Curiosidade Mórbida

Genteney, eu ganhei um Kobo! Agora ninguém me segura…E comecei a minha aventura pelo mundo digital com uma leitura maravilhosa! Ok, ok… pode parecer estranho o título e o tema, mas é um super livro e muito esclarecedor. Eu não conhecia a Mary Roach, na verdade, nunca ouvi falar nela… mas estou apaixonada com a sua simpatia textual e com a sua dinâmica, o seu humor.

CuriosidadeMórbida

O livro trata exatamente sobre o que anuncia o título, é um trabalho jornalístico que traz uma série de curiosidade sobre a morte, ou melhor, sobre o que acontece com o nosso corpo após a morte. Roach apresenta uma grande pesquisa sobre o uso de cadáveres em trabalhos científicos e mostra o quanto eles são importantes para a ciência e para a manutenção do estilo de vida que temos hoje em dia.  

Sinceramente, se não fosse escrito da maneira que foi, eu provavelmente teria pesadelos. Mas, ao invés de me deixar para baixo, me deu uma super lição, a de aproveitar a vida ao máximo. Como Roach mesmo diz, passar a vida inteira deitado é estar praticamente morto. Aliás, esse livro me lembrou que ninguém escapa da morte e me deu consciência de que maryroacha morte é feia sim, e feia pra todo mundo!

O livro é dividido em capítulos muito interessantes, ela conta como é processo de morte em aviões, carros, por tiro ou morte-cerebral. Um dos capítulos que eu não consegui ler foi o que ela explica como é a morte por acidente de carro. Eu não consegui, MESMO! Pulei logo.  Outra parte inquietante é quando ela conta que foi, junto a um legista, identificar um corpo em decomposição e o encontrou cheio de larvas: ” Há um motinho de grãos de arroz se mexendo dentro do umbigo de um homem. É uma roda punk de grãos de arroz. Mas grãos de arroz não se mexem. Isso não pode ser arros. E não é. São filhotes de mosca. Os entomologistas tem um nome para os filhos de moscas, mas é um nome feio, um insulto. Não vamos usar a palavra lavra, vamos usar uma palavra bonita. Por exemplo, uma palavra em espanhol que eu acho maravilhosa…hacienda.” 

CitaçõesMaryRoach

– O problema dos cadáveres é que eles se parecem demais com as pessoas. É a razão pela qual quase todos nós preferimos uma costela a uma fatia do leitão inteiro. É a razão pela qual certas pessoas preferem dizer “carne suína” e “carne bovina” em lugar de “porco” e “vaca”.

– Fiquei abismada em saber que a pele (de cadáveres) doada e não utilizada para enxerto em queimados, por exemplo, pode ser processada e usada para fins cosméticos, no preenchimento de rugas e no aumento de pênis. Embora eu não tenha ideias preconcebidas sobre o post mortem, estou firmemente convencida que não se deve ir sob as calças de outra pessoa.

– (Sobre os primórdios das escolas de medicina e como conseguiam cadáveres): A tática mais comum eram esgueirar-se para dentro de um cemitério e exumar o parente de outra pessoa para estudo. Esse ato se tornou conhecido como sequestro de corpos. Era um novo crime, distinto do assalto a túmulos, que tinha a ver com o saque de jóias e relíquias da família dos sepultados nas tumbas e criptas dos ricos.

– O laboratório de anatomia não serve só para aprender anatomia. Trata do confronto com a morte. Muitas vezes a anatomia macroscopia proporciona aos estudantes de medicina seu primeiro contato com um morto, vista dessa forma, é considerada como um passo indispensável e fundamental na formação do médico.

– Como era possível que no século XIX as pessoas permitissem que dentes de cadáveres fossem postos em sua boca? Da mesma forma que gente do século XXI permite que o tecido de cadáveres seja injetado em seu rosto para preencher rugas. Elas talvez nem soubessem disso e provavelmente não se importavam.

