es verdad. Las cosas mas importantes que se han pasado en la vida ellos no lo saben”

Com o decorrer da trama, as vozes narrativas vão se mesclando e todas as meninas passam a contar sua versão. Tora, por exemplo, é uma garota gorda com uma deficiência na perna, que sonha em fazer uma festa de quinze anos – mas que não tem condições financeiras e que também não tem quem convidar. Sofia é a patricinha da sala, rica e metida a líder – que no fundo, sofre com a indiferença dos pais. Andrea vive um mundo de ilusão e de abandono, em que espera receber um pouco de atenção da mãe, Alejandra é corajosa e alternativa, cujo os pais não aceitam a homossexualidade.

Como um quebra cabeça, todas as peças vão se unindo e é difícil não se surpreender com o final. “Perras”, definitivamente não é um filme juvenil, pelo contrário – é um filme que causa repulsa. Assuntos pesados são abordados com certa naturalidade: aborto, prostituição, assédio… Aliás, os diálogos são densos, sarcásticos e marcantes. A narrativa também é marcada por flashbacks .

 

O ano da peste

Até então, o único filme que tinha assistido com Felipe Cazals foi “Las Poquianchis”, onde ele reconstitui o caso das irmãs González Valenzuela, uma delas interpretada por Diana Bracho.  Outro dia estava lendo sobre o diretor e descobri que ele chegou a dirigir um filme argumentado por Gabriel García Marquez… “El año de la peste”. Confesso que eu não sabia que o Gabo era fã da sétima arte e que atuou, inclusive, como diretor da escola de cinema de Santiago de los Baños, em Cuba.

“El año de la peste”, produzido em 1978, conta a história de uma cidade assolada por uma epidemia desconhecida, qO ano da peste ue mata misteriosamente milhares de habitantes. Mesmo com o excesso de mortes, as autoridades insistem em dizer que a situação está controlada e que não há nada em que se preocupar. As pessoas caminham nas ruas e se deparam com corpos amontoados, mas agem normalmente. Na TV, os telejornais tentam minimizar as ondas de pânico e os estadistas calam médicos e especialistas que afirmam que a cidade está sofrendo com uma epidemia similar a peste negra, ocorrida na Idade Média. [Gabo era fã de Um Diário do Ano da Peste”, escrito por Daniel Defoe (1660-1731)].

Adoro esse tipo de narrativa e enquanto assistia ao filme me lembrei de produções e histórias semelhantes como “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago, “Tempos do Lobo” de Michael Haneke ou “Contágio” de Soderbergh. Aliás, Cazals é tão seco quanto  Haneke e não pensa duas vezes em mostrar uma cena de sexo onde uma mulher beija o peito ferido do amante.

‘O ano da peste’ me incomodou um pouquinho… só em duas questões: não gostei da trilha sonora, que ao invés de acentuar o suspense, era irritante. A iluminação também estava estranha, não dava para saber se algumas cenas se passavam de manhã ou de noite, não dava para reconhecer o rosto dos atores enquanto eles dirigiam ou conversavam dentro das casas. Eu realmente não sei se é a estética do filme e fiquei confusa em alguns momentos, imaginando se se tratava da maneira em que o filme foi conservado.

Mesmo com o ritmo lento da trama, Calzar nos presenteia com pequenas pérolas, como aquela cena em que centenas de policiais descem a escadaria de uma igreja (todos armados e com máscaras de proteção) e vão de encontro ao povo (que se manifesta em praça pública) e se defende atirando pedras. No fim, já não existe mais polícia, nem povo… 

Também achei incrível a cena em que os agentes de limpeza começam a despejar remédio sobre as áreas infectadas. Em certo momento eles se deparam com três moradores de rua e jogam remédio sobre eles. Os moradores de rua, por sua vez, continuam a agir como se nada tivesse acontecendo, sentam-se e começam a comer o que encontram no lixo.



