Lágrimas na Chuva

Lágrimas na Chuva

Há muito Rosa Montero passou a ser uma das minhas referências, é uma jornalista que admiro e que me inspira com os seus livros. Outro dia (eu e minha mãe) estávamos passeando na Livraria Cultura quando decidimos comprar um Kobo. Na fila eu vislumbrei “Lágrimas na Chuva”, que estava em promoção. Levamos sem pestanejar. Foi uma boa compra, uma história que me deixou imersa nas últimas semanas. Engraçado que a Daniela Romo publicou, há alguns meses, uma foto com esse mesmo livro. Pensei, “Humm, duas das minhas divas se encontrando através da literatura!” Rss.. Ok, foi um pensamento idiota.

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Daniela Romo

Esse é o terceiro livro da Rosa Montero que leio, antes foram: A Louca da Casa e Histórias de Mulheres. Não me canso de dizer que Montero escreve de uma forma que parece que ela te pega pelo braço e vai passeando com você em cada ambiente. Particularmente, não gosto de tramas de ficção científica, mas em relação a esta, não consegui desgrudar os olhos.

Lágrimas na Chuva se passa em 2109 e conta a história de uma rep (uma espécie de robô, “replicante”) chamada Bruna Husky. Ela é linda, inteligente, alcoólatra e mal humorada. Um dia é atacada por outra rep, que invade sua casa e tenta matá-la. Não conseguindo, essa rep arranca os próprios olhos e depois morre. Bruna, que é detetive, descobre que uma série de ataques, semelhantes ao que ela sofreu, estão se repetindo. O que ela precisa descobrir é se os assassinatos são o resultado de uma guerra entre espécies ou se estão acontecendo a mando de alguém (ou de alguma supremacia).

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A função das lembranças e das memórias (as memas) nessa história é espetacular. O fato é que no futuro imaginado por Montero a memória tem muito valor. Tanto valor que começa a ser traficada e vendida como drogas. O problema é que os reps que comentem os ataques e depois morrem são obrigados (por alguém) a implantar essas memas adulteradas que os levam a cometer crimes horrendos. Um fato interessante é que os rep, assim como Bruna, vivem apenas por dez anos.

Lágrimas na Chuva é também um filme muito sensual, gostei dos momentos em que Bruna se sente balançada por seus companheiros de investigação e atraída por sua chefe, Chi. Nesse contexto, todas as pessoas (salvo uma minoria) são bissexuais. Chi, por exemplo, que é a grande chefe de segurança dos reps,  tem um caso com Valo Nabokov (uma mulher obsessiva, que sofre de um câncer terminal).

P.S. 1) Em Lágrimas na Chuva as mulheres possuem um papel fundamental na trama, são personagens fortes e corajosos. 2)  É um livro que demanda atenção aos detalhes, aos nomes. Como são muitos personagens e muita informação, usei as últimas páginas do livro para anotar o nome e a função de cada personagem na trama.

O adultério não pode ser medíocre

Traição

Estava eu, stalkeando a Rosa Montero e vi que ela compartilhou no Facebook uma de suas publicações mais recentes no El País. Coincidência ou não, eu já estava decidida a traduzir e publicar aqui uma entrevista da Fanny Ardant que aborda o mesmo tema e apresenta uma perspectiva muito semelhante.

As duas falam sobre traição, companheirismo e lealdade e me parecem muito corretas nas ideias que defendem. Enquanto Montero comenta o caso do Ashley Madison (um site feito para adúlteros, que recentemente, teve informações vazadas), Fanny comenta sobre “Os Belos Dias”, filme em que ela interpreta uma mulher de 60 que mantém um relacionamento fora do casamento com um rapaz bem mais novo.

montero_rosaRosa Montero: “Adúlteros, mas leais. Como é difícil amar alguém, mesmo com o passar do tempo, e construir uma convivência duradoura,que não termine sendo tóxica. A vida é infinitamente complicada e uma das coisas mais complicadas da vida é manter as relações sentimentais e superar todo esse conflito permanente de um relacionamento. Como é difícil amar sem cair na rotina, sem culpar o outro por nossas próprias frustrações, sem devorar, tiranizar, sem se empobrecer, sem se irritar.

É algo tremendamente difícil, por isso é compreensível que cada um siga da melhor forma possível. Não existem regras para o êxito. Pessoalmente, penso que dão ao sexo uma importância desmesurada.Tenho pena de ver que uma simples aventura,que na realidade não significou nada, arruína casais que com muita luta e com muito amor, construiram um relacionamento juntos. A verdade é que eu não acredito que o ser humano nasceu para a monogamia ou para a monoandria. Pelo menos, não para a vida inteira. (…) Tenho a impressão de que quem reprime uma e outra vez seus desejos adúlteros, termina direcionando essa frustação e esse aborrecimento sobre o seu companheiro.


