“AIDS mata!” Eu sei porra, mas eu estou viva!

  • O título foi retirado de um dos capítulos do livro

 Às vezes eu fico pensando o que seria de mim se eu tivesse AIDS. Sabe, não sei o que acontece, tenho uma curiosidade danada para entender como foi o surgimento da doença e ao mesmo tempo, penso com os meus botões sobre o medo absurdo que tenho dela. Sempre vejo fotos, vídeos e matérias relacionados ao tema e fico pasma com a devastação que essa doença provocou na década de 1980. Por favor, não me entendam mal, não tenho nenhum medo (ou preconceito) em relação aos portadores do HIV, tenho medo da doença em sí… aliás, tenho medo da AIDS como tenho medo de qualquer outra doença, como do câncer, por exemplo.

depois daquela viagem

Desculpem pelo parágrafo acima, ficou meio merda. Por enquanto vamos mantê-lo. O que eu queria contar mesmo pra vocês é que ontem à noite peguei o livro “Depois daquela viagem” para ler e li numa sentada. É um livro delicioso, a narrativa melhor ainda – extremamente jovem, simples e coloquial. A autora, Valéria Piassa Polizzi conta como foi que ela pegou AIDS e as consequências da doença para a sua vida. Ela escreveu o livro com 23 anos, já convivia com a doença há seis anos. Sério! Imagine, você com 17 aninhos, se preocupando com o vestibular, com a formatura do ensino médio e daí descobre que está com AIDS… isso nos anos 1980.

O que mais me encantou no livro dela foi a sua capacidade de contar toda aquela história, que poderia ser transformada em um “dramalhão”, de uma maneira leve e por horas até divertida. Juro que em alguns momentos do livro me peguei rindo em voz alta (e é muito raro isso acontecer).

 Quando tinha quinze anos e fazia uma viagem à Argentina com os pais, Valéria conheceu um rapaz…. Eles começaram a namorar meses depois e o cara era super violento com ela, batia mesmo. Valéria não comentava sobre violências que sofria e todo mundo achava que o cara era um santo, até que um dia a avó dela viu ele batendo nela… ligaram para a casa dos pais do rapaz e para a surpresa, os pais dele disseram que isso era “normal”, que ele também era violento em casa e vivia quebrando tudo. Bom, o cara usava drogas e provavelmente foi assim que pegou e passou a doença para Valeria. Quando ela descobriu já não estava mais namorando com ele, tinha planos de viajar para os EUA e ainda não sabia o que iria fazer de faculdade. Ela começa seu tratamento no Brasil e o continua nos EUA, enquanto isso vive uma vida normal, sai com os amigos, estuda e se diverte…

Achei muito (muito) interessante quando ela contou que as pessoas se negavam a acreditar que ela tinha pegado AIDS apenas por sexo vaginal (sem proteção). Até mesmo os médicos americanos a questionavam se ela tinha usado drogas ou feito sexo anal, diziam que era raríssimo uma mulher com a doença. Quer dizer, ninguém sabia de nada… ou, sabiam muito pouco. E o preconceito era enoooorme, imagine que pensavam que apenas os gays pegavam AIDS. Genteeee! Diziam para Valéria não contar que tinha AIDS porque ela sofreria preconceito demais, então ela escondeu a doença dos amigos e da família durante anos, e sempre era obrigada a ouvir piadas sobre o assunto  ou comentários inadequados tipo… uma amiga dela, dentista, se negou a atender um homem gay porque ele poderia ter AIDS e ela não queria se contaminar.

Apesar de tudo, acho que Valéria teve sorte. Foi tratada nos melhores hospitais e com os melhores médicos do país, se tratou nos EUA, teve o acompanhamento e apoio dos pais e dos amigos. Agora imagine ser pobre, não ter apoio de ninguém e ter que conviver com a AIDS num Brasil em 1980. Me lembra uma das palestras que ouvi do Doutor Drauzio Varella, que tratou pacientes portadores do HIV no Carandiru… man, que tristeza! (Sério, muito triste ver aqueles homens definhando, sem tratamento adequado, num lugar inapropriado… nossa, me dá nervoso só de lembrar).