Pepi, Luci, Bom – 1980

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Este filme ficou enterrado no meu computador por muitos anos, comecei a assistí-lo, mas a estética me provocou tamanha estranheza que deixei de lado. O “Ciclo Carmen Maura” me deu coragem para vê-lo e, com um pouco mais de persistência, completei o desafio. A verdade é que eu amei, amei, amei (o filme) e pirei ao ter conhecimento de vários aspectos da produção.

“Pepi, Lucy e Bom” marca a estreia de Almodóvar na direção, o filme foi lançado em 1980, custou meio milhão de pesetas e contou com a participação financeira e colaborativa de seus amigos, incluindo Carmen. Foi inspirado em uma fotonovela cujo título era “Erecciones Generales”, feita pelo próprio Almodóvar para uma revista underground. Nessa época, Carmen era muito próxima do diretor, os dois participavam de uma companhia teatral chamada Los Goliardos e até então, ele só tinha realizado pequenas gravações em formato 8 mm.

Fica muito claro que Almodóvar ainda não tinha uma marca própria, mesmo com um toque muito forte de contestação, da porra-louquice e das cores gritantes (o que vimos se repetir tantas vezes).

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[Esse texto está cheio de spoiler, então… me desculpem] A trama conta a história de três amigas cujo comportamento é pouco comum. Pepi é uma jovem sustentada pelo pai e que é estuprada por um policial em seu próprio apartamento (ele iria prendê-la por encontrar várias plantas de maconha, mas ela oferece sexo em troca de liberdade. No entanto, revela que é virgem e pede que ele “vá por trás”, porque já está acostumada). Revoltada por ter sofrido tamanha violência, Pepi recorre à Bom e seus amigos punks para se vingar. Um dia encontram o policial na rua e o espancam (sem saber, que na verdade, o fizeram com seu irmão gêmeo). Pouco tempo depois conhecem e fazem amizade com Luci, a esposa do policial que tem certo comportamento masoquista (e que, posteriormente, se apaixona por Bom).

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Mesmo sendo um pouco agressivo, o filme possui uma história extremamente feminina, quero dizer, há uma “alma feminina – feminista” que se percebe em vários detalhes e principalmente em Pepi, a personagem central.  Depois que ela recebe o recado de que o pai não vai mais sustentá-la, Pepi começa a trabalhar em uma agência publicidade e criar peças voltadas para  público feminino entre elas, uma calcinha que muda de cor durante a menstruação e se transforma em brinquedo sexual. Aos poucos Pepi vai deixando de ser uma menina dependente, e se torna uma mulher, livre.

Esse filme representa um pouco da busca pela liberdade (sexual) e o clima de descompromisso que Pedro e Carmen tanto comentam em suas entrevistas, também há o chocante (tratado como algo banal): como a cena em que Bom faz xixi no rosto de Luci ou a cena das Erecciones Generales, onde um grupo de amigos está reunido e elegem o maior pênis… o vencedor escolhe qualquer um da turma e define o que o escolhido precisa fazer para agradá-lo.

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Em suma, um detalhe que passa despercebido, mas que é muito interessante é o fato de Bom ser uma jovem punk de 16 anos e Luci ser uma senhora, dona de casa, na faixa dos 40 anos. E isso é mencionado várias vezes durante o filme. Ainda que Luci não possua a aparência de uma senhora, há toda uma caracterização (como a peruca, as roupas e o próprio comportamento).

“Vemos neste filme vários atores que posteriormente voltaram a trabalhar com Almodóvar em papéis marcantes como Cecília Roth e Julieta Serrano .

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sobre a Carmen Maura

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Contei para vocês que estou fazendo quase que uma “maratona” dos filmes da Carmen Maura. Decidi reunir uma anotações sobre os que eu já assisti. Adoro listas, e acho que assim fica bem mais prático, principalmente porque ajuda a relembra-los. O mesmo eu fiz com os filmes da Anna Magnani e da Jamie Lee Curtis e, apesar de ter dado um trabalho do cão, foi bem gostoso fazer – principalmente quando eu encontro aqueles que são raros! A sensação é quase como ganhar na loteria. Quase, porque eu fico super feliz, mas continuo pobre.

