O que falta?

Ontem assisti um vídeo no Facebook em que um garoto “saía do armário” para a família e era agredido fisicamente pelos pais, que ainda gritavam palavras de ódio. O garoto, com seus poucos vinte anos, disse que resolveu usar uma câmera escondida para se proteger e mostrar para o mundo que esse tipo de violência é mais comum do que se imagina.

Bem na hora me veio em mente o filme “Orações para Bobby”, que ficou famoso ao propagar uma mensagem de amor, respeito e aceitação. No filme, Sigourney Weaver interpreta Mary Griffith, a mãe religiosa que condena o filho (Bobby) por sua homossexualidade.

Tragicamente, Bobby se suicida e Mary percebe que seu fanatismo religioso foi uma das causas. Em um processo doloroso de arrependimento e descobertas, Mary se torna militante da causa gay e luta contra o preconceito daqueles que, antigamente, foram seus amigos. Seria apenas um lindo roteiro fictício se não fosse baseado em uma história real.

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É triste, mas muitos dos casos, diferente do que interpretado por Weaver, os pais não se arrependem. Preferem ter um filho morto a ter um filho “gay”. Pelo termo “pais”, é possível substituir por qualquer figura que deveria/poderia surgir como apoio (avós, tios, filhos, amigos) –  mas não o fazem.

Tantas mensagens de ódio aos homossexuais que reverberam pelas redes, que saltam das bocas de figuras públicas, políticos, celebridade, pastores, mães, pais, irmãos e amigos – me fazem pensar. É realmente difícil saber se estamos (não só como sociedade, mas como seres humanos)  um passo a frente ou um passo atrás.

Intolerância não é uma palavra que me satisfaz quando o termo é homofobia, racismo, machismo ou outra concepção que faça alguém achar que é melhor do que o outro. Talvez, ‘falta de amor’ ou de ‘compaixão’. É isso, acho que é isso que falta… falta amor.

A garota do parque

Certos filmes me chamam a atenção por causa do elenco, neste caso “A garota do parque” filme de 2007, dirigido por David Auburn (o mesmo diretor de ‘A casa do lago’) me atraiu por ser encabeçado por Sigourney Weaver. Não fui com muitas esperanças em relação ao filme porque já tinha lido vários comentários negativos sobre o desenvolvimento da trama. De fato, a história é interessante, mas perde o ritmo no meio do caminho. Apesar  dos problemas, fica muito claro que todos os elementos fílmicos são muito bem respeitados, sem aventuras quanto aos movimentos de câmera ou de continuidade. [O filme foi lançado diretamente em DVD no Brasil e é uma produção independente].

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A narrativa conta a história de Júlia Sandburg, uma mulher que ficou profundamente traumatiza após o desaparecimento da filha em um parque. O início da trama nos apresenta a família da personagem: o marido e os dois filhos (Chris e Meg) e percebe-se um claro clima de harmonia. Júlia leva Meg ao parque, como o faz constantemente mas acaba se distraindo e não consegue encontrar a garota. Passam-se quinze anos e Júlia continua sofrendo pela ausência da filha. Sua relação com o Chris deteriorou-se, ela o encontra para o jantar de noivado, mas não consegue estabelecer diálogo. O ex-marido, agora casado com outra mulher, também parece não conseguir se relacionar com Júlia e prefere se manter distante.

Completamente absorvida na esperança de reencontrar a filha, Júlia afunda-se no trabalho e em uma solidão profunda. Em um dia inusitado, Júlia encontra Louise (uma jovem com a idade que sua filha teria hoje) e decide ajudá-la. Louise mente dizendo que está grávida e que precisa de dinheiro para voltar para casa, (Júlia lhe empresta setecentos dólares, mas pouco tempo depois, reencontra Louise bebendo e se divertindo em um bar). Júlia decide perdoar Louise e levá-la para casa, a relação das duas se torna um perigoso jogo de interesse e mentiras. Enquanto Júlia vê a possibilidade de Louise ser sua filha perdida, Chris tem certeza que Meg está morta.