Daniela Romo “El año de la peste” trouxe uma feliz surpresa. Daniela Romo, bem no inicinho da carreira, fez uma pequena participação no filme. Tinha vinte anos. Na trama ela interpreta Laura, amiga da assistente do médico e que estranhamente tem um caso com ele. (É, fiquei meio confusa nessa parte). Tive que parar o filme para conferir se era ela mesmo, só pra ter certeza. Romo já tinha um cabelo enorme e usava aquele anel no dedinho (que não larga até hoje!).

Tudo pode dar certo

Todo_incluidoFico decepcionada quando penso no fato de que filmes, com grande potencial como este, fiquem sem serem vistos por falta de divulgação ou por falta de identificação do público. Talvez, se fosse uma produção americana e com nomes famosos, “All Inclusive” (ou “Todo Incluido” e em português “Tudo por acontecer”) teria um alcance muito maior.

Não sei por que demorei tanto para escrever sobre essa produção… Foi com este filme que tive certeza da minha predileção por Jesus Ochoa e foi exatamente com ele que comecei a me interessar pelo cinema mexicano.  “All Inclusive”, na verdade, é um filme produzido pelo chileno Rodrigo Ortuzar Lynch, apresenta traços da cultura mexicana, mas ilustra uma situação que poderia se passar em qualquer outra família do mundo.

Na trama, Ochoa interpreta Gonzalo, um empresário bem sucedido que leva a família em viagem, com o intuito de revelar que padece de uma doença terminal e que só possui três meses de vida. Apesar de viajarem juntos, os membros estão sentimentalmente separados: Camila, a filha mais velha de Gonzalo, é uma mulher conservadora que está enfrentando uma crise por ter se divorciado. Maca, a filha do meio, é uma garota de vinte e poucos anos que se sente incompreendida pela família e Andrés, o caçula, é um adolescente cheio de dúvidas e hormônios à flor da pele.

all_inclusiveGonzalo e a mulher, Carmen, também apresentam um casamento desgastado e estão, cada vez mais distantes um do outro.  Com a notícia da chegada de um furacão, a família acaba presa no quarto de hotel e, impossibilitados de fugirem dos próprios problemas, se vêem diante da necessidade de enfrentá-los. Mas dessa vez, juntos.

Apesar da trama dramática, o filme é recheado de situações engraçadas, que deixa o desenvolvimento da história mais leve, mais agradável. Lynch acerta em três pontos fundamentais: no roteiro, na trilha sonora e na fotografia. Há quem diga que o filme está repleto de clichês… talvez esteja, mas em nenhum momento fiquei incomodada com a narrativa. Os dramas pessoais dos personagens são densos, provocadores e realísticos: desde Camila que apresenta um interesse sexual por uma funcionária do hotel a Carmen, que conhece um agente turístico e transa com ele, traindo o marido e se arrependendo logo depois.

Gonzalo, por outro lado, tenta viver os últimos momentos da vida em paz com o passado e em sintonia com a família.  Alias, Ochoa, ah! Ochoa!! Como esse homem é incrivelmente talentoso e consegue emocionar e fazer rir com tanta sinceridade e sem ser exagerado… Amo, amo!!

sobre Daniela Romo…

Ficar distante do La Amora me dói, adoro escrever e publicar aqui, dá um prazer inigualável. Infelizmente estou com pouco tempo, o trabalho e os cursos estão me deixando sem fôlego – tenho até assistido menos filmes, o que é fora do comum.

Hoje eu reli algumas publicações do Indiscreet Talkin, o blog da Jéssica, que já mencionei aqui anteriormente. Em um de seus textos ela falava sobre sua “crush” em Christine McVie. Engraçado a maneira em que ela descreve seu comportamento, é exatamente daquele jeito que eu fico quando me encanto com alguém (normalmente atores, atrizes e cantores). Sabe aquela coisa de colecionar fotos, de assistir capítulos, procurar pela biografia, por novidades ou ouvir todas as músicas? É, mais ou menos isso.

daniela romo

Atualmente não há nada que ocupe a minha mente além de Daniela Romo, uma cantora/atriz mexicana. Outro dia uma página que curto no Facebook fez uma lista com personalidades (não sei qual era o intuito da lista porque só passei o olho), mas lá estava ela. De repente veio um flash, me lembrei de “Margarita”, uma das vilãs mexicanas que mais gosto. Como pude esquecê-la? Que ingrata. Eu assistia “Manancial” todos os dias, assim que chegava da escola e ficava fissurada com o personagem, que salvava a novela.