Já falei muito (muito mesmo) sobre a Carme Maura nesse blog, é só jogar o nome dela na barra de pesquisas que você vai encontrar uma série de textos. É uma atriz que eu amo, que sou perdidamente apaixonada há tantos anos que já perdi a conta. A vi pela primeira vez em  um filme de Almodóvar, ela era a freira que cuidava de um tigre. Depois caí de joelhos por Pepa (de Mulheres a beira de um ataque de nervos) e nunca mais parei de admirá-la.

Se você deseja ler uma pequena biografia da Carmen, indico essa aqui. Pode parecer estranho usar o Wiki como fonte, mas o texto tá bem detalhado. Conta desde o seu nascimento, até a decisão de começar a fazer teatro e finalmente cinema. Analisa suas premiações, tem muitas curiosidades e um ponto de vista muito interessante sobre a relação entre ela e Almodôvar. Fora, a filmografia completa e datada.

(P.S. Aceito dicas de filmes, críticas dos textos, links para torrents e tudo o que vocês tiverem em relação à ela): 


carmen_maura_fgcSó pra constar, esses são os filmes dos quais comentei anteriormente e que acabaram ficando em publicações separadas. Mas estão aí, com os respectivos links para quem quiser ler. E, SIM, eu assisti todos os filmes que comento neste post!


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Círculo Rojo, 2007 – Ontem terminei de assistir essa série e fiquei impressionada com a sucessão de acontecimentos trágicos. Trata-se de uma produção do canal espanhol “Antena 3”, dividida em 12 capítulos com 2 horas de duração (todos disponíveis no Youtube). Carmen interpreta Victória, dona de uma agência de modelos. Sua filha, Clara, é uma famosa desenhista que vive isolada da família e dos amigos. No dia de um de seus desfiles, Clara tem um rompante e pula da sacada de seu apartamento. Sua morte provoca a volta da sua irmã Patrícia, que também vivia isolada da família, morando em Paris. Ao voltar, Patrícia reencontra sua velha amiga Andrea, hoje, casada com o irmão da Patrícia. As duas sabem muito bem a causa do suicido de Clara e se unem para achar os responsáveis e vingá-la.

A série é bem parecida com aquelas produzidas pela Rede Globo, que passam depois das onze. Há muita sensualidade em cena, ameaças, vinganças, ação e assassinato. A personagem de Carmen, Victoria, é uma mulher pérfida, que não ama o marido e que há anos, está apaixonada pelo melhor amigo dele, Arturo (interpretado por Emiliano Gutierrez Caba). Tanto que, quando descobre que o marido está doente, resolve assassiná-lo e entregar importantes documentos da empresa para Arturo. Por fim, Artuto seduz Victória apenas para conseguir os documentos e depois, começa a tratá-la com indiferença. Victória quase enlouquece e decide se vingar de Arturo (e mesmo depois de tudo, continua o amando). Só pra constar, Andrea é filha de Arturo e Victória a odeia tanto que faz de tudo para infernizar sua vida.

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Como ser infeliz y  disfrutarlo, 1994 – Um filme bacana, mas sem muito impacto. Carmen interpreta Carmen, uma jornalista especializada em Cultura que trabalha no El Pais, mas que parece estar de saco cheio da rotina. Um dia, pela manhã, seu marido infarta e falece. Carmen desespera-se e pede que a filha, que mora em Paris, volte para casa. A menina até volta, fica um período apoiando a mãe e depois, viaja novamente para seguir sua vida em outro país. Carmen, no auge dos seus 40 anos, encontra-se viúva e sozinha. Ela começa a redescobrir  a vida, transa com outros homens, faz passeios em lugares onde gosta… Um dia seu chefe a manda para Paris para realizar uma entrevista voltada para a economia. Não é a sua área, ela não gosta muito da ideia, mais vai. Lá ela decide visitar a filha e acaba descobrindo que a menina está grávida – o que abala suas estruturas porque ela não acredita que a filha esteja preparada para a maternidade. Na França ela também reencontra um antigo amigo da família… [Fiz uma enorme sinopse para falar o que poderia falar. É um filme legal, mas não há nada demais nele.]