– Os mortos, se não forem embalsamados, praticamente se dissolvem. O corpo entra em colapso e afunda em sí mesmo e finalmente infiltra no solo. Lembra-se da morte da Bruxa Má do Oeste? (“Estou derretendo!!”) em O Mágico de Oz? A putrefação lembra uma versão dessa cena, só que em câmera lenta.

– É difícil expressar com palavras o cheiro da decomposição humana. É forte e enjoativo, adocicado, mas não como o de uma flor. Fica entre fruta podre e carne podre. Todas as tardes, ao voltar para casa, passo por uma quitanda pequena e fedorenta que tem a mistura quase certa,de tal forma que já me peguei olhando atrás das caixas de mamão à procura de um braço ou de pés descalços.

– Porque as pessoas que levam um tiro geralmente caem de imediato? E isso não acontece só na TV. Fiz essa pergunta a Duncan MacPherson, respeitado perito em balística e consultor do Departamento de Polícias de LA. MacPherson afirma que esse efeito é exclusivamente psicológico. Cair ou não depende do estado de ânimo da pessoa.

Enquanto se lembrarem de nós, existiremos

Acho que na última publicação, não fiz jus ao livro de Rosa Montero e deixei de mencionar inúmeras coisas que fazem dela uma das minhas escritoras favoritas. Mas também, não poderia e não deveria ficar aqui, resumindo tudo o que ela escreve, só posso fazer – mais uma vez, um convite para que a leiam.

Em um certo parágrafo, Montero levanta um questionamento sobre os escritores e acho que adequa-se não só a classe, mas a todos os seres humanos. Ela diz que muitos deles possuem o medo de serem esquecidos, de não deixarem um legado para a posteridade. E afirma, listando vários nomes de escritores que caíram na obscuridade da memória coletiva, que somos insignificantes diante do efeito da morte.

Você (e provavelmente todo mundo) já pensou no próprio enterro, em quantas pessoas estarão lá e o que irão falar sobre você. Mas já se perguntou o que acontecerá nos meses seguintes? Nos anos seguintes?

Existe um filme chamado “As confissões de Schmidt” onde o personagem principal, interpretado por Jack Nicholson, diz uma das coisas mais certeiras e lindas que já ouvi e que acho que adequa-se perfeitamente ao que Montero se refere: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

- E eu não tenho nem uma foto dele... Ele existe apenas na minha memória.

– E eu não tenho nem uma foto dele… Ele existe apenas na minha memória.

Não existem erros, coincidências. Todos os eventos são bênçãos dadas a nós para aprendermos através deles.

VioletaA despedida de Violeta mudou a minha relação com Deus e com a morte. Antes eu tinha certeza da existência D’Ele, hoje não sei. Antes tinha um medo enorme da morte, hoje não a enxergo com tanto terror. A vida de Violeta se foi como um sopro, de repente seu corpo imóvel e totalmente sem vida, parecia apenas uma casca, uma pousada inabitada. Seus olhos vidrados deixavam claro que ela não estava mais ali e por sorte, não estava mais sofrendo. Em suma, foi o que me consolou. Ainda que eu sinta uma raiva enorme, uma revolta – a situação me faz perceber o quão miseráveis somos diante da morte.

Sua ausência tem sido tão difícil como aqueles testes que a gente precisa fazer sem antes estudar. Você simplesmente não sabe qual é a resposta, você tenta – e falha. Às vezes, mentalmente, chamo por seu nome ou em uma inútil esperança, imagino a possibilidade de tê-la de volta. Deus não negocia Em conversas com amigos, alguns chegaram a me perguntar o porquê de ficarmos tão tristes e mobilizados, afinal: era ‘só’ um cachorro. Violeta tinha personalidade, não era só um cachorro, era um membro da família, era amada e respeitada. E assim como qualquer outra morte, ficamos de luto. A casa ficou vazia, silenciosa, escura, fria – foi difícil.10409562_890400947652422_8982864657036263419_n

