México, um país em dois olhares

mexicoAs obras de dois autores inspiraram a linha comparativa deste trabalho, eles tiveram a coragem de se aventurar a estudar o México, sua história e o comportamento dos mexicanos. Um deles foi Érico Veríssimo, que publicou o livro “México” em 1960. O outro foi Jorge G. Castañeda, autor de “Amanhã para sempre”, de 2013.

É curioso como a visão dos dois se assemelha em alguns quesitos e por vezes, se distanciam abruptamente em outros casos. Naturalmente há o distanciamento do tempo em que os livros foram escritos, mas leva-se também em consideração a linha narrativa. Enquanto o livro de Veríssimo é um romance com forte tom poético, o livro de Castañeda apresenta uma linguagem mais científica e um estudo sobre o conceito de identidade nacional. Jorge G. Castañeda é professor de uma das maiores universidades do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. Em seu livro, ele confronta diversos clássicos, autores (como Octavio Paz) e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX (e dentre suas obras famosas, cabe citar a trilogia de O tempo e o vento).  Ele realizou sua terceira viagem ao México em 1955, ao lado de sua esposa, Mafalda. Na época, dizia enfrentar um bloqueio criativo por causa da vida burocrática que levava nos EUA, ele ocupava um cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington.

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa, o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais sobre o país, como por exemplo: o narcotráfico e a violência.

Castañeda começa sua reflexão afirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capítulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxergam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). De acordo com o autor, os mexicanos são individualistas inclusive no esporte, por isso são os melhores no Golfe  e não no futebol.  Eles evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

 O perfil que o autor faz do mexicano é bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve. Por exemplo: Castañeda afirma que os mexicanos são avessos a qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas para esse comportamento, uma delas está na própria história do México, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Para Veríssimo, o mexicano é um povo que foi traumatizado em seu nascimento e isso marcou o inconsciente coletivo do país, por isso vivem sempre angustiados “por uma sensação aflitiva de que algo de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso e o índio que sobreviveu à Conquista não se adaptou ao ambiente frio e hostil criado pelo invasor, ele desejou voltar ao ventre materno, isto é, a terra.”

Sobre os mexicanos e seus costumes, Castañeda explica que a população já não é tão católica como muitos pensam. Hoje, a maioria deles não vai à igreja nem vivem a religião, mesmo que se autodenominem como católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é extremamente marcado pelo racismo, pelo preconceito e pelas lutas de classes. Eles se dizem “mente aberta”, mas não são. Veríssimo vê a religião com outros olhos, ele possui um encantamento em relação a ternura que os mexicanos sentem pela Virgem de Guadalupe, e entende que toda essa identificação vem do fato de que a virgem, morena, teria aparecido para um índio (chamado Juan Diego na colina Tepeyac).

Em 1960, Veríssimo dizia o mesmo que Castañeda sobre as diferenciações raciais, porém em outras palavras. Para ele, o México era uma nação em que predominava o sangue índio. Ele dizia que cerca de 30% de seus habitantes eram racial e culturalmente índios enquanto a menor parte da população era formada de brancos ou de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis, mas nascidos no México.

Os 10% que eram ou se consideram brancos viviam e pensavam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses relacionavam-se não ao fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social: “Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, é o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país”.

E a relação com os Estados Unidos também é tema para estudo nos dois livros. Veríssimo não deixa de citar a famosa frase de Porfírio Diaz que dizia: “Pobre Mexico, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos”.  Já Castañeda, utiliza a famosa frase em introdução ao assunto: “Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou” Sobre essa relação, os dois autores concordam em um ponto: por parte dos mexicanos, há uma mistura de raiva e admiração.

Mesmo com linguagens tão diferentes, os dois autores se mostram carinhosos e respeitosos em relação ao país, eles não economizam palavras ao falar das cores, da arquitetura, dos pintores, da história e das músicas mexicanas. Muito se pode descobrir através da visão deles e é difícil não se envolver na leitura desses livros.

A AIDS em “Mujer, casos de la vida real”

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Hoje de manhã revi a participação da Helena Rojo no programa “Mujer, casos de la vida real” e mergulhei numa lembrança gostosa sobre a época em que eu era bem novinha, vi este episódio no SBT e fiquei impressionada com a trama. O programa fez um enorme sucesso no México e foi comercializado para vários países, trata-se de rápidos episódios com histórias dramatizadas que abordavam assuntos da vida feminina, alguns bem complexos por sinal (como violência doméstica, aborto…).

A Silvia Pinal era a apresentadora, e o programa ficou no ar entre 1988 e 2007 (contava com a participação de atores e diretores renomados). Lembro que o assistia diariamente, era apresentado pela filha do Sílvio Santos, a Sílvia Abravanel e passava no finalzinho da tarde. De tantos episódios que assisti, o da Helena Rojo foi o único que ficou grudado na memória e vê-lo novamente me surpreendeu muitíssimo, porque certas cenas são extremamente familiares.