Daniela Romoo
Margarida, “Manancial”

Manancial (El Manantial) foi exibida no Brasil em 2002, contava a história de duas famílias (os Ramirez e os Valdez) que brigavam pela posse de uma região. Adela Noriega interpretava a personagem principal, Adriana (em espanhol, Alfonsina) e ela era apaixonada por Alexandre, membro da família inimiga. O conflito sobre a posse das terras praticamente se transformou em guerra, a situação ficou tão feia que Justo Ramirez (pai de Alexandre e marido de Margarita) chegou a estuprar Adriana e expulsá-la da região. Ela vai embora, mas promete voltar para se vingar.

Em Manancial Daniela Romo usava duas trancinhas, um dia – nos últimos capítulos da novela, ela soltou os cabelos. Fiquei paralisada, sério. Eram enormes! A cena é inesquecível, dessa me lembro até hoje (revi outro dia, pelo Youtube e me surpreendi, porque minha memória estava vivíssima). Margarida sempre usava tranças, nesse dia ela deixou os cabelos soltos. Ela estava separada de Justo e tinha confessado que durante toda a vida, amou outro homem. Justo (que não tinha um braço! Não me lembro porque), invade a casa, dopa Margarida e a estupra. Por fim, Margarida, que sempre maltratou Adriana, passa pela mesma situação e começa a se arrepender de suas maldades – persegue Justo e o mata.

Essa foi a única novela que assisti com a Daniela Romo, descobri há pouco que ela não fez muitas novelas porque também é cantora, aliás, foi eleita pela People como uma das 50 personalidades mais influentes do país.. Quando procurei por ela na internet me surpreendi com a notícia de que teve câncer de mama e que passou por um penoso tratamento quimioterápico. Segui a semana ouvindo suas músicas, vendo novelas e entrevistas. Me encantei por ela, não só por causa dos trabalhos artísticos, mas pela destreza comunicativa e pela inteligência emocional que apresentava nos vídeos.

daniela_romoEm uma entrevista que vi, Daniela construía uma metáfora onde comparava o câncer e a guerra (me lembrei da Susan Sontag). Romo dizia que desde que trouxe a doença a público, muitas pessoas não só ficavam com piedade, encarando-a como uma “morta-viva”, como também diziam que ela deveria usar uma peruca. Antes, ela agradeceu o carinho dos que a apoiaram. Então ela diz que as mulheres diagnosticadas com câncer não tem que se envergonhar, pelo contrário. Assim como os soldados que vão para a guerra e voltam com medalhas e com os braços tatuados, exibindo a glória da vitória, as mulheres estão no seu direito de se mostrarem carecas, de mostrarem ao mundo que estão lutando pela vida.

Pode parecer uma coisa boba, uma afirmação qualquer, mas não é. Há um estereótipo social muito forte que ronda as mulheres, e a aparência é um deles.  Foram revistas e revistas, programas, entrevistas, vídeos especiais, todos dedicados ao assunto. Que até hoje é discutido, na semana passada ela foi convidada a dar uma entrevista a CNN para comentar sobre a doença e sobre o tratamento. E todos os entrevistadores esbarram no mesmo assunto, no cabelo.

Daniela sempre teve um cabelo muito grande (vou colocar uma foto), é como se fosse uma marca dela, talvez seja por isso que ficaram tão impressionados ao vê-la careca. Romo revelou que sofreu ao cortar o cabelo, que era para ela algo “intocável”. Em entrevista ela explicou que o cabelo passou a ser mais importante para os fãs do que para ela, era uma marca e os fãs fantasiavam sobre isso, se tornou um fetiche. Outro detalhe engraçado é que ela fala palavrão pra caramba, tem boca suja e não tá nem aí. – Aliás, Daniela não se chama Daniela e sim: Teresa Premanes.

Daniela Romo e sua esposa,  Tina Galindo.
Daniela Romo e  Tina Galindo.

