Eu li e me arrepiei!

 

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Tenho uma profunda admiração por Drauzio Varella especialmente pelo respeito e humanidade que ele possui em relação aos seus pacientes. Gosto de ler seus artigos, assistir seus vídeos no Youtube e me informar sobre os projetos que desenvolveu no Brasil em relação à AIDS.  Do pouco que conheço sobre assuntos de saúde, me admira a maneira em que ele trabalha com uma linguagem simples e acessível, de forma em que se coloca de igual para igual diante do espectador. Recentemente (para ser mais precisa, ontem à noite), terminei de ler “Carcereiros”, livro lançado em 2011 onde o médico narra algumas de suas experiências em presídios. Dentre elas, a sua experiência de voluntariado no Carandiru.

O livro possui um forte tom jornalístico e uma narrativa dinâmica, cheia de diálogos. Além de um registro de memórias, é também uma obra de denúncias sociais. Foi um livro que me fez refletir sobre questões que nunca parei para pensar, porque de alguma forma, estão distantes do meu cotidiano. Drauzio deu rosto e nome aos carcereiros, que realizam um trabalho dificílimo, de muita importância social e que não recebem o devido reconhecimento.  É incrível como esses homens e mulheres colocam a vida em risco diariamente, como eles acabam se “endurecendo” com a rotina, como se dividem em dois mundos muito diferentes e igualmente cruéis.  Imagine ter que viver grande parte do dia em um local onde, do outro lado das grades, estão ladrões, assassinos e estupradores. Seres-humanos vivendo em situações degradantes, em celas superlotadas e anti-higiênicas. Fora o sistema que é extremamente corrupto e o jogo (enlouquecedor) de caça entre gato e rato.

Durante a narrativa, Drauzio vai misturando alguns acontecimentos com a história dos carcereiros. Como o do casal que resolveu deixar de trabalhar na prisão e abrir um bar, até serem assassinados. Ou o carcereiro que se envolveu com a mulher, estelionatária, de um dos presos e passou a ser perseguido por ela. As histórias são muito marcantes e talvez a que tenha mais me agradado seja a da negociação entre um diretor e dois presidiários – que se rebelaram dentro da cadeia exigindo a transferência para outro presídio (se ficassem onde estavam, seriam assassinados). Mas nessa narrativa, há muita obscuridade (tanta que me tirou o sono). Por exemplo:  em um momento, o autor descreve quando encontrou um corpo extremamente ensanguentado com perfurações no pescoço ou o tratamento que os presidiários recebem na ala psiquiátrica.

É um livro que absolutamente me ajudou a ver o mundo de outra forma, além das fronteiras  em que vivo. Há muito mais do lado de lá, e nem tudo é tão bonito quanto imagino. O ser humano pode ser extremamente cruel…

 

Peixe morto

463-20150721180302Não sei dizer o que senti enquanto lia este livro. Uma curiosidade me impedia de abandoná-lo ao mesmo tempo em que certo asco me fazia não querer acabar de lê-lo. Algo me incomodou profundamente na história e com sinceridade, não sei dizer muito bem o que foi. Ao mesmo tempo, a ambientação me provocou um acalento por causa da saudade que sinto de Minas (principalmente por ser ambientada em alguns lugares que sempre gostei de passear). Então, eu realmente não sei dizer se gostei ou não do livro (o que é meio estranho…).

A trama, que tem um assassinato com tema principal, é cheia de jogos de sedução e mistério. Todos os dias pela manhã, um professor universitário caminhava pela Lagoa da Pampulha, até se deparar com um corpo de um homem boiando. Os detalhes do crime chocam, afinal o homem estava com a boca cheia de acarás (peixes) e com a pele do tronco arrancada desde a base do pescoço às axilas. Não bastasse, o professor conhecia o cara assassinado e por um motivo muito especial, poderia facilmente ser incriminado.

A história se mistura em duas narrativas e a construção delas é como um quebra-cabeça. Os capítulos são nomeados por datas e horas diferentes e ainda há um diálogo epistolar de um fato que se passou antigamente (e que também envolve: peixes e taxidermia).