Helena interpreta uma estilista cujo casamento caiu na mesmice. O marido vive preocupado com suas ocupações e ela não tem seus desejos correspondidos. Em um diálogo muito interessante, a personagem confronta o marido sobre a vida sexual dos dois e afirma que está há mais de três meses sem fazer sexo. Ainda nesta cena, ela questiona o marido se ele não tem medo da possibilidade de ela transar com seus funcionários (que são modelos e por sinal, mais bonitos e mais jovens).

Quer dizer, ainda que a série tivesse uma pegada mais leve e bem dramatizada, também tinha um tom corajoso e contestador. Falar tão abertamente sobre a sexualidade feminina, ainda mais na década de 1990 e na TV Mexicana, que sempre foi muito conservadora, é um passo e tanto. Realmente acho admirável.

O fato é que depois de ser ignorada pelo marido, ela decide transar com seu funcionário. Logo no início do capítulo nos é confidenciado que o garoto é hemofílico, apontando uma deixa para o que depois, se tornaria o clímax do episódio. Ao longo da trama, a personagem cria uma relação forte com o funcionário a ponto de decidir se separar do marido, é quando o marido adoece e ela acredita que ele está fazendo “cena”, tentando prendê-la no casamento. A verdade vem à tona quando o funcionário confessa que está infectado pelo vírus HIV.

O episódio desmitifica muitos estereótipos da doença e que foram fortemente reproduzidos na década de 1980. Primeiro porque o agente transmissor não é um homem e sim uma mulher, hétero e casada. Lembrando sobre a importância do sexo com preservativo, inclusive no casamento, o episódio também vai contra um estereótipo antigo e ultrapassado: de que a doença está relacionada estritamente aos homossexuais. Quer dizer, se nos foi indicado que o funcionário era hemofílico e heterossexual, nos resta algumas possibilidades que nada estão relacionadas aos gays: ou ele pegou o vírus em uma transfusão, ou usava drogas (seringas contaminadas) ou fez sexo sem camisinha.

No mais, só acho que a série peca ao mostrar o marido moribundo, agonizando antes da morte. Eu realmente não sei como se dava o tratamento à época, mas hoje se sabe que é possível conviver com a doença e levar uma vida normal.

* Muito obrigada ao clube de fãs da Helena Rojo, que sempre compartilham materiais e nos deixam atualizados sobre o que ela anda fazendo. Obrigada mesmo, vocês são demais!

Hasta no verte Jesus mio

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“Esta é a terceira vez que regresso à Terra, mas nunca sofri tanto quanto nessa reencarnação, já que na vida anterior fui rainha.”

Descobri Elena Poniatowska quando me mudei para São Paulo, um de seus livros foi o primeiro que li quando fiz a minha carteirinha na biblioteca pública. Foi paixão a primeira vista, ou a primeira lida. Pra falar a verdade, já tinha ouvido sobre ela em uma entrevista da Daniela Romo, que dizia gostar da sua narrativa. Na época não dei muita atenção até realmente pesquisar sobre a autora, ver suas entrevistas e ler seus livros. Comecei por Hasta no verte Jesus mío, escrito em 1969. Trata-se da história de Jesusa, uma mulher que cresceu e viveu em um ambiente de pobreza, que sofreu inúmeros abusos e proibições (principalmente do pai e do marido) e que mesmo assim, não deixou de se rebelar contra as injustiças sofridas por ela e por seu povo oaxaqueño – isso tudo durante o Porfiriato.

O livro de Poniatowska é um marco na literatura mexicana porque rompe com o oficialismo e apresenta uma narrativa alternativa através de um discurso bastante feminino. É uma obra que presa pela memória e dá a voz representativa, através de um personagem, à uma multidão marginalizada (sofrida, mas não resignada). Gosto especialmente do humor negro, do trabalho respeitoso da autora às tradições e as crenças populares.

Jesusa nasceu e viveu na pobreza, a mãe morreu pouco tempo depois de seu nascimento, ela trabalhou em diversas funções para garantir sua sobrevivência, casou-se sem ter uma paixão fervorosa pelo noivo, sofreu abusos físicos e psicológicos, perdeu-se do marido em plena Revolução Mexicana, falava com mortos e acima de tudo, tinha uma rudeza que mesclava a ignorância com a sabedoria, por exemplo… ela passava horas se ensaboando no rio e se raspando com areia: “E mesmo que estivesse doendo, a questão é que eu precisava matar o microbio”

A amizade entre autora e a personagem

O que mais me encantou na obra não foi só a trama, a narrativa ou a personagem com visível tom feminista. Acontece que além de ser baseada em uma história verídica, trata-se de uma relação de confiança e amizade entre entrevistador e entrevistado. Bom…Poniatowska nasceu em Paris, mas foi naturalizada no México. Começou a trabalhar como jornalista em 1955, entrevistou grandes nomes da figura política e cultural da América Latina. Em 1962 foi assistente do antropólogo Oscar Lewis, que lhe chamou atenção para o jornalismo testimonial (o que ao meu ver, está muito próximo do conceito de novo jornalismo). Foi daí que surgiu a ideia para escrever “Hasta no verte Jesus mío”,

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Um dia Elena estava em uma lavanderia e escutou Josefina Bórquez, que ao que parece, reclamava de alguma coisa… mas com muita sabedoria. A jornalista ficou encantada com a sua linguagem, com seu sotaque e se aproximou. Assim deu início à um trabalho de testemunho, em que visitava Josefina semanalmente para tomar notas de suas histórias, de suas memórias, de suas piadas e crenças.