Dor, Solidão e Abandono

Apesar de apresentar uma história interessante, há dois aspectos que me desagradaram muito. Meg é um personagem intenso e complexo, mas a interpretação de Daisy Tahan foi pouco cativante. Outro detalhe é o final que deixa a desejar e não oferece respostas. Aliás, a relação entre Júlia e Chris definitivamente poderia ser mais explorada, afinal, Chris cresceu à sombra da irmã e não teve a oportunidade de conhecer o lado mais amoroso da mãe.

Seu ressentimento quanto a mãe fica evidente quando Júlia tenta se aproximar e ele não a permite. Em uma conversa durante a festa de noivado, Chris deixa que seus sentimentos venham à tona e demonstra, diante de todos os convidados, toda a sua dor, toda a raiva que sente quanto a rejeição que sofreu durante a infância.

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Sem títuloMOMMOChris é um personagem riquíssimo, assim como sua noiva. Enquanto Chris questiona a credibilidade de Meg e os sentimentos que sua mãe nutre por ela, sua noiva tenta fazê-lo perdoá-la e focar no que interessa: no nascimento do seu primeiro filho. Portanto, apesar de parecer que a trama baseia-se apenas no relacionamento entre mãe e filha desaparecida, há outras bifurcações e situações paralelas importantes (que passam despercebidas).

A morte e a donzela

Sigourney-WeaverTenho usado muito o Twitter… um dia desses, conversando com um amigo próximo, descubro que ele gosta tanto da Sigourney Weaver quanto eu. Ficamos por dias comentando sobre seus trabalhos e de repente, me lembrei de “A morte e a donzela”. Vi o filme pela primeira vez quando era pequena. Na época fiquei impressionada com a densidade psicológica da Paulina – o que me chamava atenção era a sede de vingança da personagem e da incerteza que a situação produzia: será que ela encontrou o homem certo, o homem que a torturou há anos atrás? O filme veio a calhar: fiquei extasiada. O engraçado é que a sensação que tive foi a mesma de alguns dias atrás quando o revi: de completo desconforto.

Há uns dois anos (por sorte), perambulando em um shopping de Belo Horizonte, encontrei o filme em DVD. Comprei e guardei junto a minha coleção. É estranho, mas não tive coragem de assistir porque as cenas (e principalmente os diálogos) de alguma forma mexeram comigo. Fui revê-lo porque tinha combinado com um amigo assistir filmes com Weaver no elenco – meu amigo não veio e eu assisti o filme sozinha. Pouco tempo depois, perambulando pela internet, descubro que o “A morte e a donzela” é um filme de 1994, dirigido por Polanski. Tá explicado, Roman Polanski é brilhante.

A ambientação do filme é crucial para acentuar o clima de desconforto. A chuva, faz com que os três (e únicos) personagens fiquem presos naquele ambiente. Uma casa sem energia, que parece pouco convidativo. E se tem outra coisa, um pequeno detalhe que me encanta é que: não se sabe em qual país sul-americano ou em que ano se passa a história – afinal, esse não é o foco: o filme quer discutir a liberdade, a vida (ou a morte).

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Então, vamos a sinopse:

“Em um país sul-americano após a queda da ditadura Paulina Escobar (Sigourney Weaver), a mulher de Gerardo Escobar (Stuart Wilson), um famoso advogado, fica sabendo no rádio que Gerardo deverá chefiar as investigações das mortes ocorridas no regime militar. Quando Gerardo chega, ela o vê acompanhado de um estranho que o socorreu na estrada, mas quando o desconhecido retorna à casa ela o identifica pela voz como sendo Roberto Miranda (Ben Kingsley), o homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política. Paulina decide então “julgá-lo” ali mesmo, apesar dos protestos do marido, que considera sua atitude precipitada além do fato do acusado alegar inocência.”

O filme possui detalhes magníficos, começando pela musica. Paulina foi capturada quando era ainda muito jovem. Tinha cabelos longos e ruivos… Um dia, quando saía da faculdade, foi surpreendida por militares. A orientação dos seus companheiros era de que se alguém estranho a abordasse na rua gritasse: “Meu nome é Paulina e estou sendo sequestrada”. Mas Paulina não gritou, sabia que morreria se resistisse. Paulina queria viver, queria estar viva para ver o país livre.