Em outra entrevista, no show da Cristina (uma espécie de Hebe mexicana) ela também falou muito bacana. A Cristina faz a abertura dizendo que aquele “era um programa de agradecimento” e pediu que Daniela falasse sobre algumas pessoas importantes pra ela. Então ela fala sobre seu pai, “cuja presença era uma ausência” Ela conta que seu pai nunca esteve presente em sua vida e que ela o encontrou apenas uma vez.

Ele disse que desejava vê-la feliz e que esperava que ela encontrasse um homem e que o pudesse fazer feliz. “Naquela época eu já entendia o sentido do que ela se apaixonar, o que era o amor e o que era a vida. Ele me ensinou uma das grandes maravilhas que aprendi no mundo que é o perdão. Eu não precisava perdoá-lo só porque ele não esteve comigo, mas me ensinou a valorizar e a entender o que o perdão significa. Perdoar é a coisa mais difícil que existe no mundo, ainda que pareça tão fácil.”

Daniela é uma militante, luta especialmente pelos direitos dos homossexuais. Há boatos, fortes boatos, de que ela está casada há muitos anos (acho que mais de trinta) com Tina Galindo, uma produtora teatral. Romo não confirmou nada e não fala abertamente sobre o assunto.

Olha o tamanho do cabelo. Daniela, no programa da Cristina, promovendo a novela Sortilégio, 2009
Olha o tamanho do cabelo. Daniela, no programa da Cristina, promovendo a novela Sortilégio, 2009

[Pausa: Eu sei que eu estou escrevendo muito nessa publicação, mas me deem um desconto porque tem muito tempo que não escrevo nada no Blog!!]

Apesar de ter interpretado muitas “mocinhas”, Romo ficou marcada por causa das vilãs. Em “Triunfo do amor”, 2010, ela encarnou Bernada Iturbe. A novela é uma regravação de ‘Cristal’ – que também deu origem a ‘O Privilégio de Amar’. A história é a mesma, em suma, mostra a luta de uma mãe em busca da filha perdida. Victoria Ruffo interpreta Maria, a mãe da “mocinha” e Romo é grande responsável pelo sumiço da garota. Cabe acrescentar que Ruffo e Romo são grandes amigas.

Em 2012 ela gravou “Para soñar”, ela não só comemorava o fim da batalha contra o câncer, como também completava 40 anos de carreira (ela começou a cantar e a atuar com onze anos!). No cd ela canta canções antigas, remixadas, que fizeram sucesso nos anos 80. A última novela feita por Daniela é “La Tempestad”, de 2013. Foi a primeira, desde o câncer. Na trama ela interpreta Mercedes, uma empresária que procura por sua filha desaparecida. (Aliás, suas músicas foram incluídas na trilha sonora.)

sobre a Jacqueline Andere…

Jacqueline Andere

Eu sei pouquíssimo sobre a biografia da Jacqueline Andere apesar de já ter lido muitas coisas sobre ela. Outro dia peguei na biblioteca da PUC o livro ‘ Melodrama’ de Silvia Oroz: e algumas passagens de texto me remeteram diretamente a ela, atriz que acompanhei em inúmeras novelas (algumas pela internet, outras transmitidas pelo SBT). Só para constar, Jacqueline nasceu em 1938 (possui 77 anos). Quando jovem estudou um período nos EUA  antes de voltar para o México para estudar cinema. Seu debut na sétima arte foi em 1958 no filme “Vestido de Noiva”, em 60 estreou na TV através da novela “Vida por vida”.

Resolvi relembrar alguns personagens que mais gostei. É o seguinte, andei lendo algumas páginas e descobri que há muito tempo “Jacky” (como é chamada carinhosamente pelos mexicanos)  ficou muito  marcada ao interpretar vilãs.  Mas nem sempre foi assim, Andere, no inicio da carreira, interpretava mocinhas sucessivamente. Isso só veio a acabar em “Sandra e Paulina”, novela de 1980, em que ela interpretou irmãs gêmeas (a clássica história: uma boa e uma má).