Elena, que em 2013 recebeu o prêmio Cervantes, deu uma entrevista à CBN e comentou sobre Josefina: “Ela me marcou muito, por ser uma pessoa de caráter e dignidade. Me encantou assim que a vi, assim que conversei com ela. Quando fazia as visitas ela me dizia: você está roubando a minha luz, então vai ter que pagar!. Isso porque eu usava um gravador enorme. Ela era muito valente e me marcou muito, se todos os mexicanos fossem como essa mulher, uma mulher de verdade, estaríamos salvos”

Se vivêssemos em um lugar normal


– Você já foi para a Disney? – Contra atacou Jack

– Claro! O voo saiu do aeroporto internacional de La Chona. Pelo que eu sabia, a Disney era um castelo de fantasia onde o importante era se comportar bem, não importa o que acontecesse ou o que você pudesse ver. As vezes algum Mickey Mouse, quando ninguém estava olhando, levava você para o canto e enfiava o dedo no seu cu. Mas você tinha que ficar quietinho, sem reclamar e sem fazer o mesmo, nada de querer agarrar os peitos da Margarida ou da Minnie, não, porque havia guardas hiperfuriosos que surravam você com o cassetete. Estão vendo? Melhor não falar da Disney na frente dos pobres.

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Ontem terminei de ler mais um livro do Juan Pablo Villalobos, passei praticamente toda a viagem de Minas/São Paulo o lendo. Comentei aqui no La Amora que no mês passado conheci este autor através do livro Festa no Covil e que gostei da sua narrativa, do seu bom humor e de suas ironias. Pois, “Se vivêssemos em um lugar normal” também tem essa pegada, ainda que de uma perspectiva bem diferente.

A história se passa na década de 1980, num México assolado por pobreza e com uma enorme discrepância social, em uma cidade em que “há mais vacas do que pessoas”. O narrador é Orestes, um adolescente que vive junto à sua família em uma casa minúscula e mal acabada que mais se parece uma “caixa de sapato”. Seu pai é professor de educação cívica e moral e sua mãe, dramática, é uma mulher que recusa a própria pobreza e insiste em dizer que pertence à classe média, ou seja, quejuam nega o mundo em que vive. Dentre disputas e ofensas, Orestes e seus seis irmãos aprenderam a sobreviver a base de quesadillas. Como a comida é pouca, um nutre o desejo secreto de que os irmãos desapareçam.

O “equilíbrio” da família é interrompido quando chegam novos vizinhos no morro da “puta que pariu” (onde eles moram). Acontece que a casa dos vizinhos é grandiosa, luxuosa…e Orestes não entende para quê serve uma casa tão grande para uma família com apenas três membros. “Definitivamente somos pobres”.  Em seguida se instala no local um empreendimento imobiliário de alto padrão e a casa da família de Orestes está prestes a ser demolida.

O livro é uma delícia, daqueles que você lê rapidinho e volta para reler as partes mais engraçadas. Ah! E a Polônia também aparece nesta história (junto a elementos fantásticos como alienígenas e melancias psicodélicas). Uma história que se passa no México, mas que com facilidade poderia se passar no Brasil, principalmente por causa da bem humorada descrição da pobreza, dos pobres e sua conflituosa relação com a sociedade.

Alborada

Alborada Há muito tempo deixei de acompanhar novelas. Talvez pela correria do dia-a-dia, ou por falta de paciência. Mas, nos últimos meses, por causa dessa euforia em relação à Daniela Romo, assisti pelo Youtube a novela mexicana Alborada, produzida em 2005 e dirigida por Carla Estrada.

Estou encantada com duas questões: pela grandiosidade da produção (seja o cenário, roupas, estudo de época) e pelo enredo – diferente dos melodramas que estamos tão acostumados, a trama é de uma qualidade inquestionável e de uma brutalidade também.

Lucero é a mocinha. Ela e Fernando Colunga são o casal principal, que passam por uma epopeia para ficarem juntos. Ela Maria Hipólita e ele, Luiz. Mas, diferente da expectativa, Luiz é um homem rude, cheio de defeitos e manias e Hipólita foi mãe solteira, que desistiu de um casamento porque o seu marido era “afeminado”. Estamos falando de uma trama que se passa antes da independência mexicana, por volta de 1800.

