A vilã de Wentworth: Joan Ferguson

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Estou apaixonada pela Joan Ferguson (é minha personagem favorita do momento!). Descobri Wentworth pelo Filmow, numa lista sobre séries “alternativas” e não americanas que merecem atenção do público. Fiquei tão viciada que assisti a série sem pausa, foram madrugadas em claro com muita ansiedade para descobrir os novos acontecimentos – e olha, eu estava na reta final do TCC, portanto, escrevia duas páginas do trabalho e assistia um capítulo. Se eu pudesse definir, diria  que a Joan é uma psicopata sádica (e genial). São tantas as crueldades que ela comete em relação aos colegas do trabalho e às detentas, que fica difícil imaginar seus próximos passos.   

A “Freak” (como foi apelidada pelas detentas), antes de qualquer coisa, é uma jogadora inteligentíssima e não mede esforços para enganar os outros em troca de poder e benefícios. Em uma entrevista, Pamela Rabe (a atriz que interpreta o personagem) fez algumas observações: “Joan é extraordinariamente forte. altamente fundamentada, muito exigente, alguém que acredita que os fins justificam os meios – todos são dispensáveis. Eu acho que ela está totalmente convencida de que ela faz as coisas pelo motivo correto, ela absolutamente exige fidelidade. E também gosta de extrair os fatos das pessoas.” (e gosta mesmo, mas através de umas formas bem violentas).

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A personagem surge no primeiro capítulo da segunda temporada e sua aparição é um divisor de águas na cadeia. Diferente de todas as outras governadoras, ela tem uma postura militar em suas relações profissionais e comanda Wentworth com mãos de ferro. Ela é dominadora, fálica, misteriosa, decidida e com uma sexualidade indefinida. O que é muito interessante, pois o tema já foi assunto para algumas reportagens: o toque andrógeno é também uma estratégia de caracterização – (da mesma forma, a gravata, a ausência da maquiagem e dos brincos). Como se sabe, a série fala abertamente sobre homossexualidade feminina e Joan, em especial, é um personagem com um “passado sexual obscuro”. (Dentre os mistérios, não se sabe muito bem sobre a relação amorosa dela com uma detenta ou sobre os possíveis abusos que sofreu do pai).

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Wentworth é baseada na série Prisoner Cell Block H, transmitida na Austrália entre 1979 e 1986 (a série foi um sucesso, com mais de 600 episódios e pode ser encontrada no Youtube). A Joan Ferguson “original”, interpretada por Maggie Kirkpatrick, também teve um romance com uma das detentas e era igualmente sádica. As luvas são marcantes e existem desde a primeira versão, Joan sempre as coloca quando decide cometer alguma maldade, e por isso, se tornou um símbolo do poder da governadora.

Há muito tempo não encontrava uma vilã que me chamava tanto atenção. Ela é muito má (muito mesmo), e a gente só vai descobrindo isso aos poucos. Mas Joan é também engraçada: ela possui uma fixação absurda por limpeza e adora “jogar” com as palavras. Existe por aí na internet um time que torce para que ela tenha uma relação amorosa com Vera, sua “assistente” (e as teorias são muito divertidas!).

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Eu gosto mesmo é do choque, de ver os personagens em situações de deixar o coração palpitando. Ouvi várias entrevistas da Pamela Rabe e achei demais quando ela disse, no início da série, que faria o que fosse preciso. E ela fez mesmo… as cenas do chuveiro são impactantes! E a do dentista nem se fale. (já escrevi sobre essa cena aqui)

Portanto temos uma junção bem boa de: drama, suspense e comédia.E umas reviravoltas absurdamente interessantes! [SPOILER] Todas as reviravoltas em sua história são fundamentais para descobrir o quão rico é o personagem. Joan, que chegou a ser a principal diretora de Wentworth, passa a ser uma detenta comum. Ela, que tinha uma das maiores políticas contra as drogas, passa a ser a principal contrabandeadora, a “Top Dog” e trava uma batalha contra a Vera, aquela que achávamos que teria um relacionamento amoroso!

Resumindo: eu sei que essa publicação ficou meio sem sentido, acho que eu disse muito, sem dizer nada. A verdade é essa, eu tô apaixonada pela série e não consigo parar de assistir! Fica a dica para quem se interessar, é muito legal! (Prometo que, futuramente, vou fazer uma publicação mais interessante sobre o assunto).