 

Home

Há dias penso em escrever esse texto, mas a falta de tempo me impede de fazê-lo. Outro dia, antes de dormir, me peguei pensando sobre o meu avô e no fato de não tê-lo conhecido. Quer dizer, o conheci através das histórias que me foram contadas e pelas fotos.  Eu tenho uma mãe extremamente carinhosa, criativa e cuidadosa e tenho certeza que muito do que ela é hoje, é um reflexo do que ele a ensinou. Portanto, ainda que não o tenha conhecido, imagino que tenha sido um homem correto, atencioso e inteligente. Minha mãe diz que ele era muito sério e habilidoso, ela fala dele com tanto carinho…. e é esse carinho que sinto, uma espécie de “saudade” de alguém que nem conheci. Mesmo depois de vinte anos de sua ausência, meu avô está presente em nossos corações, em cada cômodo da casa que ele construiu com as próprias mãos, nas plantas que cultivava com tanto carinho. Imagino ele no terreiro, cuidado das laranjas ou no seu pequeno escritório, construindo os brinquedos dos filhos ou conversando com a minha mãe na mesa da sala. Imagino ele sentadinho em frente à TV, assistindo os desfiles da escola de samba, imagino ele sorrindo e sendo o pai maravilhoso que a minha mãe tanto descreve.  Sonhei com ele outro dia, não vi o seu rosto, mas senti uma energia maravilhosa.

Feliz Dia dos Pais, Vô Geraldo.

O terceiro sinal: um monólogo sobre as experiências de um ator não profissional em sua primeira peça de teatro

Dentro de alguns minutos, sem nenhuma experiência prévia, tendo decorado o texto na última semana e tomado parte em apenas três ensaios, sem ser nem desejar me converter num ator, eu estaria me apresentando diante de uma plateia pagante num dos teatros mais mitológicos do País, sob a direção do mais histórico de seus diretores”.

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 O lançamento da Companhia BR 116 aconteceu há seis anos, em julho de 2010. A parceria entre a atriz mineira Bete Coelho e o ator baiano Ricardo Bittencourt trazia a experimentação como proposta chave do projeto, a ideia era permitir que atores trabalhassem tanto na direção quanto na roteirização de suas peças. Celebrando o início dessa caminhada eles se uniram para criar “O terceiro sinal”, uma obra com tom autobiográfico e cheia de metalinguagens.

Este trabalho inspira muitas reflexões, especialmente por se tratar do teatro falando do teatro. De início, cabe analisar a concepção da companhia. Quando a criaram, os atores pensavam em uma maneira de não dependerem tanto de patrocinadores.  Na época, Ricardo Bittencourt chegou a explicar para o jornal Estadão que a peça não recebeu patrocínio: “Estamos fazendo sem patrocínio, como um hino de amor nosso ao teatro e uma forma de a gente estar vivo, atuando, enquanto companhia, enquanto realizadores. ”

Em seu livro, “Iniciação ao teatro”, Sábato Magaldi dedica o capítulo “A Empresa” para falar exatamente sobre a importância da organização financeira das companhias e explica que ela é fundamental para manter a peça em cartaz. Neste processo, muitos artistas e estrelas acabam por se transformar em empresários, que se dedicam quase que integralmente às tarefas executivas. O autor ainda afirma que muitas companhias surgem não só como um empreendimento, mas como a possibilidade que o artista encontra de imprimir sua personalidade a seu trabalho.

Bete Coelho chega a dizer que o teatro é o primo pobre das artes e quem se entrega a esses projetos precisa se preparar porque não vai ficar rico. Magaldi reforça essa concepção em seu livro, dizendo que a atividade cênica nunca foi compensadora do ponto de vista financeiro, ainda que existam alguns exemplos isolados de pessoas que conseguiram fazer fortuna com a exploração do teatro: “Ao lado deles, numerosos outros crivam-se de dívidas, e terminam seus dias com a mesma insegurança do início, Só a vocação justifica a persistência de indivíduos que se sacrificam no teatro e que, fora dele, pelo talento, encontrariam ao menos a tranquilidade material.”

Sobre a peça: Em cena, um jornalista extremamente inseguro relata os momentos de nervosismo e aflição antes de entrar no palco pela primeira vez. A peça foi inspirada no livro “Queda Livre”, de Otávio Frias Filho.  No livro, cujo subtítulo é “Ensaio de Risco” o autor narra sete aventuras que viveu; experiências radicais como uma viagem ao coração da selva amazônica (onde ele bebe o chá alucinógeno do Santo Daime) ou como a sua incursão no mundo do sexo transgressivo: swing, orgias e sadomasoquismo. Dentre as experiências radicais, ele conta como foi participar de “Boca de Ouro”, dirigida por José Celso Martinez Correa em 2000 – isso depois de ensaiar apenas três vezes.