No dia seguinte em que perdemos Violeta comecei a ler um livro chamado ‘A Roda da Vida’, indicado pelo meu chefe. A escritora, Elizabeth Kubler Ross é uma psiquiatra mundialmente famosa, especialista em assuntos que envolvem a morte. O livro é uma autobiografia, nele Ross conta sua incrível história de vida e relata os anos em que trabalhou com pacientes moribundos (influenciando diretamente o fim da vida deles).  De fato, o livro pode ser interessante para quem acaba de passar pela difícil prova de perder alguém querido. Os relatos de Kubler me fizeram perceber que não se está sozinho diante da morte de alguém amado – muitos passaram por uma perda tão triste (ou até mais trágica que a sua).

A RODA DA VIDAEnquanto escrevia o livro, Kubler já estava idosa e havia sofrido uma série de derrames – enfrentava a ideia da própria morte. Antes, no entanto, ela fez uma recapitulação dos momentos mais marcantes de sua vida e de sua carreira: como por exemplo, quando decidiu contar aos pais que ia estudar medicina. Ou quando começou a trabalhar no acompanhamento psiquiátrico de portadores da AIDS (isso, nos anos 80). Sua cartilha de casos e histórias é impressionante, ela é o exemplo do que se pode chamar de: uma vida bem vivida.

Mesmo sendo especialista no assunto, a escritora confessa que passou por momentos difíceis de questionamento. Um deles, muito forte: Sua mãe sofreu um derrame que a deixou quatro anos em uma cama, se comunicando apenas através dos olhos. Ela então se perguntava, porque a sua mãe, que tinha sido tão bondosa durante toda a vida e que ajudara tantas pessoas, passava agora por uma situação tão cruel. Sua conclusão foi a seguinte: Que a sua mãe tinha ajudado inúmeras pessoas, mas nunca tinha deixado ninguém ajudá-la.

Ao longo da minha leitura me posicionei um pouco cética em relação às suas experiências espirituais. Mas, acho que é um livro que pode agradar qualquer tipo de leitor, independente de sua preferências religiosas… Gosto especialmente de seus pensamentos finais, dos quais compartilho aqui:

“Preparando-me para passar deste mundo para o próximo, sei que o céu ou o inferno são determinados pela maneira como as pessoas vivem suas vidas no presente. A única finalidade da vida é crescer. A suprema lição é aprender como amar e ser amado incondicionalmente. Há milhões de pessoas no mundo que estão passando fome. Há milhões sem um teto. Há milhões que sofrem de AIDS. Há milhões de pessoas que sofreram violências. Há milhões de pessoas que padecem de invalidez. Todos os dias, mais alguém clama por compreensão e compaixão. Escutem o som de suas vozes. Escutem como se o chamado fosse música, uma linda música. Posso garantir que as maiores recompensas da vida inteira virão do fato de vocês abrirem seus corações para os que estão precisando. As maiores bênçãos vêm sempre do ajudar aos outros.”

Ostra feliz não faz pérola

Ostra FelizGosto muito do Rubem Alves, as coisas que ele escreve me tocam profundamente. Tive a felicidade de encontrar ‘Ostra feliz não faz pérola’ online e fui lendo, pelo celular mesmo, aos pouquinhos.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental (…)

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite a análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li e reproduzo o que Alves escreve:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer cascas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.

Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza.

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta, mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um home completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Confira, outros trechos:

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.

“O gol é fundamentalmente um ato sádico. Um estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no buraco do outro – dolorosamente -, embora o outro tenha feito de tudo para impedir que isso acontecesse”.