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O dia em que Joan Ferguson arrancou a língua de Juicy Lucy

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Ainda estou sem fôlego por causa do último episódio de Wentworth. A ascensão de Joan ao cargo de Top Dog não poderia ter sido tão triunfal (e sangrenta). Com o histórico de atrocidades que Joan carrega, não seria difícil imaginar que estivesse planejando alguma vingança. Ainda que a frieza e a inteligência do personagem sejam características marcantes, sua atitude no último episódio, tão drástica e bem calculada, chocou até o mais atento espectador. O que me encanta no “Freaky”, mais que sua calma desconcertante, é o toque de humor negro e absurdo que a faz ser tão deliciosamente maquiavélica. Da mesma forma, Juicy carrega consigo um ar de deboche que nos faz rir de situações que, em diferente contexto, poderiam ser retratadas de maneira extremamente dramática.

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A tensão entre Juicy e Joan é antiga, desde os tempos em que a então “governadora” travava uma batalha contra a entrada das drogas na cadeia.  Eu achava que o ápice dessa relação teria acontecido naquele momento em que Juicy e seu grupo encurralou Joan no banheiro e a estuprou de uma maneira tão violenta que a deixou sangrando e sem andar por dias. Eu achava… até que Joan, sorrateiramente, deu um jeito de se passar por dentista, drogar Juicy e arrancar sua língua. As coisas não aconteceram assim, tão rapidamente. Joan foi estuprada no terceiro capítulo da quarta temporada e apenas no sexto capítulo da quinta temporada é que a vingança foi concluída. Ou seja, levamos aí um ano e tantos meses para o tão surpreendente acontecimento.

A construção do episódio me deixou de queixo caído. A primeira cena, em que Joan está no dentista, já indica que algo grande vai acontecer. A ideia de fazer Joan dormir na cadeira do dentista, de tão relaxada, é quase uma dica para o espectador, como se os autores da série falassem: “essa mulher é tão diferente e anormal, que consegue relaxar em um lugar em que a maioria das pessoas ficam tensas”.  De repente, todas as suas relações são articuladas com as da Vera, mostrando que desde o momento em que foi presa, Joan não se esqueceu de sua principal inimiga.

Sally-Anne Upton, a atriz que interpreta a Juicy, contou que a famosa cena demorou 7 horas para ser filmada. Ela também disse que ficou extremamente preocupada com o fato da personagem perder a língua: era uma de suas características, ela adorava sair andando pelos corredores, mostrando a língua para outas detentas para indicar que era uma predadora sexual: “Eu fiz algumas pesquisas sobre línguas. Descobri que nove em cada dez pessoas que sofrem um acidente como esse, morrem. A língua é extremamente vascular. Cheguei a ler um artigo sobre um homem que teve a língua cortada porque ele sabia demais… Ele contou que foi a coisa mais dolorosa que sentiu, mas que ele não podia gritar, não podia vocalizar aquela sensação. Por isso a cena foi daquele jeito: ela grita no início, mas depois do corte, já não consegue gritar mais”.

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Joan já era um personagem sombrio, mas foi ficando cada vez mais assustadora ao longo das temporadas. E a Pamela Rabe é tão, tão, tão foda que mudou não só a postura corporal como também trouxe um tom de voz diferente para o personagem. Fica difícil imaginar o que vem pela frente, mas o que já sabemos é que Joan não sabe perder. Ainda que não exista possibilidades de voltar a assumir o cargo de “governadora”, ela não irá descansar até ver Vera aniquilada. Outro dia vi uma matéria sobre ela e a frase era mais ou menos assim: “Joan é mais que uma psicopata. É uma psicopata brilhante”. E agora é a Top Dog!!

Diante da morte dos outros

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Eu sempre quis publicar essa história no La Amora, mas não sabia como começa-la. Tenho um rascunho, feito em 2010 desse texto, e lê-lo me traz todas as sensações daquele dia. Já escrevi muito sobre “morte” aqui no meu blog, mas sempre com um tom de medo e de tristeza. Não sei de onde tiro toda essa minha melancolia, mas sei que é algo que me acompanha desde criancinha. Fui criada numa cidade do interior de Minas, cujo senso de comunidade é muito forte. As casas são germinadas, separas por apenas uma parede. Os vizinhos se conhecem há anos, há muitos anos, e as relações não são só de proximidade. Todo mundo daquele ambiente, tão entrelaçado, conhece sobre a vida do outro. Como naqueles filmes de pequenas vilas, onde há muita cumplicidade e ao mesmo tempo, uma competitividade venenosa. Lá existe muito amor, muita fofoca. É como uma grande família.

