Ontem me deparei com um texto lindo e delicioso, escrito por  André J. Gomes da Revista Bula. Tomo a liberdade de compartilhá-lo aqui no La Amora

Amor de verdade acaba

Amor de verdade também acaba

Se preocupe não, moça. Não é você. Sou eu. Não tenho jeito pra esse negócio de amor. Acho lindo, acho lindo nas canções que você e eu amamos juntos. Mas na verdade, assim, no tempo duro de um dia depois do outro, o amor toca desafinado para mim, obrigatório, repetido, música com refrão meloso. Não é você, moça. Sou eu. É que eu não tenho muito que dar. Não rendo, não sei telefonar à noite, não sustento conversas sem assunto, diálogos sem tema. Não é você, linda, doce, cheia de graça. Sou eu. Vazio, triste, estranho.

Você já viu tanta gente tão certa de que o amor mesmo, amor no duro, não acaba? E se acaba é porque não era amor? Dá até inveja, né? Eu invejo mesmo essas pessoas. Queria ter certeza e amor que durassem para sempre. Mas não. Comigo ainda não é assim. Meu amor vem e vai. Começa agora, acaba amanhã, volta mais tarde.

Ser de ninguém é meu único jeito de ser alguém, minha querida.  Tomo remédio pros nervos e você não sabia. Sou dessa gente que precisa ser só, mesmo em comunidade, como unidade. Só. E você não queria. O sol que bate agora recende aqui dentro uma saudade dolorida do que já foi e do que sequer aconteceu. Minha cidade perdida, minha casa na infância, uma lambreta alaranjada que me leva a passear no quarteirão, o carro velho e batido do pai, a mãe que custa a voltar do trabalho, a alegria das avós.

Essa saudade, para mim, é o que mais se parece com o que tanta gente chama de amor. É só o que eu tenho, moça. E é tão pouquinho que mal dá pra mim sozinho. É um foguinho de palha que eu tento — ah, como eu tento! — alimentar e espalhar e incendiar o quarteirão. Mas não dá, minha amiga. Não deu. Meu amor anda pequeno. É uma saudadinha que dói mansa, um fio de água, um cheiro distante, um raio morno de luz patética quase apagando. É muito pouco. Não dá pra dois.

Você merece mais. Muito mais do que isso. Merece amor inteiro, forte, amor de casa grande, segura, quintal na frente, jardins e flores, pés de jabuticaba, caqui, laranja lima, limão galego. Eu tenho nada além dessa barraca de um só, montada na grama aqui e ali, esperando a hora de mudar e partir.

Foi bom, moça. Foi lindo. Você fica além de toda expectativa. Mas eu não dou conta. Preciso ir adiante, abrir o portão e liberar os cachorros que vivem cá dentro de mim. Se os deixo por aqui, trancados em casa, uma hora eles terão destruído tudo. Preciso conduzi-los à rua, deixá-los mijar nos postes, tombar as latas, rasgar os sacos, revirar o lixo alheio. E para isso eu tenho de ser só. Não por nada. Não é você, lembra? Sou eu. Para dar amor a alguém aí fora, eu antes preciso encontrá-lo aqui dentro. E aqui dentro ele se esconde tão bem, tão pequeno, que eu custo a achar. Vez ou outra eu encontro, mas ele logo se perde de novo, como bolinha de gude debaixo do sofá da sala. Como agora.

Se preocupe não, menina linda. Não é você. Sou eu. E isso é tudo. Agora vai, minha querida. Vai em frente. Vai ser feliz. Vai porque o mundo é seu. Eu, não. Eu ainda preciso ser de mim mesmo.

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Viver é ir desvivendo

Com o corpo mole e os olhos pesados,  Eleonora passou o dia chorando a ausência. Chorou porque os que amavam não estavam mais lá. Chorou porque há muito tempo só sentia o vazio. Não havia felicidade nem tristeza, nem dor ou prazer. Apenas ausência. Quis morrer, desistir, sumir por uns dias ou talvez para sempre. Não o fez. Levantou porque apesar do “não sentir”, alguma coisa a impelia de continuar. Recebeu uma ligação logo pela manhã. O cara da operadora insistia em lhe vender um pacote de canais para a TV. “Não vejo TV, nem tenho uma” e voltou a chorar. O homem do outro lado da linha se desculpou e assustado, prometeu não ligar mais.

O café tinha gosto de lágrimas, o nariz entupido e os olhos caídos a fizeram parecer ainda mais exausta. “Viver é ir desvivendo”, lembrou-se da frase que encontrou em um livro, um livro qualquer. Pegou um post it cor de rosa, escreveu a frase e colocou no espelho do quarto. Saiu de casa porque precisava de ar fresco, precisava ter certeza de que, apesar de tudo, ainda estava viva. Da janela percebeu que o dia estava sem cor, que o barulho dos carros e da buzina era o único som que se permitia escutar, os carros em movimentos rápidos e bruscos pareciam lhe dizem: a vida pulsa.

Caminhou pelo passei, ficou por um momento esperando o sinal. Do outro lado, uma mulher com sorriso torto no rosto, parecia que queria esconder a felicidade que guardava dentro de sí. Abaixou a cabeça, tentou fingir que não tinha reparado naquela energia positiva que saia dela. Finalmente, no parque. Tirou os sapatos, sentiu a grama macia, deitou-se. Antes de fechar os olhos pensou: Deus, me ajude a esquecer esse dia.