“A medicina é uma arte rigorosa, regida por princípios de assepsia e de ética. Por exemplo: quando se vai aplicar uma injeção é preciso desinfetar o lugar onde a agulha vai entrar no corpo. Pura curiosidade: os médicos que aceitam a função de carrascos nas penitenciárias desinfetam o lugar onde a agulha com líquido letal vai penetrar na veia do condenado? Acho que sim. É preciso evitar infecções. Será que os carrascos na cama, de noite, pedem perdão ou se entendem apenas como executores de um ato burocrático? Os criminosos de guerra alemães alegaram que eles apenas cumpriam ordens. O argumento não foi aceito. Foram enforcados. Não é horrendamente imoral que o Estanho tenha o direito de matar? Matam na guerra, milhões. Não são caçados como terroristas. São saudados como heróis. Como são bonitas as fardas dos generais! A diferença entre os morticínios de Estado e os morticínios dos terroristas está em que os primeiros são feitos em nome do Estado e os segundos em nome de uma crença política ou religiosa. Os morticínios são feitos por loucos. Mas a loucura do Estado é legítima”.

“Sobre o perdão: Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma LV225740_Zcriança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem a custo do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Olha as aves do céu. É um conselho de Jesus. Se ele aconselhou é porque o voo das aves no céu é uma metáfora do sagrado. As aves voam porque  são amigas do ar e dos ventos (vejam só os urubus voando nas funduras do céu sem bater as asas…). E foi o próprio Jesus que declarou que Deus é um vento que sopra sem  que saibamos donde vem nem para onde vai. Nosso destino é ser aves: flutuar ao sabor do vento. Por decisão divina, somos seres destinados ao voo. Não é por acaso que o céu estralado foi um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos céus foi um artifício técnico bolado pelos homens para compensá-los do seu aleijão: haviam perdido suas asas. Quem não pode voar tem que subir pelos degraus… Mas vocês sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluída e os homens se espalharam pelo mundo na maior confusão. De fato, para se tocar as estrelas é preciso ter asas. Se duvidam, releiam a estória do sapo que resolveu ir á festa nos céus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estória do sapo são variações do mito de Ícaro”.

(…) “O deus do taoismo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário, pois é, o Alan Watts escreveu o seguinte: Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos, as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água”.

“A velhice tem sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs; As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitárias. No crepúsculo, tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como o azul do mar, imóvel. Nos crepúsculos, as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem do tempo, nós percebemos que é preciso viver o momento intensamente. “Tempus Fugit” – o tempo foge, portanto ‘carpe diem’, sabemos que a noite está chegando. Na velhice, sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”.

 (Cássia Janeiro)

O que sobrou

O que sobreou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seu livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças,

O que sobrou foram os seus retratos

e,

Quando vi uma foto sua,

Sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua

Ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

“Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: Todos os seres humanos tem o direito de morrer sem dor.”

“Há de se viver bem. Há de se morrer bem. A ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada. A medicina é uma luta pela vida boa, da qual a morte faz parte”.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos

Ontem revi um dos filmes brasileiros que mais gosto. O assisti há muitos anos, ainda no colégio e o título não me saiu da cabeça; Revê-lo trouxe sensações semelhantes as que senti na época, uma consciência amarga do fim da vida, uma nostalgia enorme e um respeito, uma admiração pela história e evolução humana.ImagemPor si só, o título “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” é uma belíssima construção poética, uma sentença, uma reafirmação de que todos os homens possuem um só futuro, uma só certeza: a morte.  Mais interessante ainda é que a frase está inscrita na porta de um cemitério localizado em Paraibuna, no interior de São Paulo e serviu de inspiração para o diretor, Marcelo Masagão.

O filme, primeiro projeto de Masagão, é uma releitura cinematográfica do livro ‘A Era dos Extremos’, de Eric Hobsbawm. Premiado no Festival de Recife e no Festival de Gramado em 2000, o documentário é composto por uma série de colagens, textos, pinturas e vídeos que remontam a história, evidenciando a modernidade. O vídeo fica ainda mais emocionante com a trilha sonora, por sinal muito linda, criada por Win Mertens.