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Baton Rouge, 1988: Carmen Maura estava com 43 anos e, man… tava muitooo linda! O filme, dirigido por Rafael Moleon, é considerado um suspense erótico. Na história, Carmen vive Isabel, uma mulher rica e recém divorciada que vive assombrada por um abuso sexual que sofreu anos atrás. Um dia ela encontra Antônio (interpretado por Antônio Banderas), um gigolô que possui um irmão cego (e que se compromete em cuidá-lo). Antônio é uma espécie de objeto sexual de Isabel, que mesmo vivendo ao seu lado, não deixa de ter os pesadelos. Isabel resolve se consultar com uma psiquiatra (interpretada por Victoria Abril) e para o seu azar, Antônio se apaixona por ela. Juntos, o gigolô e a psiquiatra, bolam um plano: querem matar o ex-marido de Isabel e fazê-la passar por assassina. [O filme é bem legal, os personagens são muito obscuros e há muita sensualidade em jogo. As cenas de sexo entre Carmen e Antônio são de tirar o fôlego, mas as cenas entre Antônio e Victória são ainda mais impactantes. Carmen está elegantérrima, linda nas cenas da piscina, e não para desfilar com looks maravilhosos.É um personagem sério, que vai em contramão com o seu perfil bem humorado. Um retrato diferente e um registro de que, como atriz, é extremamente dinâmica. SPOILER – Vi uma entrevista onde ela dizia que em uma de suas cenas finais, onde Antonio decide matá-la afogada, ela quase se afogou de verdade. Os dois tinham combinado de que ela daria um belisco em sua barriga para indicá-lo quando parar. Mas na hora da luta corporal ela não conseguiu fazê-lo e ele não percebeu e continuou atuando.]

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La guerre des saints, 2009: Esse filme é muito bonitinho!! É uma pena que seja tão difícil de achar e que existam poucos registros sobre ele na rede. A Carmen Maura tá muito engraçada, dá a vida a uma madre superiora meio louca, sem parafusos. O filme, dirigido por Giordano Gederlini e feito para TV européia, conta a história de um noviço que é enviado para uma pequena cidade para dar início ao processo de beatificação da freira Maria Dolores. No entanto, pouco antes de chegar ao convento, ele é interceptado por uma jornalista que o leva para outro canto da cidade no intuito de fazê-lo presenciar a rotina de uma mulher doente que atrai multidões por acreditarem que ela é milagrosa. O caso da moça (que mais parece estar com espírito no corpo) está sobre cuidados do padre Gabriel. Daí começa uma disputa entre o Padre e a Madre, que tentam a todo custo chamar atenção do noviço.

A trilha sonora desse filme é uma delícia,  a ambientação também. A sensação que dá é a de estar em uma cidadezinha no interior do Brasil. Encontrei uma pequena entrevista do diretor onde ele dizia que o filme era a tentativa de dar uma reposta irônica e satírica à pergunta: “Quem pode ser santo”. Em sua concepção a questão não é o marketing agressivo feito pela igreja, mas as suas consequências politicas.

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La Vaca Paloma, 2015: Paco Leon é um ator que tem se aventurado no mundo direção, em sua estréia, ele realizou um curta metragem (de 12 minutos) com tom surrealista, protagonizado por Carmen e Secun de la Rosa. No curta, Carmen é uma mãe que tenta voltar a se relacionar com o filho. Os dois possuem uma vaca cinéfila, que sempre quando assiste algum filme bom, produz energia. Foi o filho que descobriu os poderes da vaca e pediu que a mãe não contasse a história para ninguém, afinal, quem acreditaria? Mas a mãe, em uma ida ao cabeleireiro, acaba contanto a descoberta do filho e ele passa a ser ridicularizado na rua. O curta foi apresentado pela primeira vez no Festival de San Sebastian do ano passado, sua realização contou com o apoio da empresa “Gás Natural Fenosa” e fazia parte do “ciclo de cinergia”, um festival cultural que chama atenção para a importância do setor. [É bonitinho, achei muito enraçado a personagem da Carmen dizendo que mandou solicitação de amizade para o filho pelo Facebook e que ele não aceitou…]