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    Otavio é interpretado por Bete, que se apresentava com o cabelo bem curto, com um terno cinza e uma gravata borboleta.  Além dela, há apenas uns panos escuros e algumas projeções que são inseridas ao decorrer do monólogo. É dado o terceiro sinal e o jornalista precisa entrar em cena, logo a sua insegurança fica visível e ele, tremendo, começa a contar como foi parar naquele lugar e como se preparou para a grande data: a estreia.

A grandiosidade na proposta desse trabalho é a capacidade analítica do personagem, que como um estranho no ninho, observa criticamente tudo o que está em sua volta. Ele se deslumbra com a naturalidade em que os atores se transformam, ele relata as dificuldades em se locomover em um palco nada convencional, comenta sobre as ordens enérgicas do diretor e analisa sua função como crítico e escritor de peças teatrais.

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A peça tem diversos momentos de humor, onde o personagem ri de si mesmo. Como quando ele narra o quase escorregão que leva no palco, que estava molhado. Ou quando comenta das incontáveis vezes em que verificou em seus bolsos os acessórios que deveria usar em cena: um jornal, um cigarro e um revolver.

A tensão psicológica do ator é um dos pontos analisados por Magaldi. Para ele, essa tensão confere ao ator uma individualidade distinta e não muito raro, leva-o a uma neurose.  Para interpretar a peça, eles podem correr o risco de transferir para a vida privada certos sentimentos que são dos personagens, por isso, antes de qualquer coisa, o ator precisa de certa contenção para estabelecer um equilíbrio satisfatório entre a vida artística e a pessoal.

Em “O terceiro sinal” Otávio defende a importância de o crítico estudar teatro, compreender o tema das peças que escreve e redigir um texto com clareza. Por outro lado, na postura de ator, ele se questiona sobre a complexidade de dizer certas palavras e em transmitir o sentido delas para o público. Então, na peça, o personagem narra as reuniões que teve com Bete Coelho e Giulia Gam para aprender a falar mais claramente. O interessante é que o que para elas parecia um exercício simples, para ele era quase um inferno. Afinal, ele se dizia bom com a escrita, mas não tanto com a fala. E além de tudo, sua timidez o desconcentrava.

 Neste ponto, as observações realizadas pelo personagem vão de encontro ao que Sábato Magaldi defende, para ele a palavra é um dos múltiplos instrumentos que podem ser utilizados para causar um maior impacto no espectador:

O ator comunica-se com o público por meio da palavra, instrumento da arte literária. Embora alguns teóricos desejem menosprezar a importância da palavra na realização do fenômeno teatral autêntico, sua presença não se separa do conceito do gênero declamado. Para o ator, entretanto, a palavra é um veículo que lhe permite atingir o público, mas não se reduz a ela a interpretação. Sabe-se que o silêncio, às vezes, é muito mais eloquente do que frases inteiras. A mímica ou um gesto substitui com vantagem determinada palavra, de acordo com a situação. Postura, olhar, movimentos – tudo compõe a expressão corporal, que participa da eficácia do desempenho. (MAGALDI, P. 4.)

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 Mais um momento brilhante de metalinguagem ocorre quando o personagem conta como foi a sua experiência em ver a sua amiga, atriz, em uma peça. De repente, ela começa a chorar desesperadamente e ele se lembra da frase de Diderot:  “As lágrimas do comediante escorrem de seu cérebro; as do homem sensível jorram de seu coração. ”. As lágrimas daquela atriz estariam escorrendo do cérebro ou jorrando do coração¿, pergunta. (Mais tarde, nos é confidenciado que Otávio assistia Bete Coelho na peça Cacilda!).

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Enquadramento: Em seu livro, Magaldi ajuda-nos a compreender certas classificações feitas em relações as peças (sejam elas de teatro romântico, realista, naturalista, simbolista, expressionista, surrealista, futurista, dadaísta…). Dentre as indicadas, acredito que O Terceiro Sinal se enquadra na classificação de “Teatro do Oprimido”, ainda que não exatamente.  Afinal, como explica o autor, este modelo faz do objeto um sujeito:

“Através dessa transformação, ajudar o espectador a preparar ações reais que o conduzam à própria liberação, pois a liberação do oprimido será obra do próprio oprimido, jamais será outorgada por seu opressor” (p. 83). Um grupo ensaiado desencadeia uma ação que, não se apresentando como teatro, estimula a participação dos circunstantes, levando-os a figurar nela na qualidade de verdadeiros agentes. Processa-se inicialmente a conscientização de um problema, e parte-se dai para modificar a realidade opressora.” (MAGALDI, P.59).

