Jesus Henry Christ

Amo a Toni Collette e passei a amá-la mais ainda depois que vi esse filme. “A origem da vida” (título em português) é uma doce homenagem aos que não se encaixam, aos estranhos, aos “freaks”, aos marginalizados. Com uma narrativa dinâmica e sarcástica, a trama conta a história de Henry, um menino superdotado que não consegue se adaptar em nenhuma escola e que tem um desejo incontrolável de descobrir a identidade do seu pai. Em seu aniversário de dez anos, seu avô revela que Patrícia (sua mãe) fez uma inseminação artificial e que ele possui uma irmã.

Henry descobre que seu pai biológico é um professor neurótico e decide estudar na faculdade onde ele trabalha para explorar suas origens. Apesar de contrariar as vontades de Patrícia (que faz de tudo para protegê-lo), Henry se aproxima de Audrey (sua meia irmã, uma menina pouco amigável e tão estranha quanto ele). Audrey, que tem 13 anos, enfrenta um problema: seu pai escreveu sua biografia que, além de ser um sucesso, revelava sua homossexualidade.

Jesus Henry Christ

Dirigido por Denis Lee e produzido por Julia Roberts, “Jesus Henry Christ” apresenta uma bela fotografia e um delicioso clima nostálgico. A narrativa inicia-se nos anos 70 e nos contextualiza sobre a infância de Patrícia que aos dez anos, teve que enfrentar sucessivas mortes (e partidas) de entes queridos. Enquanto ela ficou cuidando do pai, um de seus irmãos decidiu sair de casa. o outro morreu de AIDS e os gêmeos morreram em um terrível acidente. Para piorar, Patrícia  viu sua mãe morrer queimada logo no dia do seu aniversário, o que lhe deu uma tremenda fobia de acender velas.

Desde que era pequena sua família tinha o costume de dizer “Jesus H. Christ” em situações desconfortáveis, o que virou um bordão e a seguiu pelo resto da vida. Quando se tornou mãe, Patrícia teve uma surpresa: seu filho nasceu falando, tinha uma memória inigualável e um dos maiores QI’s do mundo. Henry chamou a atenção da mídia e, por sua inteligência, foi aceito na faculdade.

Jesus HenryToni Collette é maravilhosa, consegue transpor todo o tipo de emoção em diálogos simples e em situações em que poderia passar despercebida. Jason Spevack e Samantha Weinstein dividem as atenções: apresentam uma química maravilhosa e encabeçam as melhores cenas. Frank Moore e Michel Sheen também são indispensáveis, acentuam o clima descontraído do filme e ajudam a balancear a dosagem dramática;

Como disse anteriormente, “Jesus Henry Christ” foge do convencionalismo e de uma maneira bem delicada (engraçada e irônica) ilustra a situação dos marginalizados. No filme também acompanhamos a situação homem branco que se comporta – e se sente  – como um negro, a da professora muçulmana que precisa aturar o desrespeito dos alunos, a da secretária brasileira que todo mundo acha que fala espanhol, a da mãe solteira, da lésbica, do neurótico e do gênio. Todos são pessoas sem “voz”, que não estão representados na mídia e que, antes de qualquer coisa, precisam se aceitar.

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Há quem critique essa intenção da produção de ser “cool” (e é compreensível). De fato há algumas situações que poderiam receber uma abordagem diferente como, por exemplo, a expulsão de Henry por heresia. Ainda assim, o filme merece a atenção e é um ótima opção de “passatempo”. Fui conquistada pelo formato, pelo argumento e pela trilha sonora – o aspecto teatral da cena final, com Toni Collette fechando as cortinas ao som de “Home Sweet Home” me deixou rendida.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: Jesus Henry Christ
Genero: Comédia
Duração: 92 minutos.

Mental

Estou com esse filme há um mês no computador e só ontem tomei a iniciativa de assisti-lo. Tive uma ótima surpresa e indico a qualquer pessoa que queira se divertir com um longa interessante, que traz diversas contestações e principalmente: mantém o ritmo e não cai na mesmice.  “Mental” é uma comédia australiana dirigida por PJ Hogan (o mesmo direitor de ‘O Casamento de Muriel’ e ‘O casamento do meu melhor amigo’) que conta a história da problemática família Moochmore.

Curiosamente, PJ Hogan se baseou na própria vida para fazer o filme. Quando tinha 12 anos sua mãe sofreu um colapso nervoso e foi internada em um hospício. Seu pai se recusava dizer onde sua mãe estava e, assim como no filme, decidiu contratar uma babá para cuidar dele e da irmã (que é esquizofrênica).  Em 1994, quando produziam ‘O casamento de Muriel’, PJ Hogan tinha o costume de contar casos de sua babá a Toni Collette que por muito tempo insistiu que fizessem um longa sobre a história e a convidassem para o elenco.