O rádio, a luz e a aspirina

Enquanto assistia o filme eu anotava algumas palavras, faço isso às vezes. Relendo meu caderno, o que escrevi foi: fantasmas do passado, terror, grotesco, chocante, família, sacrifício, humanidade, imagem, modernidade, voto feminino, poesia, religiões, trilha sonora, beleza. Em suma, é exatamente o que define “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”, Masagão foi muito sábio ao dar voz aos esquecidos, trazer a tona histórias tristes (e poéticas) que nunca saberíamos, contar o banal, fazer do banal uma poesia.

E a arte que ele constrói não é só visual, é sensorial também. A trilha sonora, o texto e o vídeo se fundem. As histórias são contadas através de frases de efeito, difícil não se sensibilizar com elas, por exemplo: “Berlim, 2000 casamentos: lua de mel improvisada, no outro dia Hans estava no front, Hans atira bombas”. ou “Paul Norman não tinha luz em casa, morreu na cadeia elétrica”, “Trabalhou doze horas por dia numa fábrica da Ford, inclusive aos sábados. Nunca teve um Ford”, “Nunca viu TV, nunca foi pra guerra, gostava de coca-cola”.

Foto: Carlos Santos/G1

Foto: Carlos Santos/G1

Aliás, o que Masagão faz não é só ‘arte é também um trabalho documental, de historiador, um trabalho jornalístico, ele reconta o passado. Um dos temas recorrentes é a guerra, o diretor visivelmente se opõe a isso e seu instrumento principal é a imagem, ele exibe imagens chocantes como um homem brincando com uma pena decepada, multidões caminhando, bombas explodindo, uma mulher brincando com uma mão, cidades destruídas – mais uma vez, difícil não se sensibilizar.

Vale lembrar que Masagão não só relembra os ‘esquecidos’, mas também menciona figuras populares, algumas inesquecíveis, de ditadores como: Hitler, Mussolini, Pol Pot, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Médici. De feministas: Doris White, Josephine Baker. De pensadores e artistas: Karl Kraus, Freud, Madre Thereza, Gandhi Stalin, Picasso (…). Não há nada mais lindo do que a imagem de Fred Astaire dançando em contraponto a imagem de Mané Garrincha jogando, que comparação incrível não? Melhor ainda, ao som de um samba irresistível.

Ficha Técnica:
Gênero: Documentário
Direção: Marcelo Masagão
Roteiro: Marcelo Masagão
Trilha Sonora: Wim Mertens
Duração: 73 min.
Ano: 1999
 

Assista:

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro é um livro fantástico, de importância histórica e de admirável trabalho jornalístico. Realizado por Daniela Arbex, o livro relembra a terrível história do Hospital Colônia, um hospício que funcionou durante décadas e fez mais de 60 mil vítimas (pacientes que foram violentados, torturados e privados de sua liberdade).

O Hospital Colônia foi fundado em 1903 em Barbacena, Minas Gerais. A instituição, que atendia diversos casos psiquiátricos em todo o estado serviu de palco para uma das mais assustadoras histórias que envolvem o serviço nacional de saúde pública. Comparado a um campo de concentração nazista, o “Colônia” existiu por mais de oitenta anos e foi mantido não só pelo estado como também pela igreja católica.

dica-leitura-caos-holocausto-brasileiro-banner-featuredOs pacientes chegavam em grandes vagões de carga conhecidos como “Trem Doido”, eram exibidos aos moradores que se reuniam para ver (e para  fazer chacota) dos doentes. Quando entravam na instituição, tinham seus cabelos raspados e eram despidos, muitos perdiam a identidade, a família e a dignidade. O processo de internação era absurdo, totalmente arbitrário. Uma mulher foi internada porque era triste demais, outra porque engravidara do patrão, um garoto foi internado porque era muito tímido…

O Colônia servia para “esconder” a escória da sociedade, as pessoas que a autora chama de “invisíveis”. E eram mesmo, não tinham nome, nem voz, eram excluídos porque não se adaptaram a sociedade. Muitos foram internados (ou presos) porque eram homossexuais e de acordo com a autora, cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnostico de doença mental.  Crianças e adultos eram enclausurados nas mesmas celas, dormiam em camas sem colchão (usavam capim, repleto de urina e fezes), bebiam água de esgoto, comiam ratos e morcegos, sofriam lobotomia e levavam eletrochoques (por funcionários inexperientes), eram dopados, impedidos de  sair do hospital (quer dizer, só saiam mortos de lá).

