Nota sobre Adelaide, a feminista de Éramos Seis

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Há muito tempo não assisto novelas, para ser sincera eu não me lembro da última vez que liguei a minha televisão. Às vezes revejo um capítulo aleatório de qualquer uma delas, pela internet mesmo, só pra relembrar aquelas cenas mais marcantes.  Desse universo, de tudo o que já assisti, uma novela me marcou em especial: “Éramos seis” (inclusive já comentei sobre isso por aqui, em uma postagem sobre o livro). E é verdade o que eu contei, que eu saía da escola e não dava preocupação pra mais ninguém, porque eu chegava em casa, ligava a TV e ficava horas assistindo (nada muito saudável, por sinal).

Adelaide era uma das minhas personagens favoritas (eu amava a Dona Lola e a Carmencita também), mas eu vibrava quando Adelaide aparecia na tela. Achava lindo o cabelo e o jeitão corajoso que dela, que diferente das outras garotas, não tinha medo das convenções sociais. Ela usava calças, dirigia o próprio carro, sentava-se à mesa do bar com os homens, jogava sinuca, era acadêmica e fumava lindamente (como as atrizes do cinema clássico que fui descobrir anos depois).

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Estou revendo a novela pelo Youtube, bem aos poucos para falar a verdade (é complicado por causa da falta de tempo). Tô na metade da novela e a aparição de Adelaide me chamou atenção… Ela só aparece na segunda fase e tem um conflito enorme com a mãe porque não concorda com a educação diferenciada que recebeu. Enquanto a irmã problemática foi cercada de atenção e carinho, ela foi enviada à Europa para estudar e sofria por causa da distância e da solidão. Por outro lado, foi nesse momento em que ela teve o primeiro contato com o feminismo.

O que me chamou atenção é que diferente de tantas outras personagens feministas, retratadas em novelas de maneira caricata, Adelaide  tem uma representatividade positiva. Ela até brinca com isso quando questiona um personagem que se surpreende com sua beleza: “Pois é, nem toda feminista tem bigode!”. E ela não tem um discurso de ataque aos homens, em nenhum momento ela parece ter raiva do gênero masculino. Ela fala, a todo o tempo, sobre igualdade. Aliás, num dos seus primeiros momentos na novela ela questiona o fato de as mulheres não poderem votar no Brasil e cita a importância da Berth Lutz nesse processo.

Enfim… é  uma delícia poder rever essa novela; a Adelaide é uma personagem inspiradora, que retrata um momento importante da emancipação feminina e que ao mesmo tempo, traz questionamentos super atuais.

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eu tinha sete anos, quando me apaixonei por Eva Wilma

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Quando “Mulher” passou pela primeira vez na TV eu tinha sete anos, o seriado foi transmitido entre abril de 1998 e dezembro de 1999. Na época minha mãe dava plantões noturnos e eu dormia na casa da minha avó. Aparentemente, ninguém vigiava os meus horários de assistir televisão, porque lembro perfeitamente que o programa era transmitido tarde da noite, nas quarta-feiras. Ambientado em uma clínica especializada em atendimento a mulheres, o seriado abordava diversos assuntos relacionados à saúde feminina como: aborto, abuso sexual, anticoncepcionais, casamento, doenças sexualmente transmissíveis, partos (e por aí vai…).Era pesado (pra minha idade), mas tinha uma linguagem muito interessante, diferente de tudo o que tinha assistido até então.

Eva Wilma interpretava Martha, uma médica ao estilo heroína que dividia os plantões com a Doutora Cristina, interpretada por Patrícia Pillar. Além de acompanhar o envolvimento das médicas com as pacientes, quase sempre com casos complexos e dramáticos, o espectador ainda tinha uma dose extra sobre a vida pessoal das personagens principais… as duas em vibes diferentes. Cristina, em sua juventude, enfrentava questionamentos éticos sobre a escolha da profissão e ainda tinha que se virar com um relacionamento super conturbado, uma espécie de namoro enrolado com Carlos, interpretado por Maurício Mattar. Martha, por outro lado, tinha uma voz mais forte e decisiva dentro do hospital, por causa de seus anos de experiência, Na vida íntima, convivia com o mesmo marido há anos, numa cumplicidade invejável. (O marido era interpretado por Carlos Zara e na época, eu não fazia ideia de que eles foram casados na vida real HAHA).

