“El futuro no se desea, se merece”

Ontem antes de dormir fiquei me lembrando da época do colégio em que eu chegava em casa depois da aula e corria para assistir novelas mexicanas. Testei minha memória, me esforcei para recordar exatamente da sensação que sentia. É incrível, mas eu ficava envolvida com as tramas, sofria com os personagens, entrava em êxtase.

Sou um ser nostálgico e essa ‘nova’ admiração por Daniela Romo me fez querer rever as novelas. Graças ao Youtube praticamente todos os vídeos estão online, mas assisti-las me deu um choque, uma quebra de expectativas. Ironicamente (e em vão) eu busquei os vídeos com a tola crença de que iria ter as mesmas sensações. Não foi bem assim. Os vídeos pareciam não só inverossímeis como também exagerados.

Onde foi parar aquela emoção que eu sentia?

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Uma coisa boba (ou aparentemente boba) me fez ter consciência de tempo, de passado – o que antes não significava nada, não existia. Me senti o próprio Agamben. Meus vinte e três anos trouxeram não só um certo amadurecimento como também a consciência de finitude. Isso é assustador.

Rever as novelas me fez perceber que existem sensações que eu nunca mais vou sentir, elas existem apenas na memória. É como se fosse uma inocência perdida, uma parte de mim que simplesmente se foi.

É óbvio que essa “sensação de finitude” não se relaciona apenas às novelas. Outro dia, por exemplo, eu e a minha tia estávamos relembrando a época em que usávamos um ônibus executivo aqui na cidade. Não existiam cartões, comprávamos passagens diretamente na rodoviária, eram azuis e vermelhas, de papel mesmo. Lembro que as passagens eram numeradas, se alguém sentasse em seu lugar, você podia pedir para que ele saísse.

O ônibus era incrivelmente confortável, poltronas macias, muito barulho, muito remelexo. Volta e meia ele quebrava, os passageiros eram obrigados a descer e esperar outro veículo. Uma situação tão horrível, hoje lembrada com saudosismo.

Lembrei também de um velho costume que eu e minha mãe tínhamos. Quando pequena eu ficava sentada na escada da cozinha e a via trabalhar, arrumar a casa. Sentei-me outro dia na mesma escada e como um deja-vu tive recordações da época em que ela parava na minha frente e ficava fazendo bolhas de sabão com detergente.

Esses sentimentos que eu senti e ‘que nunca mais vou sentir de novo’ – vamos chamar assim, porque não conheço um termo pra isso – me lembram do conceito que aprendi em uma aula de jornalismo cultural. O professor citava Walter Benjamim e dizia que ele defendia a ideia de que uma obra original possuía uma aura, uma existência única, intocável, que não podia ser reproduzida ou imitada, era o “aqui e agora”. Para Benjamim essa relação era até erótica, porque criava a necessidade de um querer e não poder ter.

Depois de tantas voltas, cito  Daniela Romo novamente. Me justifico. Outro dia, vi uma entrevista onde ela falava que havia vencido o câncer. Visivelmente emocionada, Romo disse uma das frases mais lindas e profundas que ouvi: “El futuro no se desea, se merece”. Ela encontrou essa reflexão em um livro de Carlos Ruiz Zafon, ‘O prisioneiro do céu’.

O que Zafon escreveu soou como uma sentença. Aqui ele não se refere ao passado ou ao futuro, mas ao presente. De repente, as duas vertentes de pensamento me pareceram claramente relacionadas.  Essa sensação de finitude só vem para reforçar a frase de Zafon: não dá para voltar ao passado e , de certa forma, é o presente que condiciona o futuro.  Se você quer um bom futuro, planeje-o agora, faça-o agora. Mereça-o.

Daí me lembrei de Nietzsche, da ‘maldição tantas vezes repetida’, da crise do racionalismo: Não viva em função do passado, nem do futuro, viva o presente: O futuro e o passado nos molda, mas não podemos viver em função deles.  Pensar só no passado nos deixa mais melancólicos e rancorosos, pensar só no futuro nos deixa mais ansiosos.

Os eus e os mundos

Há muito tempo eu li que durante a vida nós somos e nos transformamos em pessoas diferentes. Essa ideia, de ter uma identidade, mas de ser ‘várias’ pessoas ao longo da vida me parece encantadora. Quando alguém se vê uma foto antiga e diz: “Essa sou eu”, ela não está correta. A pessoa que ela vê na figura possui uma carga sentimental diferente, um corpo diferente, uma visão de mundo diferente. Bonito isso, de ser várias pessoas em uma só.

No texto que eu li, ainda que não nessas palavras, dizia-se que é comum o fato das pessoas inventarem histórias sobre  o passado, é comum reproduzir discursos também. “Tá vendo essa foto? Sou eu. Eu amava esse vestido de bolinhas” É como se tivéssemos arrumado uma maneira para que o passado não contrarie o presente.

ImagemQuantas pessoas eu fui ao longo da vida? O que de mim permaneceu? No colégio, eu era aquela menina acanhada, que não enturmava muito, que não era a mais bonita nem tirava as melhores notas. Incrível, mas tenho memórias muito boas desse tempo. Memórias tristes também, é claro.  Mas eu lembro de falar alto, de arrumar briga, de dançar nas festas comemorativas, de escrever para o jornal do colégio. Que eu era mesmo?

Lembrei: era a chorona. Chorava por tudo, de raiva, de medo, emoção, dor. Ai, como aquele tombo de bicicleta doeu! Eu chorava tanto que me lembro da minha mãe dizendo: ‘A gente só chora quando machuca ou quando alguém morre” Duro ouvir isso.

Eu era a menina sem pai, a gordinha, a menina que gostava de ler e escrever. Pensando bem, não sou tão diferente do que eu era. Talvez o mundo tenha mudado. É! Talvez seja isso, somos pessoas diferentes em mundos diferentes.