ImagemEm princípio, pouco tempo antes de ler o livro e conhecer a história em sua complexidade, eu achava que o título “Holocausto Brasileiro” banalizava e não fazia jus ao termo.  Depois que li e reli a obra, não restaram dúvidas de que esse título é perfeito, tanto pelas barbaridades cometidas no Colônia quanto pelo número de vítimas.

É engraçado porque é justamente com essa percepção que Daniela Arbex inicia o prefácio, talvez adivinhando a reação dos leitores: “As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas do sentido. Holocausto é uma palavra assim. Em geral soa como exagero quando aplicado a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Neste livro, porém, seu uso é preciso”  – Aliás, a comparação do hospital a um campo de concentração nazista não surgiu da escritora e sim do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que em 1979 visitou a instituição e se horrorizou com o que viu.

ImagemFiquei chocada quando terminei de ler, um pouco assustada em relação a capacidade humana de ser e fazer “mal” – mais do que isso, de se silenciar diante de uma situação como essa, afinal, onde estavam os governantes, os vizinhos e as famílias que tinha conhecimento do estado dessas ‘vítimas’ e não faziam nada?

Em 1979, quando o muro do Colônia começava a cair e o “horror” chamava a atenção da opinião pública, o diretor mineiro Helvécio Ratton entrou no hospício e documentou a situação. O documentário “Em nome da razão – Um filme sobre os porões da loucura” foi todo filmado em preto e branco, sem nenhum tipo de trilha sonora. Confira!

[Depois de ler o livro, a impressão que tive foi que a Daniela Arbex não impressiona muito como narradora, apesar da história extremamente chocante, há aspectos textuais que deixam a desejar. É evidente que seu trabalho jornalístico – como citei acima – foi bem feito e exaustivo, ela fez o que manda a cartilha: entrevistas, apuração (…) Mas também usou e abusou de um texto romantizado e deixou algumas lacunas.]

Consolação

Consolação começa em Paris, Laura acompanha os últimos momentos do seu marido, Jacques – que está em um leito de hospital, moribundo. O texto, escrito em primeira pessoa e com diversas intervenções psicológicas, nos contextualiza sobre a sua situação: Jacques sofre dores terríveis, tem uma enorme ferida na boca, dificuldades para respirar e clama pela morte.

Laura implora para que a médica responsável pelo caso termine com seu sofrimento, mas não consegue o que deseja: “Durmo e acordo com a palavra eutanásia. Euthanos… a boa morte. Por que a boa morte é proibida? Por que a lei obriga o homem a sofrer? Gemendo e chorando nesse vale de lágrimas. Mais que isso: Bendizendo a nossa dor. A dor é o castigo bendito de Deus…ela expurga o pecado do sexo. A mulher que amaldiçoasse as dores do parto era condenada à fogueira pela Inquisição”.

Enquanto seu marido praticamente vegeta (não consegue mais comer ou falar), Laura se torna uma observadora, um agente passivo diante da morte do ente querido.

Laura não está sozinha, seu filho Alex também assiste a morte do pai. Mas agora ela está viúva e precisa olhar pra frente: “Chorar, sim; soluçar, não. Interessa mostrar a dor? E para o choro tem um tempo. Lamentar a infelicidade atrai a infelicidade”. Depois que Jacques morre, Laura viaja para São Paulo e realiza um encontro com sí mesma e com a família que deixou quando mudou-se para a França.