E eu cresci nesse meio, brincando de boneca e de bola na rua, andando de bicicleta. Junto com uma molequeada cheia de energia, que viviam vigiados e controlados pelos adultos. Eu entrava e saía de todas aquelas casas, conhecia o nome de cada um dos vizinhos e tinha (ainda tenho) um apelido carinho que minha avó me deu: “Bibinha” ou “Binha”.  É estranho porque a gente entrava um na casa do outro e nem batia na porta, ia entrando, como se a casa do vizinho fosse uma extensão da nossa casa (e as portas não ficavam trancadas).

Minha mãe é enfermeira. Foram incontáveis as vezes que a acompanhei em suas visitavas aos vizinhos mais velhos, moribundos. Ela ia nas casas, a convite dos donos, fazer um curativo, ajudar a dar banho. Ou só conversar mesmo. É impressionante o quanto eles gostavam dela (pelo menos, os que conseguiam se lembrar dela ou falar alguma coisa). Eu achava lindo ver minha mãe trabalhando, porque ela tinha uma energia que não combinava com aquela cena toda, de dor. Era uma energia positiva, um calor diferente.

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Normalmente íamos de manhã, ela acordava e falava: “Vamos visitar Dona Maria, tadinha… ela tá tão doente! ”. E eu ia junto, silenciosa, observadora, morrendo de vergonha. Quando a gente entrava no quarto ela sempre falava: “Não pode sentar na cama Thaís”, então eu ficava lá, encostada na parede ou em algum canto, tentando ser o mais transparente possível. Nem sempre era possível. Eu quase morria quando minha mãe chamava o doente e falava: “É minha filha Seu Antônio, olha como ela tá grande!” E o doente me olhavam, com um olho arregalado, que parecia querer dizer algo, mas não podia. Não quero que vocês pensem que isso acontecia com frequência. Não é isso… As vezes em que aconteceram foram tão marcantes que impregnaram na minha mente e marcaram a minha infância. Mas quando eu fui ficando maior eu parei de ir, eu simplesmente não conseguia mais.

Eu tinha uns doze, treze anos quando a minha mãe me levou na casa de uma de nossas vizinhas, e ela era a que eu mais odiava. Quando éramos mais novos, ela pegava as bolas que batiam na porta e jogava de volta, rasgadas. Era uma tristeza, acabava com a brincadeira de todo mundo. Naquele dia, quando a vi, senti uma coisa que não sei explicar. Todo aquele “ódio” se transformou num carinho inexplicável, eu queria agradecê-la por ter rasgado todas as bolas e ter feito da nossa brincadeira uma aventura mais divertida. Ela estava deitada de lado, as pernas estavam atrofiadas, e pretas…. muito pretas. Minha mãe abriu as pernas dela para colocar a fralda e ela gritava com tanta dor, e puxava o braço da minha mãe em desespero… e eu me segurava para não chorar (estou chorando agora, só de lembrar, acredita?) Tô chorando tudo o que não chorei naquele dia). E ela me olhava, mas não conseguia falar. Da boca dela só saía um “Mmmmm”, que me soava como “ME AJUDA!”.

Acho que foi naquele momento em que tomei consciência da importância da vida, da efemeridade. Quando a gente é jovem a gente não liga muito pra isso, pensa que vai viver pra sempre ou que a morte é algo distante demais. Mas aquela senhora, com as pernas pretas e com os olhos arregalados de dor, aquela mesma senhora que antes parecia inabalável quando jogava nossas bolas rasgadas, me deu consciência sobre o fim.

Eu sei que esse texto está muito longo, mas prometo tentar termina-lo em poucos parágrafos. Anos depois, em 2010, uma outra vizinha nossa faleceu. Ela era a melhor amiga da minha avó e tenho muitas lembranças dela. Uma lembrança, aliás, muito viva: recordo de vê-la parada na janela, conversando com a minha avó sobre como limpar pano de pratos. Quando a filha descobriu que ela estava com câncer, largou o emprego para ficar do seu lado. Com o tempo ela parou de aparecer na rua para varrer a calçada, parou de chamar minha avó para conversar, deixou de sair de casa. Sabíamos que ela estava muito doente e o clima na rua era terrível. Tentávamos fazer o mínimo de barulho possível e quando alguma criança ia brincar na calçada dela sempre aparecia algum adulto pra dizer: “Sai daí, para de fazer barulho porque tem gente doente”.

