Escada para protagonista

Dianne wiest Ontem encontrei um site americano dedicado ao trabalho teatral da Dianne Wiest. Há inúmeras entrevistas e críticas jornalísticas disponíveis onde ela fala sobre aspectos da carreira e da vida particular. Encontrei também no Google Books um livro escrito por Rosemarie Tichler e Barry Jay Kaplan “Actors at Work’, onde ela fala como decidiu seguir a carreira e quais foram os seus melhores desempenhos. Em um dos artigos do site, bastante descritivo aliás, Wiest comenta sobre Helen Sinclair, personagem que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1995. A jornalista descreve o enorme apartamento de Dianne no Upper West Side em NY e conta que a atriz apareceu para a entrevista com o cabelo escuro, estilo anos 30. Com seu marcante tom de voz, Dianne conta para a entrevistadora que pensou em desistir do papel (escrito por Woody Allen, especialmente para ela), por que não conseguia fazer o que ele exigia: falar alto. Ela reuniu-se com Allen e disse que não se importaria se fosse dispensada. Ele então insistiu docemente e disse que nenhuma faria aquele papel se não fosse ela.

A entrevista foi realizada pouco tempo depois que Dianne ganhou o Oscar e pela quantidade de matérias disponíveis  no site (realizadas na época) fica muito claro o assédio que o ator sofre depois que ganha um prêmio desses. Dentre inúmeras coisas, Wiest disse foi bailarina até os 19 anos, quando decidiu se tornar atriz. Ela já havia feito alguns trabalhos no teatro, mas foi exatamente Woody Allen que trouxe visibilidade para sua carreira já que ele a escalou para A Rosa Púrpura do Cairo, seu primeiro trabalho no cinema. Gosto especialmente o que ela revela sobre Tiros da Brodway pois há uma admiração muito grande em suas palavras.

Para ela, Helen Sinclair foi um desafio inigualável: tanto de entonação, quanto corporal. Ela brinca que o beijo de John Cusack é muito bom, apesar de estranhar sua pouca idade.Wiest estava com 47 anos e Cusack com 28. Ela revelou que Allen intencionalmente a fez parecer mais velha na trama, para evidenciar a diferença de idade entre os personagens.  Cusack mais tarde afirmou que sempre achou Dianne Wiest belíssima e atraente, portanto, não teve nenhum problema em beijá-la. Ele chegou a brincar que nada se iguala ao beijo em que deu em Anjélica Huston em Os Imorais (filme em que ela interpretava sua mãe e, depois do beijo, cortava sua garganta). Dianne então conta que a entonação que usava no filme quase estouravam os microfones, era como transpor o teatro para um pequeno cenário.

Dianne Wiest e Woody Allen

A jornalista então pergunta sobre planos futuros e ela diz que não há nada em mente além de ser mãe em tempo integral. Dianne, na época, viva com suas duas filhas (uma de sete e outra de três anos) e dizia que tudo mudara depois de tê-las adotado. A jornalista a chama de mãe solteira e Wiest reforça que essa foi a melhor escolha da sua vida. Na entrevista, a atriz reflete sobre um ponto que me chamou atenção (e que inclusive é ao que se refere o título dessa publicação). Ela dizia que não nutria mais ilusões de receber um trabalho de destaque e que se sentia muito feliz e orgulhosa pelo papel que Hollywood lhe reservara: o de coadjuvante. Para Wiest, na idade em que ela se encontrava, nunca iriam contratá-la para atuar em um filme de ação ou um filme sensual, mas que ela se contentava com isso (e que se sentia grata).

No livro “Actors at Work” há também um belo trabalho descritivo: os autores contam que a aguardavam em um pequeno e chique restaurante de Nova York e que ela chegou perfeitamente na hora marcada. A atriz sentou-se em uma enorme mesa preta e logo foi contando que havia se acidentado no set de filmagens do filme “Dedication”, de 2007, onde ela fazia o papel da mãe da atriz Mandy Moore. Dianne aceitou as uvas que o garçom lhe oferecera e disse que só iria comer depois da entrevista. Ela também se desculpou inúmeras vezes por não ser muito boa em dar entrevistas.