Antes de ir para casa da mãe e da irmã, decide ir ao cemitério Consolação visitar o túmulo do pai. No caminho se depara com um enorme engarrafamento e decide ir a pé. Enquanto se dirige ao cemitério encontra personagens (“os que nunca são vistos ou ouvidos”) que possuem histórias de vida tão interessantes quanto a sua. ‘

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Betty Milan é uma psicanalista paulistana, conheci seu trabalho através de uma peça de teatro protagonizada por Bete Coelho (Adeus, doutor!) e depois disso passei a acompanhar sua coluna na Veja (Consultório Sentimental). Fiquei feliz em encontrar seu livro Consolação (publicado em 2009) por apenas R$ 8,00. O li em pouco tempo e várias passagens me incitaram a refletir sobre a vida, sobre a morte e sobre a dor.

É engraçado porque não consegui me identificar muito com a personagem principal. Depois que ela chegou em São Paulo, a única coisa que sabia fazer era reclamar, nada atendia a Laura: o trânsito estava ruim, o rio transbordava trazendo doenças, a arquitetura uma cópia do que foi feito em outros países, ‘só buraco no chão’ e muitos mendigos na rua. Enquanto Paris simbolizava o paraíso, São Paulo era o inferno. – Fiquei com raiva, Laura me pareceu ingrata com a cidade onde nasceu.

Compartilho alguns de seus preceitos, não concordo com o prolongamento da dor. Não sou especialista no assunto, mas acredito que ninguém merece viver em desconforto, em sofrimento, a não ser que apresente um quadro do qual pode se recuperar. Dizem que a gente só sabe de verdade o que é dor quando ela está no nosso corpo.

Mas, quando ela diz “Chorar, sim; soluçar, não. Interessa mostrar a dor? ” tenho lá as minhas dúvidas. Essa metáfora presente no livro, onde Laura/Milan defende a idéia de que não se deve demonstrar luto por muito tempo, nem espernear ou mostrar a dor me lembrou um dos primeiros episódios de Six Feet Under, quando o marido da Ruth Fisher morre. Primeiro, ao saber da notícia, Ruth tem um ataque na cozinha. No velório, diante das pessoas, senta-se contida e quase não faz barulho, tudo porque não fica bem e não é chic aparentar fraqueza/dor.


David, filho de Ruth, questiona: qual o problema em demonstrar a dor? Qual o problema em chorar e gritar até perder a voz se, o que se sente é uma tristeza tão grande que quase não cabe no peito?

(Coloquei o vídeo do episódio abaixo e tenho que evidenciar que a Frances Conroy é magnífica! )

Por fim, só me resta dizer que fiquei encantada com os momentos em que Laura, dentro do cemitério, conversou com Oswald de Andrade – como se Laura tivesse feito as pazes com o país. Gosto, principalmente, quando ele fala sobre a antropofagia e diz o seguinte:

Laura: –  O manifesto antropófago… Aprendi com ele a gostar de canibais.

Oswald:  – Canibais não, antropófagos… O canibalismo é coisa lá do europeu, que comia carne humana para se saciar ou para se curar. Os médicos inclusive aconselhavam a beber sangue humano. De preferência quente. Até o século XIX, os carrascos ganhavam a vida vendendo partes do corpo do criminoso. O canibalismo não tem nada a ver com a antropofagia. Os tupis não comiam carne humana para se satisfazer. Comiam por respeito ao morto e à sua família. A antropofagia era um rito de amor. Os índios consideravam o enterro uma prática horrenda, bárbara mesmo. A idéia do cadáver apodrecendo na terra era insuportável para eles.

Consolação Betty

[Consolação / Betty Millan –  Rio de Janeiro, Record, 2009]

Confissões

A imagem dos personagens interpretados por Jack Nicholson há muito tempo me remota a um homem engraçado mas grosseiro, daqueles que se desliga dos valores morais facilmente e que sempre se mete em encrencas. Sabe aqueles personagens que querem fazer justiça com as próprias mãos e tirar vantagens dos outros? Pois é, sempre liguei Nicholson a eles.

