Do universo à jabuticaba

Rubem Alves é um dos meus autores favoritos, seus livros me acalantam a alma, Baixar-Livro-Do-Universo-a-Jabuticaba-Rubem-Alves-em-ePUB-mobi-e-PDFme dão uma incrível sensação de conforto e paz. É um autor de uma imensa sabedoria e, ao mesmo tempo, de humildade. O último de seus livros que li foi “Do universo à jabuticaba”, lançado em 2010. Dessa vez escolhi fazer diferente, estou com este livro há um ano e fui lendo aos poucos, bem aos pouquinhos. Sem pressa, fazendo as minhas marcações, relendo as partes favoritas…

O estilo deste me lembrou muito “Ostra feliz não faz pérola”, pequenas reflexões sobre temas como: amor, religião, saúde…Algumas até um pouco repetitivas, mas nada que atrapalhe a delicadeza e a doçura desse escritor.

 – Citações –

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“A arte chinesa: já notaram que seus cenários aparecem sempre cobertos por neblinas¿ Estão lá porque a alma precisa delas… A vida é cheia de neblinas. Durante a Revolução Cultural, as neblinas foram proibidas. Revoluções são tempos de certezas. Palavras de ordem não toleram brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar”.

“Promessas são palavras que dizem para engaiolar o futuro. Dentro das promessas há sempre um pássaro engaiolado. Posso prometer atos, proteção, companhia, cuidado. Não posso prometer sentimentos “Sei que vou te amar, por toda a minha vida vou te amar” É lindo, mas não é verdade. Atos futuros podem ser prometidos. Sentimentos só podem ser cantados no presente.”

“O segredo do amor é androginia. Somos todos homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo.”

“Ciúme é a dor no coração ao ver a pessoa amada dando adeus, na fantasia. A cena do pássaro voando é dilacerante. Porque, no ciúme, ele voa para outro… Ciúme não é falta de confiança na pessoa amada. Confio que a pessoa amada nunca me trairá com o seu corpo: conheço o seu caráter. Mas não posso confiar nos seus sentimentos. Não somos donos dos sentimentos, eles se encontram além das nossas verdades”

“Albert Camus, numa frase bem curta, disse que se ele fosse escrever um livro sobre ética, noventa e nove páginas estariam em branco e na última página estaria escrito amor. ”

“A morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com a voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver.”

“Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio é uma dor bruta, sem forma ou cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente. Com o passar do tempo, essa dor bruta se transforma. Passa a ser muitas, cada uma com rosto diferente, falando coisas diferentes. Há aquela dor que é a pura tristeza pela ausência. Ela só chora e diz: “Nunca mais…” Outra é aquela dor que se lembra das coisas que foram feitas e não deveriam ter sido feitas, coisas que não foram feitas e deveriam ter sido feitas: a palavra não dita, o gesto que não foi feito. É a dor da saudade misturada com a tristeza da culpa. E há outra dor: a tristeza de que o filho não tenha completado o que começara.”

Esperança

tumblr_lra9l5pgdi1qh6ugx_large“Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.” Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: “E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível…” Otimismo é alegria “por causa de”: coisa humana, natural. Esperança é alegria “a despeito de”: coisa divina. O otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce…”

(Rubem Alves)

Ostra feliz não faz pérola

Ostra FelizGosto muito do Rubem Alves, as coisas que ele escreve me tocam profundamente. Tive a felicidade de encontrar ‘Ostra feliz não faz pérola’ online e fui lendo, pelo celular mesmo, aos pouquinhos.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental (…)

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite a análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li e reproduzo o que Alves escreve:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer cascas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.

Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza.

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta, mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um home completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Confira, outros trechos:

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.

“O gol é fundamentalmente um ato sádico. Um estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no buraco do outro – dolorosamente -, embora o outro tenha feito de tudo para impedir que isso acontecesse”.

“A medicina é uma arte rigorosa, regida por princípios de assepsia e de ética. Por exemplo: quando se vai aplicar uma injeção é preciso desinfetar o lugar onde a agulha vai entrar no corpo. Pura curiosidade: os médicos que aceitam a função de carrascos nas penitenciárias desinfetam o lugar onde a agulha com líquido letal vai penetrar na veia do condenado? Acho que sim. É preciso evitar infecções. Será que os carrascos na cama, de noite, pedem perdão ou se entendem apenas como executores de um ato burocrático? Os criminosos de guerra alemães alegaram que eles apenas cumpriam ordens. O argumento não foi aceito. Foram enforcados. Não é horrendamente imoral que o Estanho tenha o direito de matar? Matam na guerra, milhões. Não são caçados como terroristas. São saudados como heróis. Como são bonitas as fardas dos generais! A diferença entre os morticínios de Estado e os morticínios dos terroristas está em que os primeiros são feitos em nome do Estado e os segundos em nome de uma crença política ou religiosa. Os morticínios são feitos por loucos. Mas a loucura do Estado é legítima”.