Não me lembro com exatidão dos episódios, nunca parei para assistir a série novamente (nem quando repetiu no Canal Viva), mas foi por falta de tempo mesmo. Recordo com exatidão que em determinada fase da série, a personagem da Eva Wilma descobre um câncer no seio e aquele sofrimento dela, diante da necessidade de fazer a retirada da mama, me matava. Lembro que tive uma conversa com a minha mãe na época (meu Deus, eu lembro muito disso!), porque eu não conseguia entender como seria essa “tal” retirada da mama. Não entrava na minha cabeça como aquilo funcionava.

Então, Martha foi um dos primeiros crushs que tive na vida, ainda que  esse amor meio estranho, tenha sido um personagem fictício. Eu amava a força e a inteligência dela, que não dava o braço a torcer para o administrador do hospital (que por sinal, era um babaca corrupto), e sempre com muita clareza, falava sobre questionamentos femininos e tratava os pacientes com transparência. Era uma mulher inteligente, moderna e bem feminista. Recomendo muito a série, quem tiver a oportunidade assista pelo menos um episódio (depois vem me contar o que achou!), acho difícil não gostar…

Audre Lorde – Não existe hierarquia de opressão

Conheci a Audre Lorde outro dia, pelo Facebook. Depois de ver um vídeo sobre suas reflexões, me interessei em estudar suas teorias (quero muito, muito mesmo ler o que ela escreveu ). O seu texto sobre hierarquia de opressão me tocou profundamente, uma visão sobre movimentos sociais que até então, não tinha me atentado. Vou compartilhar o texto por aqui, porque é engrandecedor e tem muito a nos ensinar:

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Eu nasci negra e uma mulher. Estou tentando me tornar a pessoa mais forte que consigo para viver a vida que me foi dada e ajudar a efetivar mudanças em direção a um futuro aceitável para o planeta e para minhas crianças. Como negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças — incluindo um menino — e membro de um casal inter-racial, com frequência me vejo parte de algum grupo no qual a maioria me define como devassa, difícil, inferior ou apenas “errada”.

Da minha participação em todos esses grupos, aprendi que opressão e intolerância de diferenças aparecem em todas as formas e sexos e cores e sexualidades — e que entre aquelas de nós que compartilham objetivos de libertação e um futuro viável para nossas crianças, não pode existir hierarquia de opressão. Eu aprendi que sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo.

“Ah”, diz uma voz da comunidade negra, “mas ser negra é NORMAL!”. Bom, eu e muitas pessoas negras da minha idade lembramos de forma soturna dos dias em que não costumava ser!
Simplesmente não consigo acreditar que um aspecto de mim pode se beneficiar da opressão de qualquer outra parte da minha identidade. Eu sei que pessoas como eu não podem se beneficiar da opressão sobre qualquer outro grupo que busca o direito a uma existência pacífica. Em vez disso, nós nos subestimamos ao negar a outros o que derramamos sangue para obter para nossas crianças. E essas crianças precisam aprender que elas não têm de ser umas como as outras para trabalharem juntas por um futuro que irão compartilhar.

Dentro da comunidade lésbica eu sou negra, e dentro da comunidade negra eu sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas negras é uma questão lésbica e gay, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão de negros, porque milhares de lésbicas e gays são negros. Não existe hierarquia de opressão.

Eu não posso me dar ao luxo de lutar contra uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

Fonte: Literatura Interseccional

Dica de leitura: Dez Mulheres

Capa Dez mulheres.inddHá muito tempo um livro não me emocionava tanto como este. Mesmo com uma montanha de textos para ler para a faculdade e com a correria do dia-a-dia, me dediquei a essa leitura com um prazer indescritível e me sensibilizei tanto, que chorei no ônibus, a caminho do trabalho… “Dez mulheres” conta a história da reunião das pacientes da terapeuta Natasha, mulheres de diferentes classes sociais, idades e vivências. Todas tão humanas e universais, que poderiam existir em qualquer lugar do mundo. Neste caso, o cenário é o Chile, aliás, muitos Chiles… cada um em conformidade com a perspectiva de determinado personagem. O livro aborda tantos temas, que é difícil definir: amor, sexualidade, doenças, relações familiares, maternidade, solidão, dinheiro… Tantas questões não resolvidas, tantos traumas, alegrias e tristezas. Eu realmente me senti participante da história, apaixonada com a narrativa. Depois deste livro, me interessei muito pelo trabalho da autora, Marcela Serrano, a quem desconhecia. Do pouco que li sobre sua biografia, já admiro.Dentre as diversas entrevistas que vi e li dela, destaco uma de suas frases:“Definirse feminista es definirse ser humano”.

