Jornalismo e Literatura: Estilos combinados

A literatura e o jornalismo são inter-influentes e, antes de tudo, possuem a escrita como um instrumento comum. Existem processos fundamentais que unem o jornalismo e a literatura, como por exemplo, a possibilidade de dar corpo à mensagem, escolher termos e os sentidos que se quer transmitir ao leitor ao se relatar determinado fato. Essa aproximação se inicia na utilização de um instrumento essencial: a palavra.

A participação da literatura na imprensa não é uma novidade. Durante o século XIX, os escritores tornaram-se presentes nos jornais através de diversas publicações como contos e crônicas. No Brasil, por exemplo, José de Alencar conseguiu consolidar a carreira e adquirir visibilidade publica através do seu trabalho no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro. Autor de “O Guarani” (1857) e “Lucíola” (1862) retratou a complexa sociedade da sua época e ocupa um importante lugar nos clássicos da literatura brasileira. Conforme explica Héris Arnt, a literatura e o jornalismo exercem influências mútuas.

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A presença dos escritores favoreceu o aparecimento de um jornal informativo e atraente, com assuntos mais variados – formato que se fixa no século XX e que existe até hoje. A literatura, em contrapartida, sofreu também influencia do jornalismo. Ligado às exigências do meio – tudo num jornal informa -, o olhar dos escritores do século XIX volta-se para as questões sociais e as agruras da vida cotidiana. (ARNT,  p.8, 2002)

Da mesma forma, conforme explica Filipe Pena (2006), Machado de Assis e Joaquim Manoel de Macedo atuaram como jornalistas e ali receberam incentivos para seguir a carreira literária. Machado de Assis atuou como cronista, escreveu peças e poesias e, através das suas obras, incentivou a reflexão sobre a realidade e sobre o cotidiano da população. Grande colaborador do jornalismo brasileiro é o autor, dentre outras obras, de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Dom Casmurro” (1899).

       Outro autor que merece atenção é Honoré de Balzac que se destacou no jornalismo literário com publicações em folhetins que retrataram de maneira rica e detalhada seu contexto social. Balzac ofereceu um vasto conteúdo de histórias e de personagens fortemente inspirados em fatos sociais. Entre suas obras mais famosas estão “A mulher de trinta anos” (1832) e “Eugénie Grandet” (1833). 

Víctor Hugo e Charles Dickens atuaram paralelamente na literatura e no jornalismo. Com uma participação forte na política francensa, Victor Hugo publicou obras revolucionarias contra a monarquia, com o objetivo de combater a atuação de Luis Napoleão Bonaparte. Com uma extensa obra, o autor de “Os Miseráveis” (1862) exerceu importante influecia em seu país e no mundo, relatando também através de jornais, as injustiças sociais de sua época.

A presença da literatura nos jornais tornou-se marcante através dos folhetins, herança direta dos romances. Escrever para jornais não significava apenas visibilidade, mas também mais dinheiro. Os veículos aumentavam suas tiragens com os folhetins e os anunciantes mostravam-se mais interessados. As narrativas literárias facilitaram a popularização do jornal e fidelizaram os leitores. As histórias eram construídas através de texto acessível, de fácil compreensão, direcionadas a um público vasto, atingia diversas pessoas, sem distinção de classes.

De acordo com Filipe Pena (2006), características semelhantes às conhecidas telenovelas, o folhetim era escrito com uma estratégia interessante: o “plot”. Tratava-se da interrupção de um momento importante ou decisivo da narrativa que só tinha continuidade nas próximas edições. Os escritores exploravam pequenos detalhes, repetiam alguns fatos (para lembrar o público ou atualizar o leitor que não teve acesso a edição anterior) e, quando necessário, aumentavam a história ou adicionavam novos personagens para esticar o enredo e estender a trama.

O folhetim marcou a popularização dos periódicos e em países europeus contribuiu para o estímulo da população à leitura. Como os livros eram muito caros, acompanhar obras literárias semanalmente através dos jornais, tornou-se um hábito expressivo em países como França e nos Estados Unidos. No Brasil, o jornalismo literário foi um estilo que representou um avanço cultural, mas que se popularizou lentamente, pois a massa não era alfabetizada.

Os jornais sofreram transformações gráficas e adotaram, de maneira ainda mais forte, a linguagem clara e objetiva. Assim, na década de 50, a literatura diminuiu sua presença nos veículos e passou a ser encarada como um suplemento. As narrativas que atraíam os leitores dos folhetins foram perdendo espaço nos jornais, pois a preocupação com a veiculação de novidades tornou-se uma característica marcante na imprensa moderna. Os suplementos tinham função de acrescentar algo ao jornal e os escritores assumiram o desafio de combinar a qualidade dos textos com a quantidade necessária de vendas, tudo isso obedecendo às características da imprensa quanto à narrativa clara e concisa.