Meses depois, numa noite muito silenciosa, eu reparei uma movimentação na casa dela. Minha mãe, que é muito amiga da filha dela, disse: “O médico falou que ela não vai aguentar e morrerá em poucas horas”, eles estão chamando a gente Thaís. Lá fomos nós, eu e minha mãe, mais uma vez…. mas dessa vez, foi muito diferente de TUDO (tudo mesmo) que já vivi. Ela estava deitada na cama, debaixo de uma coberta que parecia muito quentinha. A luz do quarto estava apagada e tinha apenas uma vela. A filha dela segurava sua mão e fazia carinho na sua cabeça, dizendo: “pode ir mãe, pode ir”. Em volta da cama estavam todos os familiares: netos, filhos, os irmãos. E eles rezavam, bem baixinho (muito baixinho mesmo). Foi tudo muito rápido, quando me dei conta alguém falou: “ela morreu”. Foi um dos momentos mais lindos que pude presenciar (apesar da tristeza). Ver aquela família cheia de dor e amor (muito amor mesmo), reunida para se despedir de um ente querido, me marcou profundamente.

Nota sobre Adelaide, a feminista de Éramos Seis

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Há muito tempo não assisto novelas, para ser sincera eu não me lembro da última vez que liguei a minha televisão. Às vezes revejo um capítulo aleatório de qualquer uma delas, pela internet mesmo, só pra relembrar aquelas cenas mais marcantes.  Desse universo, de tudo o que já assisti, uma novela me marcou em especial: “Éramos seis” (inclusive já comentei sobre isso por aqui, em uma postagem sobre o livro). E é verdade o que eu contei, que eu saía da escola e não dava preocupação pra mais ninguém, porque eu chegava em casa, ligava a TV e ficava horas assistindo (nada muito saudável, por sinal).

Adelaide era uma das minhas personagens favoritas (eu amava a Dona Lola e a Carmencita também), mas eu vibrava quando Adelaide aparecia na tela. Achava lindo o cabelo e o jeitão corajoso que dela, que diferente das outras garotas, não tinha medo das convenções sociais. Ela usava calças, dirigia o próprio carro, sentava-se à mesa do bar com os homens, jogava sinuca, era acadêmica e fumava lindamente (como as atrizes do cinema clássico que fui descobrir anos depois).

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Estou revendo a novela pelo Youtube, bem aos poucos para falar a verdade (é complicado por causa da falta de tempo). Tô na metade da novela e a aparição de Adelaide me chamou atenção… Ela só aparece na segunda fase e tem um conflito enorme com a mãe porque não concorda com a educação diferenciada que recebeu. Enquanto a irmã problemática foi cercada de atenção e carinho, ela foi enviada à Europa para estudar e sofria por causa da distância e da solidão. Por outro lado, foi nesse momento em que ela teve o primeiro contato com o feminismo.

O que me chamou atenção é que diferente de tantas outras personagens feministas, retratadas em novelas de maneira caricata, Adelaide  tem uma representatividade positiva. Ela até brinca com isso quando questiona um personagem que se surpreende com sua beleza: “Pois é, nem toda feminista tem bigode!”. E ela não tem um discurso de ataque aos homens, em nenhum momento ela parece ter raiva do gênero masculino. Ela fala, a todo o tempo, sobre igualdade. Aliás, num dos seus primeiros momentos na novela ela questiona o fato de as mulheres não poderem votar no Brasil e cita a importância da Berth Lutz nesse processo.

Enfim… é  uma delícia poder rever essa novela; a Adelaide é uma personagem inspiradora, que retrata um momento importante da emancipação feminina e que ao mesmo tempo, traz questionamentos super atuais.

Uma, duas

(…) “Ela sente aperto no intestino, que é raiva da mãe. Aquela mãe que insiste em seguir existindo como uma realidade para ela. Mais viva ainda porque odeia e ama aquela mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar.

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Acabei de ler “Uma, duas” de Eliane Brum e ainda estou sem saber definir o que senti sobre a narrativa. Terminei a última página sentindo um pouco de repulsa.  Não… não é só uma repulsa pelos acontecimentos, mas também uma falta de empatia em relação às duas personagens principais: Maria Lúcia (a mãe) e Laura (a filha). Por outro lado, fiquei encantada com a narrativa, que me deixou bem perturbada (e viciada, tanto que eu li o livro em um dia! Eu não conseguia parar de ler e fiquei vidrada durante a madrugada).

O livro conta a história de Laura, que num dia qualquer, recebe um telefonema de uma desconhecida que afirma que Maria Lúcia está há dias trancada em seu apartamento. Com má vontade, Laura vai até a casa da mãe e se depara com uma cena grotesca. Maria Lúcia, deitada no chão, apodrecendo em vida. Depois de dias entrando e saindo do hospital, Laura se vê diante de uma situação difícil: precisa se mudar para o apartamento da mãe e cuidar dela. Há todo um suspense construído nesse ambiente angustiante, em que a filha sente nojo do cheiro da mãe e quase enlouquece quando escuta as unhas da mãe arranhando a porta.E a mãe sente medo da filha e fica aliviada quando ela sai.