Sobre alguns personagens que gosto:

Bernarda Sainz de Guillén – (A Outra, 2002)

Maldosa que só, Bernarda era uma mulher rancorosa e de passado duvidoso. Quando jovem, começou a trabalhar nas lojas de Leopoldo junto com a sua prima Fabiana. Leopoldo (que já fora casado uma vez) se apaixonou por ela e a levou para casa. Bernarda juntou-se a Leopoldo já grávida de Eugênia (e o novo companheiro sabia da situação). Os dois simulam um casamento e depois de algum tempo ela engravida novamente: da sofredora Carlota.

Acontece que Leopoldo morre – há aquela cena dramática (interpretada por Chantal Andere, filha da Jacky), onde Bernarda entra no velório do amante segurando as meninas pela mão, em um dia chuvoso. Quando lêem o testamento descobrem que Leopoldo distribuiu sua herança para os três filhos (duas que teve com Bernarda e um que teve com a primeira esposa: Romano) – a única condição para que as filhas recebessem o dinheiro era se casarem, enquanto isso não acontecesse, o dinheiro ficava com a mãe. Enfim…a primeira esposa de Leopoldo morre e Romano promete se vingar de Bernarda.

Eu poderia ficar até amanhã falando sobre as reviravoltas da novela, que é uma delícia. Carlota cresce e se apaixona por Álvaro, mas a mãe faz de tudo para impedi-la de ficar com ele. Doente pelo dinheiro, Bernarda (vira um capeta) só de pensar em ver a filha casada. As interpretações são ótimas – em algumas cenas o que predomina é o bom humor (como em toda novela, tem coisa que não dá pra acreditar). Com os olhões esbugalhados (acho que gosto de olho grande) e cheios de lágrimas, Jacqueline fazia uma personagem tão sacana, de coração tão podre – que ficou carismática, com tanta loucura.

Os tapas que as atrizes trocavam eram de verdade. Yadhira Carillo teve que insistir muito para que Jacqueline Andere aceitasse – acreditava que as cenas se aproximavam mais do real. Andere relutou porque quando interpretava Beatriz de Martino em “Estranho Poder” deu um tapa em Érika Buenfil  e estourou o seu tímpano. Os gritos da Bernarda são os melhores, ela não se agüenta, humilha a filha até falar chega. Como toda boa e velha vilã, não poderá ter um fim diferente: morre em uma cilada, tentando pegar uma mala cheia de dinheiro.

Alba San Román – (A Madrasta, 2005)

Eu não sei se prefiro a Bernarda ou a Alba, as duas eram engraçadas demais (de tão “sem noção sabe?). A Madrasta foi uma novela divertida e cativante, muito por causa do enredo e por causa dos atores que são excepcionais. Nesta trama Jacqueline aparece mais uma vez como uma vilã, ou melhor: como uma mulher amargurada, vingativa e mal humorada. Na novela ela está sempre próxima da irmã Carmen, com quem divide um segredo.

A Albinha é um peste e desde o princípio da trama vive atrapalhando a vida de Maria (protagonista e heroína da historia). Maria vai presa, acusada de um crime que não cometeu. Sua prisão a afasta dos filhos e do marido. Quando sai da cadeia, ressentida e com sede de vingança, Maria volta a casa do marido (os “San Román”) para tentar ter a sua antiga vida de volta (e descobrir quem foi o real culpado pelo crime).

Dentre tapas, gritos e acusações: Alba está sempre se sobressaindo. Ela tem um tórrido amor pelo sobrinho, interpretado pelo lindo César Evora, por isso o influencia: o impediu de ajudar Maria (que ficou presa por vinte anos). Na casa há vários personagens que direta ou indiretamente possuem uma relação com Maria. Entre eles o filho da Alba, um menino tímido, sempre muito limitado pela mãe.

No final descobre-se que o garoto não é filho da Alba, e sim da irmã: Carmen. As duas tiveram um caso com o mesmo homem e engravidaram dele. Porém Alba perdeu o bebê e pegou o da irmã (que tinha medo de assumi-lo). O homem também mora na casa e é casado a sobrinha de Alba e Carmen.