Mental - Toni Collette

Há muitos aspectos que chamam atenção na trama, a começar por um forte senso de humor negro que ironiza a sociedade e brinca com as falhas humanas. Desde uma vizinha compulsiva por limpeza a uma mulher viciada em colecionar bonecas (que possuem cabelo de verdade): há um belo trabalho quanto a narrativa que joga com espectador e não estabelece diferenças claras entre a normalidade e a loucura. Toni Collette está maravilhosa e carrega grande parte dramática do filme, mas também não há como ignorar a presença de Rebecca Gibney (quase irreconhecível), no papel de uma mulher doce e completamente pirada.

Uma família em pedaços, uma oportunista e uma pitada de loucura

Logo no início da trama somos apresentados a Shirley Moochmore (Rebecca Gibney) que canta no jardim da casa uma das mais famosas músicas do cinema americano: The Sound Of Music.  Enquanto diverte-se em seu pequeno idílio, suas filhas a observam e ficam completamente agitadas, tentando se livrar do vexame que a mãe lhes causou. Ao contrário da  família Von Trapp, os Moochmore possuem sérios problemas de comportamento e são um incômodo para os vizinhos. Shirley insiste que as filhas precisam aprender a dançar e a cantar (como em ‘A Noviça Rebelde’) para que seu marido, Barry (Anthony LaPaglia), finalmente volte para casa.

Cada uma das cinco filhas acredita ter algum problema mental, Coral (Lily Sullivan), a filha mais velha, insiste que é bipolar. Leanne diz ser autista, Kayleen sociopata, Jane afirma ser depressiva e Michelle, esquizofrênica. Os Moochmore são vizinhos da detestável Nancy (Kerry Fox) que odeia Shirley e as meninas. Nancy é uma mulher moralista e preocupadíssima com a limpeza da casa (que esfrega o chão da rua com escova de dente) – ela também tenta esconder e limitar os trejeitos da filha, que é lésbica e completamente masculinizada.

Inesperadamente, Shirley tem um ataque de nervos e compra diversos artigos em uma loja de mobílias. Ela acredita que ao comprar móveis novos, suas filhas deixarão de ser chamadas de porcas. Barry decide internar a mulher e contratar uma babá. [Se alguém perguntar as meninas onde esta Shirley, elas devem dizer que a mMENTALãe está se divertindo em férias]. Doris (Caroline Goodall), irmã de Shirley, não pode cuidar das meninas porque gasta todo o tempo com sua coleção caríssima de bonecas (ela, inclusive, corta o cabelo de uma das sobrinhas para colocar em seu brinquedo).

Barry encontra Shaz (Toni Collette) na rua e sem se preocupar com o seu passado, a contrata para ser a babá das meninas. Ocupado com a prefeitura, ele se ausenta mais uma vez da casa e deixa que Shaz resolva todos os problemas. Aos poucos Shaz conhece cada uma das meninas e descobre que todas estão sentimentalmente abaladas pela falta dos pais. A única delas que realmente apresenta algum problema é Michelle, que é esquizofrênica.

A presença de Shaz faz com que as meninas percebem que não há nada de errado com elas. Aos poucos, elas largam a ideia de que possuem alguma doença mental e se unem para ajudar a mãe a sair do hospício. Shaz também conversa com Shirley para convencê-la voltar para casa e cuidar das crianças. A relação de confiança é drasticamente quebrada, quando descobrem que Shaz possui um surpreendente passado.

Um toque de genialidade em diálogos surreais

Fiquei mais atenta aos diálogos dos filmes desde que comecei a escrever para o La Amora. Gosto de um humor bem feito quanto a narrativa e ‘Mental’ correspondeu bem. Em uma cena interessante, Shirley conta para Shaz como começou a se relacionar com Barry. Em um de seus primeiros encontros, Barry a estuprou e mesmo assim, ela ficou apaixonada por ele. Shirley esperou pelo telefonema por 3 semanas até que descobriu que estava grávida de Coral e Barry não teve como fugir. Em outro momento engraçado, Shaz comenta a história da Austrália com as meninas. Diferente do oficial, ela insiste que os antepassados dos australianos eram loucos, já que os loucos eram sempre mandados para longe. Os diálogos surreais ficam ainda mais engraçados com as referências a personagens da cultura pop como Cate Blanchett, Nicole Kidman e Rupert Murdoch.