“Sobre o perdão: Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma LV225740_Zcriança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem a custo do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Olha as aves do céu. É um conselho de Jesus. Se ele aconselhou é porque o voo das aves no céu é uma metáfora do sagrado. As aves voam porque  são amigas do ar e dos ventos (vejam só os urubus voando nas funduras do céu sem bater as asas…). E foi o próprio Jesus que declarou que Deus é um vento que sopra sem  que saibamos donde vem nem para onde vai. Nosso destino é ser aves: flutuar ao sabor do vento. Por decisão divina, somos seres destinados ao voo. Não é por acaso que o céu estralado foi um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos céus foi um artifício técnico bolado pelos homens para compensá-los do seu aleijão: haviam perdido suas asas. Quem não pode voar tem que subir pelos degraus… Mas vocês sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluída e os homens se espalharam pelo mundo na maior confusão. De fato, para se tocar as estrelas é preciso ter asas. Se duvidam, releiam a estória do sapo que resolveu ir á festa nos céus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estória do sapo são variações do mito de Ícaro”.

(…) “O deus do taoismo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário, pois é, o Alan Watts escreveu o seguinte: Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos, as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água”.

“A velhice tem sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs; As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitárias. No crepúsculo, tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como o azul do mar, imóvel. Nos crepúsculos, as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem do tempo, nós percebemos que é preciso viver o momento intensamente. “Tempus Fugit” – o tempo foge, portanto ‘carpe diem’, sabemos que a noite está chegando. Na velhice, sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”.

 (Cássia Janeiro)

O que sobrou

O que sobreou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seu livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças,

O que sobrou foram os seus retratos

e,

Quando vi uma foto sua,

Sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua

Ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

“Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: Todos os seres humanos tem o direito de morrer sem dor.”

“Há de se viver bem. Há de se morrer bem. A ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada. A medicina é uma luta pela vida boa, da qual a morte faz parte”.

Perguntaram-me se acredito em Deus

Roubei o título do livro de Rubem Alves para falar de um assunto que tem ocupado meus pensamentos. De fato, em um encontro informal com os amigos, perguntaram-se se acredito em Deus e minha resposta imediata foi que sim, que acredito. Meu primo (nos seus poucos 17 anos), dizia que estava descrente e repleto de dúvidas quanto a sua fé. Logo ele, que frequentava a igreja semanalmente e que possui tanta intimidade com a bíblia dizia que agora já não acredita mais em nada.

Passei por um momento semelhante na vida quando cheguei a dizer, diversas vezes que se Deus existisse coisas ruins não aconteceriam.  Minhas dúvidas eram parecidas com as dele: por que as pessoas de boas ações e bom coração estão igualmente sujeitas ao sofrimento como pessoas de má índole e pouca fé? [Por que uma pessoa pobre, que já não tem quase nada perde sua casa em uma enchente? Porque uma mulher tão boa está sofrendo com um câncer terminal? Por que uma pessoa morre sentindo dores terríveis? Por que uma jovem teve AVC e nunca mais recuperou a fala e os movimentos? Por que não consegui aquilo que queira/precisava tanto? Por que ele e não eu? Quando eu vou ser feliz?].

A verdade é que nunca consegui responder a nenhuma dessas perguntas e acho que nunca o farei (elas crescem se multiplicam e continuam ali na minha mente e no meu coração). Quando mais nova, eu frequentava a igreja e liderava um grupo de jovens (eu marcava os horários, trazia as pautas e participava das discussões). Uma vez, disse ao padre que falaríamos de certo assunto (que não me lembro) e ele me repreendeu afirmando que eu levantaria as dúvidas dos jovens que procuravam por respostas. Ao invés de me ajudar a respondê-las, o padre as sufocou.  Pouco tempo depois, eu soube que não fui batizada naquela igreja por ser filha de mãe solteira. Deixei de frequentar as missas e guardei uma raiva enorme.

Senti falta das minhas orações. Se a religião não responde minhas perguntas, o que devo fazer? Eu poderia ter trocado de religião, mas acho que Deus é superior a leis humanas e não acredito que alguém consiga responder minhas perguntas senão Ele. Todos os dias, antes de dormir, apresento a Deus meus conflitos e agradeço pelas bênçãos [tem me feito tão bem!]. Mais do que isso: Deus tem respondido as minhas preces e não me abandonou em nenhum momento que precisei D’Ele. As vezes, só consigo pensar que esses problemas que sobrecarregam nossos ombros diariamente são necessários: eles nos ensinam a viver, nos ensinam a amar uns aos outros. Não é preciso sentir a dor do outro para compreendê-la e sentir compaixão. Aprendemos com o sofrimento.