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Acho desonestos aqueles filmes que mostram o marido como um “velho acabado”, ou a esposa como uma “avó de bengalas” e o amante totalmente esplêndido. Isso pode acontecer, é claro… e é por esse motivo que muitos se separam ou se divorciam. Mas, o relacionamento de um casal é muito mais complexo. No filme, meu marido é também encantador. Gosto desse marido porque ele conhece bem a sua mulher, e compartilha com ela grande intimidade. Possui algo sólido e livre, não é apenas um burguês. Os dois se complementam, ele também é pai…é avô.

Quando Caroline vê Julien pela enésima vez ela pensa: “Vou aproveitar a situação, antes que ela se torne medíocre”. O adultério não pode ser sórdido, ele não suporta a mediocridade. Quando você queima certas coisas, é necessário que o faça de maneira extravagante. E assim que começa a ser sórdido, é hora de deixá-lo….


Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura

Adoro ler e comprar livros. Aliás, compro mais do que consigo ler. Mas tenho um medo, talvez irracional, de que a leitura constante me faça sã demais. Quero dizer. Me imagino velha, doente, horrível e presa a uma cama, completamente lúcida. Não acho que exista castigo maior.

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Quero envelhecer com loucura, esquecer o nome de todos, me comportar como criança, esquecer de onde eu vim e de quem eu sou.  Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura. Porque ela me fascina. E, venhamos e convenhamos, perto das possibilidades da loucura, a lucidez soa como algo sem graça.

Tenho um livro na minha casa chamado “O Bigode”, do escritor francês Emmanuel Carrère. Confesso que ainda não li, mas sei a sua essência. Trata-se de um homem que durante grande parte da vida usou um bigode. Um dia, depois de um bom banho, ele decide tirá-lo. Ele aguarda ansiosamente a chegada da esposa para surpreendê-la com a nova aparência e de repente ela diz: “Mas que bigode você tirou? Você nunca usou bigode”.

Uma trama tão simples, com um enorme argumento existencialista. É assim que eu vejo a loucura, talvez um pequeno e fino fio que nos separa de outras vidas. E se o que vivemos agora não passar de um sonho? Já pensou nas possibilidades que a vida oferece e que, mesmo não sendo aproveitadas, não deixaram de existir? Concorda que a imaginação e a loucura, em qualquer plano, são irmãs? E que no fundo, todo mundo possui um quê de louco?

Quero dizer, acho que todo mundo já deve ter se perguntado: “Mas, e se naquela noite a minha mãe e meu pai não tivessem se conhecido?” ou “E se eu tivesse feito aquela viagem”, “E seu tivesse me casado com aquele cara?” Vidas paralelas, que existem na imaginação: Somos apenas uma versão de nós mesmos.

Mas apesar de encantadora, a loucura também me assusta. Lembro, que em um dos  estágios que fiz durante a faculdade, trabalhei em atendimento e comunicação com o público (tratava-se de uma estatal). Um dia atendi uma senhora, visivelmente cansada (e com os olhos bem marcados por olheiras) que pedia encarecidamente por ajuda. Ela ouvia vozes e seu marido não acreditava nela. E pior, ela tinha certeza que implantaram um chip na cabeça do marido e do filho. Quando perguntei quem implantou, ela respondeu: “Meu ex chefe e a sua secretária. Ele me mandou embora, mas eu ainda escuto as vozes dos dois no meu ouvido”.

Isso me lembra, e peço desculpas por citá-la mais uma vez (consecutivamente), uma frase da Rosa Montero, em A Louca da Casa:

“Os chamados loucos são os indivíduos que moram de maneira permanente no lado sombrio: não conseguem encaixar-se na realidade e carecem de palavras para se expressar, ou então suas palavras interiores não coincidem com o discurso coletivo, como se falassem uma língua alienígena que não se pode sequer traduzir. A essência da loucura é a solidão. Uma solidão psíquica absoluta que produz um sofrimento insuportável. Uma solidão tão superlativa que não cabe dentro da palavra solidão e que não pode ser imaginada por quem não a conheceu. É como estar enterrado vivo no interior de um túmulo.

Quando, segundo contam, o czar Pedro I pronunciava contra algum inimigo de sua poderosa nobreza a sentença: “Eu te faço louco”, o poder da palavra e a palavra do poder, neste caso, acabavam transformando o infeliz nisso, porque, quanto todos os outros o tratavam como demente, ele vivia a realidade da sem-razão e perdia toda a cordura, explicou Carmen Iglesias no já mencionado discurso de posse na Academia. E este é um exemplo perfeito. A loucura é viver no vazio dos outros, numa ordem que ninguém compartilha.”