Reggie Love: um dos personagens que me inspiram!

Eu sou aquela pessoa que tem uma lista com um milhão de filmes novos para assistir e na hora “H”, escolhe um filme que já viu um milhão de vezes. Neste fim de semana revi “O Cliente” pelo Netflix e me surpreendi ao lembrar dos mínimos detalhes, das falas e de algumas cenas… ta aí um dos filmes que assistia constantemente quando era pequena, porque amava a Susan Sarandon. Mas eu juro, que não é só por causa dela que esse filme me encanta tanto.[E sim, já escrevi sobre ele por aqui, né?]

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Em suma, só não me lembrava da coragem da personagem, Reggie Love, ao enfrentar um mundo dominado por homens para defender uma criança extremamente assustada e confusa (no caso, o cliente que dá título ao filme).  Essas histórias me inspiram muito, é sempre bom ver o retrato de protagonistas fortes e inteligentes, sabe? Ao mesmo tempo, é incômodo pensar que mulheres continuam sendo subjugadas no mercado de trabalho e menos remuneradas. No inicinho do filme, quando Mark procura por uma ajuda, ele entra na sala da advogada procurando pelo “Senhor Love” e se assusta ao se dar conta de que o Senhor Love, é uma mulher. [Spoiler?] E quando ela entra numa sala, cheia de homens famintos para conseguir uma informação do garoto (que presenciou um assassinato), e surpreende todos com sua esperteza.

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Fiz uma pesquisa rápida sobre o assunto e me deparei com uma matéria do jornal O Globo (publicada em maio, deste ano) sobre uma campanha da OAB contra o machismo entre os advogados. Olha só que interesse o apontamento levantado:  Presidente da OAB/Mulher, Daniela Gusmão diz que há um estigma de que advogadas precisam ser masculinas para serem respeitadas. “A mulher pode ser formal e feminina ao mesmo tempo”, afirma ela, que organiza o evento. Sugiro que leiam a entrevista toda, se for possível. É pequena, mas muito interessante. Quando leio a matéria, imagino a situação se repetindo em outros contextos ou setores, tipo… na engenharia.

O filme propõe muitas pautas, mas a questão profissional é a que mais agrada. Gosto da narrativa, que tem um suspense gostoso de assistir… bem ao estilo anos 90. A riqueza da construção do personagem não terminar por aí, há uma quebra de estereótipos quando descobrimos, ao longo da narrativa, que Reggie perdeu a guarda dos filhos por causa do alcoolismo. Entendo que sua doação para salvar a vida do garoto e da família como uma  redenção.

OITNB: Sobre a terceira temporada e o que eu mais amei!

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Orange está no topo das minhas séries preferidas. Adoro cada um dos personagens e o trabalho narrativo que a autora executa. Há muito tempo sentia falta de um produto televisivo que contestasse certos padrões e que fosse pautado em questões sociais.  Um dos grandes méritos da série é abordar tudo isso com muito humor e leveza. A terceira temporada superou as minhas expectativas, eu terminei de assistir querendo um pouquinho mais [na real, isso sempre acontece!].  Mas dessa vez, diferente das outras, dois pontos me chamaram atenção e gostaria de compartilhá-los:

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– Pouco sei (quase nada, na verdade) sobre o Feminismo Negro, e confesso que há tempos atrás não entendia o sentido desta vertente. É muito vergonhoso admitir, mas eu, sendo mulher negra, passei muito tempo sem conhecer o feminismo negro. Na minha cabeça era só uma forma de enfraquecer o movimento porque separava ou classificava as mulheres. Eu continuo escrevendo sobre feminismo negro sem nenhuma propriedade (porque pouco li ou estudei), mas hoje compreendo e concordo plenamente com essa divisão e Orange toca diretamente nessa ferida. As demandas de uma mulher negra que viveu na periferia não são iguais às de uma mulher branca de classe média. As duas sofrem com as pressões do machismo, mas de maneiras e intensidades diferentes.

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  – Quando assisti a cena do menage a trois entre a Judy King, a Erica Yoga Jones e o Luschek, soltei um grito! Foi totalmente inesperado e engraçado, mas divinamente respeitoso. Sempre escrevo sobre esse assunto por aqui: a sexualidade na velhice (especialmente das mulheres). Há uma triste tendência em acreditar que a idade avançada traz consigo uma “assexualidade”, mas no fundo a gente sabe que não é verdade. Judy King é uma mulher independente, que não tem medo nenhum de mostrar seus interesses sexuais no vigilante do presídio (e, mano, as cenas são muito engraçadas).