(Mano! E eu li o tempo todo me perguntando sobre o motivo. O que aconteceu para que elas se odiassem tanto?)

Os segredos nos são revelados aos poucos, mas sem piedade. A gente vai lendo tudo aquilo e sente como se estivesse naquela casa, junto às duas. E é engraçado, porque dá pra entender o porque a filha odeia a mãe, e dá pra entender o porque a mãe odeia a filha. As duas narram os acontecimentos de acordo com suas perspectivas. Eu só conseguia pensar: “Puta merda! Que vida desgraçada” ou então “Quem vai matar quem?”. Mas o lance não é esse, de violência física. É uma violência psicológica, dolorosa e lenta. E a gente vai percebendo que existe um ódio entre as duas, mas também tem amor. Uma cumplicidade meio estranha…

De todos, um momento me chocou muito. A brutalidade em que Maria Lúcia descreve sua gravidez, como se sentisse que existisse um rato dentro dela. Sugando sua energia, seu corpo. Sabe, o livro me surpreendeu de muitas maneiras. Foram poucas as leituras que fiz que me provocaram tanto desconforto. Enquanto lia, pensava na minha relação com a minha mãe e nos trechos do livro, que dizem que toda a filha é quase como uma extensão do corpo da mãe. Imagine o quão forte essa ligação pode ser.

O documentário mais fofo do ano

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A HBO lançou “Bright Lights” para o grande público na noite de 7 de Janeiro, na manhã seguinte já estava com o filme no meu computador. Como contei por aqui, fiquei impressionada e tocada com a história da Carrie Fisher e da Debbie Reynolds e já não me aguentava de vontade de assistir o documentário (que foi exibido pela primeira vez em Cannes, no ano passado). Foi difícil não segurar a emoção quando mencionavam a relação das duas e com a história de cada uma delas, com a personalidade de cada uma delas. O documentário acompanha o cotidiano das atrizes, que eram vizinhas e se encontravam diariamente. Há também uma retrospectiva de suas carreiras, uma série de vídeos, fotos e menções sobre o conturbado caso de Eddie Fisher (pai de Carrie) com Elizabeth Taylor.

Debbie é de uma candura ímpar, parece ter sido uma mulher muito especial. A paixão que tinha pelos filhos era genuína, forte demais. Nunca parei para assistir seus filmes, não vi nada além de  “Cantando na chuva” (e agora tô fazendo um lista, reunindo uns filmes dela para assistir). Me impressionou o seu gosto pelo trabalho, a idade não parecia empecilho e Debbie simplesmente não queria parar de se apresentar nos palcos (mesmo com a dificuldade de se locomover). Debbie  já apresentava uma fragilidade. Em determinado momento do documentário ela aparece com a bochecha roxa por causa de um tombo que sofreu no banheiro. Em outro momento, ela liga para os filhos e pede ajuda, porque não conseguia se lembrar das falas e sentia-se insegura para se apresentar.

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Carrie fala muito da relação com os pais e irmãos. Ela conta como, desde muito pequena, se acostumou com a presença dos paparazzis e como aqueles fotógrafos “pareciam querer roubar a mãe deles”. Muita exposição, pouca privacidade. O sucesso veio de repente, de um momento para o outro ela deixou de ser Carrie e passou a ter a imagem para sempre relacionada à princesa Leia. E que voz linda ela tinha! Debbie tinha razão quando se emocionava ao ouvi-la cantar (carreira que Carrie nunca quis seguir). Carrie era bipolar e a doença afetou absurdamente a relação com seus familiares (fora o envolvimento com as drogas).

Além de menções ao filme “Lembranças de Hollywood”, roteirizado por Carrie e protagonizado por Meryl Streep e Shirley Maclaine, comenta-se muito da relação de Eddie Fisher com Elizabeth Taylor. Eddie era casado com Debbie e a largou por sua melhor amiga, Elizabeth. O encontro entre Carrie e o pai me deixou impactada, ela chega a dizer algo do tipo: “Eu sempre fazia graça quando estava  perto de você.” E ele diz: “Sempre”. Daí, Carrie responde:”Eu fazia graça para chamar atenção. Era uma forma de mostrar que eu podia ser tão interessante quando Elizabeth Taylor”. (Owww Turn down for what!).

O documentário é demais! (Estamos em janeiro e eu já me arriscaria a dizer que é o mais fofo do ano. HAHA).

Li o livro da Andressa Urach, deixa eu te contar o que achei!