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La Promesa, 2004

Lembra que eu comentei que encontrar certos filmes dá a sensação de ter ganhado na loteria? Então, esse é um deles. Eu estava fissurada nesse filme, muito mesmo. Foram anos procurando torrents e links para baixar e nada. Daí, num dia desses, comprei o dvd na internet pelo Mercado Livre. Foram apenas dois dias de espera para a entrega, mas eu quase enlouqueci! Em princípio pensei que fosse um filme de terror, mas ao assistí-lo me pareceu muito mais de suspense. Um mergulho na esquizofrenia da personagem de Carmen, Gregória.

Gregória odeia ser Gregória e está cansada dos abusos físicos que sofre do marido. Seu mundo é cercado por uma religiosidade absurda e por uma obsessão por Deus e pelo diabo. Um dia, de saco cheio de apanhar e ser humilhada, Gregória mata o marido. Daí foge de casa, muda seu nome para Célia e vai trabalhar como babá na casa de um casal riquíssimo e, aparentemente, em crise. Ela, que nunca teve filhos, fica apaixonada pelo garotinho do casal e cria um laço de amor e confiança com ele. Ela o ama. E ele também a ama. Mas Gregória não para de ser assombrada pelas vozes do marido e começa a mergulhar na vida da família, como se fizesse parte.

O filme é interessante, Hector Carré faz um belo trabalho fotográfico e narrativa é legal, até certo ponto. Menos do que eu esperava, as coisas fluíam devagar demais sabe? Mas em suma é um filme que vale a pena, não só pela Carmen, mas pela atuação do menininho, o filho do casal.

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Que parezca un accidente, 2008. Quase um filme para a sessão da tarde, uma comédia super leve que conta a história de Pilar, uma mulher viúva que foi tão traída pelo marido, que desenvolveu um dom… toda vez que sua cabeça doía era sinal de que o marido estava com outra. Uma dia ela vai almoçar na casa da filha e quando esbarra no genro começa a sentir a tal dor de cabeça. Sinal de que ele está traindo a filha. Depois de uma conversa com uma amiga, Pilar se convence de contratar alguém para matá-lo. Para isso, entra em contato com Arturo (Federico Luppi, o mesmo que trabalhou com ela em Lisboa!), um assassino implacável e especialista no assunto. Só que dá tudo errado, Pilar começa a perceber que seu genro é inocente e que agora, precisa salvá-lo da morte (que, por sinal, foi arranjada por ela). Carmen, mais uma vez, muito engraçada, parece que está aérea (amo esse jeitinho dela)… Adoro as caras e bocas que ela faz, principalmente quando está tudo prestes a dar errado. É o primeiro longa metragem do diretor Guillermo de la Guardia.

ENTRE VIVIER E SONHAR

Entre vivir y soñar, 2004: Esse filme é simplesmente MUITO fofo e engraçado. Sério, um dos personagens mais fofos que já vi a Carmen interpretar, quase como uma Amelie Poulain simplificada e de meia idade. Ela interpreta Ana, uma dona de casa e professora de cozinha que cansou do casamento rotineiro e que passa madrugadas em claro esperando a filha voltar de baladas. Seu sonho é conhecer Paris, tanto que começou a estudar francês (a Carmen fala francês perfeitamente e é muito engraçado ela fingindo não saber falar). Um dia, a escola em que trabalha precisa de alguém  para dar aulas na França, e claro, Ana acaba sendo escolhida.

Lá ela passa a viver um sonho, está longe dos problemas e do marido que a humilha… é então que resolve reencontrar um amor de juventude, um homem chamado Pierre por quem se apaixonou quando tinha 15 anos. O melhor do filme é que, ao chegar em Paris, Ana é recebia por Ali… um florista adorável e extremamente desorganizado. Ele está sempre dando umas investidas em Ana, mas ela não consegue parar de pensar e procurar por Pierre. Daí resolve reencontrar uma velha amiga, que também conheceu Pierre, para que ela a ajude a encontrá-lo.