Agora, só resta esperar ansiosamente pela próxima temporada.

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Créditos da imagem: Laura Breiling

Ainda não sei me comportar diante do meu colega de serviço machista e desinformado. Desde o momento em que o conheci e depois dos minutos que passamos juntos, pedi em silêncio que nossos horários não encontrassem. Do pouco que nos conhecemos, sinto por parte dele uma incompreensão das seriedades e das bobeiras que diz. No fundo é uma boa pessoa (ou pelo menos me parece) e sinto que ele não consegue se desvincular dessa irritante mania classificatória e estereotipada de mulheres porque está em uma situação de conforto. As vezes brinco que ele funciona vinte e quatro horas como um radar, reparando nas meninas “bonitas que comeria ou não” ou que “enfiaria a piroca”. Sempre quando ele diz uma coisa dessas eu me lembro do caso da Rose Marie Muraro quando um cara falou que não se casaria com ela porque ela era feia e lésbica demais. E a Muraro, em resposta, dizia que não passou na cabeça do cara que ELA não queria se casar com ele porque ele era feio e barrigudo demais. Quer dizer, quando o meu colega vai parar de achar que todas aquelas mulheres estão disponíveis para ele ou que devem ser  classificadas como comíveis ou não. “É a natureza dos homens”, ele me disse hoje de tarde no elevador. É que eu fiz uma cara meio assustada quando ouvi  um grupinho de homens atrás de nós comentando que “mulheres depois dos trinta e cinco não podem ser encaradas com seriedade”.  Nesses momentos eu penso em todas (e tantas)  meninas e mulheres que não se encaixam(e por vezes não querem se encaixar) neste limitado esteriótipo construído sobre o corpo e a imagem feminina e no que todas elas (nós) poderiam e temos a dizer para esses caras.

Rose Marie Muraro: uma mulher impossível

A minha curiosidade sobre Rose Marie Muraro (sobre sua vida e sua obra) surgiu há muito tempo, quando peguei o finalzinho de um documentário onde ela dava um depoimento sobre feminismo. Anos se passaram até que encontrei materiais sobre ela. Nesta semana terminei “Memórias de uma mulher impossível”, uma autobiografia riquíssima, que não só conta a história da pensadora como também a contextualiza com fatos políticos, econômicos  e culturais que aconteceram no Brasil.

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A autora de “A sexualidade da mulher brasileira”, possui uma vida cheia de singularidades. Originou-se de uma família riquíssima, empobreceu, tinha um problema sério na visão (desde pequenininha), batalhou para sustentar os filhos e desafiou os grandes para defender o direito das mulheres. De tudo o que li, o que mais me impressionou foi sua forte ligação com a igreja católica e como, aos poucos, ela foi se desvinculando da instituição (mantendo sua espiritualidade intacta).

O livro foi escrito em 1999 e, ao mesmo tempo em que ela me soa extremamente visionária, percebo alguns conservadorismos. Já na época, a autora acreditava numa revolução comunicacional que iria aproximar as mulheres e permití-las conhecer seus direitos, esse novo estilo de comunicação (em sua concepção) faria as mulheres se aproximarem e serem mais ativas, criando novos coletivos, por exemplo. Rose faleceu em 2014, aos 83 anos, portanto acredito que tenha presenciado o avanço e a importância das redes sociais/internet e comprovado sua teoria. Encontrei certo conservadorismo em algumas afirmações sobre os homossexuais, principalmente quando ela os chama de pervertidos.

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Mas, eu não a interpreto mal… tento compreender suas limitações e o pensamento vigente na época. Rose defende a homossexualidade, tem uma postura muito especial em relação aos gays e às lésbicas (a quem ela afirma serem muito mais carinhosas e delicadas em seus relacionamentos.). Inclusive ela afirma que se apaixonou e se relacionou com um homem abertamente gay e que adorava frequentar bares LGBTs.

De tudo o que ela falou, me marcou muito a maneira em que ela insiste e defende a importância do feminismo estar vinculado a luta de classes. O que pode parecer obvio, mas não é. Não adianta lutar pelo direito das mulheres sem se importar com aquelas e aqueles que são socialmente/economicamente mais desfavorecidos que nós. Já no finalzinho do livro ela também chama atenção para a importância do Feminismo Negro.