Nuria Del Encino de Rivadeneira – (Mi destino eres Tu, 2000)

Gosto demais das produções da Carla Estrada. Na verdade acompanhei esta novela pela internet e não me liguei muito na história central. Comecei a vê-la por causa da Maria Sorte (outra atriz que adoro) e fiquei viciada ainda mais, ao saber que a Jacqueline Andere participava da trama. No início ela aparece muito pouco, seu personagem é quase uma coadjuvante (li que ela chegou a conversar com a Carla Estrada: disse que se não tivesse mais visibilidade na trama, deixaria de gravar a novela).

Bom, Nuria é uma mulher que guarda um segredo “cabeludo”. Durante anos se dedicou ao trabalho comunitário e nutriu uma amizade com Amparo Calderón (interpretada por Sorte). Amparo é a personagem problema: rica, depressiva e alcoólatra (e Nuria sempre está lá para segurar uma barra). Acontece que Nuria há anos atrás foi estuprada pelo marido da Amparo: Augusto (interpretado por Julio Alemán) e chegou a engravidar dele.

Augusto era melhor amigo do marido de Nuria e sempre a ameaçava muito (aliás, as ameaças duram até quase o final da novela). O cara se aproveita que Nuria guarda aquele segredo e então, sempre a assedia sexualmente. O problema é que o filho de Nuria com Augusto se apaixona pela Andrea, filha da Amparo (ou seja, os irmãos se apaixonam) e ela faz de tudo para impedi-los de ficar juntos, sem deixar claro o porque. Depois aparece outro rapaz no pedaço, Andrea se apaixona por ele e tudo se resolve.

Comecei a gostar da novela mesmo já no final, quando a história dá uma reviravolta e Nuria conta o seu segredo. Amparo não acredita em nada, diz que Nuria quer acabar com seu casamento – as duas quase saem no tapa. Mas nada do que Amparo pensa se leva em consideração porque ela sempre está alcoolizada.

A situação só muda mesmo quando Amparo se separa de Augusto e percebe que os assédios denunciados por Nuria são verdadeiros – ela precisa ver com os próprios olhos, para acreditar. Um dia quando foi conversar com a amiga (para brigar com ela mesmo), ela encontra Augusto falando todas as verdades e tentando estuprá-la (é muito estupro para uma novela só, enfim). Na verdade escrevi sobre essa personagem porque está é a única “mocinha” que me lembro de vê-la interpretando.


Enquanto escrevia um pouco sobre as novelas, me lembrei que vi dois filmes com ela que gostei demais.

O Anjo Exterminador – (Direção: Luis Buñuel, 1962)

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Acho que não preciso falar muito desse filme, que é um clássico. Jacky está novinha (nem tinha feito a operação cirúrgica no nariz ainda, estava bem diferente). Com as influencias surrealistas, Buñuel executa um trabalho brilhante. Uma grupo da aristocracia mexicana se une em um jantar e acabam ficando presos naquele ambiente. Porém não há nada que os impeça de sair (nada físico ou visível). Ficam lá por dias e suas características mais primitivas começam a aflorar: sexuais, físicas (improvisam inclusive, um banheiro na sala de jantar). As críticas a igreja são ótimas e o final do filme: delicioso.

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La Casa del Pelícano – (Direção: Sergio Véjar, 1978)

ImagemSe tem um filme mexicano que me surpreendeu pela complexidade e pelo realismo foi esse. Filme forte, que deu origem a diversos estudos sobre patologia clínica: algumas inclusive disponíveis no Google.

A história é a seguinte: Jacqueline Andere interpreta Margarita Ramirez, uma professora que vive com a tia em um pequeno bairro no México. Na cidade há um homem com sérios problemas mentais (interpretado por Frederico Falcón) que sempre assusta todo mundo – menos Margarita que é uma mulher doce e muito solista.

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Um dia, quando volta da escola se depara com o “louco” que a ameaça com uma faca e a estupra (ele bate nela, inclusive chega a cortar seu rosto: achei a cena bem forte para o contexto em que foi produzido). Margarita engravida e passa por um conflito: de abortar ou não. Com a tia religiosa sempre ao seu lado (e influenciando-a), decide gerar a criança e entrega-la ao orfanato assim que nascesse.

