Os experientes e a bissexualidade na velhice

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Quando “Os experientes” estreou na Rede Globo, eu estava em processo de mudança para São Paulo. Estava louca para acompanhar os episódios, mas cheguei aqui e não tinha nem TV e nem internet em casa. Na verdade, não tinha nem cama. Observação boba, mas primeiro dia nesta casa, exatamente no dia em que esse episódio foi transmitido, dormimos no chão (e sentimos muito frio!). Enfim… tempos depois encontrei todos os capítulos disponíveis na internet, e assisti um por um, matando uma vontade antiga.

Não poderia eleger um episódio especial, porque são todos lindos, bem feitos e cheios de poesia. A série tem muitos diálogos impactantes, umas imagens incrivelmente belas, atores sensacionais e uma direção impecável. Não sei se estou exagerando, sou só amores por essa produção.

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Escolhi comentar sobre Folhas de Outono, o último episódio da série. Na narrativa, Francisca (interpretada por Selma Egrei) acaba de perder o marido e descobre que foi traída por ele durante anos. Um dia, se encontra com uma vizinha, a Maria Helena (Joana Fomm) que acaba de perder a mãe. As duas se aproximam e começam uma amizade que termina em namoro. O que me encanta é a naturalidade em que esse namoro é tratado e me chama a atenção a falta de estardalhaço (como aquele que foi feito em relação ao beijo da Fernanda Montenegro e da Nathália Timerg).  Não acho que mudamos de lá pra cá, o que me leva a pensar que a série não teve a audiência devida e que o horário pode ter influenciado nesta questão.

O negócio é que a bissexualidade e a sexualidade feminina na terceira idade são vistas com certo incomodo, já reparam? Como se duas senhoras não pudessem mais fazer sexo ou qualquer outra coisa do tipo. E  tem todo aquele lance de culpa, de vergonha, de moral. A mulher é ensinada, desde sempre, a não demonstrar seus desejos, a não sentir prazer… Sabe, há algum tempo vi uma reportagem que dizia que a sexualidade na velhice está sendo repensada e que não é tão incomum encontrar por aí mulheres (de 60, 70, 80, 90…) que foram casadas durante anos e que depois de viúvas, começaram a se relacionar com outras mulheres. 

Na série, Francisca e Helena são mulheres com experiências muito diferentes, mas com sentimentos muito parecidos. Francisca teve filhos, vivia um casamento rotineiro e infeliz. Maria Helena não se casou, não teve filhos e passou a vida cuidando da mãe. Porém, as duas são solitárias, idosas e cheias de vida. Elas também possuem desilusões com homens (o que não encaro, de forma alguma,como um pretexto para a bissexualidade).

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A mensagem que este episódio me passa é: a importância da redescoberta do corpo, a interação com o outro, a motivação de estar vivo e seguir em frente. A coragem de ser e viver o que se deseja, a percepção de que já não há mais tempo para se perder.

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Party Girl

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Quando assisti o trailer de “Party Girl” fiquei fissurada na imagem da Angélique Litzenburger. Seus enormes olhos azuis contrastantes com o cabelo escuro e cacheado me pareceu um conjunto estranhamente exótico e belo. Fora que ela me remete muitíssimo a minha primeira professora, uma mulher italiana de olhos verdes e de pele morena chamada Ângela (não sei explicar, mas os traços são idênticos).. Procurei este filme por um longo tempo, uma frustração não encontrá-lo. Como raramente acontece, tive a sorte de assisti-lo no Centro Cultural de São Paulo, que realizava uma mostra chamada “Breve e inéditos”, um panorama retrospectivo de alguns dos melhores filmes lançados em 2015 e que não tiveram a devida chance de chegar ao público.

Uma prostituta idosa que não quer deixar de trabalhar

Dito tudo isso, vocês devem imaginar a minha ansiedade (e inexplicavelmente, certa emoção) ao assisti-lo. Eu realmente fiquei muito feliz. E mais ainda depois, quando saí da sala de cinema. Expectativas totalmente atendidas. O filme conta a história de Angélique, uma senhora que durante anos trabalhou como hostess em uma boate e que, por causa da idade, começa e enfrentar uma crise pela falta de clientes.  Angélique é o tipo de pessoa que não desiste tão fácil, ainda que tudo indique que ela deva fazer o contrário. Sem encontrar soluções, ela vai atrás de um velho e fiel cliente, Michel (Joseph Bour) e pede que ele volte a contratar seus serviços. Michel surpreende Angélique e a pede em casamento e, por impulso, ela aceita. Um acaba mergulhando na vida do outro e enquanto Michel precisa enfrentar os filhos de Angélique e suas manias, ela precisa encarar a vida pacata de Michel.