Entre cenas de inquisição e escravismo, vemos um México religiosamente fervoroso (e, como em muitos lugares do mundo), repleto de preconceitos (se é assim que posso dizer).  Outra coisa também incrível é a forma que o machismo é retratado, as mulheres não possuem voz, sofrem abusos de todos os tipos e de todos os lados.  E… esteticamente a novela também é incrível, seja pela cenário escuro e cheio de velas, pelas roupas impecáveis ou pelos detalhes. (As cenas de quando eles vão ao banheiro ou tomam banho são realmente sensacionais).


Así es y así será!

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Doña Juana Arellano, a personagem interpretada por Daniela Romo, é incrível. SÉRIO! Viúva, amarga e desleal, ela teve coragem de trocar o filho pelo sobrinho, para garantir que o filho tivesse um título melhor. O problema é que os dois crescem juntos e o tratamento que ela dá para o filho (que, todos pensam que é sobrinho) é bem diferenciado. Deu para entender? Não, né?! Mas ok, há outras coisas mais interessantes: a começar pelo fato de que Daniela estava tão imersa no personagem, que ela mesmo fazia a sua maquiagem, ela escolheu suas roupas e seus penteados. E, mesmo fora dos cenários ou em casa, pedia para ser chamada de Juana.

Outra coisa sensacional é que ela treinou durante meses uma postura para caracterizar Juana. A produtora pediu que ela passasse a olhar para as pessoas debaixo para cima, para acentuar uma imagem misteriosa.

Lucero DanielaRomoJuana morreu de cancrum (ou cancro). Ver a decadência da personagem, antes tão linda e  poderosa, é incrível. Ela não só perde o poder e o dinheiro, como também a saúde. Para isso, Daniela emagreceu dez quilos. [Pois é, essa é uma outra questão super interessante, a forma que retrataram as doenças típicas da época. Diego, o filho da Juana, morreu de sífilis… por exemplo].

Ah, e a Juana tinha empregada que a seguia para todos os lados e era a sua companheira (e cúmplice). Modesta era uma índia (e rolava muita descriminação contra os índios sabe?), mas estava com a Juana há muito tempo, e a Juana fazia com que todos a respeitassem. Ah sim… e eu já ia me esquecendo, a “bengala” que a Daniela usava era de ninguém mais, ninguém menos do que Porfirio Diaz!!

Enfim, a novela é super incrível, recomendo demais…

Amanhã para sempre – parte 2

“We didn’t cross the border, the border crossed us”

Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou.

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Bom, como vocês sabem, gosto de realizar minhas leituras, fazendo algumas anotações… da quais, divido com vocês:

Vê-se que o México se encaixa claramente no grupo de países de renda baixa e média, como outras nações emergentes da América Latina, do Sudeste Asiático, da África e do mundo islâmico, nas quais prevalecem as atitudes tradicionais (…) Nesse sentido, está mais próximo da Polônia e de Portugal do que do que do Peru ou do Paraguai.

Estereótipo x Caráter x Identidade:

Um dos clássicos que citaremos com frequência ao longo deste estudo é Emilio Uranga, considerado em seu momento o homem mais inteligente do México, antes de morrer de tanto beber. Uranga escreveu um texto brilhante intitulado Ensaio de uma ontologia mexicano, de 1949, no qual demonstra precisamente que tal substrato ontológico não existe. O que há são, quando muito, traços característicos de um povo transformados pela interpretação sofisticada dos pensadores clássicos: estereótipos convertidos em caráter.

A identidade nacional é um conceito que define uma nação perante si mesma, de modo ontológico, histórico e com intenções fundamentais: a identidade de uma nação é o que a faz ser o que é. O caráter nacional, por sua vez, tem a ver com o modo como uma sociedade concebe a si própria e como ela é percebida pelos outros.

Individualismo

O México não tem conjuntos musicais nem orquestras mundialmente famosos, mas sua música inundou a América Latina e os Estados Unidos como nenhuma outra do exterior. Seus astros são individuais e sempre atuam assim. É impensável um concerto coletivo de músicos mexicanos – Juan Gabriel, os Tigres del Norte, Luis Miguel, Armando Manzanero, Selena à sua maneira e, muito antes, Los Panchos – como nos festivais brasileiros da década de 1960 até o início da de 1980. Uma versão mexicana do evento de Ravi Shankar e Geroge Harrison em apoio à independia de Bangladesh em 1971, ou os concertos de Sir Bobo Geldof e Bono contra a pobreza na África, ou o esforço conjunto de Peter Gabriel, Sting e Bruce Springsteen pelos direitos humanos e contra a aids são simplesmente inconcebíveis no México. Um remake aguado só ocorre quando as redes de televisão que são as donas dos músicos os instruem para que façam uma apresentação beneficente ou coisa que o valha.

