sobre Divertida Mente – (e o direito de estar triste)

DIVERTIDAMENTEQue delícia de filme…

Divertidamente é uma animação da Pixar, lançado em 2015 e que foi um sucesso de crítica – especialmente porque conseguiu construir uma narrativa que dialoga com crianças e adultos. Basicamente, o filme conta sobre o conflito de emoções que se passa na cabeça de uma criança que acaba de se mudar de cidade. Longe da escola e dos amigos antigos, a pequena Riley teve um acesso de raiva e começa a se distanciar de seus pais. Mas, o que ela não sabe é que dentro da sua mente há uma enorme engenhoca que coordena todos os seus sentimentos e lembranças…

O cérebro de Riley é comandado pela alegria, que tenta fazer de tudo para que a menina não fique triste em momento algum. O problema é que lá está a Tristeza, contaminando as lembranças da garota e a deixando cada vez mais deprimida. A Alegria resolve mandar a Tristeza embora… e não imagina o grande problema que isso pode causar. 

Pixar - Divertidamente


De alguma forma me parece que vivemos em um tempo em que estar triste é vergonhoso. Não é difícil ver nas redes sociais a infinidade de pessoas felizes, lindas e perfeitas que estão no nosso grupo de amigos. Ninguém quer ser triste, ninguém quer parecer triste. Tristeza remete ao fracasso e ninguém quer ser perdedor. Então, reprimimos a tristeza, condenamos um sentimento que nos ajuda a dar equilíbrio na vida  e no dia-a-dia.

Isso me lembra um pouco da música “O vencedor”, dos Los Hermanos. Uma música que fala exatamente sobre o direito à tristeza, ao fracasso. Já ouviram? Enfim, se sentir triste… não se culpe.

“Olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida. Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar. Eu que já não quero mais ser um vencedor levo a vida devagar, pra não faltar amor!”

Tristeza - Divertidamente

Nietzsche para estressados

nietzsche-para-estressados-1Este é o primeiro livro de auto-ajuda que leio em anos. “ Nietzsche para estressados”( escrito por Allan Percy ) caiu em minhas mãos outro dia e eu não consegui resistir, principalmente por causa da capa (que é brilhante e tem um toque minimalista). O subtítulo me chamou atenção: 99 doses de filosofia para despertar a mente e combater as preocupações”. Franzi a testa, um pouco descrente, mas encarei o livro com seriedade – e não vou mentir, gostei. O livro é muito simples e relativamente pequeno. Eu, que não sou uma especialista em filosofia, afirmo com segurança que as “99 doses” contemplam apenas superficialmente o trabalho de Nietzsche, mas isso não faz do livro menos interessante. O livro é uma boa pedida de passatempo, pode ser interessante, por exemplo, pra quem espera em uma fila, em um consultório (…)

Só pra constar, o que Allan Percy faz no livro é o seguinte: ele seleciona algumas reflexões de Nietzche e depois comenta sobre elas, não há muito segredo ou coisas das quais a gente não desconfie, as lições de vida transmitidas são coisas que a gente já sabe, mas que não dá importância ou esquece ao longo do tempo. Como não podia deixar de fazer, separei algumas das 99 doses que me pareceram interessantes -e fiz pequenos comentários em algumas delas.

– A felicidade é passageira, frágil e volátil (“O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”): Não se pode ser feliz o tempo inteiro e imaginar que essa é uma obrigação só nos faz mais tristes e preocupados.

– Estamos “desnaturalizados”: (Nós nos sentimos bem em meio a natureza porque ela não nos julga). Enquanto estamos na “cidade”, muitas vezes, precisamos fingir ser alguém que não somos, a natureza nos faz lembrar da nossa essência “há tanto tempo abandonada”.

– Não reclame (atoa) da vida: Reclamar gera mais angústia, é preciso tentar resolver as insatisfações cotidianas ao invés de ficar “parado” analisando-as.

– A indiferença (ou a falta de comunicação) é pior do que qualquer grosseria: Manifeste-se! A falta de comunicação estraga relações, guardar as coisas pra sí ou, não dizer o que pensa pode deixar você mais estressado.