 Ainda que o personagem principal não tenha sido levado a participar da peça por causa de uma ação exterior (ou seja, ele foi por sua vontade), cabe lembrar que como ator não profissional ele possui inúmeras dalas onde se posiciona como “espectador”.

[1]  Esta é a primeira fala da peça e também a primeira sequência do ensaio publicado no livro.

Referências:

MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. (Arquivo não datado). [Acesso 10.07.2016] Disponível através do link: www.passeidireto.com/arquivo/6050117/magaldi-sabato—iniciacao-ao-teatro/1

FALCÃO, Letícia (2015):  A crítica teatral na escrita da história do teatro brasileiro: possibilidades para um debate interdisciplinar. XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis. [Acesso 10.07.2016] Disponível através do link: :http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1427739221_ARQUIVO_Leticiatextocompleto.pdf

KÁTIA, ANA. (2010):  Monólogo marca a estreia de grupo teatral de Bete Coelho. Jornal Estadão. [Acesso em 10.06.2017] Disponível através do link: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,monologo-marca-estreia-de-grupo-teatral-de-bete-coelho,584679

México, um país em dois olhares

mexicoAs obras de dois autores inspiraram a linha comparativa deste trabalho, eles tiveram a coragem de se aventurar a estudar o México, sua história e o comportamento dos mexicanos. Um deles foi Érico Veríssimo, que publicou o livro “México” em 1960. O outro foi Jorge G. Castañeda, autor de “Amanhã para sempre”, de 2013.

É curioso como a visão dos dois se assemelha em alguns quesitos e por vezes, se distanciam abruptamente em outros casos. Naturalmente há o distanciamento do tempo em que os livros foram escritos, mas leva-se também em consideração a linha narrativa. Enquanto o livro de Veríssimo é um romance com forte tom poético, o livro de Castañeda apresenta uma linguagem mais científica e um estudo sobre o conceito de identidade nacional. Jorge G. Castañeda é professor de uma das maiores universidades do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. Em seu livro, ele confronta diversos clássicos, autores (como Octavio Paz) e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX (e dentre suas obras famosas, cabe citar a trilogia de O tempo e o vento).  Ele realizou sua terceira viagem ao México em 1955, ao lado de sua esposa, Mafalda. Na época, dizia enfrentar um bloqueio criativo por causa da vida burocrática que levava nos EUA, ele ocupava um cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington.

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa, o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais sobre o país, como por exemplo: o narcotráfico e a violência.

Castañeda começa sua reflexão afirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capítulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxergam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). De acordo com o autor, os mexicanos são individualistas inclusive no esporte, por isso são os melhores no Golfe  e não no futebol.  Eles evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

 O perfil que o autor faz do mexicano é bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve. Por exemplo: Castañeda afirma que os mexicanos são avessos a qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas para esse comportamento, uma delas está na própria história do México, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Para Veríssimo, o mexicano é um povo que foi traumatizado em seu nascimento e isso marcou o inconsciente coletivo do país, por isso vivem sempre angustiados “por uma sensação aflitiva de que algo de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso e o índio que sobreviveu à Conquista não se adaptou ao ambiente frio e hostil criado pelo invasor, ele desejou voltar ao ventre materno, isto é, a terra.”

Sobre os mexicanos e seus costumes, Castañeda explica que a população já não é tão católica como muitos pensam. Hoje, a maioria deles não vai à igreja nem vivem a religião, mesmo que se autodenominem como católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é extremamente marcado pelo racismo, pelo preconceito e pelas lutas de classes. Eles se dizem “mente aberta”, mas não são. Veríssimo vê a religião com outros olhos, ele possui um encantamento em relação a ternura que os mexicanos sentem pela Virgem de Guadalupe, e entende que toda essa identificação vem do fato de que a virgem, morena, teria aparecido para um índio (chamado Juan Diego na colina Tepeyac).

Em 1960, Veríssimo dizia o mesmo que Castañeda sobre as diferenciações raciais, porém em outras palavras. Para ele, o México era uma nação em que predominava o sangue índio. Ele dizia que cerca de 30% de seus habitantes eram racial e culturalmente índios enquanto a menor parte da população era formada de brancos ou de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis, mas nascidos no México.

Os 10% que eram ou se consideram brancos viviam e pensavam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses relacionavam-se não ao fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social: “Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, é o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país”.