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Citações  

” O fim da compulsão pelo trabalho faz desmoronar a long prazo todo esse monumental edifício que é a civilização baseada na lógica criada pelo capital criada pela mente em detrimento do corpo. O corpo liberto trabalha em outro mundo, outro tipo de civilização, solidária e não competitiva. E não pode existir sem esse trabalho. Faz parte da sua natureza.”

“A androginia, a relação do amor entre homens e mulher iguais, é o antídoto à relação de dominação entre gêneros, que é a base de tudo, de toda e qualquer dominação.”

“A morte, a realidade nada vence, pode ser vencida pelo amor”

“O corpo reprimido conhece o prazer da sexualidade localizada, o corpo liberto conhece  êxtase de Eros que ilumina tudo, até o trabalho, que passa a ser ação transformadora”

“Ser feminista no Brasil em 1971 não foi fácil. Ibrahim Sued escreveu um artigo me malhando, dizendo que não casava comigo porque eu era feia e lésbica, pode? Nunca passou pela cabeça dele que alguém pudesse rejeitá-lo. Ele era feíssimo, e barrigudo.”

“Nesse momento aprendi que doentes não são loucos, doente é a sociedade inteira. Porque a sociedade, ao reprimir a profundidade, faz com que todas as coisas se tornem mecânicas. As pessoas ficam obcecadas pelo trabalho, pois não tem esse contato profundo consigo mesmas que os lucos têm, ainda que de maneira quebrada. Mas tem mais do que nós. E nós, “normais”, queremos tapar esse buraco com trabalho. E é isso que alimenta o sistema. A nossa insatisfação fundamental que nada cura é o desejo do abismo.”

Gary Cooper que estás en los cielos

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Desde as primeiras cenas, este filme tem um toque extremamente feminino (e feminista). Além de falar sobre tabus que atingem especialmente as mulheres, como o aborto e as diferenças de oportunidades no mercado de trabalho, tem como protagonista uma mulher forte, séria e inteligente. Pouco li sobre a história da diretora Pilar Miró, mas fica muito claro que o filme também tem um tom metalinguístico e autobiográfico.

Mercedes Sampietro está linda, mais linda do que nunca (especialmente porque transmite muita calma e parece dominar o personagem). Na trama ela é Andreia, uma diretora televisa que sonha em produzir um filme, mas que enfrenta muitas dificuldades para tal. Apesar de ser uma mulher com sucesso profissional, sua vida pessoal é cheia de fracassos: possui uma mãe extremamente vaidosa e que a sufoca e está grávida de um homem que exige que ela faça um aborto.

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Gosto especialmente das cenas iniciais, quando Andreia caminha pelos corredores da emissora e é cercada por auxiliares que precisam de sua opinião ou autorização para fazer algo. Mesmo assumindo um cargo de chefe, Andreia é visivelmente engolida por um ambiente dominado pelos homens. Também há uma cena sensacional, onde ela olha diretamente para a câmera, como se conversasse com o espectador, e conta as dificuldades de se realizar um filme (só para observar, “Gary Cooper que está en los cielos” foi lançado em 1981, um ano depois, Pilar Miró se tornou Diretora Geral de Cinematografia na Espanha).

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O filme possui muitos momentos reflexivos, quando a personagem (que descobre que está doente e prestes a morrer) começa a pensar em sua vida e nas coisas que construiu. Ela passa horas observando fotos antigas (algumas delas do ator americano Gary Cooper). Imagino que aquelas fotos antigas e em preto e branco representem o seu carinho pelo passado e medo pelo futuro.

Carmen Maura: uma aparição pequena, mas importante

Carmen aparece muito pouco, apenas em duas cenas. Na primeira delas, fica claro que ela não gosta de Andreia, na segunda (já no final do filme), há um confronto entre elas, dentro do banheiro. Andreia relembra que as duas estudaram juntas e questiona se a colega tinha algum desejo sexual (reprimido) por ela. No livro, “Discurso Femenino Actual”, Kathleen M. Vernon começa o seu texto analisando exatamente essa cena e diz:

[…] A protagonista Andrea enfrenta uma única colega feminina nos estúdios televisivos, a realizadora Begoña (Carmen Maura). Em seus comentários sobre as cenas, vários críticos afirmaram que o acontecimento tinha base na vida real de Pilar e até identificaram Begoña como Josefina Molina. O fato é que o conteúdo dessa tempestuosa discussão está repleta de referências e experiências paralelas, primeiro como estudantes e segundo como empregadas de uma rede de televisão governamental, o que corresponde à biografia das duas mulheres. Molina foi a primeira diretora mulher que se graduou pela Escuela Oficial de Cine, a mesma em que Miró se formou como roteirista.