Após sessões longas de torturas e eletrochoques, Paulina se encontrou com aquelesite_28_rand_1428444645_death_and_the_maiden_pub_627 que mudara sua vida. Em princípio, o médico olhou suas feridas, deu-lhe sedativos para suportar a dor. Mas logo depois, enquanto se recuperava, ele a estuprou seguidas vezes deixando tocar ao fundo “A morte e a Donzela”, de Schubert. O interessante é que Schubert a compôs em 1824, logo após descobrir que tinha sífilis. Trata-se da história de uma donzela que encontra com a morte, mas que suplica para continuar viva. Desde então, após reencontra-se com o marido, Paulina passou a viver (ou sobreviver) com toda essa paranoia.

O estranho é que “A morte e a Donzela”, que é uma adaptação da obra teatral do chileno Ariel Dorfman não se tornou um clássico. O filme é magnífico e tem uma iluminação primorosa.  É uma daqueles que te deixa desacordada. E é por isso que eu ‘babei” nesse trabalho de Polanski: o cara pega um roteiro que poderia ser totalmente maçante e tranforma em uma história de arrepiar os pelinhos do braço (principalmente na cena em que a Paulina conta como foi torturada).  – Simplesmente fantástico.

Um Certo Olhar

Às vezes eu fico encabulada com as traduções brasileiras para os títulos dos filmes. Sempre me lembro de uma das conversas que tive com as meninas da faculdade que disseram

– É a forma que eles encontram para tornar o filme mais vendável.

– Ótimo, peçam para colocar uma legenda de IDIOTA na nossa testa também.

Mas enfim: Há algum tempo estou com este filme gravado em DVD e essa é a terceira vez que sento para vê-lo. Como o início é muito lento, não tinha paciência para chegar aos finalmente, até que hoje: feriado e sem internet, decidi ver tudo até o final. E acreditem: o filme conseguiu minhas lágrimas (o que não é tão difícil, mas).

A história é muito interessante: “Alex (Alan Rickman) é um inglês que está no Canadá para se encontrar com a mãe do seu falecido filho. No caminho, conhece Vivienne (Emily Hampshire) e lhe dá uma carona. No caminho um acidente com um caminhão provoca a morte de Vivienne. Então, Alex decide procurar a mãe da jovem: Linda (Sigourney Weaver). Alex descobre que Linda é autista e quando conversam sobre o acidente, percebe que ela não teve qualquer reação ao saber do acidente da filha. Assim, decide (e de certa forma é impelido por Linda) a ficar até o funeral. Alex conhece Maggie (Carrie-Anne Moss), a vizinha de Linda, com quem acaba tendo um relacionamento”.

“Um certo olhar” é  um filme que levanta questionamentos sobre perda, sobre sofrimento. Quando Alex e Linda são visitados pelo motorista do caminhão que matou Vivienne, Alex fica nervoso – pede para que ele saia. E Linda diz algo interessante: “Eu não vou ter Vivienne de volta, nem você, nem ele.” O que a cena sugere é: porque prolongar a dor? “Vivienne morreu, mas nós estamos vivos”.

Além da fotografia linda, temos um presente: a atuação brilhante de Sigourney Weaver é de contagiar qualquer um. Ela consegue fazer com que as “manias” chatas de Linda, se tornem cativantes. É como se entrássemos na cabeça do personagem para entender que um tapete fora do lugar, ou uma manchinha no sofá representam um real sofrimento, algo tão grande que a impede até de levantar da cama. Aquele é o universo dela, da autista, e precisa ser respeitado. Ah, e quanto ao nome do filme: Assistam para descobrir por que Snow Cake, ou: “Torta de Gelo”

Ficha Técnica:

Duração: 1h 52min

Dirigido por: Marc Evans

Gênero: Drama

Nacionalidade: Reino Unido, Canadá

Com: Alan Rickman, Carrie-Anne Moss e Sigourney Weaver