♡ [SPOILER] Tem uma cena nesse filme que me tira do sério, em determinado momento, Ali está perdidamente apaixonado por Ana e ela ainda insiste em reencontrar Pierre. Depois de levar um fora, ele começa a assistir um pornô e, quando olhamos para o vídeo, os atores na tela fazendo sexo são Ana e Ali. É muuuuito engraçado, mas principalmente porque Ana levou um super fora do Pierre e está atrás da porta ouvindo os barulhos do vídeo, dizendo “Aqui todo mundo fode, menos eu!” A Carmen Maura leva na zueira e faz umas caras surreais. Fiquei pensando no quanto ela é ótima ao interpretar esses personagens porque a gente vê que ri de sí mesma. Não há seriedade e ela pouco se importa com a situação, é segura de sí, entende?

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El Palo, 2001

Você se lembra daquele filme americano “Loucas por amor, viciadas em dinheiro” com a Dianne Keaton, Queen Latifah e Katie Holmes? A história de “El Palo” é bem parecida, mas com um final um pouco meio destrambelhado. Adriana Ozores está lindíssima, ela interpreta Lola, uma auxiliar de limpeza de uma agência bancária que está solteira e que enfrenta sérias dificuldades financeiras. No seu círculo de amizade estão Maite, interpretada por Carmen, uma mulher de classe alta para quem Lola faz faxina. Violeta, uma jovem órfã e  Sílvia, uma dona de casa que acaba de descobrir que está grávida. Todas as quatro estão sem dinheiro, especialmente Maitê que há anos tenta esconder dos filhos que está completamente falida…

Então, elas bolam um assalto à um banco…. e para isso, cada uma precisa fazer o que sabe de melhor. Maitê, por exemplo, é responsável por distrair o diretor do banco. Violeta precisa entrar em sua sala para roubar sua chave. Sílvia precisa fazer uma cópia dessa chave e devolvê-la a tempo que o diretor não perceba e Lola, quando for limpar a agência, terá acesso ao dinheiro. Claro que o plano não sai como planejado… Enfim, é um filme bonitinho, divertido. Daqueles bons passatempos.

La Huella del Crimen, episódio: El crimen de la calle Fuencarral , 1985

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“La Huella del Crimen” (1985 – 1991) foi uma serie policial espanhola que contou com os atores e diretores de maior renome no país e se propôs a reconstituir casos de crimes famosos que aconteceram na Espanha. Carmen Maura participa do segundo episódio, dirigido por Angelino Fons. O episódio tem umas pitadinhas de humor e uns diálogos interessantes, mas me informando mais sobre o caso, me parece bem mais triste e bizarro. [Principalmente como foi morte de Higina…]

Carmen dá vida a Higinia Balaguer, uma empregada doméstica que na manhã do dia 2 de Julho de 1888, começou a gritar socorro pois a casa onde trabalhava estava pegando fogo. Ao adentrarem, os vizinhos a encontram desmaiada ao lado de um cachorro morto e na sala, sua patroa, Luciana Borcino – queimada no rosto e nas mãos, com as vestes rasgadas e com quatro perfurações no corpo.

Higinia é prontamente acusada de assassinato, primeiro porque começara a trabalhar com Luciana ha pouco tempo e segundo, porque descobrem que ela guardava em sua antiga residência (junto com uma amiga, Dolores) as jóias de Luciana. Seus depoimentos são sempre muito confusos, primeiro diz que a patroa tinha um amante e posteriormente, culpa o filho dela, José Vazquez… que na noite do crime, encontrava-se preso. As investigações apresentam indícios de que, apesar de tudo, não poderia estar mentindo. A forma em que Luciana foi assassinada sugeria que alguém com força corporal teria a matado e, ao lado do seu corpo, havia uma camisa manchada de sangue com as iniciais J.V.

