As bruxas de Zugarramurdi

Brujas_FrikarteEm 1610, a inquisição espanhola acusou quarenta mulheres por bruxaria. Cinco morreram em consequência a enfermidades, doze foram queimadas na fogueira. As outras pediram misericórdia e prometeram voltar à vida cristã.

No dia do julgamento, testemunhas relataram tantas coisas incríveis e horrorosas que os inquisidores passaram mais de 48 horas colhendo as informações. No processo, as mulheres foram acusadas de se encontrarem na Caverna de Zugarramurdi (Cueva de los Aguelarres ou Cueva de las Brujas) para praticar magia. [O local é um pequeno município espanhol, situado perto de Pamplona e, desde a época, ficou conhecido como “Cidade das Bruxas”].

Alex de la Iglesia (também diretor em La Comunidad) já havia  demonstrado interesse em filmar sobre o assunto. Até então, tinha um pré-projeto que ficou guardado durante anos até que resolveu filmá-lo. As produções, feitas em Zugarramurdi, levaram apenas sete  semanas para ficarem prontas. O filme foi bem recebido, ganhou oito prêmios Goya, sendo um para a atriz Terele Pávez e os outros de: maquiagem e cabelo, efeitos especiais, direção, montagem, direção, direção artística e figurino.Las Brujas

‘As bruxas de Zugarramurdi’ conta a história de um grupo de homens que tenta roubar uma joalheria, mas tem uma ação fracassada. Joseph, um dos assaltantes, acaba levando o filho, Sérgio, de apenas oito anos para o assalto e sem opções, foge com ele e com os companheiros.

Durante a fuga, o grupo entra em uma floresta e se deparam com um estranho restaurante, cujo os donos, são ainda mais estranhos. Os fugitivos são avisados: ‘Não continuem a viagem, porque vocês estão indo em direção a cidade das bruxas’.

Claro, eles não dão ouvidos. Logo, conhecem Graciana Barrenetxea – uma das lideres do clã das bruxas, que os pede carona. Graciana, cujo sobrenome ao contrário significa “Barre Echea” ou “Varre a Casa” – busca, há anos, uma criança que deve ser oferecida a deusa, que salvará as outras gerações de bruxas.

tumblr_mjk5d7nMDa1rp0vkjo4_400

Iglesia mantém o tom sarcástico e irônico. É normal que o espectador não acostumado com essa perspectiva louca e diferente, receba o filme com certa estranheza. Essa, no entanto, é uma das marcas do diretor. Alex tem essa predisposição em brincar com figuras pop, fazer piadas sujas e sacanas – e ser exagerado, até meio trash. No início do filme, por exemplo, o protagonista – vestido de Jesus Cristo, se une a um amigo vestido de Bob Esponja e juntos, bolam o assalto.

As bruxas de Zugarramurdi  é um daqueles filmes, que quando acaba, te deixa com a boca aberta. Do tipo: “Eu realmente vi isso?” No mais, não acho que seja um filme para mulheres (como muitos falam por aí), acho que é um filme sobre mulheres e que apresenta um visão até meio deturpada do sexo feminino. Afinal, somo tão histéricas e vingativas assim?

Gosto especialmente da abertura, que brinca e apresenta diversas referências histórias e artísticas. Trabalho lindo e minucioso, com uma trilha sonora fantástica. Aliás, é sempre bom ver Carmen Maura e Teréle Pávez juntas.

A comunidade

Hoje de manhã, quando voltava de um exame encontrei uma senhora no ônibus que me pegou de papo. Larissa me disse que é de Madri, mas que está passando uns dias em Belo Horizonte ao lado das duas filhas que se mudaram pra cá há dois anos. Estava encantada com o “bus” daqui, “que tem um lugar reservado para viejitos”.

– “Mi marido se fué”, ela disse.

E eu, perguntei na cara dura: se foi pra onde?

-“Se murió” (ele morreu, explicou).

Uma pena ter descido correndo, não deu tempo de passar meu email e telefone. Disse que estudava jornalismo, que gostava de cinema, que morava em Nova Lima e que todos os dias tinha que pegar o ‘bus’. Larissa me indicou um nutricionista, um dermatologista e um dentista em BH, parece que conhece a cidade muito mais do que eu. Me perguntou se eu conhecia Carmen Maura, Almodóvar e Marisa Paredes. Achei um máximo! Eu sou apaixonada pelos três, justamente pelos três.

com

Quando ia descendo, Larissa me desejou “¡Feliz Navidad!” (adoro o jeito que eles escrevem a exclamação de cabeça para baixo) e me indicou um filme: “La Comunidad”, com a Carmen Maura.  Conscidência ou não, é um dos meus preferidos com a atriz. Assisti há algum tempo atrás pelo Youtube, e indico para qualquer um que queira conhecer um pouco do cinema espanhol.

O filme é de 2000, dirigido pelo brilhante Alex de La Iglesia e conta com o melhor do humor negro.  Não há nada de convencional na trama, nem mesmo os moradores do pequeno condomínio: que aos poucos, vão revelando atitudes assombrosas. As referências do diretor são clássicas, entre elas: Alfred Hitchcock e Roman Polanski.

Carmen MauraNa resenha de Mariane Morisawa publicada na Istoé, há uma reflexão impecável: “Alex de la Iglesia imprime um tom surreal e divertido ao filme desde os créditos, que lembram as aberturas dos trabalhos de Alfred Hitchcock e Roger Corman. A comunidade do título, na verdade a reunião dos condôminos do tal prédio, é uma mistura de gente que parece de outro mundo, mas que infelizmente está aqui mesmo”

O que move a ação dos personagens é avareza extrema (e engraçada), que faz com que percam a noção do exagero de suas atitudes.  Júlia (personagem de Maura) é uma corretora de imóveis infeliz, casada com  um homem desempregado e sem chances de sair daquela vida.  Um dia visita um apartamento (que deveria vender) e resolve passar uma noite nele.  Curiosa, entra na casa do vizinho de cima.

Ela então descobre que ele está morto (e provavelmente há muito tempo, já que seu corpo continua naquele lugar, apodrecendo). Depois que chama a polícia, para recolher o corpo, volta ao local e descobre uma quantia absurda de dinheiro, escondida embaixo do piso.  O que era um sonho se torna um pesadelo.  Aquela quantia não era segredo para os outros vizinhos, que passam a tentar impedi-la de sair do local.

As gravações ocorrem de verdade em um edifício abandonado, no centro de Madri. A lacomunidadidéia era gravar apenas em um dos apartamentos, mas os diretores viram que precisariam filmar em todo o prédio.  O mais interessante é que o diretor consegue unir no mesmo filme, referências Pop’s e surrealistas. E por isso, prende do início ao fim, quem gosta dessa temática. Quanto a Maura, a atuação é tão boa, que a atriz venceu (merecidamente, é claro) o prêmio Goya do ano.

Então, fica a dica: minha e da Larissa: “ A comunidade” que também  traz  Sancho Gracia, Teréle Pávez, Kity Manver, Paca Gabaldón, Manuel Tejada, Enrique Villen, María Asquerino e Marta Fernández Muro no elenco.

Curiosidades:

-Filmado totalmente em um cenário interno, com exceção das cenas de rua e do terraço.

-Na cena da banheira é usado um colchonete para amortecer a queda

-Carmen Maura teve realmente participação nas brigas e cenas com ratos e baratas

-Alex de Iglesias comentou que descobriu que neste filme a atriz mais talentosa que já trabalhou: Carmem Maura

– A maioria dos atores faziam trabalhos no teatro, o que auxiliou na rostidade construida por cada personagem