Nossa Senhora do Pilar:

2c9a8bbfb6469cbaf315f4011bc14f00Sempre que inicio um texto como esse, onde deixo escorrer minhas emoções mais sinceras, acabo perdendo o rumo. Não queria terminá-lo sem antes comentar de uma das figuras religiosas que mais me comove e em que mais acredito. Todos os dias em que precisava ir ao centro de Nova Lima tinha o costume de observar a beleza da igreja matriz sem me dar ao trabalho de entrar. Um dia, não sei por que, resolvi orar por Nossa Senhora e ao entrar na igreja, senti uma paz imensa.

Desde então Nossa Senhora tem sido uma companheira (e uma confidente). Me agarro a ela quando sinto que preciso de ajuda. Entrego a vida dos meus entes mais queridos e peço (todos os dias) que ela os proteja. Peço proteção para mim e para minha mãe. Oro por minha avó, pelos meus amigos, meus tios, primos e só então, me sinto segura. [Sei muito pouco da história dela e só hoje fiz uma pesquisa. Segundo os artigos que encontrei na internet, Nossa Senhora (quando estava viva, durante o século I) apareceu para o apóstolo S. Tiago que enfrentava dificuldades enquanto pregava o evangelho no rio Ebro [Espanha]. Ela o acalentou e pediu que ele construísse uma basílica e depois, partisse para Jerusalém – ela também o avisou que sua morte estava próxima. Nossa Senhora estava cercada de luz e de flores (que formavam seu pilar), usava um véu que cobria-lhe a cabeça e ia até os pés.

Perguntaram-me se acredito em Deus – O LIVRO

Os cacos de vidro separados não tem tanto valor. Porém, quando alguém os une e cria um mosaico ele acaba transformando fragmentos em obra de arte.  Assim também acontece com a música: se o compositor unir as notas, elas passam a dizer algo. E porque não dizer que é o que acontece com a vida?

perguntaram se acredito em deus

É com essa reflexão que Rubem Alves (psicanalista, escritor, teólogo e educador) inicia seu livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, escrito em 2007. Reproduzo aqui, um texto publicado pela Folha de São Paulo em abril de 2007, onde Alves justifica o título e a criação do livro:

” Aconteceu ao final de um debate sobre educação promovido pela Folha. Chegada a hora das perguntas uma senhora me perguntou algo que nada tinha a ver com educação. Perguntou porque lhe doía: “O senhor acredita em Deus?” Houve tempo em que era mais fácil acreditar em Deus. Hoje até o Papa se atrapalha. Na sua visita ao campo de concentração de Treblinka perguntou o que não deveria ter perguntado: “Onde estava Deus quando esse horror aconteceu?” Heresia porque a pergunta silenciosamente afirma que Deus não estava lá. Se estivesse não teria deixado aquele horror acontecer. Pois Deus não é amor e todo poderoso? Se estava lá e deixou acontecer ou ele não é amor ou não é todo poderoso. Por outro lado, se ele não estava lá ele não é onipresente…

Depois do atentado terrorista ao World Trade Center o “New York Times” publicou um artigo com essa mesma pergunta: Onde estava Deus? Se estava lá, por que deixou acontecer? Dietrich Bonhoffer, pastor protestante que foi enforcado por haver participado de um frustrado atentado para assassinar Hitler -às vezes não há como fugir: ou matar um único, para que muitos não sejam mortos, ou, para preservar a pureza pessoal, não matar esse único e deixar que milhares sejam mortos; a inocência pode ser mais criminosa que o crime…, lutou com essa pergunta: “Onde está Deus?” Sua resposta foi simples: “Deus está aqui, mas ele é fraco…”

Se Deus existe e é forte, como perdoá-lo por permitir que aconteça o horror de sofrimento que não deveria acontecer? Mas se Deus é fraco ou não existe, então seria possível perdoá-lo e amá-lo. Aí choraríamos e diríamos: “Se Deus existisse e fosse forte isso não aconteceria…” A gente fica, então, com saudade do Deus que não existe. Mas eu não disse nada disso para aquela senhora. Apenas perguntei de volta, pedindo um esclarecimento: “Acreditar em qual Deus? Há tantos…

Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos… Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar… Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal… Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres… E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?”

Ela ficou em silêncio, meio perdida. Então lhe respondi com os versos do Chico: “Saudade é o revés do parto. É arrumar o quarto para o filho que já morreu”. E perguntei: “Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que chegará amanhã ou a que arruma o quarto para o filho que nunca chegará?”. E acrescentei: “Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso…”

Aí, provocado pela pergunta daquela mulher desconhecida escrevi um livrinho cujo título é a pergunta que ela me fez: “Perguntaram-me se acredito em Deus”. Àquela mulher o meu muito obrigado…