E a relação com os Estados Unidos também é tema para estudo nos dois livros. Veríssimo não deixa de citar a famosa frase de Porfírio Diaz que dizia: “Pobre Mexico, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos”.  Já Castañeda, utiliza a famosa frase em introdução ao assunto: “Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou” Sobre essa relação, os dois autores concordam em um ponto: por parte dos mexicanos, há uma mistura de raiva e admiração.

Mesmo com linguagens tão diferentes, os dois autores se mostram carinhosos e respeitosos em relação ao país, eles não economizam palavras ao falar das cores, da arquitetura, dos pintores, da história e das músicas mexicanas. Muito se pode descobrir através da visão deles e é difícil não se envolver na leitura desses livros.

Minha vida sem banho

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Escolhi esse livro pelo título, fiquei extremamente curiosa com a descrição e sobre o desenvolvimento da história. Li o livro em menos de uma semana e definitivamente, fiz uma boa escolha: me emocionei e me diverti com a história. “Minha vida sem banho” foi escrito em 2014 pelo jornalista Bernardo Ajzenberg. Na trama, Célio é um homem que, de repente, não toma banho por conta do aquecedor quebrado. Porém, ao longo dos dias, ele vai repetindo a ação… ele simplesmente decide não tomar banho mais. A narrativa vai se misturando com outras vozes e histórias, pois além de Célio, há as correspondências de sua namorada (que acabou de realizar uma viagem) e a narrativa sobre a história dos pais de Célio (com um suspense delicioso).

Numa das resenhas que li por aí, diziam que a grande metáfora para a ausência dos banhos seria nossa mania destrutiva de sempre protelar algo que necessita ser feito. Eu encarei o lance mais como uma “acumulação” das marcas que a vida deixa, acho que o personagem estava mesmo era depressivo pela ausência da namorada, pela vida sem sentido e por causa da relação com os pais. E aí, as coisas que ele vivia (as dores, decepções) ficavam impregnadas em seu corpo como a sujeira fica quando não se toma banho. Viajei, né?

A história vai ficando cada vez mais legal no decorrer dos dias, quando ele começa a feder e a sentir coceiras em lugares impróprios. As pessoas fingem não perceber a ausência dos banhos, até que a situação fica insustentável. Outro detalhe que amei é que a trama é ambientada em São Paulo. Tem um ano que moro aqui e toda vez que ele citava um lugar eu ficava me perguntando se conhecia ou se já tinha visitado.

Montserrat Caballé (não consigo parar de ouvir!)

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A minha cabeça entrou em parafuso desde que a ouvi essa mulher cantar. De ontem para hoje, de repente, não consigo para de assistir os vídeos dela no Youtube ou de procurar por sua biografia. Eu já a conhecia há muito tempo, por causa da música “How can I go on”, cantada por ela e pelo Freddie Mercury, mas nunca parei para repará-la. Lembro que eu amava dirigir pelas estradas de Nova Lima com essa música no volume mais alto, enquanto eu fingia ser a Montserrat e o seu amigo, Leo, fingia ser o Freddie Mercury.

Enfim… ontem fiquei alucinada pela capacidade vocal dessa mulher, pelos seus movimentos no palco e fiquei reparando até na forma em que ela mexia a língua em determinado momento da canção, resumindo: pirei. Fiquei encanta por sua força, por sua beleza e opor sua segurança. Infelizmente encontrei poucos textos sobre ela, mas li algumas coisas que valem ser compartilhadas. 

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Montserrat nasceu em abril de 1933, é considerada uma das mais famosas cantoras líricas de todos os tempos.  Originou-se de uma humilde família espanhola. Aos onze anos entrou para o “Conservatori Superior de Música del Liceu”, em Barcelona;  lá iniciou seus estudos em canto. Formou-se em 1954 sendo eleita uma das melhores alunas. O início de sua carreira foi modesto, mas ela já chamava atenção por escolher repertórios pouco frequentes para cantoras espanholas, como Mozart e Strauss. Em 1965 sua vida deu uma guinada, parece até coisa de filme, mas ela estava no Carnegie Hall quando teve que substituir Marilyn Horne na ópera Lucrezia Borgia, de Donizetti. Horne sentia-se mal, então… Montserrat assumiu o seu lugar naquele dia. Sua atuação lhe rendeu 25 minutos de aplausos ao término de uma representação e um dos mais importantes críticos nova-iorquinos titulou lhe deu o apelido “Caballé” (Callas  + Tebaldi).