Sobre a Classe Média e o Consumo:

(Cartão de Crédito): Milhões de indivíduos de baixa renda munidos de plástico foram afetados quando as recorrentes bolhas estouraram no mercado financeiro: em 1967, 982, 1987 e, enfim, 1995. Os bancos foram irresponsáveis em distribuí-los como água, os consumidores foram irresponsáveis em aceita-los e em acumular dívidas enormes, e as autoridades reguladoras foram incrivelmente irresponsáveis em deixar que tudo isso acontecesse. Os portadores usavam um cartão para saldar a dívida do outro (como nos EUA), e acabaram mergulhando rapidamente em dívidas impagáveis. Porém, uma vez mais, ao contrário do caso dos televisores, como no dos automóveis, esse fato ocorreu em escala relativamente pequena, e foi varrido pela evolução da classe média.

Mariachi

Vitimização: Há uma lei de ferro na antropologia barata mexicana, com um corolário na política do país. Ela afirma que os mexicanos gostam de se enxergar como vítimas (…). O México como país de vítimas e a política com um esporte em que a pole position, por assim dizer, é o status de vítima: talvez seja essa a feição mais conhecida e mais estereotipada associada à alma e apolítica mexicana. E não é inteiramente falsa.  Nos escritos dos clássicos, por exemplo, Manuel Gamio, Samuel Ramos e Octavio Paz – a vitimização é variedade retratada como o complexo de inferioridade de todos os mexicanos. (…) Em suma, o povo mexicano, mesmo antes de ser mexicano, sempre foi lesado pelos outros  (no lamento de Ramos: “Até agora, os mexicanos, só souberam morrer”, e nisso consiste a natureza de sua máscara (Paz), de seu complexo de inferioridade (Ramos, Ramirez e Uranga), de ser raça pobre e afligida (Gamio) e da infinidade de casos contados acerca da intuitiva associação mexicana a “los vencidos”e não a “los vencedores”.

Os mexicanos evitam o conflito e a competição: O trauma  imposto ao índio pela conquista foi tão grande que anulou suas possibilidades de luta sob a nova cultura, seu único mecanismo de defesa e sua única força foram aceitar o que ele tinha, desconfiar de tudo quanto o espanhol, o criollo ou mestiço oferecesse. O Índio se esquiva do conflito com os elementos culturais encontrados acima deles, sejam amistosos ou agressivos.  Em muitos aspectos, o índio e portanto o mestiço, e aparentemente todo mexicano tinham razão. O confronto sempre foi um mau negócio para eles, desde Montezuma e Cortés até os heróis da revolução, uma vez que todos acabaram assassinados.

Como formulou  Federico San Román, esmiuçando a tese de Santiago Ramirez, essa ausência do pai explica tanto o individualismo quanto a aversão ao conflito do mexicano. Ambos eram mecanismos de defesa construídos para proteger o mexicano abandonado contra um mundo hostil, no qual inexistia o pai protetor. O espanhol procriava com muitas mulheres sem assumir o papel de pai ou marido. Os primeiros mestiços foram criados sem pai e sem família integrada. De modo que que o mexicano, diz San Román, é um ser cronicamente bastardo ou sem pai, cuja bastardia inicial deixa uma marca permanente, e que repete sua história até hoje. Seus olhos estão sempre fitos no passado, no mesmo drama, na mesma traição. Essa traição recorrente, de geração a geração, alimenta a raiva histórica que hoje tem muito mais a ver com a desintegração  da família e a pobreza do que com acontecimentos de cinco séculos atrás.

Amanhã para sempre – parte 1

Encontrei esse livro de bobeira na Fnac e não resisti em comprar. Diferente de tudo o que eu já havia lido sobre o México, “Amanhã para sempre”, apresenta um estudo clínico sobre o país e sua população (calcado em pesquisas científicas, dados e censos – todos bem atuais. O livro foi publicado em 2013). O autor, Jorge G. Castañeda, é um professor de uma das maiores universidade do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. O mais interessante é que neste livro ele confronta diversos clássicos e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Amanhã para sempre

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa (especialmente por causa do uso de termos científicos), o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais ao país, como por exemplo, o narcotráfico, a democracia, a violência e a história.

Castañeda começa sua reflexão reafirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capitulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxerlivro2gam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). Eles são individualistas até no esporte, por isso são os melhores no Golfe ( “Há esporte mais solitário no mundo?”) e não no futebol.  Evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

O traço que ele faz do mexicano, bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve em seu livro ‘México‘, afirma que os mexicanos são aversos à qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas, uma delas está na própria história do país, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Castañeda me ajudou a ter uma visão bem mais clara sobre os mexicanos e seus costumes. Ele explica, por exemplo, que a população já não é tão católica como anteriormente. Hoje, a maioria das pessoas não vão à igreja nem praticam a religião, mesmo que se autodenominem de católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é marcado pelo racismo e pelo preconceito, ainda que tenham uma “mente mais aberta”. Outro detalhe importante é a discussão sobre gênero: as mulheres estudam mais e continuam ganhando menos.