– Aceite a imperfeição: (“O homem que imagina ser completamente bom é um idiota). Assumir nossa condição nos ajuda a ser mais humildes: nos faz ter consciência de que precisamos melhorar. É inútil querermos ser bons o tempo todo e fazer tudo certo – o que importa é estarmos dispostos a fazer um pouco melhor hoje do que fizemos ontem.

-Precisamos escolher bem as pessoas com quem trocamos confidências: (As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas). Um dos princípios básicos da intimidade é a confiança, tome cuidado com o que fala e pra quem fala.

-Fuja das comparações: Saiba perdoar os seus erros, ame a sí mesmo, pare de analisar.

– Quem é seu amigo de verdade? (Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento – assim se faz um amigo). Desconfie do amigo que não se contenta com os seus “êxitos”. O amigo verdadeiro não é só aquele que te diz coisas boas, ele também é sincero e te alerta quando há algo errado.

–  Muitas vezes, os atos valem mais do que as palavras: Fale menos e faça mais, faça com que os seus atos falem por você. (Falar muito de sí mesmo pode ser uma forma de se ocultar).

– Não tenha medo do sofrimento, encare-o!: Tente extrair algum benefício da dor, sofrer nos ensina a viver, nos faz mais fortes – e é inevitável.

– Não viva em função do passado, nem do futuro, viva o presente: O futuro e o passado nos molda, mas não podemos viver em função deles.  Pensar só no passado nos deixa mais melancólicos e rancorosos, pensar só no futuro nos deixa mais ansiosos.

– Conviver com pessoas viciadas em reclamar é um tormento: (Toda queixa em si contém uma agressão). Evite a negatividade, reclamar demais não ajuda a resolver o problema. Por trás da negatividade há um sinal de impotência.

– Um passo de cada vez: (Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende voar, voando). Vá com calma, suba um degrau por vez.

-Bibliografia: Nietzsche para estressados/Allan Percy [tradução de Rodrigo Peixoto]; Rio de Janeiro: Sextane, 2011

Transamérica

Uma mulher presa no corpo de um homem. Quantas vezes já não ouvimos essa história? Inúmeras; e o cinema está aí, pronto para recontá-la sempre que for preciso. Em Transamérica, filme independente produzido em 2005 por William H. Macy e dirigido por Duncan Tucker, a atriz Felicity Huffman encarna um transexual que enfrenta várias dificuldades para realizar uma vaginoplastia (cirurgia de mudança de sexo).

Semanas antes do processo cirúrgico, Bree (Huffman) descobre que quando ainda se comportava como homem engravidara uma colega de faculdade. Seu filho, Toby (interpretado por Kevin Zegers) busca incessantemente pelo pai, que conhece como “Stanley” e pretende morar com ele. Bree conta sobre a existência do filho para sua psicóloga e mostra-se desinteressada em ajudá-lo, principalmente porque Toby é um garoto problema e foi preso por venda de drogas. A psicóloga percebe que Bree precisa resolver essa questão familiar e decide: só permitirá que Bree realize a cirurgia depois que ela se encontrar com o filho. Sem opções (principalmente porque o convênio médico está vencendo), Bree decide viajar para a cidade natal e não só encontrar o filho como também reencontrar a família.

ImagemBree é a típica personagem que nos deixa incomodados. Não por sua condição, mas pela forma que a enfrenta. Desajeitada, ela afirma várias vezes que não possui amigos, não gosta de ser vista e tenta passar despercebida nos lugares. Mas, como não percebê-la? Bree é triste, tem um grito preso na garganta, é  orgulhosa e extremamente vaidosa. É aquela pessoa que já acostumou a apanhar, que já acostumou a perder e que pede desculpa por existir (e ser quem é).

Enquanto isso, Toby pulsa a cada segundo de vida. Ele está afogado na lama mas alimenta o desejo de ser um astro famoso.  Sua agressividade é uma provável tentativa de autodefesa, afinal, Toby foi rejeitado desde o nascimento e aprendeu a lidar com as perdas muito cedo. Sua mãe, uma lésbica depressiva, se suicidou; antes disso se casou com um homem agressivo. Toby passou por lares adotivos, não fez amigos, não tem um lar ou família. A única referência de Toby é uma foto antiga do pai e em seu imaginário, Stanley é não só o símbolo de proteção, mas também de virilidade.