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“Party Girl”, vencedor da Camera D’or no Festival de Cannes 2014, tem um certo tom documental, autobiográfico e experimental. Foi dirigido por três jovens (Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis) que chamaram membros da própria família para serem os atores. Angélique é mãe de Samuel e na vida real é uma ex-prostituta com sérios problemas familiares em relação aos filhos. Senti o filme como uma homenagem à protagonista, há todo um tom de respeito por sua história e por sua figura…

Angelique é o tipo “porra-louca” que tenta, mas não consegue mudar. Como se sua natureza a fizesse causar estragos por onde passa. Sabe, enquanto assistia ao filme, muitos pensamentos rondaram a minha cabeça. A incessante luta de Angelique por permanecer trabalhando e se manter sexualmente interessante me faz pensar na negação do envelhecimento e no quanto isso pode pesar sobre os ombros da mulher.A solidão de Michel e a necessidade de encontrar um amor que o retribuísse. O sexo na velhice…

Aleah Chapin – A nudez feminina na velhice

A nudez incomoda. E quando se trata da nudez de mulheres mais velhas – que possuem um físico diferente do estereótipo da mulher perfeita, isso parece incomodar ainda mais.

GameFiquei impressionada com a percepção e a delicadeza da jovem pintora Aleah Chapin (de 28 anos). Chapin estudou no Cornish College of the Arts e fez especializações na Academia de Arte de NY. A pintora, nascida e criada em Seattle, se dedicou a criar obras realísticas que retratam a velhice feminina. Para ela: “A beleza natural da mulher”…


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Confira:

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 “Eles dizem que nossos corpos precisam ter certa altura, certo tamanho e um peso determinado. Mas essa construção de imagem é totalmente irreal”

Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura

Adoro ler e comprar livros. Aliás, compro mais do que consigo ler. Mas tenho um medo, talvez irracional, de que a leitura constante me faça sã demais. Quero dizer. Me imagino velha, doente, horrível e presa a uma cama, completamente lúcida. Não acho que exista castigo maior.

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Quero envelhecer com loucura, esquecer o nome de todos, me comportar como criança, esquecer de onde eu vim e de quem eu sou.  Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura. Porque ela me fascina. E, venhamos e convenhamos, perto das possibilidades da loucura, a lucidez soa como algo sem graça.

Tenho um livro na minha casa chamado “O Bigode”, do escritor francês Emmanuel Carrère. Confesso que ainda não li, mas sei a sua essência. Trata-se de um homem que durante grande parte da vida usou um bigode. Um dia, depois de um bom banho, ele decide tirá-lo. Ele aguarda ansiosamente a chegada da esposa para surpreendê-la com a nova aparência e de repente ela diz: “Mas que bigode você tirou? Você nunca usou bigode”.

Uma trama tão simples, com um enorme argumento existencialista. É assim que eu vejo a loucura, talvez um pequeno e fino fio que nos separa de outras vidas. E se o que vivemos agora não passar de um sonho? Já pensou nas possibilidades que a vida oferece e que, mesmo não sendo aproveitadas, não deixaram de existir? Concorda que a imaginação e a loucura, em qualquer plano, são irmãs? E que no fundo, todo mundo possui um quê de louco?

Quero dizer, acho que todo mundo já deve ter se perguntado: “Mas, e se naquela noite a minha mãe e meu pai não tivessem se conhecido?” ou “E se eu tivesse feito aquela viagem”, “E seu tivesse me casado com aquele cara?” Vidas paralelas, que existem na imaginação: Somos apenas uma versão de nós mesmos.

Mas apesar de encantadora, a loucura também me assusta. Lembro, que em um dos  estágios que fiz durante a faculdade, trabalhei em atendimento e comunicação com o público (tratava-se de uma estatal). Um dia atendi uma senhora, visivelmente cansada (e com os olhos bem marcados por olheiras) que pedia encarecidamente por ajuda. Ela ouvia vozes e seu marido não acreditava nela. E pior, ela tinha certeza que implantaram um chip na cabeça do marido e do filho. Quando perguntei quem implantou, ela respondeu: “Meu ex chefe e a sua secretária. Ele me mandou embora, mas eu ainda escuto as vozes dos dois no meu ouvido”.