Outro assunto muito discutido é a complexa e problemática relação do México com os Estados Unidos. Que culmina em algo que mistura raiva, admiração e uma ligação de dependência – de ambas as partes, naturalmente, uma mais forte que a outra. livro3

O que mais me encantou no livro foi a problemática que ele constrói sobre a existência (ou não) da identidade da América Latina. Pois é, Castañeda afirma que não existe fatores fortes o suficiente para a existência de uma identidade, para ele alguns quesitos fundamentais para a construção deste conceito simplesmente não são articulados entre os países (como a história, a língua, a composição étnica e o pertencimento).

Enfim...Amanhã para Sempre me fez perceber que os brasileiros e mexicanos possuem mais coisas em comum do que imaginam. Nas palavras do próprio autor, compartilhamos uma cultura comum ainda que não idêntica (não só pela origem, mas também pelo sincretismo e pela mestiçagem). Mesmo assim, ele indica semelhanças como a indústria cultural (novelas, filmes, música), a influência cultural religiosa e a vitimização.

Eu compro essa mulher

Apaixonada com dramaturgia me deparei, na semana passada, com um livro incrível: “Eu compro essa mulher” da Cristiane Costa. A autora, através de uma análise sobre as novelas brasileiras e Eu compro essa mulhermexicanas, realiza uma reflexão sobre o romance e o consumo na dramaturgia. O culebrón mexicano e as produções brasileiras possuem mais aspectos em comum do que muitos imaginam. É através de uma pesquisa profunda e de um texto agradável que Costa consegue fazer com que o leitor compreenda que os dois tipos de produções nasceram basicamente do mesmo “pai”: o folhetim.

Decidi fazer uma série de publicações relacionadas ao livro, cada uma dedicada a um capítulo diferente. Nas publicações, você vai perceber que os temas abordados por Costa também perpassam por questões históricas e literárias.

Mas, por quê Costa resolveu evidenciar esses dois países?

Logo na introdução ela esclarece a dúvida:

“Embora a Argentina, Venezuela e Colômbia também possuam uma indústria vigorosa, com características fortemente locais, optou-se por focalizar a pesquisa no México e no Brasil, os maiores centros produtores de telenovela do continente. A tão propalada natureza melodramática latino-americana é hoje o principal produto de exportação cultura da região. Exibidas em mais de cem países, em lugares tão distantes quanto a Romênia e a China, as telenovelas continuam parando cidades e provocando verdadeiras ondas de comoção nacional. Num mundo globalizado e voltado para o consumo, não é de se estranhar que certos gêneros narrativos se tornem transnacionais. Afinal, os sonhos românticos são praticamente os mesmos.”

Também há uma justificativa para o título. Em 1966 a Rede Globo exibiu uma novela chamada “Eu compro essa mulher”, baseada no melodrama de Glória Magadan. A história foi adaptada pela televisão mexicana (Yo compro esa mujer) três décadas depois e repetiu o sucesso estrondoso. Como e porque esse modelo reverbera na televisão latino-americana? As respostas são muito interessantes e nos permite conhecer mais sobre a nossa história e sobre nós mesmos.

México – Parte 2

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Dando continuidade à publicação sobre o livro escrito por Erico Veríssimo, México, vamos às citações:

 “Quem quer que haja vivido um pouco, deve ter concluído que, assim como existem corpos predispostos à tuberculose, há  almas predispostas ao amor. No primeiro caso basta um golpe de vento. No segundo, uma simples troca de olhares.”

‘Esse país americano, conquistado e colonizado por espanhóis, com uma tremenda percentagem de sangue índio, já teve um imperador austríaco e uma corte francesa.”

“Uma cena me ficou na memória com uma nitidez inapagável. Parados no meio-fio duma calçada, no Paseo de la Reforma, vejo passar o enterro de um bombeiro que se suicidou. Os tambores, cobertos de crepe, estão abafados e soam surdos. Não se ouve seques um  toque de clarim. Atrás dos tambores marcham alguns pelotões. Os solados, de uniforme negro, gola carmesim, crepe no braço, marcham em cadenciado silêncio. E sobre um carro também coberto de preto está o esquife cinzento envolto na bandeira mexicana.  Pla-ra-ta-plan! Pla-ra-ta-plan! Lá se vai o cortejo rumo do cemitério. Haverá outro país no mundo em que um velório seja mais velório, um enterro mais enterro, e a morte mais a morte?”

“Agora o cantor grisalho, ventrudo e cinquentão diz que não vale nada, pois chorando a vida começa e em choro a vida se acaba.”