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Fiquei curiosa para ser esse livro, queria demais conhecer as histórias tão polêmicas da Andressa Urach. Eu sinto uma simpatia por ela, e nem sei explicar o porquê. Como eu cheguei a ler inúmeras notícias e resenhas, acabei não me surpreendendo muito. A figura dela é interessante, e o livro também… seja ou não uma jogada de marketing. Vejo a Andressa como um exemplo vivo da loucura que é o universo do entretenimento, das coisas boas e ruins que acontecem no submundo das celebridades e que a gente não vê no jornal. O livro carrega um discurso muito forte de arrependimento, a narradora é uma pessoa que cometeu loucuras e exageros em busca de uma satisfação: tudo isso envolvia fama, dinheiro e muito sexo.

O que mais humaniza Andressa é a sua origem, o fato de ela ter nascido em uma família como todas as outras famílias brasileiras. Ela poderia ter sido a sua vizinha, sua conhecida, sua prima… O que a diferencia de tantas outras pessoas? Talvez a sua audácia ou o apelo pela exposição.

A fixação de Andressa pela beleza começa muito cedo, depois o vício nas cirurgias plásticas passa a persegui-la como um fantasma. Independentemente da quantidade de intervenções estéticas, ela nunca se contenta. E o livro começa no ápice desse vício, no momento em que ela precisa ser internada às pressas por causa da infecção nas pernas. Ela, com medo de morrer e pensando no filho, e a mãe dela, desesperada ao vê-la doente.

Em suma, é um narrativa bem simples, mas interessante de se ler. Das revelações polêmicas, muito se falou: Andressa conta que foi abusada sexualmente por homem a quem considerava como “avô”, ela conta que perdeu a virgindade com o irmão, que praticou zoofilia, que era a prostituta mais disputada e que brigava muito com a mãe, inclusive fisicamente. Ela não esconde os encontros sexuais com homens ricos, nem as bizarrices exigidas por eles. A modelo fala também sobre seus relacionamento com mulheres e dá sua versão sobre o encontro que teve com Cristiano Ronaldo (e conta que o jogador foi violento, fez ameaças e que seus seguranças chegaram a deixá-la presa num quarto de hotel).

O que Debbie e Carrie me ensinaram…

coracaopartidoEu sinto muito por deixar esse blog tão abandonado, vocês não imaginam o quanto me faz bem escrever aqui. O fim do ano foi corrido e tantas coisas aconteceram que ainda não consegui parar para me organizar e colocar tudo em seu devido lugar. Muito do que vivi no ano passado me serviu de lição, um impulso para tomar um novo rumo na vida e colocar em prática os projetos antigos. Tô com um sentimento de que não tenho mais tempo para perder…

No fim do ano de 2016, dentre inúmeros acontecimentos, o que mais me impressionou foi a morte das atrizes Carrie Fisher e Debbie Reynolds. Na verdade, fiquei até um pouco obcecada… conversei com os colegas do trabalho sobre o assunto, li alguns artigos, assisti documentários.

A proximidade da morte das duas, mãe e filha, me fez realmente acreditar que se pode morrer de tristeza e mais, me provocou uma sensação bem romântica, daqueles que defendem a universalidade do amor. Independentemente das brigas e do rancor entre elas, existia ali uma ligação muito mais forte. Maior a nossa compreensão.

O fato é que Debbie morreu de coração partido. Vou repetir, porque me soa bonito demais: Ela morreu, de coração partido. Das entrevistas que assisti, percebi que ela ficava extremamente emocionada ao falar da filha e ao mesmo tempo, preocupada. Em uma das últimas conversas televisivas que teve, ela chega a segurar o choro.

O caso me fez pensar nas pessoas que amo, no quanto são fundamentais para minha existência, no quanto eu sofreria se não estivessem mais do meu lado. É necessário perdoar, para se viver melhor. É necessário se doar. A vida é uma só, e é efêmera demais.

eu tinha sete anos, quando me apaixonei por Eva Wilma

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Quando “Mulher” passou pela primeira vez na TV eu tinha sete anos, o seriado foi transmitido entre abril de 1998 e dezembro de 1999. Na época minha mãe dava plantões noturnos e eu dormia na casa da minha avó. Aparentemente, ninguém vigiava os meus horários de assistir televisão, porque lembro perfeitamente que o programa era transmitido tarde da noite, nas quarta-feiras. Ambientado em uma clínica especializada em atendimento a mulheres, o seriado abordava diversos assuntos relacionados à saúde feminina como: aborto, abuso sexual, anticoncepcionais, casamento, doenças sexualmente transmissíveis, partos (e por aí vai…).Era pesado (pra minha idade), mas tinha uma linguagem muito interessante, diferente de tudo o que tinha assistido até então.