Isso me lembra, e peço desculpas por citá-la mais uma vez (consecutivamente), uma frase da Rosa Montero, em A Louca da Casa:

“Os chamados loucos são os indivíduos que moram de maneira permanente no lado sombrio: não conseguem encaixar-se na realidade e carecem de palavras para se expressar, ou então suas palavras interiores não coincidem com o discurso coletivo, como se falassem uma língua alienígena que não se pode sequer traduzir. A essência da loucura é a solidão. Uma solidão psíquica absoluta que produz um sofrimento insuportável. Uma solidão tão superlativa que não cabe dentro da palavra solidão e que não pode ser imaginada por quem não a conheceu. É como estar enterrado vivo no interior de um túmulo.

Quando, segundo contam, o czar Pedro I pronunciava contra algum inimigo de sua poderosa nobreza a sentença: “Eu te faço louco”, o poder da palavra e a palavra do poder, neste caso, acabavam transformando o infeliz nisso, porque, quanto todos os outros o tratavam como demente, ele vivia a realidade da sem-razão e perdia toda a cordura, explicou Carmen Iglesias no já mencionado discurso de posse na Academia. E este é um exemplo perfeito. A loucura é viver no vazio dos outros, numa ordem que ninguém compartilha.”

Ostra feliz não faz pérola

Ostra FelizGosto muito do Rubem Alves, as coisas que ele escreve me tocam profundamente. Tive a felicidade de encontrar ‘Ostra feliz não faz pérola’ online e fui lendo, pelo celular mesmo, aos pouquinhos.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental (…)

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite a análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li e reproduzo o que Alves escreve:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer cascas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.

Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza.

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta, mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um home completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Confira, outros trechos:

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.

“O gol é fundamentalmente um ato sádico. Um estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no buraco do outro – dolorosamente -, embora o outro tenha feito de tudo para impedir que isso acontecesse”.

“A medicina é uma arte rigorosa, regida por princípios de assepsia e de ética. Por exemplo: quando se vai aplicar uma injeção é preciso desinfetar o lugar onde a agulha vai entrar no corpo. Pura curiosidade: os médicos que aceitam a função de carrascos nas penitenciárias desinfetam o lugar onde a agulha com líquido letal vai penetrar na veia do condenado? Acho que sim. É preciso evitar infecções. Será que os carrascos na cama, de noite, pedem perdão ou se entendem apenas como executores de um ato burocrático? Os criminosos de guerra alemães alegaram que eles apenas cumpriam ordens. O argumento não foi aceito. Foram enforcados. Não é horrendamente imoral que o Estanho tenha o direito de matar? Matam na guerra, milhões. Não são caçados como terroristas. São saudados como heróis. Como são bonitas as fardas dos generais! A diferença entre os morticínios de Estado e os morticínios dos terroristas está em que os primeiros são feitos em nome do Estado e os segundos em nome de uma crença política ou religiosa. Os morticínios são feitos por loucos. Mas a loucura do Estado é legítima”.

“Sobre o perdão: Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma LV225740_Zcriança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem a custo do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Olha as aves do céu. É um conselho de Jesus. Se ele aconselhou é porque o voo das aves no céu é uma metáfora do sagrado. As aves voam porque  são amigas do ar e dos ventos (vejam só os urubus voando nas funduras do céu sem bater as asas…). E foi o próprio Jesus que declarou que Deus é um vento que sopra sem  que saibamos donde vem nem para onde vai. Nosso destino é ser aves: flutuar ao sabor do vento. Por decisão divina, somos seres destinados ao voo. Não é por acaso que o céu estralado foi um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos céus foi um artifício técnico bolado pelos homens para compensá-los do seu aleijão: haviam perdido suas asas. Quem não pode voar tem que subir pelos degraus… Mas vocês sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluída e os homens se espalharam pelo mundo na maior confusão. De fato, para se tocar as estrelas é preciso ter asas. Se duvidam, releiam a estória do sapo que resolveu ir á festa nos céus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estória do sapo são variações do mito de Ícaro”.

(…) “O deus do taoismo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário, pois é, o Alan Watts escreveu o seguinte: Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos, as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água”.

“A velhice tem sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs; As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitárias. No crepúsculo, tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como o azul do mar, imóvel. Nos crepúsculos, as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem do tempo, nós percebemos que é preciso viver o momento intensamente. “Tempus Fugit” – o tempo foge, portanto ‘carpe diem’, sabemos que a noite está chegando. Na velhice, sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”.

 (Cássia Janeiro)

O que sobrou

O que sobreou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seu livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças,

O que sobrou foram os seus retratos

e,

Quando vi uma foto sua,

Sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua

Ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

“Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: Todos os seres humanos tem o direito de morrer sem dor.”

“Há de se viver bem. Há de se morrer bem. A ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada. A medicina é uma luta pela vida boa, da qual a morte faz parte”.