Higina recebe várias visitas na cadeia do delegado de polícia, amigo de José Vazquez, que prometeu que se ela confessasse o crime, continuaria viva, seria libertada e ainda receberia uma quantia de dinheiro. E o pior, o advogado de defesa de Higina tem provas de que José Vazquez não estava preso no dia da morte de sua mãe, que tinha sido favorecido pelo delegado. Higina não aguenta a pressão e confessa o crime, diz que ela e a amiga Dolores eram as únicas culpadas pelo assassinato… é condenada a ser executada em praça publica, o caso atrai os jornais e o povo, cerca de 20  mil pessoas foram vê-la morrer. Higina tinha apenas 28 anos.

Dolores foi condenada a 25 anos de cadeia, José Vazquez foi solto (e anos depois, cometeu um assassinato contra uma prostituta). “Hay quien sostiene que la sentencia fue, en realidad, fruto más de cierto rencor social burgués contra una sirvienta que de una verdadera voluntad de esclarecer los hechos, y que Varela se libró de responder por sus acciones.”

Pareja de três,  1995 

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Ai gente, eu amei esse filme TAAANTO! ♥  Tem um tom muito feminista e elas falam de sororidade o tempo inteiro, fora que pregam a liberdade sexual e, enfim, é muito engraçado e divertido. No filme, Carmen dá vida a Ana, uma dona de casa exemplar que está há anos casada com Santi (interpretado por Emílio Gutierrez Caba – o terceiro filme que vejo os dois interpretando um casal). Santi também tem um relacionamento antigo com Marta (melhor amiga de Ana, e ela sabe disso). Martha é interpretada por Rosa Maria Sardà.

O filme começa com um diálogo super engraçado entre duas porque, depois de anos, Ana resolveu ter um amante e implora para que Marta fique com seu marido por dois dias para que ela possa traí-lo. Mas Martha está de saco cheio de Santi e, aparentemente, pensa em desistir dos homens.  Ana até consegue trair Santi, mas se decepciona porque a sua tão sonhada noite romântica não foi como planejada (EU RI DEMAIS!!!!!!). O que nenhuma das duas esperava é que,  Santi também estava de saco cheio delas… e decide largá-las para viver com outra pessoa.

Enlouquecida, Ana se muda para a casa de Marta e passa a mudar toda a sua rotina. As duas brigam o tempo inteiro, especialmente porque sempre tiveram um estilo de vida muito diferente. Ana é a dona de casa e Marta a mulher emancipada. Muito bom!

– Essa publicação está ficando muito grande. Tá difícil editar, os textos e as fotos vão se perdendo. Então, vou fazer uma segunda parte. Daí falo dos outros filmes que eu vi, quem sabe rola até Almodóvar e Saura. Já assisti aos filmes (de verdade, não como a Glória Pires), mas acho tão difícil falar sobre eles porque há tantas possibilidades, que fico adiando. Mas prometo, no próximo post terá Volver, Carmela, Mujeres al Borde e muito mais. Assim que for publicaddo, disponibilizo o link! 

Carmen Maura, o estupro e a maternidade

Ontem fiquei realmente surpresa coma entrevista que vi da Carmen Maura para o programa “El rincón de pensar”, de Risto Mejide. Foi no ano passado e eu não tinha nem escutado falar do assunto. Carmen, hoje com 70 anos,  simplesmente abriu seu coração e contou detalhes delicados de sua vida. Impressionante foi o relato do estupro que sofreu quando tinha trinta anos. Conforme suas palavras, estava em casa com os filhos quando atendeu a porta e levou um soco inesperado:  “Recuperei a consciência e tinha uma pistola aqui (apontando para a têmpora). É isso, e tudo o que acarreta isso, a violação”.

Para quem não sabe, Carmen é uma grande atriz espanhola, foi musa de Pedro Almodóvar durantes muitos anos e protagonizou filmes mundialmente famosos como “Volver” e “Mulheres a beira de um ataque de nervos”. Ela também fez uns filmes bem legais do Alex de la Iglesia como “800 Balas” e “La Comunidad”.