“A partir desse momento, Caballé ficou conhecida como uma das grandes divas da ópera mundial e a fama lhe gerou vários anos de teatros lotados para assistir às suas apresentações. Hoje tem em discos uma variedade enorme em estilo e repertório que estão em mais de 130 gravações”

*Além de suas línguas maternas (catalão e castelhano), ela também fala alemão, francês, inglês, português e italiano perfeitamente.

 

*Durante o século XX, somente um pequeno número de cantoras foi capaz de desempenhar o papel de Norma (de  Vincenzo Bellini) com sucesso: Rosa Ponselle, no início da década dos anos 1920, depois Joan Sutherland, a partir da década de 1960, Montserrat Caballé e Maria Callas.

*Recentemente (no ano passado) ela foi condenada a meio ano de prisão por fraude fiscal. De acordo com a matéria publicada em O Globo: “Segundo a acusação da promotoria de Barcelona, Montserrat “solicitou que diversos shows realizados no exterior, em 2010, fossem pagos a uma empresa em Andorra, como se tivesse residência nesta país, quando, na verdade, vivia em Barcelona”. No último mês de maio, a soprano já tinha devolvido, na íntegra, o valor reclamado pelo fisco. Segundo o portal espanhol “El País”, fontes próximas a cantora relatam que, por conta da idade avantajada, o estado de saúde de Montserrat não é bom. Ela praticamente não sai de casa e o problema judicial teria abalado ainda mais sua condição. Em 2012, ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) durante uma visita a Rússia”

A história de uma vaca rebelde

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Confesso que há muito não lia algo tão criativo e divertido. O livro é narrado em primeira pessoa e não tem compromisso nenhum com a realidade. A personagem principal, Elsie Bovary, é uma jovem vaca acostumada com a vida calma no pasto  e cheia de inquietações. Dentre inúmeros pensamentos, ela sempre se pergunta sobre o desaparecimento de sua mãe. Um dia, ela resolve se aproximar da casa dos humanos, donos da fazenda, e percebe que todos eles ficam horas vidrados em suposto deus que vive numa caixa. A caixa é uma TV e ao observá-la descobre que há uma série de possibilidades, culturas e crenças que vão além daquele pequeno mundinho em que vive. Mesmo com toda inverossimilhança, a narrativa construída por David Duchovny é tão encantadora que você se deixa levar e a tradução é tão perfeita que as pequenas piadas escondidas no texto não perdem o sentido. Duchovny é um ator hollywoodiano e sua experiência provavelmente o ajudou a escrever um livro quase como um pequeno roteiro, cheio de diálogos e passagens divertidíssimas.

Amor a toda prova

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Kathy Bates é uma das atrizes americanas que mais me inspira, eu sempre fico me perguntando sobre como ela conseguiu se sobressair num ambiente que valoriza tanto a magreza. Acho que não só o conseguiu por seu talento, identifico uma coragem e uma autenticidade na personalidade dela. Então eu sempre assisto seus filmes cheia de admiração e respeito e de certa forma, me emociono com os trabalhos mais singelos.  Amo mais ainda quando ela interpreta papéis de mulheres comuns, donas de casas desiludidas que sofrem uma reviravolta na vida, como nesse filme,  uma delícia de comédia! Acho que quando esses personagens são interpretados por um atriz como Bates, que foge dos esteriótipos, eles se tornam mais verossímeis.

Amor a toda prova é um filme descompromissado, engraçadinho e açucarado. Uma ótima opção quando não se tem nada para fazer ou quando se quer melhorar o astral. O filme conta a história de Grace, a fã número um do cantor Victor Fox. Ela vê seu mundo desmoronar quando ele é assassinado misteriosamente.  Grace não tem um casamento feliz e convive com sua nora, uma mulher extremamente inteligente e independente  que sofre inúmeros preconceitos pofilmes_9186_Amor a Toda Prova04r ser anã. As aventuras dessa mulher se iniciam quando ela resolve prestar suas condolências à família de Victor e sem querer descobre que o cantor assassinado era gay e que se esposo (mal humorado e depressivo) vive em sua casa.

Os dois se estranham de início, mas se comprometem a encontrar o responsável pelo assassinato de Victor. Daí começa uma jornada cheia de momentos engraçados e emocionantes, principalmente porque Grace tinha a imagem do artista, enquanto Dirk (o esposo de Victor) o conheceu como ser humano normal, cheio de defeitos como qualquer outra pessoa.  O jeitão do Victor Fox, interpretado por Jonathan Pryce me lembrou muito o Liberace, sabe? Eu achei sensacional.