10 lições de vida

lições que todo mundo conhece, mas que nem sempre põe em prática ou que, às vezes, se esquece….

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1) Ame a si mesmo

2) Não fique comparando a sua vida com a dos outros..

3) Não seja obcecado pelo passado ou pelo futuro: aproveite o presente e viva cada dia como se fosse único.

4) Não desista logo da primeira vez, seja persistente

5) Valorize a sua família

6) Saiba perdoar

7) Saiba economizar

8) Entenda de uma vez por todas: ninguém é perfeito, não julgue pelas aparências.

9) Não se estresse por coisas pequenas

10) O aprendizado nunca termina

Confissões

A imagem dos personagens interpretados por Jack Nicholson há muito tempo me remota a um homem engraçado mas grosseiro, daqueles que se desliga dos valores morais facilmente e que sempre se mete em encrencas. Sabe aqueles personagens que querem fazer justiça com as próprias mãos e tirar vantagens dos outros? Pois é, sempre liguei Nicholson a eles.

 Bom, tudo isso caiu por terra hoje, quando vi o filme “ As confissões de Schmidt” de 2002, dirigido por Alexander Payne. Depois que o filme acabou fiquei me perguntando inclusive porque não o tinha visto antes. Acontece que me emocionei e muito, porque as reflexões sugeridas pelas vivências dos personagens não estão nem um pouco longe da realidade.

 A história é muito simples: Warren Schmidt é um homem de 66 anos que recentemente se aposentou. Sua rotina ainda possui resquícios da vida de administrador. Com tamanha dificuldade em entender que não está mais trabalhando, volta algumas vezes ao serviço para ver se está tudo dando certo e se estão seguindo as dicas que deixou. Um dia, visita sua antiga sala e percebe que já foi ocupada. Quando sai do edifício vê suas caixas jogadas no lixo. Como um choque de realidade entende que as coisas a partir daquele momento precisam mudar.

 Em casa, zapeando pela TV sua atenção é presa por uma propaganda. Imagens de crianças famintas da África pedindo por auxílio. “Adote uma criança por vinte e dois dólares ao mês, setenta e três centavos por dia”.  O senhor então, decide  adotá-lo. a Instituição envia fotos da criança e pede que envie uma carta, contando sobre a sua vida. É nesse momento que começa as confissões de Schmidt. Em princípio ele começa contanto da sua carreira e depois vai detalhando a sua vida pessoal: o carinho que sente pela filha única, a relação desgastada com a mulher (de quem não aguenta mais o cheiro e as manias de interrompê-lo enquanto fala).

 Quando vai aos correios enviar a carta, sua mulher está limpando o chão. Quando retorna, ela está morta. Triste, Schmidt se dá conta que agora está sozinho. Ele começa a perceber que as reclamações que fizera sobre a mulher na carta não chegavam nem perto do amor que sentia por ela. Sua morte provocou a visita da sua filha (que quase não ia aquela casa). Descobrimos então uma distância entre os dois, apesar do carinho enorme (e das tentativas de aproximação do pai para com a filha), seus questionamentos são por exemplo: “Porque você comprou o caixão mais barato para ela?”

 A filha: Jeannie (Hope Davis) se vai e Schmidt se vê novamente sozinho, junto com os questionamentos sobre o seu passado e sobre o seu futuro. Diante dos acontecimentos repentinos, decide realizar uma jornada rumo a Nebraska (no trailer que ele e a mulher compraram) para ajudar no casamento da filha com Randall (Dermot Mulroney), um vendedor de camas d’água. No caminho ele se depara com pessoas e situações que o faz refletir sobre a vida, sobre o casamento, sobre os seus desejos. – Esqueci de comentar que o filme é um roadmovie.

 Não queria que o post fosse tão descritivo, mas ainda não consigo fugir muito disso. De todos os questionamentos feitos por Schmidt, um deles me pareceu familiar (inclusive há um texto de Martha Medeiros sobre isso). O personagem fala com o garoto africano através das cartas que não sabe até quando estará vivo: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

 Revendo fotos antigas, se lembra dos seus desejos, dos seus sonhos: quando estava na faculdade, queria mudar o mundo ou pelo menos ser alguém importante. Mas quando se casou e teve uma filha percebeu que a realidade é muito mais consistente: “não consegui mudar o mundo, nem a minha vida”. A viagem que ele realiza é um “fazer as pazes” com seu passado. Ele entende que atrás daquele bom homem, que aceita e que diz sim para tudo, há muito mais. Há raiva, há tristezas, arrependimentos. Sentimentos comuns a qualquer ser humano. O filme simplesmente é lindo, é válido e deve ser visto mais de uma vez.