 Bom, tudo isso caiu por terra hoje, quando vi o filme “ As confissões de Schmidt” de 2002, dirigido por Alexander Payne. Depois que o filme acabou fiquei me perguntando inclusive porque não o tinha visto antes. Acontece que me emocionei e muito, porque as reflexões sugeridas pelas vivências dos personagens não estão nem um pouco longe da realidade.

 A história é muito simples: Warren Schmidt é um homem de 66 anos que recentemente se aposentou. Sua rotina ainda possui resquícios da vida de administrador. Com tamanha dificuldade em entender que não está mais trabalhando, volta algumas vezes ao serviço para ver se está tudo dando certo e se estão seguindo as dicas que deixou. Um dia, visita sua antiga sala e percebe que já foi ocupada. Quando sai do edifício vê suas caixas jogadas no lixo. Como um choque de realidade entende que as coisas a partir daquele momento precisam mudar.

 Em casa, zapeando pela TV sua atenção é presa por uma propaganda. Imagens de crianças famintas da África pedindo por auxílio. “Adote uma criança por vinte e dois dólares ao mês, setenta e três centavos por dia”.  O senhor então, decide  adotá-lo. a Instituição envia fotos da criança e pede que envie uma carta, contando sobre a sua vida. É nesse momento que começa as confissões de Schmidt. Em princípio ele começa contanto da sua carreira e depois vai detalhando a sua vida pessoal: o carinho que sente pela filha única, a relação desgastada com a mulher (de quem não aguenta mais o cheiro e as manias de interrompê-lo enquanto fala).

 Quando vai aos correios enviar a carta, sua mulher está limpando o chão. Quando retorna, ela está morta. Triste, Schmidt se dá conta que agora está sozinho. Ele começa a perceber que as reclamações que fizera sobre a mulher na carta não chegavam nem perto do amor que sentia por ela. Sua morte provocou a visita da sua filha (que quase não ia aquela casa). Descobrimos então uma distância entre os dois, apesar do carinho enorme (e das tentativas de aproximação do pai para com a filha), seus questionamentos são por exemplo: “Porque você comprou o caixão mais barato para ela?”

 A filha: Jeannie (Hope Davis) se vai e Schmidt se vê novamente sozinho, junto com os questionamentos sobre o seu passado e sobre o seu futuro. Diante dos acontecimentos repentinos, decide realizar uma jornada rumo a Nebraska (no trailer que ele e a mulher compraram) para ajudar no casamento da filha com Randall (Dermot Mulroney), um vendedor de camas d’água. No caminho ele se depara com pessoas e situações que o faz refletir sobre a vida, sobre o casamento, sobre os seus desejos. – Esqueci de comentar que o filme é um roadmovie.

 Não queria que o post fosse tão descritivo, mas ainda não consigo fugir muito disso. De todos os questionamentos feitos por Schmidt, um deles me pareceu familiar (inclusive há um texto de Martha Medeiros sobre isso). O personagem fala com o garoto africano através das cartas que não sabe até quando estará vivo: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

 Revendo fotos antigas, se lembra dos seus desejos, dos seus sonhos: quando estava na faculdade, queria mudar o mundo ou pelo menos ser alguém importante. Mas quando se casou e teve uma filha percebeu que a realidade é muito mais consistente: “não consegui mudar o mundo, nem a minha vida”. A viagem que ele realiza é um “fazer as pazes” com seu passado. Ele entende que atrás daquele bom homem, que aceita e que diz sim para tudo, há muito mais. Há raiva, há tristezas, arrependimentos. Sentimentos comuns a qualquer ser humano. O filme simplesmente é lindo, é válido e deve ser visto mais de uma vez.