A abordagem sobre a transexualidade em Transamérica (aliás, que título sensacional, não?) é, na verdade, um aspecto secundário. A principal premissa do filme é a relação entre pais e filhos – que é extremamente complexa e imperfeita para todos os personagens. Quando Bree reencontra os pais, ela se depara novamente com o passado, com o tempo em que ela ainda era homem e que a mãe insiste em relembrar. Os diálogos entre Bree e a mãe são os melhores, imperdíveis!

transamericaO filme, que é um “road movie”,  tem um fotografia belíssima e diálogos extremamente  densos.  Ponto positivo para o roteiro. Quanto às atuações, não há o que questionar. Kevin Zegers está perfeito para o papel, tão selvagem e violento que não deixa dúvidas quanto ao seu talento. Sobre Felicity Huffman, um incontestável e belíssimo trabalho. Não é atoa que Huffman recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro; sua atuação é visceral, do início ao fim.

Sobre Huffman ainda há algo a dizer: por muito tempo ela foi colocada em segundo lugar nos filmes americanos, sempre com papéis pequenos de antagonistas e, por pouco não passou desapercebida. Huffman é maravilhosa e não deixa a peteca cair em cenas extremamente complexas. Em Transamérica ela apresenta um cuidado com a postura, uma preocupação com a voz e não se importa em aparecer “feia” em tela. Outra que também merece destaque é Fionnula Flanagan que encarna a mãe de Bree, um personagem amável e detestável ao mesmo tempo.

Feliz por nada (e por tudo!)

Imagem

Sempre fui uma leitora assídua de Martha Medeiros. Desde Divã, fiquei impressionada com a sensibilidade da autora que de maneira direta, diz coisas profundas e atuais. Em um passeio pelo Belas Artes, aqui em Belo Horizonte,  tive a felicidade de ganhar da minha mãe o livro  ‘Feliz por nada’, o ultimo produzido pela autora. Das crônicas que li tirei pedaços gostosos, análises e críticas que, resumindo, dizem tudo (rs!). Em um dos meus textos preferidos do livro, “Amigo de si mesmo”, ela diz o seguinte:

 Imagem

“Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que os bons amigos fazem: perdoam” (…) “Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar ao outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”, “ Salve-se dos seus traumas de infância”, “Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo”.

Publiquei no facebook ontem o mesmo texto do último post, onde falo sobre o quanto essa semana tem sido importante – de como é difícil confiar em alguém e quebrar a cara. Foi um desabafo, talvez. O lado positivo é que isso refletiu em alguns amigos que rapidamente responderam a publicação (inclusive amigos muito queridos, que não vejo há anos).  Alguns me disseram que estavam passando exatamente pela mesma coisa: confiar em alguém e quebrar a cara. Outros me disseram: “Isso faz parte da vida, aprender a viver”. Minha ex-professora de historia  (de quem eu gosto demais), disse algo terminantemente correto: exigimos muito do outro e isso pode ser um reflexo, exigimos muito de nós mesmos.

O fato é que o texto de Martha Medeiros veio a calhar. Principalmente quando ela diz que precisamos parar de pensar um pouco, de ver fantasmas onde não tem. E parar de ter dó de si mesmo, de viver do passado, de continuar discussões que não fazem mais sentido. A  verdade (se é que existe alguma verdade em situações como essa), é que esperamos demais do outro, e fatalmente nos decepcionamos. Hoje estava chorando porque alguns dos meus amigos não foram como eu queria que fossem. E agora sou levada a pensar: eu sou exatamente o protótipo que eles fazem de um amigo? Provavelmente não. E não adianta ficar chorando, ficar irritado, como diria a minha avó: a vida e assim mesmo, ela dá e tira muito rápido.

Um brinde aos que por escolha, sairam minha vida. – E um brinde maior ainda, aos que por escolha, permaneceram.