Quando ele nasce ela reluta em olhar para ele (evidenciando uma relação de ódio e amor) até que, quando o vê pela primeira vez, decide cria-lo. (A cena do parto é muito bonita, aliás, o filme todo é muito lindo). O menino cresce e Margarita se torna uma mãe possessiva. Se algum menino briga com ele, ela se intromete para defende-lo.

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O tempo vai passando e a relação se torna doentia, ninguém pode chegar perto do garoto (Spoiler, pra variar) até que ele fica adulto e se apaixona (por uma moça que na época foi interpretada pela então desconhecida Daniela Romo) decide ir embora. Margarita fica louca, faz de tudo para mantê-lo em casa, os dois chegam a se atacar fisicamente na cozinha. Margarita não aguenta, sofre demais com a ideia de perdê-lo e então e então, resolve mata-lo. PUTAFILME!

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Nascida em 1938, María Esperanza Jacqueline Andere y Aguilar começou a carreira artística aos quinze anos quando decidiu se mudar para os Estados Unidos e estudar artes cênicas. Quando voltou ao México, ingressou no Instituto Cinematográfico Teatral y de Radiotelevisión. Realizou alguns projetos como atriz experimental no teatro e no cinema estreou em 1958, com o filme: “El Vestido de Novia”. Em 1960, dois anos depois, conseguiu seu primeiro trabalho na televisão em “Vida por vida”. A partir daí a mãe da Chantal Andere não teve mais a sua imagem desvinculada da TV, tornou-se um rosto conhecido e admirado pelo público.

*Escrevi esse post em especial, porque há muito pouco (ou quase nada) sobre ela em sites brasileiros ou em português.

CAPADOCIA

A série de alto padrão da HBO Latino-americana surpreende pela delicadeza em que as  situações são representadas.

Personagens riquíssimos se interagem em um cenário obscuro de historias pessoais ainda mais chocantes. São mulheres que (fatalmente ou não) tiveram a vida drasticamente transformada após serem presas em Capadócia, um presídio mexicano, cuja diretora Teresa Lagos, tenta sensivelmente defender os direitos das reclusas e torna-las um pouco mais humanas.

As representações são divinas e os personagens parecem muito próximos das “pessoas de carne e osso”, convivendo diariamente com o lado animalesco e violento do ser humano, que quando está trancafiado em uma cela, perde em parte, o senso de espaço e integração social

O drama das detentas mantém o clima de ação e suspense sempre vivo. Dos melhores personagens (que por sinal, são muitos), não se pode deixar de citar “La Negra”. A agente penitenciária de caráter duvidoso torna-se por vezes engraçada no duro (me arriscaria a dizer: cruel) tratamento que dá as detentas. Utiliza-se de força bruta desnecessária e além do assédio sexual com as reclusas, envolve-se na exploração da força de trabalho e da mão de obra barata.

O drama pessoal do Drº José Burian, psiquiatra do presídio é fascinante. Filho de uma prostituta e um padre tenta esconder a todo o momento seu passado maçante que se tornou ainda mais cruel, quando sua mãe foi presa. Burian mostra-se sempre atento aos problemas das detentas, porta-se de maneira generosa com todas elas, mas não resiste a noites de orgias e bebidas.

A obscura “La Negra” interpretada pela atriz Aida Lopez

Não se pode esquecer de Andréa, filha mais velha e problemática de Tereza, que após a separação dos pais, torna-se uma garota rebelde e “insuportável”. Andréa faz de tudo para chamar atenção dos pais, que estão sempre ocupados, o drama da menina vai ficando ainda mais obscuro quando ela se apaixona por um aluno da sua mãe, sem saber que os dois estão tendo um caso.

A representação da penitenciaria pela TV Mexicana ilustra uma situação que não está tão distante do Brasil, são mulheres de várias idades e níveis sociais, confinadas em um local que as torna cada vez mais animalescas (banhos comunitários, celas sujas, sexo, abandono, violência). A exibição da terceira temporada está marcada para o dia 19 de setembro, com exibição no Brasil pelo HBO Signature.