Eva Wilma interpretava Martha, uma médica ao estilo heroína que dividia os plantões com a Doutora Cristina, interpretada por Patrícia Pillar. Além de acompanhar o envolvimento das médicas com as pacientes, quase sempre com casos complexos e dramáticos, o espectador ainda tinha uma dose extra sobre a vida pessoal das personagens principais… as duas em vibes diferentes. Cristina, em sua juventude, enfrentava questionamentos éticos sobre a escolha da profissão e ainda tinha que se virar com um relacionamento super conturbado, uma espécie de namoro enrolado com Carlos, interpretado por Maurício Mattar. Martha, por outro lado, tinha uma voz mais forte e decisiva dentro do hospital, por causa de seus anos de experiência, Na vida íntima, convivia com o mesmo marido há anos, numa cumplicidade invejável. (O marido era interpretado por Carlos Zara e na época, eu não fazia ideia de que eles foram casados na vida real HAHA).

Não me lembro com exatidão dos episódios, nunca parei para assistir a série novamente (nem quando repetiu no Canal Viva), mas foi por falta de tempo mesmo. Recordo com exatidão que em determinada fase da série, a personagem da Eva Wilma descobre um câncer no seio e aquele sofrimento dela, diante da necessidade de fazer a retirada da mama, me matava. Lembro que tive uma conversa com a minha mãe na época (meu Deus, eu lembro muito disso!), porque eu não conseguia entender como seria essa “tal” retirada da mama. Não entrava na minha cabeça como aquilo funcionava.

Então, Martha foi um dos primeiros crushs que tive na vida, ainda que  esse amor meio estranho, tenha sido um personagem fictício. Eu amava a força e a inteligência dela, que não dava o braço a torcer para o administrador do hospital (que por sinal, era um babaca corrupto), e sempre com muita clareza, falava sobre questionamentos femininos e tratava os pacientes com transparência. Era uma mulher inteligente, moderna e bem feminista. Recomendo muito a série, quem tiver a oportunidade assista pelo menos um episódio (depois vem me contar o que achou!), acho difícil não gostar…

Amor, literatura e novelas…

Já parou para pensar que o amor pode não ser algo biologicamente determinado, mas culturalmente aprendido? Eu já, mas só depois que li o livro da Cristiane Costa: “Eu compro essa mulher”. Comentei sobre ele aqui há anos e prometi escrever uma série de resenhas sobre o livro… É uma das melhores coisas que já li, recomendo muito!

No primeiro capítulo, “Lições de Amor”, a autora explica como o amor pode não ser biologicamente determinado, mas culturalmente aprendido. A base da construção sobre o amor romântico está no gênero criado no século 12, a literatura cortês. Essas histórias românticas instauraram uma forma desejante de controle do imaginário que até hoje é exercido pelas telenovelas. A autora explica que não é possível afirmar que o conceito de amor foi criado nesta época, o que se pode afirmar é que a cultura de valorização do amor romântico, da maneira que conhecemos hoje, ainda não tinha sido inventada até então.

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A linguagem romântica é instaurada pela cortesia. Historicamente a palavra cortês qualifica um conjunto de costumes adotados pelos cortes feudais. Na prática, foi um conjunto de normais éticas e estéticas que governavam a relação entre os sexos. Com o surgimento dessa nova literatura, surge o conflito entre duas retóricas: a linguagem dogmática da escolástica e a passional do amor cortês.

Esse novo formato ainda trouxe uma segunda revolução, ele coincide com a aceitação pela instituição eclesial deste mesmo amor como base do casamento. Somente no século 9 a Igreja começa a enfrentar o casamento com uma forma de aplacar a luxúria: “Houve revolta, principalmente entre os nobres, contra a instituição da monogamia, o fim do divorcio (ou o repúdio da esposa infértil, como eram definidas na época mesmo as mulheres que tivessem gerados filhos apenas do sexo feminino) e, mais do que tudo, conta a definição de incesto como relações com parentes  até o sétimo grau, o que dificultava as estratégias de aliança. O problema do incesto colocava questões muito mais de ordem política do que amorosa sob o domínio da Igreja, que tinha o pode de abrir ou não exceções”. Só em 1090 surgem evidência da formulação de um novo modelo matrimonial, não definido pela imposição dos pais, e sim pela vontade dos envolvidos.

Nas histórias da época existia uma situação típica que prevalece até hoje: o obstáculo. Do mesmo jeito que conhecemos, a separação que ao mesmo tempo afasta e intensifica o desejo. Outra era a rebelião dos filhos, movidos pelo amor e contra as ordens paternas (a exemplo Romeu e Julieta: “uma história que deixa claro como a noção de escolha, que assegura a autonomia do indivíduo, já era viável. Mas também como entrava, muitas vezes, em conflito direto com os interesses coletivos numa época em que a sociologia da aliança ainda prevalecia sobre a psicologia amorosa. E o final para o sujeito desejante era a morte”.