(Sobre o Barroco Mexicano): “Se os índios fossem capazes de expressão literária, seu protesto escrito teria encontrado pela frente a barreira formidável da Inquisição. Povo plástico por excelência, o mexicano achou sua forma de expressão na arquitetura e na escultura. Mas não teriam os frades percebido a silenciosa, sutil reação? Acho que perceberam e que não só toleraram como também sabiamente encorajaram essas inocentes heresias, como parte de sua técnica de catolização do gentio. Essa “tolerância” continuou através do tempo e culminou na aceitação por parte da Igreja da Nossa Senhora de Guadalupe, a Virgem índia. É aqui em Puebla que se encontram os melhores espécimes do barroco mexicano, do churrigueresco e do plateresco.”

“Minha companheira declara-se fascinada pela sonoridade de alguns nomes mexicanos.Guadalajara…Jalisco…Cuernavaca…Acapulco…Querétaro…Churubusco, Chapingo…Hermosill…Manzanillo…Polanco…Xoxhimilco.”

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“Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, de modo que inventou a semana. Para passar o weekend não sabemos como se arranjou. Agora, segundo dizem, passa o fim de semana em Cuernavaca, que possui um clima privilegiado. Alguns habitantes do México e alguns visitantes do país vizinho são da mesma opinião de Deus.”

(O Povo): “O México é uma nação em que predomina o sangue índio. Cerca de 30% de seus habitantes são racial e culturalmente índios. A menor parte da população, uns 10%, é formada de brancos (sempre escrevo essa palavra com dúvidas e reservas), de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis  mas nascidos no México, e de um bom número de pessoas oriundas de vários países europeus e dos Estados Unidos. Os 60% restantes são mestiços. O índio é o elemento passivo da população, constitui uma espécie de silencioso, imóvel coro da tragédia nacional. Sua capacidade de apagar-se não é apenas psicológica ou sociológica, mas também física, pois por um curioso mimetismo defensivo, como o de certos animais, o índio mexicano como que consegue diluir-se na paisagem.

Jalisco

Jalisco

Os 10% que são ou se consideram brancos vivem e pensam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses não vêm, acredito, do fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social e viverem neste século e nesta hora. Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, isto é, o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país. Compreendê-lo, portanto, será compreender o México.

(A língua): Se o espanhol da zona das Caraíbas tem a doçura e a consistência do melado, o que se fala no México é igualmente fluído e doce, embora muito mais claro. É um castelhano com mel e uma  pitadinha de Chile. Quem quer que tenha ouvido Cantiflas terá uma ideia da fala do mexicano, do povo, com sua entonação musical, sua abundancia de diminutivos, a sua qualidade pirotécnica, e a ênfase em certas vogais.

O que mais me encanta na língua mexicana são os diminutivos, a coisa que o forasteiro menos espera encontrar em boca duma gente com tanta capacidade para a violência e tão pouca inclinação para a ternura. Muitas vezes parei na rua para escutar furtivamente diálogos de gente do povo. Vamos agora imaginar uma rápida conversa entre dois pelados numa pulquería:

 

-Quieres um poço de tequila, amiguito?

-Sí.

-Cuanto?

– Un naditita.

-Un tantito así?

-Eso, gracias hermanito!

– Cuando vuelves a tu casa?

-Lueguito, y tu?

– Nochecita, no más.

 

Para Veríssimo o Mexicano é um ser angustiado:

-Se você tivesse de fazer a psicanálise do povo mexicano, como explicaria essa sensação angustiosa de insegurança e inquietante em que ele parece viver? (…)

– Por causa de um trauma de nascimento que marcou fundamente o inconsciente coletivo deste país, deve ser o responsável por essa neurose de angustia que domina o povo mexicano.

– E como se caracteriza essa angústia?

-Por uma sensação aflitiva de que algo  de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso.

– E como se portou o recém-nascido?

– O índio que  sobreviveu  à Conquista não se adaptou ao ambiente frio  e hostil  criado pelo invasor: desejou voltar ao ventre  materno, isto é , à terra.

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(Morte): No México a morte é uma espécie de concumbina, uma companheira que cada homem carrega consigo por toda a parte e todas as horas. O mexicano exibe sua morte como efeito, uma joia. Diante vem essa atitude diante a morte? Do espanhol não é, porque este, embora tenha seus namoros com a Parca, não a vê sem temor e não deixa nunca de encará-la como um símbolo de aniquilamento, a despeito de seu catolicismo. Acho que o mexicano deve essa tendência ao componente de índio de seu caráter. Para o índio pré-cortesiano, o além-túmulo não prometia torturas ou castigos. Os astecas aceitavam a ideia da imortalidade,. Para eles a força vital continuava depois da morte. O próprio comportamento da natureza não seria indício disso? Não se sucediam as estações? O sol (símbolo da força e da vida), o Sol que desaparece engolido pela noite não tornava a aparecer na manhã seguinte? (…) A morte pois, não significava destruição, mas transformação, era uma fase dum ciclo infinito. A morte, portanto, não é eterna, mas efêmera. É um perene rejuvenescimento da vida. Isso explica a alegria com que caminhavam para a morte aqueles belos jovens sacrificados a Texcatlipoca, o deus da eterna juventude. Os maias chamavam os recém-nascidos “prisioneiros da vida”.