No decorrer da conversa, Dianne conta como começou a trabalhar em Law & Order e porque decidiu sair. Dianne participou de 48 episódios entre 2000 e 2001 onde fazia o papel de Nora Lewin, uma promotora de justiça. Ela dizia que aceitou o convite de Dick Wolf sem saber exatamente onde estava se metendo. O início do trabalho já foi desestimulante pois ninguém lhe explicou direito qual a origem do personagem, suas motivações: tudo era automatizado e repetitivo. Em um episódio a promotora decide sentenciar um menor de idade a pena de morte. Dianne negou filmar essa cena porque sabia do peso de uma narrativa como aquela, sendo transmitida para milhões de pessoas. Ela também afirmou que chegaram a dizer que ela tinha um caso com Samuel Waterston e que dentre vários murmúrios, diziam que ela estava sendo beneficiada por ser amante do ator. Decidiu então, largar o programa.

Os autores voltam a lhe fazer uma pergunta recorrente: o que ela sente quando lhe chamam de atriz coadjuvante. Dianne brinca que nunca foi sexualmente atraente. O autor a corrige e diz: “você não é uma Marilyn Monroe, mas é muito bonita”. Ela então volta a comentar que essa pretensão de ser destaque já saiu de sua mente faz tempo. Hoje Dianne pode escolher onde, como e com quem quer atuar e esse, sem dúvidas, é um beneficio de poucos.

Em suma, o que me levou a escrever essa publicação é que desde que comecei a acompanhar o trabalho de Wiest, fiquei inquieta ao perceber o quanto ela foi deixada de lado. O único filme em que me lembro de vê-la como protagonista foi “Obrigada, Doutor Rey” de 2002, ainda assim dificílimo de achar (e pouco divulgado). O fato de ser coadjuvante não a incomoda o que de alguma forma, é um alívio. Acho que uma atriz com um repertório como o dela, não pode (de jeito nenhum) cair no esquecimento.

Setembro

Não sei por que, mas nunca fui muito fã dos filmes de Woody Allen. Dois deles em especial me pareceram muito bons. São justamente os que foram classificados pelos críticos como filmes trágicos, produções que vão em contraponto ao costume de Allen conhecido por realizar comédias românticas e satíricas.

O primeiro é “A outra”, filme de 1988 estrelado por Mia Farrow e Gena Rowlands. O segundo, “Setembro” de 1987. Desde que assisti “A estranha vida de Timothy Green” senti uma vontade imensa de rever os filmes com a Dianne Wiest e por isso, não tive como fugir de Woody Allen. Comprei doze de seus filmes sendo que cinco deles são do diretor.

Dianne Wiest , Mia Farrow

Comecei ontem por “Setembro”. Ironicamente, o filme que me encantou pela proposta cenográfica e pelos diálogos é um dos mais rejeitados e esquecidos. Setembro traz Mia Farrow como Lane, uma mulher emocionalmente fragilizada que não consegue se livrar das marcas dolorosas do passado. Lane sofre um colapso emocional e decide se mudar para a casa onde passou a maior parte da infância.

Lá ela conhece e começa a se relacionar com Peter (Sam Waterston), um escritor em crise. Toda a história se passa dentro da casa da mãe de Lane que também é ambientada por Stephanie (Dianne Wiest), melhor amiga de Lane, Howard (Denholm Elliott) um velho professor aposentado, Diane (Elaine Stritch) mãe de Lane e Lloyd (Jack Warde), seu namorado.

Gostei do filme porque é melancólico, mas com um tom realista.  Os diálogos são tão teatrais quanto literários e a previsibilidade não é, de forma alguma, um ponto negativo. Allen trabalha bem os conflitos humanos e representa a realidade crua, sem floreamentos. É interessante como ele cria uma teia de relacionamento entre os personagens que quase transborda pela tela.  Lane está tão emocionalmente frágil quanto às outras pessoas daquela casa, o problema é que ela se esvai enquanto eles se reprimem.

Há três vertentes importantes no filme, a primeira é o relacionamento entre Lane e Diane. Depois de abandonar o marido, Diane começou a se relacionar com um “bandido”. O homem era um alcoólatra e constantemente batia nela. Após presenciar toda aquela situação doentia que envolvia a mãe, Lane (aos quatorze anos) decide matá-lo. Desde então, sua vida não foi a mesma.

Todo o sentimento de culpa é ainda agravado por uma sensação constante: Lane chegou aos cinquenta anos e não teve uma vida de sucesso. Diante desse turbilhão de emoções, a presença da mãe a incomoda cada vez mais. Diane, por outro lado, parece não se importar tanto com a dor da filha. Seu maior aborrecimento é a velhice, sente-se como uma jovem de 21 anos aprisionada no corpo de uma idosa.