A autora ainda explica que mesmo não sendo a intenção da diretora e mesmo com a disputa entre as duas personagens, existia ali um clima de “sororidade” entre as duas mulheres, reprimidas por um ambiente completamente dominado por homens.

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Uma pequena abordagem sobre como a série trabalha questões de gênero, sexualidade e raça

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A série chegou no final de sua segunda temporada e apresentou uma explosão de acontecimentos, com muito sangue derramado e um montão de gente saindo machucada (fisicamente e psicologicamente também). Sobre a trama, só consigo dizer que me encanta por tamanha genialidade e pela profundidade dos personagens. Fico chocada com o domínio técnico de quem criou essa história, que deve ter estudado arquétipos até não poder mais. Quer dizer, é gente que sabe o que faz e o faz muito bem. Para quem nunca assistiu, um singelo resumo: trata-se de uma série de suspense que retrata o cotidiano de uma professora de defesa criminal, Annalise e de seus alunos, que acidentalmente se envolveram em um assassinato. A série é transmitida pela ABC e produzida por Shonda Rhimes, a mesma criadora de Greys Anatomy.

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O elenco é encabeçado por Viola Davis, uma atriz com enorme carga dramática e muito talento. Sinceramente, é uma daquelas figuras cativantes que conseguem criar empatia com o público, mesmo interpretando uma mulher com sérios desvios morais. Na segunda temporada Annalise está mais obscura, sem rumo e desmoralizada. Em certo momento se referem à ela como um “cachorro morto” que insistem em chutar. Mas é incrível como, com sua inteligência e competência, consegue dar a volta por cima, surpreendendo e salvando a todos. É a perfeita anti-heroína.

Não dá para assistir uma série como essa e ficar indiferente ao fato da personagem principal se tratar de uma mulher, negra. [Annalise é uma mulher negra, linda, dona de seu próprio negócio, dominadora. Que fique claro.] Não vou me aprofundar na análise sobre questões raciais ou de gênero (até porque não tenho bagagem para falar disso) mas, sem dúvidas é um mérito da Shonda e nos faz questionar onde estão as protagonistas negras nas séries televisivas (novelas, programas de TV). Aliás, a questão me faz recordar o discurso de Viola no Emmy 2015: “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade”.

MATT MCGORRY, KARLA SOUZA, AJA NAOMI KING, ALFRED ENOCH, JACK FALAHEE, VIOLA DAVIS, LIZA WEIL, BILLY BROWN, CHARLIE WEBER
Sobre as mulheres da série,  percebemos que todas são muito fortes. Desde Bonnie, a assistente de Annalise às alunas. Bonnie é o meu segundo personagem favorito, há nela muita dor e um mistério que ainda não foi bem desenvolvido. Pelo tom da segunda temporada, me parece que as humilhações a que ela se permite sofrer em relação à chefe estão ligadas muito mais a culpa do que a fraqueza ou gratidão.

Em suma são mulheres inteligentes, confiantes e estudadas que possuem o mesmo valor que os personagens masculinos. A imagem delas não é sexualizada, nem abordadas superficialmente  e muito menos reproduzem antigos arquétipos clichês. Sobre as alunas: Michaela também é uma mulher negra, de família endinheirada. Laurel é latina e também provém de uma família cuja situação financeira é boa (ela rompe com a dominação do pai e, desde o início da trama, deixa evidente que deseja trilhar o próprio caminho sem depender financeiramente dele).

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Outro ponto chave da série é o retrato respeitoso e com naturalidade sobre a opção sexual dos personagens. Um dos alunos, o Connor, é gay e não se explora a questão de forma pejorativa. Em seu contexto, ainda há o fato de que ele namora um homem portador do vírus HIV e, independente disso, vivem uma vida sexual ativa e feliz. Annalise é bissexual, e isso é esfregado na cara do espectador de forma surpreendente, porque em princípio, os fatos nos fazem acreditar que ela é heterossexual. Em entrevista, Shonda tocou no tema e ressaltou a importância de retratá-lo em suas séries: “Acredito que todo mundo deve começar a se ver refletido na TV. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é a luta da nossa era, assim como foi a dos negros pelos seus direitos civis. Roteiristas como Norman Lear terem colocado negros na TV ajudou a mudar algumas mentes.”