 

Se a morte é a maior fonte de angústia do homem, e se o mexicano não a encara com horror, de onde vem o drama de que está saturada a vida desse povo? Eu diria que vem da própria angústia de viver, da fatalidade da vida. Há uma espécie de morte que o mestiço teme: a morte social, o horror de não triunfar, de não subir, de ficar por baixo, ignorado e sem nome. Se um cristão o ordinário teme os demônios do Inferno além-túmulo, o que o mexicano teme são as forças demoníacas deste mundo cheio de influências  mágicas, em sua maioria maléficas. A morte – parece ele dizer- é certo; o  incerto é a vida.

México – Parte 1

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Você descobre o que é boa literatura, quando lê um livro parecido com México, do Érico Veríssimo.  Desde o surgimento do La Amora, demonstro uma admiração e carinho por esse país, mesmo sem nunca tê-lo visitado (e ainda um pouco longe de fazê-lo). Com a narrativa de Veríssimo e com sua delicadeza e atenção aos pequenos detalhes, fiz uma viagem sem ter, de fato, saído de casa.

Foram dois deliciosos meses de leitura, agregados com a vontade de não terminá-lo. Com um texto claro, dinâmico (dividido em diversos subtítulos) e sensível, Veríssimo construiu um retrato do México dos anos 50 difícil de não se apaixonar (o livro foi escrito em 56/57). O retrato, no entanto, contém um misto de realidade e fantasia que acentuam a percepção de que “Sim, o México é um país mágico”.

A cada descrição (das ruas, do povo, das igrejas, dos museus, da cultura, da religião, dos mitos, da língua…) me senti como se estivesse andando de mãos dadas a Veríssimo, observando junto com ele, todos aqueles monumentos. A viagem se inicia por Juarez e logo é marcada por um acidente. Veríssimo e a esposa decidiram viajar para o México de trem (na época, os dois viviam nos EUA), mas o trem descarrila, ferindo diversos passageiros e deixando os viajantes parados no meio do deserto. Depois de muito esperar, conseguem continuar a viagem e passam por Chihuahua, que segundo Veríssimo, com sua seca e miséria, lembra o nordeste brasileiro.

México

E aqui nos vamos por entre as relíquias, já com essa pressa cretina do turista profissional que não visita os lugares porque deseja realmente vê-los, mas sim porque quer ter o direito de mais tarde dizer aos outros e a si mesmo que os viu”.

Mas Veríssimo não é esse turista profissional, de maneira alguma. Tanto não é que escolhe viajar e conhecer os estados mais distantes da capital, as cidades do interior (Puebla, Cholula, Oxaca, Taxco) porque acredita que é ali que está a verdadeira essência de um povo. E ele não tem pressa, demora, observa os detalhes e os estuda, sem a ânsia de acabar.

Em um grande e encantador capítulo, Veríssimo conta a história do México, defendendo a ideia de que foi nessa época (sangrenta e obscura) em que nasceram duas grandes características propícias do mexicano: o drama e a desconfiança. Em sua concepção, a Conquista foi tão violenta que é possível construir uma metáfora, a atitude dos espanhóis para os mexicanos, através da principal figura: Hernán Cortes é parecida com a de uma pessoa estuprada diante do estuprador, “aquele abusa de maneira violenta e traumatiza da terra virgem”.   

  “Pobre México! Tão lonDiego-Rivera-The-Flower-Carrierge de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

Através de sete colóquios, em que reconstrói  conversas que teve com José Vasconcelos, Veríssimo dá uma pincelada sobre a história mexicana, perpassando pelos momentos mais importantes, como por exemplo, a revolução de 1910. Mas o texto não é só descritivo, é também analítico, crítico. Veríssimo delimita e mapeia o perfil de grandes personalidades (políticos, artistas) e se posiciona sobre cada um. Madero, Zapata, Pancho Villa, Victoriano Huerta, Carranza e artistas como  Orozco, Diego Rivera, David Alfaro Siquieros – Todos tem seu lugar na obra.

Mas é o povo que encanta Veríssimo, é o índio, o mestiço, as mulheres, os meninos, as cores, as igrejas, a fé. O autor analisa e descreve aspectos que para ele são os de identificação do mexicano, seja o patriotismo, a relação com a morte, língua, as gírias, a Virgem de Guadalupe. Ele sente e percebe o mexicano pulsante, aquele que está longe do idealismo.

Na segunda parte, reproduzirei algumas citações interessantes. E aqui, no vídeo abaixo, coloco uma das músicas que Veríssimo escutou logo que chegou no México, uma música que, por sinal o deixou inquieto. Conta a história de um homem (o preso número 9) que descobriu a traição da mulher com o melhor amigo e acabou os matando. O preso número  9 está prestes a ser executado. Ele, no entanto, não demonstra raiva ou medo, pelo contrário: está satisfeito. Porque conseguirá perseguir os amantes por toda a eternidade.