Setembro

A segunda é a relação entre Peter e Stephie. Peter manteve um relacionamento com Lane, deixando-a completamente apaixonada. Mas a chegada de Stephie muda a situação. Peter se encanta por Stephie e passa a assediá-la. Ela, por outro lado, é uma mulher casada e com filhos e se esquiva de Peter o tempo todo, principalmente porque Lane, sua melhor amiga, se apaixonou por ele.

Achei belíssima a forma em que Stephie foi se entregando a Peter. Após uma discussão acalorada com o marido pelo telefone, Peter a procura e ela veemente se nega a sair com ele, até que de repente, fecha a porta e o beija.

Desde então, os dois passam a se encontrar escondido. Peter propõe que fujam juntos para Paris.  Apesar de toda paixão, Stephie sabe que não consegue abandonar os filhos e o marido. Quando os dois são descobertos por Lane, Stephie confessa que sabia do interesse de Peter e que o alimentava. Ela ficou encantada por sua inteligência e queria se sentir desejada.

O problema é que Stephie se apaixonou de verdade e ficou atraída pela enorme fragilidade do escritor. Peter, por outro lado, também confessa que só namorou Lane porque estava inseguro, precisava de alguém que o estimulasse a escrever o livro. Os três acabam submersos por uma destrutiva teia de paixão e manipulação.Dianne wiest, setembro

A terceira vertente é o sentimento não correspondido que Howard, o professor aposentado, nutre por Lane. Howard se apaixonou cegamente por ela, mas tinha medo de se declarar porque não queria fragilizá-la ainda mais. Mas Lane não sente nada, simplesmente nada. Ele chega a perguntar se a idade a incomoda já que é mais velho do que ela. Lane explica que não é isso, o problema é que está apaixonada por outra pessoa: Peter.

Toda a ação acontece tendo como pano de fundo muita dor, desejo, decepção e medo. A decisão de Lane de vender a casa faz daquele momento o único e o último entre aquelas pessoas. Mas apesar de todo o drama, de toda angústia que sentem, não há como parar de viver. Como Stephie diria: Setembro está chegando e é preciso seguir em frente, manter-se ocupada te fará esquecer os problemas.

De volta aos anos 1990

Me estremeci agora ao ver no meu e-mail o Boletim do Palácio das Artes: Do dia 13 a 17de Outubro, o Cine Humberto Mauro apresenta a mostra “De Volta aos anos 1990”, já gostei pelo nome. Serão exibidos filmes (longas), que por diversos motivos “foram negligenciados na filmografia dos seus diretores” (estou sendo fiel ao texto do site). – Delicia! David Lynch,  Robert Altman, Quentin Tarantino e Jim Jarmush, por exemplo, são nomes que passarão por lá. Uma pena eu não poder ir em todos os horários: até o Edward, Mãos de Tesoura vai ser exibido! – To entusiasmada, confira a programação:

Imagem

 

 13 SÁB

15h45 VOLTANDO AOS 1990 | O Jogador (The Player, 1992), de Robert Altman | (14 anos) | 124´

18h VOLTANDO AOS 1990 | De Olhos bem Fechados (Eyes Wide Shut,1999), de Stanley Kubrick | (18 anos) | 159´

20h45 VOLTANDO AOS 1990 | Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, de 1990), de Tim Burton | (Livre) | 105´

14 DOM

16h VOLTANDO AOS 1990 | A Estrada Perdida (Lost Highway,1997), de David Lynch | (12 anos) | 134´

18h30 VOLTANDO AOS 1990 | Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992), de Woody Allen | (16 anos) | 108´

20h30 VOLTANDO AOS 1990 | Dead Man (1995), de Jim Jarmush | (16 anos) | 121´

Imagem

15 SEG

16h15 VOLTANDO AOS 1990 | Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino | (14 anos) | 154´

21h VOLTANDO  AOS 1990 | O Jogador (The Player, 1992), de Robert Altman | (14 anos) | 124´

16 TER

17h VOLTANDO AOS 1990 | Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992), de Woody Allen | (16 anos) | 108´

19h VOLTANDO AOS 1990 | Dead Man (1995), de Jim Jarmush | (16 anos) | 121´

21h VOLTANDO AOS 1990 | A Estrada Perdida (Lost Highway,1997), de David Lynch | (12 anos) | 134´

Imagem