Enquanto se lembrarem de nós, existiremos

Acho que na última publicação, não fiz jus ao livro de Rosa Montero e deixei de mencionar inúmeras coisas que fazem dela uma das minhas escritoras favoritas. Mas também, não poderia e não deveria ficar aqui, resumindo tudo o que ela escreve, só posso fazer – mais uma vez, um convite para que a leiam.

Em um certo parágrafo, Montero levanta um questionamento sobre os escritores e acho que adequa-se não só a classe, mas a todos os seres humanos. Ela diz que muitos deles possuem o medo de serem esquecidos, de não deixarem um legado para a posteridade. E afirma, listando vários nomes de escritores que caíram na obscuridade da memória coletiva, que somos insignificantes diante do efeito da morte.

Você (e provavelmente todo mundo) já pensou no próprio enterro, em quantas pessoas estarão lá e o que irão falar sobre você. Mas já se perguntou o que acontecerá nos meses seguintes? Nos anos seguintes?

Existe um filme chamado “As confissões de Schmidt” onde o personagem principal, interpretado por Jack Nicholson, diz uma das coisas mais certeiras e lindas que já ouvi e que acho que adequa-se perfeitamente ao que Montero se refere: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

- E eu não tenho nem uma foto dele... Ele existe apenas na minha memória.
– E eu não tenho nem uma foto dele… Ele existe apenas na minha memória.

Gata Velha ainda Mia

Glória Polk (Regina Duarte) é uma escritora decadente, que depois de 17 anos decide voltar a escrever. Assim convida uma jovem jornalista, a Carol (Bárbara Paz) à sua casa, no intuito de ceder uma entrevista sobre sua obra. Nesse jogo de interesses, que beneficia tanto à escritora quanto a jornalista, o encontro vai tomando proporções perigosas (e bizarras) já que Glória, extremamente temperamental, decide se vingar de Carol por causa de um ‘segredo’ que as une há anos.

O filme, que é uma joia, é o primeiro trabalho no cinema do jovem diretor Rafael Primot e está repleto de diálogos marcantes, de uma profunda reflexão sobre loucura e sanidade, de cenas lindíssimas e referências ao melhor do cinema clássico. (Também, acho que vale comentar o fato de que feito com um orçamento curtíssimo, de apenas R$ 150mil…).

Regina Duarte Ver Regina Duarte interpretando com brilhantismo uma personagem inspirada em Norma Desmond e Baby Jane me fez pensar no quanto a mídia e o público podem ser cruéis com figuras públicas, expostas a dura e implacável crítica em relação a velhice. Envelhecer não é para mocinhas, Bette Davis já dizia isso… pressentindo um futuro não muito agradável em que foi considerada veneno de bilheteria.

Ver Regina Duarte dando vida a uma feminista lésbica, que cita Susan Sontag, Simone de Beauvoir, Mark Twain… que prega o amor livre e com sarcasmo e agressividade ironiza a juventude (a qual apelida de ‘bundinha rosada’), faz com que eu me sinta parte desse público cruel e ingrato, que não reconhece uma carreira incrível e que também não valoriza seus artistas. Eu ri daquele vídeo em que Regina aparece sambando. Eu ri das fotos do aeroporto. Agora, depois de “Gata Velha ainda mia”  me arrependo amargamente.

Regina não deixa a peteca cair, encara o melhor e o pior de si, sem medo de se expor. Sem medo de aparecer sem maquiagem na tela grande, sem medo de não ‘estar bonita’. É o espírito pulsante do verdadeiro artista, aquele que doa não só a sua imagem, mas o seu corpo (e até a sua alma) quando está interpretando. Menções também honrosas à Barbara Paz, que mesmo ofuscada por Regina, responde à altura e se entrega, também se expõe.

ScreenShot006Enfim…

Felizes são aqueles que conseguem envelhecer bem… Não me refiro apenas ao aspecto físico, refiro-me à dignidade (que hoje, acredito ser um dos bens mais preciosos do ser humano). Tenho pensado muito sobre a velhice, principalmente depois que assisti esse filme… reli uma passagem do livro da Rosa Montero que resume muito bem o que eu penso: “Há pessoas que com o transcorrer da vida simplesmente envelhecem, outras, mais sábias ou afortunadas, vão amadurecendo. Outras, ao contrário apodrecem e outras ainda, enfim, se desbaratam, e todos esses processos têm frequentemente um claro reflexo no aspecto físico”….

Gata Velha ainda Mia é um grande filme, daqueles que nos faz acreditar e gostar do cinema nacional. Vale a pena ser visto e revisto.