A descrição de Carmen sobre sua violação é realmente inquietante, ela conta que os policiais duvidaram dela e questionaram se “aquela história” não era apenas para deixá-la famosa. Fiquei impressionada com a forma que ela contou o caso, rindo e se esquivando. É que eu li muitos comentários no vídeo que diziam que essa história não poderia ser verdade, exatamente porque ao contar, Carmen não expressava tristeza. Eu, pelo contrário, acho que o comportamento dela ao contar sobre seu estupro envolvia uma negação e ao mesmo tempo, uma “vergonha”… vergonha que não deveria sentir, é claro. É realmente estranho como as pessoas tendem a desacreditar e a culpar as vitimas.

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Ainda sobre o assunto, achei muito interessante a perspectiva da matéria publicada pelo EL País sobre a entrevista de Carmen: Mas seu testemunho é importante, e muito. É uma exceção na Espanha e algo muito raro no mundo. Na verdade, o caso dela é o primeiro de uma pessoa pública espanhola que conseguimos encontrar, o que não ajuda a que outras vítimas se encorajem a falar sobre sua experiência nem a superar o tabu. “Consideramos importantíssimo falar publicamente. Mesmo as testemunhas que ousam falar à imprensa o fazem com os rostos cobertos porque há um sentimento de culpa na própria mulher. Não porque elas sejam culpadas, claro, mas porque a sociedade as culpa”, explica Tina Alarcón, presidente da CAVAS, o Centro de Assistência a Vítimas de Agressões Sexuais.


 

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Fora tudo o que ela disse, grudou na minha cabeça o que ela fala sobre maternidade. Carmen Maura, que possui dois filhos, simplesmente não consegue esconder seu arrependimento de ter sido mãe. E fala, com todas as letras, que se pudesse voltar no tempo, não engravidaria de novo. (É um pouco estranho né? Não queria ser filha dela e ouvir isso…). O discurso é até feminista, ela diz que nenhuma mulher precisa ser mãe ou se casar para se sentir completa. Que você pode usar seu lado maternal com sobrinhos e amigos…

É a minha vez de dizer não…

Estou começando a acreditar naquela frase que anda tão comum e sendo compartilhada tantas vezes pelo facebook e twitter. Na mensagem o autor diz que é preciso parar de se apegar e correr atrás, porque as pessoas gostam do que não tem. Pois é, eu ando mesmo achando que essa dica mágica funciona. Parece que o apego constante, a preocupação latente nos torna cada vez mais dependente de algo ou alguém que no fim das contas, não nos pertence. É claro que o desapego (principalmente quando gostamos pra caramba, estamos apaixonados e muitas vezes exigimos do outro o que ele não pode dar) não é um processo fácil, parece até desperdício dos nossos sentimentos. Você se apruma toda, fica horas arrumado uma roupa bacana e quando encontra com ele no corredor, não recebe nem um olhar. Ou então, passa a noite ligando para saber se aquela dor no pescoço dela melhorou e depois descobre que ela não atendeu a sua chamada porque preferiu (simplesmente), não atender.

Aí você percebe que está se anulando, que aquela situação vai ficando dolorida e desgastante demais. Você percebe que aquele lugar no seu coração, que você reservou faz tempo não será preenchido e que a relação se tornou uma via de mão única (só você cede, só você se preocupa). Você sempre escuta a sua amiga reclamar dos problemas com o marido, com o filho e quando a encontra para falar dos seus problemas (que também são muitos) recebe dela: “desculpe querida, estou com pressa!”. Talvez um amadurecimento seja necessário, chega um momento que ser gentil demais não está ajudando muito.

A personagem de Carmen Maura, Pepa, em “Mulheres a beira de um ataque de nervos” (filme de Almodóvar) é um exemplo gostoso de que essa procura constante da resposta específica que esperamos é inevitavelmente cansativa. Pepa se descobre grávida de Ivan e tenta ter dele as justificativas por tê-la abandonado. Mas ela vai se cansando, vai vendo que não precisa mais dele nem daquela situação melancólica toda. Ela percebe que é a sua vez de dizer: não, que ficar de braços abertos o todo o tempo, já não dá mais. Na verdade (se é que há alguma verdade neste contexto), você percebe que mudanças são necessárias e que elas não podem ser feitas ou tomadas por outra pessoa do que por você mesmo. 

 

A atriz Carmen Maura como Pepa em “Mulheres a beira de um ataque de nervos”