A rainha Vitória, no século 19, foi a primeira monarca a se casar por amor, numa escolha pessoal e não movida por estratégia. A exemplo do conto Cinderela, história onde o rei pede uma moça pobre em casamento por paixão: “ A era vitoriana, mais identificada pelo puritanismo da moral burguesa, nos legou também o modelo de casamento tal como conhecemos hoje, em seus vestidos brancos, véus e grinaldas, e motivação exclusivamente romântica. Um modelo em que o casamento e não o adultério, seria o veículo certo para canalizar as poderosas forças da paixão”.

Romeu e Julieta e a ruptura da Ordem

200px-20070205000653romeo_and_juliet_brownA história de dois amantes separados pelo ódio dos familiares é repetida até hoje, nas tramas de telenovelas… mas, a origem é muito mais antiga, embora popularizada por Shakespeare no século XVI. O conto surgiu no século 3, quando os gregos já contavam a saga de uma mulher que recorreu a uma poção que simulava a morte para escapar de um segundo casamento: “Pelo menos cinco italianos já tinham se debruçado sobre a história antes de Shakespeare, que, no entanto, se inspirou unicamente no longo poema do inglês Arthur Brooke.

Em Shakespeare não é a desobediência dos filhos que provoca o destino trágico e sim a insistência dos pais em não ouvir os filhos. A fábula moralista se transforma em libelo revolucionário. O amor leva ao conflito extermínio, a morte dos amantes significa não a derrocada da ideia do amor, mas um sacrifício por meio do qual funda-se um mito de origem de amor moderno.

Cinderela e a ascensão social pelo amor

Ao contrário de Romeu e Julieta, Cinderela vigora a primazia do amor sobre a ordem social (provavelmente por isso é uma das histórias mais repetidas pela cultura de massa. A história foi criada em 1697, na França por Charles Perrault e teve pelo menos 345 variantes, além de ter dado origem a vários versos de filmes, óperas e animações: “Não faltam interpretações sobre essa pequena história. Desde a psicológica que encara a relação de Cinderela com sua madrasta como uma tentativa de ultrapassar o poder materno ou vê nos pequenos sapatinhos de cristal um símbolo de feminilidade”.

O mito é usado até hoje nas telenovelas, pois apesar de sua improbabilidade histórica, junta duas fantasias: ascensão social e amor. O casamento permitiria a classe mais baixa ostentar os mesmos meios de distinção simbólica da clássica dominante. Um ato ideal feito sob medida para a sociedade de consumo. A história personifica o mito de que é possível ultrapassar as fronteiras sociais através do amor.

Abelardo e Heloísa ou o obstáculo

O amor impossível entre o filósofo Abelardo e Heloísa foi contado em cinco cartas que correram o mundo. A história, cheia de acontecimentos dramáticos parece muito com os melodramas.  Há várias teorias sobre a origem do livro, e quatro delas merecem atenção: a correspondência seria autêntica, mas retocada no século seguinte, o conjunto de textos poderia ser um romance epistolar, as cartas teriam sido reescritas por Heloísa depois da morte do esposo e finalmente, trata-se de um dossiê fictício, com base nas lembranças transmitidas oralmente.

 Tristão e Isolda ou o triângulo amoroso

O triângulo amoroso também é explorado tanto na literatura quanto nas telenovelas (através de inúmeras variações) e faz sentido até hoje, além de ser muito pedagógico. O mito tem origem na história do jovem Tristão e a mulher do seu tio, Isolda.  “Trata-se de uma relação de duplo vínculo: não é difícil ver que esconde uma contradição, o casamento era proposto como único lugar autorizado para o desrecalque das pulsões sexuais, e o mesmo casamento era recuado à parte da maioria dos homens. Os personagens principais, ao valorizar o adultério, evidenciam a incompatibilidade entre o casamento e o amor.

A paixão, por outro lado, possui um lado, é muito mais volátil e não tanto revolucionário e desestabilizador como o amor. “O ardor de Tristão e Isolda duraria exatamente três anos, tempo em que se diluem os efeitos do filtro, uma bebida mágica que seria responsável por despertar a paixão”. O mito do filtro, hoje seria chamado de tesão.

E aí, gostaram? O texto acima é uma resenha do primeiro capítulo do livro “Eu compro essa mulher” (2000), da Cristiane Costa. 🙂