O surgimento dos cadernos literários nos jornais mostrou que a literatura tornou-se um complemento dos veículos. Com base na lógica do valor notícia, os cadernos literários também estavam sujeitos à utilização as técnicas e regras do discurso jornalístico. De acordo com essa lógica, o jornalismo literário se viu sujeito a acompanhar as notícias, as informações novas, que são essenciais para a imprensa moderna. Os lançamentos de mercado passaram a ter um lugar de destaque nas críticas literárias e nos suplementos, dividindo espaço com outros assuntos e aspectos valorizados como as celebridades, as fofocas e os acontecimentos inusitados.

Os escritores perceberam a importância do jornalismo e passaram a participar fortemente desse espaço público que conforme explica Filipe Pena (2006), é muito amplo. O conceito de jornalismo literário é complexo e envolve questões fundamentais para a discussão do âmbito da comunicação e da própria literatura como, por exemplo, as influencias que exercem na vida do cidadão e no cotidiano da sociedade.

Não se trata apenas de fugir das amarras da redação ou de exercitar a veia literária em um livro-reportagem. O conceito é muito mais amplo. Significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lide, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos. (PENA, p.6, 2006)

O jornalismo literário baseia-se na utilização de recursos do jornalismo para a construção dos textos. A apuração de um assunto, a observação e o rigor ético com as informações são estratégias que continuam sendo utilizadas. A abordagem de um tema é feita de forma aprofundada, pois, assim como no jornalismo, os textos possuem um compromisso com a sociedade e com o cidadão, que é o leitor.

O jornalismo literário rompe com as amarras das redações, apresenta técnicas diferentes e não se rende a efemeridade das publicações. Não há uma preocupação com o deadline ou com a periodicidade. O escritor não está interessado em oferecer uma novidade, uma informação imediata e sim em apresentar um texto rico com uma visão completa e detalhada da realidade.

Em contraponto com a superficialidade dos textos jornalísticos, o jornalismo literário não possui um espaço tão limitado nos veículos de comunicação e por isso tem a possibilidade de contextualizar suas informações e oferecer ao leitor uma interpretação mais profunda.

Para facilitar a compreensão das principais relações que ligam o jornalismo e a literatura, Filipe Pena, autor de “Jornalismo Literário” (2006), desenvolveu vários itens através de um conjunto de temas do que chamou de estrela de sete pontas. A primeira ponta da estrela é a potencialização do jornalismo, ou seja, explica que as técnicas narrativas jornalísticas não foram ignoradas pela literatura. A segunda defende a idéia de que a literatura ultrapassa os limitar do cotidiano e da periodicidade.

Em terceiro lugar, explica que a literatura preocupa-se em contextualizar um assunto de forma mais abrangente e completa possível mesmo que o texto não passe de um recorte, uma interpretação de determinada realidade. A quarta ponta aborda o compromisso do escritor com a sociedade e da sua contribuição com a formação do cidadão.

A quinta característica evidencia o rompimento da literatura com o lead. Para o jornalismo literário não há uma obrigatoriedade de seguir o lead, uma técnica narrativa para agilizar os textos jornalísticos. As  seis questões fundamentais do lead: Quem? O quê? Como ? Onde? Quando? Por quê?,  são fórmulas importantes para guiar os jornalistas na construção de um texto e deixá-lo menos subjetivo, mas ainda assim, reducionista.

Na sexta ponta há a preocupação em recorrer a fontes que não são primárias. O autor identifica a importancia de se conseguir depoimentos de fontes comuns, ou anônimas e de evitar os definidores primários como personagens que ocupam um órgão público ou político e que sempre possuem espaço na mídia. Na sétima ponta, o autor explica que uma obras do jornalismo literário não são efêmeras, o objetivo do escritor é não cair em esquecimento.

O jornalismo e a literatura também se esbarram fora dos periódicos e se encontram em reportagens editoriais, livros-reportagem, críticas literárias, nas narrativas de não ficção e assim, se sobressaem dos limites dos gêneros e dos discursos. Essa convivência também pode ser percebida no gênero literário classificado como romance-reportagem, que se concentra na descrição dos fatos e estabelece um enredo com foco na realidade factual.

REFERÊNCIAS

ARNT, Héris. A influencia da literatura no jornalismo: o folhetim e a crônica. Editrora E-papers, Rio de Janeiro, 2002,

BIANCHIN, Neila. Romance Reportagem: onde a semelhança não é mera coincidência.  Editora da UFSC, Florianópolis, 1997.

BRANDILEONE, Ana Paula.  O Romance Reportagem: Implicações estéticas e ideológicas. Terra Roxa e Outras Terras: Revista de estudos literários, volume 19, 2010. Disponível em:  http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol19/TRvol19b.pdf.  Acesso em: 29 mai. 2012.

COSSON, Rildo.  Romance Reportagem, o gênero. Editora Universidade de Brasília, São Paulo, 2001.

GALENO, Alex e CASTRO, Gustavo. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. Escritoras Editora, São Paulo, 2002

 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, Editora Manole, São Paulo, 2004.

 PENA, Filipe. Jornalismo Literário, Editora Contexto, São Paulo, 2006.

 

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