ImagemUm explosão de felicidade injustificável, única e repleta atingiu o seu peito. Tentou esconder o riso, mas a boca – como se tivesse vida própria – moveu-se para o lado direito, deixando as bochechas com uma pequena covinha. De repente, a sensação que parecia sem importância foi tomando conta do seu corpo, deixando as mãos e os pés mais quentes e os olhos cheio de lágrimas (lágrimas de felicidade, que fique claro!). Então, pegou os sapatos e os jogou bem longe.

Saiu de casa sem se importar em ver ou em ser vista, estava bem e isso era suficiente. Descalço, sentiu as pedrinhas do chão do passeio, a aspereza do asfalto, a maciez da grama. Deitou-se embaixo de uma árvore onde sentia uma brisa leve e ouvia o barulho das folhas. Nunca na vida se sentiu tão em paz como agora. Poderia morrer aqui, passar os meus dias nesse lugar! Começou a refletir sobre o amor, sobre a sorte, sobre a juventude… Estou viva e amo essa ideia, mesmo que viver signifique ir desvivendo.

Eleonora levantou-se, pronta para ir pra casa e mais satisfeita do que nunca, caminhou em direção ao lar. Parou para esperar o sinal e do outro lado da rua uma mulher com um ar de desânimo, com os olhos inchados também esperava para atravessar. Teve dó dela, sentiu pena, se pudesse dividiria toda sua felicidade. Passou por ela com os olhos baixos, fingindo não percebê-la ali. Finalmente em casa, sentou-se na sala e pensou: Obrigada Deus, por esse dia.

ImagemTodo mundo diz pra gente que o insucesso dói, mas ninguém nos prepara para perder.  “Perder”, dor única, incomparável e individual. Quando se vence, se vence junto.

Perde-se sozinho.

Eu já perdi muitas coisas, muitas pessoas, muitos lugares, muitos sonhos. Já me perdi de mim mesma, tentei voltar inúmeras vezes. Perder é como o silencio, é o vazio, a lágrima, a vergonha, o medo, a insônia.

Perder é abrir caminho, deixar um espaço: ou para a esperança ou para a desistência. Por que, felicidade. Por que eu te perdi mais uma vez?

Essa chuva que não para, esse calor infernal: dois motivos interessantes que não me permitem esquecer as coisas que você disse. Eu fui a sua casa, engoli todos os meus medos, minhas vergonhas e pedi para você voltar. Ficamos horas na porta.  Enquanto meu coração batia fortemente, seus olhos reviravam de preguiça. Eu não queria sair dali sem você, não podia. Falávamos do passado, de um possível futuro e você, insistia em se desculpar por não ter atendido minhas expectativas.

Eu queria sim: me casar, ter filhos, dividir as contas, discutir política e fazer amor. Teria dado certo, se você fizesse apenas uma coisa: me desse mais uma chance: será que não significa nada? Foram dois meses, eu sei. Mas dois meses intensos, meu Deus! Como você é arrogante!

Não bastasse, disse que desejava o meu bem, disse que queria que eu encontrasse um amor, alguém bem bonito, que chamasse atenção. Ora! Se me amasse mesmo, desejaria que ninguém mais passasse na minha vida, desejaria me ver sozinho, no limbo, morta – mas não com outra pessoa. E aquele suspiro! O que foi aquilo? Suspiro de “ai que porre”.

Quem é você? Onde estão as promessas que me fez? De que morreríamos juntos! Você me deixou morrer sozinha, você me deixou.

É a minha vez de dizer não…

Estou começando a acreditar naquela frase que anda tão comum e sendo compartilhada tantas vezes pelo facebook e twitter. Na mensagem o autor diz que é preciso parar de se apegar e correr atrás, porque as pessoas gostam do que não tem. Pois é, eu ando mesmo achando que essa dica mágica funciona. Parece que o apego constante, a preocupação latente nos torna cada vez mais dependente de algo ou alguém que no fim das contas, não nos pertence. É claro que o desapego (principalmente quando gostamos pra caramba, estamos apaixonados e muitas vezes exigimos do outro o que ele não pode dar) não é um processo fácil, parece até desperdício dos nossos sentimentos. Você se apruma toda, fica horas arrumado uma roupa bacana e quando encontra com ele no corredor, não recebe nem um olhar. Ou então, passa a noite ligando para saber se aquela dor no pescoço dela melhorou e depois descobre que ela não atendeu a sua chamada porque preferiu (simplesmente), não atender.

Aí você percebe que está se anulando, que aquela situação vai ficando dolorida e desgastante demais. Você percebe que aquele lugar no seu coração, que você reservou faz tempo não será preenchido e que a relação se tornou uma via de mão única (só você cede, só você se preocupa). Você sempre escuta a sua amiga reclamar dos problemas com o marido, com o filho e quando a encontra para falar dos seus problemas (que também são muitos) recebe dela: “desculpe querida, estou com pressa!”. Talvez um amadurecimento seja necessário, chega um momento que ser gentil demais não está ajudando muito.

A personagem de Carmen Maura, Pepa, em “Mulheres a beira de um ataque de nervos” (filme de Almodóvar) é um exemplo gostoso de que essa procura constante da resposta específica que esperamos é inevitavelmente cansativa. Pepa se descobre grávida de Ivan e tenta ter dele as justificativas por tê-la abandonado. Mas ela vai se cansando, vai vendo que não precisa mais dele nem daquela situação melancólica toda. Ela percebe que é a sua vez de dizer: não, que ficar de braços abertos o todo o tempo, já não dá mais. Na verdade (se é que há alguma verdade neste contexto), você percebe que mudanças são necessárias e que elas não podem ser feitas ou tomadas por outra pessoa do que por você mesmo. 

 

A atriz Carmen Maura como Pepa em “Mulheres a beira de um ataque de nervos”